CERRADO: SABERES TRADICIONAIS E SAÚDE COMUNITÁRIA
Outras linguagens
LEVY, I1, GORENDER, P1, COSTA, J2, DINIZ, B1
1 FIOCRUZ
2 MDA
Processo de escolha do tema e de produção da obra
A escolha do tema nasce da urgência em documentar as relações entre saúde e ambiente no contexto de degradação do Cerrado e de resistência de seus povos e comunidades tradicionais. Em um processo dialógico guiado pela abordagem etnográfica, o documentário traz a visão de mundo de quem maneja a terra, transformando o documentário em um dispositivo de registro de um patrimônio imaterial ameaçado pelo avanço da fronteira agrícola.
Objetivos
O documentário visa valorizar a sociobiodiversidade e os saberes do Cerrado a partir das vozes de quem o habita e protege. Busca demonstrar a relação entre a saúde ambiental e humana, destacando o papel de agroextrativistas e comunidades quilombolas como guardiões dos biomas. Promove reflexão crítica sobre efeitos da medicalização e desmatamento na cultura local, defendendo políticas públicas de saúde construídas a partir das especificidades territoriais.
Ano e local da produção
Cavalcante (GO), 2024
Descrição da produção
O documentário adota perspectiva etnográfica e participativa, estruturada a partir da vivência direta no território de Cavalcante (GO). A narrativa é construída de forma orgânica: enquanto caminham pelo bioma, Dona Cecília e Dona Maria identificam plantas medicinais nativas do cerrado, como sambaíba, arniquinha, tingui, cansanção, copaiba e negramina, e explicam seus usos no cuidado da própria saúde, de suas famílias e comunidades. A partir daí, a obra estabelece a conexão entre o bioma e o bem-viver e articula diferentes camadas de conhecimento, promovendo o diálogo entre saber popular e sistema de saúde, com o depoimento de um farmacêutico da Atenção Básica e um Agente Comunitário de Saúde do território quilombola Kalunga, que oferecem uma análise crítica sobre os impactos da medicalização na cultura local. A pesquisadora da UnB Kátia Poças costura os dois universos defendendo o desenvolvimento de políticas públicas a partir dos territórios. O resultado é um mosaico audiovisual que denuncia as pressões do desmatamento e do agronegócio, reafirmando o papel das comunidades tradicionais como guardiãs da saúde e do planeta.
Análise crítica da obra relacionada ao tema do congresso
O documentário materializa a luta contra o colapso ecológico, tema central do 3º SIBSA, ao evidenciar que a saúde coletiva é indissociável da soberania territorial. Sob a lente de Nego Bispo (2023), a obra apresenta o saber das mestras agroextrativistas como resistência contra-colonial à expropriação da natureza. Essa dinâmica expõe os determinantes sociais da saúde (OMS, 2008), revelando que a degradação ambiental é uma violência direta contra as práticas tradicionais de cuidado à saúde. A obra valida a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (BRASIL, 2006) como instrumento de autonomia para o uso seguro de plantas medicinais, confrontando a lógica higienista da medicalização e do agronegócio, que desterritorializam povos, saberes e práticas tradicionais. Ao defender o direito ao território como espaço de saúde e bem-viver, o filme ressoa a "indignação esperançada" de Casaldáliga (1968): uma denúncia radical das raízes da crise ambiental que não abdica da esperança ativa. Fortalece a defesa de um SUS público e integral, comprometido com a justiça socioambiental e a proteção da vida em todas as suas formas.
Referências
BRASIL. Decreto nº 5.813, de 22 de junho de 2006. Aprova a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Brasília, DF, 2006.
BRASIL. Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Brasília, DF, 2007.
CASALDÁLIGA, Pedro. Indignação esperançada. Mato Grosso, 1968. In: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA. 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente. Cuiabá: Abrasco, 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde: relatório final. Genebra: OMS, 2008.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
RELATO AUDIOVISUAL COMO FERRAMENTA PARA A PROMOÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE E DEFESA DE BIOMAS AMEAÇADOS
Outras linguagens
Campos, M.1, Fasanello, M.T.2, Porto, M.F.3, Silva, K.H4, Pankararu, A.5, Xukuru, D.4, Carvalhosa, N.N.3, Simplício, M.6
1 Neepes/ENSP/Fiocruz e PPGP/Instituto de Psicologia/UFAL
2 Núcleo Ecologias e Encontros de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde/ENSP/Fiocruz
3 Neepes/ENSP/Fiocruz
4 Coletivo Audiovisual Indígena Ororubá Filme
5 Produtora dígena Olhar da Alma Filmes
6 Coletivo Audiovisual Indígena Ororubá
Processo de escolha do tema e de produção da obra
Trata-se de um curta-metragem em formato de relato audiovisual, construído colaborativamente ao longo do processo investigativo com três coletivos audiovisuais indígenas. A produção teve como marco a Oficina de abertura do projeto "Cultivo do alimento e o manejo da floresta no território indígena: Interculturalidades e Ecologias de Saberes para uma Promoção Emancipatória da Saúde", realizada no Rio de Janeiro em 2023. O curta é fruto de uma das frentes de atuação do projeto, dedicada à produção co-labor-ativa de audiovisuais com coletivos dos próprios territórios — o Ororubá Filmes (PE) e o Tingui Filmes (AL) e a produtora Olhar da Alma Filmes (PE)
O produto se relaciona diretamente com o tema do simpósio ao abordar a determinação socioambiental da saúde a partir da perspectiva dos povos indígenas e sua relação com o cultivo do alimento e manejo da floresta.
Objetivos
O objetivo é promover reflexões teórico-metodológicas, avançando na dimensão epistemológica da cocriação audiovisual como constituinte da produção de conhecimentos, assim como construir formas mais participativas e engajadas de comunicação ao longo da pesquisa em seus processos produção e circulação
Ano e local da produção
2023 na cidade do Rio de Janeiro
Descrição da produção
Este relato audiovisual expressa uma cocriação entre um grupo acadêmico Neepes (ENSP/Fiocruz) e coletivos audiovisuais indígenas, Tingui Filmes (AL), Ororubá Filmes (PE) e Olhar da Alma Filmes (PE). A proposta foi registrar e criar sínteses sobre as discussões da Oficina de abertura do projeto “A promoção emancipatória da saúde, o cultivo do alimento e o manejo da floresta em Territórios Indígenas para defesa de biomas ameaçados”.
Análise crítica da obra relacionada ao tema do congresso
Adotamos uma abordagem sensível e crítica da divulgação científica, pois nosso objetivo não é apenas disseminar resultados, mas construir formas mais participativas e engajadas de comunicação ao longo da pesquisa e em seus processos de circulação, tanto na academia quanto na sociedade. Neste contexto, os territórios e etnias integrantes dasta pesquisa são sujeitos efetivos na produção, circulação e apropriação dos conhecimentos e das lutas.