Programa - Roda de Saberes - RS02 - Processos de Determinação Socioambiental, Território e Bem Viver
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
(DES)TERRITORIALIZAÇÃO URBANA E VIOLÊNCIA INCORPORADA: UMA ABORDAGEM CUERPO-TERRITORIO
Apresentação oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
Nas cidades brasileiras, a urbanização acelerada, a fragmentação territorial e as profundas iniquidades socioespaciais moldam a forma como diferentes corpos habitam e experienciam o espaço urbano. Favelas e ocupações urbanas concentram as contradições de um desenvolvimento urbano excludente e evidenciam a presença ambivalente do Estado, marcada por dinâmicas sobrepostas de negligência, coerção, vigilância e intervenção seletiva. Esses processos afetam de modo desproporcional corpos racializados, pobres e periféricos, produzindo restrição à mobilidade, sofrimento, adoecimento e morte prematura. Ao mesmo tempo em que abrigam práticas coletivas de cuidado, solidariedade e resistência que tensionam e desafiam narrativas dominantes de “ordem” urbana. Ancorado na interface entre Estudos Urbanos Críticos e Saúde Coletiva latino-americana, o estudo mobiliza o conceito de cuerpo-territorio, oriundo de lutas feministas e indígenas latino-americanas, para compreender a inseparabilidade entre corpos e territórios e os modos pelos quais processos urbanos violentos são vividos e incorporados.
Objetivos
Analisar como processos de (re)produção urbana e de (des)territorialização violenta se inscrevem nos corpos e nas experiências cotidianas de moradores de favelas e ocupações urbanas, explorando o conceito de cuerpo-territorio como lente analítica para compreender violência, vulnerabilização e práticas de resistência.
Metodologia
A pesquisa está sendo realizada desde Agosto 2025, nos territórios Vale das Ocupações e Morro do Papagaio, dois territórios de alta vulnerabilidade em Belo Horizonte. Participaram moradores e lideranças comunitárias vinculados a esses contextos, considerando espaços domésticos, comunitários e urbanos como ambientes de investigação. O estudo adotou o cuerpo-territorio como referencial analítico e ponte transdisciplinar entre saúde coletiva, estudos urbanos e ciências sociais críticas. Foram conduzidas oficinas de body-mapping e entrevistas em profundidade, produzindo conhecimentos situados ancorados na política dos corpos e na experiência territorial. Essa abordagem têm permitido explorar como vulnerabilizações históricas, políticas e territoriais atravessam os corpos e estruturam a vida cotidiana.
Resultados
Os achados preliminares evidenciam que processos de desterritorialização violenta, como deslocamentos, militarização e abandono infraestrutural, são incorporados corporalmente por meio de sofrimento, adoecimento e mortalidade precoce. Ao mesmo tempo, os corpos emergem como espaços de memória, cuidado e luta política de forma coletiva. A análise demonstra que a (re)produção urbana e a (des)territorialização operam como processos necropolíticos que diferenciam quais corpos são protegidos, expostos, invisibilizados ou produzidos como descartáveis na cidade. Paralelamente, práticas coletivas de afeto, solidariedade e ação política tensionam esses regimes ao reconfigurar o espaço urbano a partir das margens e produzir formas alternativas de habitar e resistir.
Discussão
O estudo contribui para o debate teórico ao articular violência urbana, produção do espaço e determinação social da saúde por meio do conceito de cuerpo-territorio, evidenciando como iniquidades urbanas se materializam simultaneamente no plano corporal e territorial. Ao reconhecer os corpos como espaços de inscrição da violência e de produção de resistência, a análise amplia a compreensão das relações entre urbanismo, poder e saúde.
Conclusões/Considerações
Os resultados ressaltam a relevância de abordagens transdisciplinares e sensíveis à experiência situada para compreender violências urbanas e subsidiar políticas públicas orientadas à equidade, à justiça socioespacial e ao fortalecimento de práticas coletivas de cuidado e resistência.
O PARAÍSO FICA AQUI, APESAR DE…..: ABORDAGEM DE DETERMINAÇÃO SOCIAL DA SAUDE EM AMBIENTES URBANOS
Apresentação oral
1 FIOCRUZ
2 EEAN/UFRJ
3 IFRJ
Apresentação/Introdução
Um território urbano de população vulnerável foi analisado pelos seus determinantes físicos, socioeconomicos e de estilo de vida, a partir de uma abordagem de saúde urbana desenvolvida pela Escola de Saúde Pública de Rennes - França: ISadOrA ( Integração da Saúde em projetos urbanos) . Os determinantes físicos compreendem exposição ambiental (poluição do ar, contaminação da água, do solo), qualidade da habitação, temperatura poluição sonora e segurança. Os determinantes sociais incluem as interações sociais, acesso à serviços urbanos (saúde, educação, comércio), e capacidades individuais, como atividade física, alimentação, competências individuais e renda familiar. Durante dois anos, dados primários e secundários da população e do território foram coletados para análise e posterior discussão com a comunidade de intervenções urbanas que possam aprimorar a qualidade de vida da população.
Objetivos
Validar um modelo que permita analisar conjuntamente os determinantes sociais e ambientais de um território e reduzir os efeitos dos desconfortos e impactos ambientais e sociais da população.
Metodologia
A abordagem ISadOrA desenvolvida pela EHESP – Rennes em França, foi aplicada entre 2024 e 2025 à Vila Residencial da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um território informal inserido no próprio campus da universidade, na Ilha do Fundão no Rio de Janeiro. Possui uma população de cerca de 3.500 pessoas, sendo que 1.500 estudantes, que vivem em repúblicas. Foram realizadas pesquisas com dados secundários, entrevistas semiestruturadas, questionários, três campanhas para coletas de amostras de água potável, monitoramento de alguns indicadores de poluição atmosférica ao longo de quatro meses, duas coletas para analise de contaminação microbiológica na areia de areas de recreação, mensuração de temperatura e umidade ao longo de doze meses em três domicílios da Vila.
Resultados
A Ilha do Fundão foi construída a partir de um aterro ligando oito pequenas ilhas, na foz do Canal do Cunha. A região de entorno à Ilha acomodava no passado atividades industriais responsáveis pela geração de passivos e impactos ambientais decorrentes destas atividades, dentre elas a de refino de petróleo. A Vila Residencial localiza-se na ponta sul da ilha que apresenta infraestruturas de acesso por linhas de ônibus da universidade e empresas privadas. A Vila Residencial possui uma unidade de ensino primária e uma unidade de saúde com atendimento da população na comunidade da Maré, há cerca de dois quilômetros do local. Dados do monitoramento de poluição do ar realizado em sete campanhas de coleta, sempre às tardes de sextas-feiras, não apresentaram valores significativos acima dos padrões aceitáveis, segundo a portaria vigente. Três campanhas de coleta de água indicaram uma casa com E. coli, o que na vistoria ficou identificado que o morador acumulava água durante muito tempo em várias caixas d’água devido à intermitência do abastecimento. Foram identificados parasitos patogênicos (Ancilostomídeo e Strongyloides stercoralis) na areia da praia e da quadra de vôlei em duas diferentes coletas. Dados de temperatura e umidade indicam que a Vila pode ser caracterizada como uma Ilha de Calor Urbano.
Discussão
A escuta da população apontou que a percepção positiva da segurança física e patrimonial dentro do campus da Ilha do Fundão supera os problemas ambientais do território. Alguns dos problemas ambientais estão já incorporados ao estilo de vida da população como o excesso de calor, poluição da água da baía, intermitência do fornecimento de água e problemas de drenagem e escoamento de águas servidas durante chuva em maré alta. Algumas propostas de intervenção estão sendo discutidas com a população para reduzir alguns dos problemas identificados.
Conclusões/Considerações
A abordagem ISadOrA de saúde urbana pode ser um instrumento de apoio na avaliação dos determinantes de saúde em comunidades urbanas no Brasil. Englobando diversos determinantes apresenta uma visão abrangente e detalhada dos problemas urbanos.
DETERMINAÇÃO SOCIAL DA SAÚDE: UM PARADIGMA DIALÉTICO PARA O BEM VIVER FRENTE AO COLAPSO ECOLÓGICO
Apresentação oral
1 Instituto René Rachou - Fiocruz Minas/Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais
2 Instituto René Rachou - Fiocruz Minas
Apresentação/Introdução
O modo de acumulação capitalista que reifica todos os seres do planeta para a extração de lucro é um processo que se acentua nesta fase hodierna hiperneoliberal. Fraser ( 2024) a adjetiva de “capitalismo canibal”. Não respeitando os limites de todo o planeta, nosso contexto é de colapso ecológico de uma crise sinérgica de saúde, biodiversidade e clima (Artaxo, 2020).
Em meio “às veias abertas da América Latina” pelas estruturas iníquas, a Saúde Coletiva/Medicina Social desenvolveu um paradigma epistemológico: a Determinação Social da Saúde (DSS). Trata-se de um paradigma dialético, ontologicamente crítico, por compreender a saúde para além da dimensão biomédica. Sua epistemologia permite compreender a magnitude dos processos ambientais, ampliando a dimensão individual dos problemas, para abordá-los de maneira sistemática na dimensão econômica, social e política. Portanto, possui potencial crítico transformador (Breilh, 2013).
Este resumo apresenta a pujança da Determinação Social da Saúde como um paradigma da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico em luta pela soberania, justiça, social com interdisciplinaridade e interculturalidade para uma ciência que promova a vida.
Objetivos
Demonstrar que a Determinação Social da Saúde, paradigma do campo da Saúde Coletiva que, por embasar-se no método histórico crítico dialético, é potente no enfrentamento do colapso ecológico focado na luta por soberania e justiça na promoção da vida.
Metodologia
Para compreender a DSS frente ao colapso ecológico soberania e justiça, foram consultados os bancos de dados Pubmed, o Portal Scielo e o Google, tendo como descritores “Determinação Social, ambiente e saúde”, suas variantes, “Determinação Social e ambiente e saúde” e “Determinação socioambiental e saúde”. Foram selecionados 12 artigos tendo por referência o período de 2022 a 2026. Desses 12 artigos, 2 não tinham por base de análise a DSS, mas os determinantes sociais da saúde. Eles foram, no entanto, úteis, para contrastar com os outros 10 artigos cuja base epistemológica é a DSS.
Resultados
A DSS é um paradigma epistemológico que entende saúde/doença/cuidado como um processo histórico, ancorado em autores como Marx, Breilh, Samaja, Paim, Ayres, Garbois, Borghi. As condições de vida saudável ou insalubre não são compreendias somente pela exposição de indivíduos à fatores de risco. Mas por processos dialéticos complexos de inter-relação sujeito e sociedade. Nestas, estão inter-relacionadas dialeticamente as dimensões biológica, psicológica, mas também econômica, social e, até mesmo, política e cultural. Sendo que as dimensões mais amplas determinam por subsunção as dimensões mais estritas, na dialética universal, particular e singular (Breilh, 2023).
Discussão
Os artigos analisados mostraram que a análise baseada no paradigma da Determinação Social da Saúde permite compreender os processos de saúde/doença/cuidado indo além da identificação da exposição de indivíduos aos fatores de risco. Porque estes não são as grandes causas, mas estão inter-relacionados a processos mais amplos e complexos que determinam a exposição. A forma como a acumulação capitalista determina a relação com o ambiente é que cria as condições de exposição e não os indivíduos, no exercício de sua livre vontade, que estão expostos na ponta de todo o processo acumulativo.
Em sua epistemologia dialética, a DSS busca formas de superação complexa que, em meio à pluralidade de ambientes e territórios, assume também a pluralidade de iniciativas numa ecologia de saberes intercultural.
Conclusões/Considerações
A DSS permite uma análise mais crítica do colapso ecológico. Mostra que sua superação se liga à crítica do modelo hiperexploratório do ambiente que provoca as injustiças estruturais. Assim, reconecta a Saúde Coletiva ao seu ideal histórico: uma sociedade saudável, justa e democrática.
EPISTEMOLOGIAS DE CONEXÃO, PROMOÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE E JUSTIÇA COGNITIVA PARA FORTALECER OS TERRITÓRIOS
Apresentação oral
1 Neepes/Fiocruz
2 Ensp/Fiocruz
3 UFAM
Apresentação/Introdução
O trabalho busca refletir sobre os princípios e bases epistemológicas e metodológicas que avancem numa promoção emancipatória da saúde nos territórios em torno das epistemologias de conexão. Elas buscam garantir a qualidade do conhecimento a partir de diálogos respeitosos entre sistemas de conhecimentos e práticas tradicionais/cosmológicas e situadas voltadas à decisões sábias junto às comunidades e à natureza, com os provenientes da ciência moderna.
Objetivos
O trabalho resulta de um programa de pesquisa intercultural e interdisciplinar da saúde coletiva que busca compreender a relação entre saúde, sociedade e natureza a partir da proposição de uma promoção emancipatória da saúde nos campos e cidades. Baseia-se em metodologias sensíveis co-labor-ativas que articulam qualidade e objetividade do conhecimento com dimensões éticas, políticas, comunitárias, estéticas e espirituais. Para superar os limites logocêntricos da ciência moderna e suas tendências de praticar epistemicídios. As metodologias sensíveis promovem co-presença e co-participação com apoio das linguagens da vida, como poético-musicais, gráfico-imagéticas, audiovisuais e performáticas como danças e cantos, e também a contação de histórias tradicionais.
Metodologia
Para investigar e apoiar processos emancipatórios com base em epistemologias de conexão e metodologias sensíveis co-labor-ativas temos construído projetos de pesquisa nos últimos oito anos envolvendo movimentos sociais e organizações comunitárias em diferentes territórios nos campos e cidade. Os projetos específicos são construídos junto com povos originários, de matriz africana, bem como movimentos de luta por moradia (Sem Teto) e organizações que atuam em favelas. O pesquisar junto com implica, a partir de laços de sincronicidade, proximidade e confiança, em contruir os problemas a serem pensados e propor soluções alternativas de como responde-los num dado contexto de lutas por saúde, dignidade, bem viver e direitos territoriais.
Resultados
Para investigar e apoiar processos emancipatórios com base em epistemologias de conexão e metodologias sensíveis co-labor-ativas temos construído projetos de pesquisa nos últimos oito anos envolvendo movimentos sociais e organizações comunitárias em diferentes territórios nos campos e cidade. Os projetos específicos são construídos junto com povos originários, de matriz africana, bem como movimentos de luta por moradia (Sem Teto) e organizações que atuam em favelas. O pesquisar junto com implica, a partir de laços de sincronicidade, proximidade e confiança, em contruir os problemas a serem pensados e propor soluções alternativas de como responde-los num dado contexto de lutas por saúde, dignidade, bem viver e direitos territoriais.
Discussão
As epistemologias de conexão e as metodologias sensíveis envolvem o avanço tanto de diálogos interdisciplinares, em que diferentes disciplinas e paradigmas se articulam, como interculturais, ampliando possíveis conexões entre a ciência moderna ocidental com os conhecimentos tradicionais, cosmológicos e situados envolvendo lutas por sobrevivência e reexistência dos povos do Sul Global. Ambas apontam para uma ciência sensível co-labor-ativa que permita as transições paradigmáticas necessárias para superas as várias crises contemporâneas. Na apresentação pretendemos ilustrar com alguns exemplos como essa proposta tem sido aplicada, principalmente com territórios indígenas.
Conclusões/Considerações
A promoção emancipatória da saúde possui um desafio estratégico do conhecimento na atualidade: como descolonizar e coracionar o ambiente acadêmico, e isso significa superar a tendência fragmentada, controladora, exploradora e logocêntrica da ciência ocidental a serviço do capitalismo. Para isso, é necessário, entre outros elementos: (1) analisar o papel estratégico dos saberes holísticos indígenas e tradicionais na defesa dos ecossistemas e no enfrentamento das mudanças climáticas; (2) Debater os avanços e obstáculos para uma saúde intercultural nos processos de cura e cuidado que integram ou afastam medicinas tradicionais e a biomedicina, incluindo práticas do SUS; (3) construir de universidades e instituições pluriepistêmicas que incluam, além da ciência moderna ocidental, sistemas de conhecimentos e cosmologias indígenas, afro-diaspóricas e de outros continentes, fomentando pesquisas sensíveis co-labor-ativas de base comunitária, revisões curriculares e políticas públicas interculturalmente orientadas.
METODOLOGIAS SENSÍVEIS CO-LABOR-ATIVAS EM DIREÇÃO À JUSTIÇA COGNITIVA NA SAÚDE COLETIVA
Apresentação oral
1 Núcleo Ecologias e Encontros de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde/ENSP/Fiocruz
2 NEEPES/ENSP/Fiocruz
3 PPGP/Instituto de Psicologia/UFAL e NEEPES/ENSP/Fiocruz
4 Instituto Agronômico de Pernambuco/IPA e Coletivo da agricultura Xukuru do Ororubá/Jupago Kreká
5 Associação da Comunidade Indígena Xukuru ( ACIX)
6 IAM/Fiocruz-PE
7 Instituto de Psicologia/UFAL
8 Universidade de Pernambuco, Campus Garanhuns
9 Coletivo Sudiovisual Indígena Ororubá
10 Serviço Social/UFAL
Apresentação/Introdução
Este ensaio propõe questões teórico-metodológicas, cuja base empírica e experiencial provém de pesquisas junto a territórios indígenas do Nordeste nos últimos seis anos. Frente ao colapso ecológico, os autores defendem que a luta da Saúde Coletiva exige uma transição paradigmática que crie encontros de saberes envolvendo sistemas de conhecimentos científicos e tradicionais. Tal diálogo intercultural é fundamental para a soberania e a justiça, apontando caminhos para a transformação social diante das profundas mudanças socioambientais.
Objetivos
Discutir a construção de metodologias sensíveis co-labor-ativas com intelectuais orgânicos dos territórios indígenas para fortalecer novas epistemologias e diálogos entre sistemas científicos e tradicionais de conhecimento, contribuindo para a justiça cognitiva como ferramenta de enfrentamento ao colapso ecológico na saúde intercultural.
Metodologia
Este ensaio, cuja base empírica resulta da realização de pesquisas junto aos territórios indígenas Tingui Botó (AL) e Xukuru do Ororubá (PE), ente abril de 2021 e abril de 2023, tem aprovação no CONEP. Sua proposta reside na construção de metodologias sensíveis co-labor-ativas (Fasanello, Porto, 2022) que buscam estabelecer confluência (Bispo dos Santos, 2015) entre metodologias e formulações desenvolvidas no âmbito acadêmico e nos territórios. Inspiradas em epistemologias de conexão (Jairo Munduruku, Marcelo Firpo Porto e Marina Fasanello, 2024), essas práticas também envolvem guyanças (Iran Xukuru) pelos territórios, fortalecendo o "ser indígena" e seu papel na preservação ambiental. Como sementes dormentes (Marcelo de Campo/Tingui, 2022), esses saberes florescem por meio das lutas e resistências na atualidade, oferecendo respostas concretas à crise ecológica por meio da produção de onhecimento intercuiltural e da gestão tradicional do território.
Resultados
Os resultados expressam as experiências de pesquisas nesses territórios, como aperfeiçoamento com audiovisual, criação de plataforma de narrativas indígenas, mostra de cinema, mapeamento de conhecimentos e práticas indígenas de cuidado, cultivo do alimento e preservação ambiental e formação de conselheiros indígenas. Evidencia-se assim, a importância desses processos na consolidação de diálogos interculturais em torno da saúde, contribuindo para o fortalecimento e aprimoramento do SasiSUS. Ao articular produção de conhecimento intercultural e justiça cognitiva, tais resultados têm sido divulgados por meio de audiovisuais, cadernos interculturais, relatórios, artigos científicos e disciplinas na pós-graduação da ENSP. Construídas em parceria com cineastas e intelectuais orgânicos indígenas, essas produções reafirmam o conhecimento indígena como chave para a transformação da academia em um espaço pluriepistêmica, especialmente diante do colapso ecológico.
Discussão
A discussão se dá em torno do conceito de justiça cognitiva como antídoto à indolência da razão moderna frente à crise ecológica. Enquanto a ciência hegemônica frequentemente separa saúde e ambiente, os saberes indígenas operam na indissociabilidade entre corpo e território. As metodologias sensíveis co-labor-ativas, ao promoverem confluência, desvelam que o colapso ecológico é também um colapso sanitário e epistêmico. Assim, a luta da Saúde Coletiva se entrelaça com a luta pela soberania territorial dos povos indígenas, cujos modos de vida e cuidado são, em si mesmos, práticas de resistência e preservação ambiental.
Conclusões/Considerações
A justiça cognitiva busca validar diferentes concepções e visões de mundo do Sul Global com um esforço epistemológico que descolonize e "coracione" a academia, posicionando a Saúde Coletiva na linha de frente da luta ambiental. Neste contexto, a reflexão metodológica é importante pois implica em um realinhamento que possa superar a indolência da razão moderna expressa em sua ciência. Incorporar conhecimentos indígenas junto com a arte sensível na produção de conhecimentos é um dos caminhos possíveis para garantir a soberania dos povos e a preservação da vida no planeta.
PROMOÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE EM PERIFERIAS URBANAS: LUTAS DO MSTB (SSA) PELO BEM VIVER
Apresentação oral
1 MSTB
2 Neepes- Fiocruz
3 Neepes-Fiocruz
4 ISC-UFBA
5 CEM-RJ
Contextualização
A experiência a seguir descreve o processo do grupo de pesquisa Núcleo Ecologias e Encontros de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes/Fiocruz-RJ) de construir junto com (Fasanello; Porto, 2019) o Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB), no bairro de Periperi, subúrbio ferroviário de Salvador. O MSTB mobiliza a permanência digna da ocupação denominada Manuel Faustino (MF) e do Conjunto Habitacional Paraguari II, enfrentando disputas e violações históricas que marcam periferias urbanas das metrópoles brasileiras. Trata-se do projeto “O SUS e o território nas lutas por bem viver em periferias urbanas: resistências e experiências de Promoção Emancipatória da Saúde (PES) em ocupações sem-teto de Salvador e em uma favela do Rio de Janeiro”.
Descrição da Experiência
A conexão entre o território acadêmico da Fiocruz/Neepes e as atividades desenvolvidas em Salvador pelo MSTB recebe apoio do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, que contribui para construção dos diálogos e atividades e esteve diretamente envolvido na elaboração do questionário, aplicado no primeiro semestre de 2026. Na construção de uma pesquisa junto com, as reuniões, oficinas e encontros entre o Neepes, os pesquisadores dos territórios e os parceiros da UFBA são movidas por momentos de atualização sobre acontecimentos e eventos significativos, provocando a emergência de questões importantes para discutir a Promoção Emancipatória da Saúde (PES) nos territórios.
Objetivo e período de Realização
A conexão entre o território acadêmico da Fiocruz/Neepes e as atividades desenvolvidas em Salvador pelo MSTB recebe apoio do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, que contribui para construção dos diálogos e atividades e esteve diretamente envolvido na elaboração do questionário, aplicado no primeiro semestre de 2026.
Na construção de uma pesquisa junto com, as reuniões, oficinas e encontros entre o Neepes, os pesquisadores dos territórios e os parceiros da UFBA são movidas por momentos de atualização sobre acontecimentos e eventos significativos, provocando a emergência de questões importantes para discutir a Promoção Emancipatória da Saúde (PES) nos territórios.
Resultados
Na ocupação Manuel Faustino e no Conjunto Habitacional Quilombo Paraíso ocorrem barreiras à universalização do atendimento aos serviços de saúde, pois o SUS passa a conhecer o território apenas após os projetos envolvendo a universidade/academia, por meio do ISC/UFBA e da Fiocruz/Neepes. O Hospital do Subúrbio exige comprovante de residência para o atendimento das pessoas do território, vulnerabilizando principalmente as mulheres por problemas de saúde mental.
No rol dos conflitos e das injustiças socioambientais, as comunidades sofrem com a passagem do VLT pela Estrada do Derba. Na ocupação MF, há denúncias de demolição de casas em decorrência das obras, o que resultou na destruição de plantações, como bananeiras, pés de frutas e outros alimentos cultivados para o sustento da ocupação.
Aprendizado e Análise Crítica
Nos diálogos que permitem tecer e problematizar as questões integrantes do questionário, reconhecemos que o acesso à saúde e ao cuidado comunitário vem se construindo no reconhecimento dos saberes situados e na valorização da sabedoria presente nas resistências cotidianas das periferias urbanas. A aplicação dos questionários se constituí como dispositivo dialógico de formação acadêmica e comunitária, aflorando questões sensíveis e estruturais (como a violência, o racismo, a saúde mental, a precariedade no cuidado) dificultando o acesso pleno e equânime ao SUS, mas reafirmando a importância de práticas de saúde nos territórios como dimensão central das lutas por Bem Viver. As experiências do MSTB revelam fortes componentes de injustiça social, sanitária e, sobretudo, ambiental e cognitiva. A luta para impedir ou minimizar os impactos da construção do VLT vem sendo acompanhada da descredibilização do MSTB por parte do Estado e da gentrificação.
PROMOÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE NO COMPLEXO DA PENHA (RJ): SUS, TERRITÓRIO E BEM VIVER.
Apresentação oral
1 ENSP/ Fiocruz RJ
2 Neepes/ Fiocruz RJ
3 ISC/ UFBA
4 CEM
5 MSTB
Contextualização
A experiência a seguir resgata o processo do grupo de pesquisa Núcleo Ecologias e Encontros de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes/Fiocruz-RJ) de construir junto com (FASANELLO; PORTO, 2024) uma organização comunitária que atua em um conjunto de favelas no Rio de Janeiro, o Complexo da Penha, mais precisamente no território conhecido como Terra Prometida, o Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM). Insere-se no projeto “O SUS e o território nas lutas por bem viver em periferias urbanas: resistências e experiências de Promoção Emancipatória da Saúde (PES) em ocupações sem-teto de Salvador e em uma favela do Rio de Janeiro”.
Descrição da Experiência
O CEM tem debatido a construção de uma comunidade do Bem Viver nas metrópoles das periferias urbanas, por meio de relatos e diálogos sobre o cotidiano de organização desses moradores frente às denúncias de injustiças e violências, mas também de anúncios de transformação, com crescente envolvimento comunitário. No CEM, essas experiências ocorrem com mulheres de ancestralidades negra e indígena, as quais retomam práticas de suas ancestrais, como cultivo de ervas, preparo de chás, escalda-pés e banhos de assento, por meio de rodas de conversa e oficinas.
O território é afetado pela poluição do ar, discutindo-se a necessidade de medição dos níveis de partículas provocados pelo funcionamento de uma pedreira. A empresa vem adotando estratégias de aquisição de CNPJ, pois não possui mais direito de lavra, alterando o registro a cada dois anos, como forma de ocultar a exploração ilegal na Serra da Misericórdia.
Objetivo e período de Realização
O trabalho do Neepes com os sujeitos dos territórios tem buscado resgatar a sabedoria dos moradores de periferias urbanas vinculada ao cuidado coletivo e comunitário, como a produção de alimentos agroecológicos, a produção de chás, escalda-pés, o cultivo de ervas, a cozinha comunitária e outros elementos ligados à saúde e à sabedoria ancestral. Mais recentemente, a proposta tem buscado a incorporação dessas práticas pelo SUS local, tanto nas políticas públicas quanto nas ações territoriais desenvolvidas por profissionais de saúde e gestores.
Desde 2019, o Neepes vem realizando pesquisas com intelectuais situados em periferias urbanas nas cidades de Salvador e Rio de Janeiro, buscando valorizar a sabedoria presente nas práticas de saúde comunitária e no ecologismo popular. Em relação ao trabalho com o CEM, a pesquisa iniciou em dezembro de 2023 e tem a previsão de estender-se até dezembro de 2026.
Resultados
Existem muitas dificuldades para que as pessoas que vivem no território acessem as ações de saúde que deveriam ser ofertadas pelo SUS local. As mulheres da comunidade tiveram que insistir na mobilização dos profissionais da Clínica da Família, e somente após a intensificação desse diálogo foi possível viabilizar algumas experiências na comunidade, entre elas a incorporação de práticas populares e ancestrais de cuidado.
No entanto, persistem a falta de mapeamento do território pelo governo do estado, aprofundando a invisibilização de populações vulnerabilizadas na cidade, bem como a desconsideração desses setores para a construção de um novo paradigma civilizatório, especialmente no que diz respeito às mulheres que produzem alimento saudável e promovem educação popular por meio de práticas ancestrais em seu cotidiano.
Aprendizado e Análise Crítica
As pesquisadoras do território e do Neepes têm compreendido a importância de se articular, às lutas por justiça social e sanitária, foco da saúde coletiva nos últimos 40 anos, outras dimensões de justiça, especialmente a justiça ambiental e a cognitiva. Compreendemos a importância estratégica dos saberes e das práticas produzidos nas experiências territoriais, inclusive quando acionam a ancestralidade, os saberes e as práticas de povos e comunidades tradicionais, para avançar na ecologia de saberes e em uma transição paradigmática diante da crise civilizatória contemporânea (FASANELLO; PORTO, 2024; AGUIAR, 2023).
TERRITÓRIO, POLÍTICAS PÚBLICAS, SAÚDE E CIDADANIA: CONFLITOS AMBIENTAIS E SEUS ATRAVESSAMENTOS.
Apresentação oral
1 PPGEA/UFRRJ
2 DGEO/IM/UFRRJ
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa, originalmente intitulada A Fundação Abrigo Cristo Redentor e o Bairro Cidade dos Meninos: Narrativa dos Sujeitos do Campo de Duque de Caxias - Memórias escondidas por um conflito, foi realizada como trabalho de conclusão de curso, Monografia, em 2024. Nesse local foram instalados, em 1950, pelo antigo Ministério da Educação e Saúde, um instituto de malariologia e a fábrica de produtos profiláticos. O território analisado se localiza numa área de proteção ambiental federal e apresenta um passivo ambiental significativo, desde 1952 quando ocorreu o primeiro acidente químico na Fábrica, com o vazamento de organoclorado, popularmente conhecido como Pó de Broca, altamente contaminante e com alto teor bioacumulativo. Apesar desse impacto, muitos moradores permaneceram no território por motivações diversas e, deste modo, o bairro se desenvolveu e, tendo em vista ser uma área rural, os moradores enxergaram na terra uma oportunidade de melhorar sua situação de vida.
Objetivos
investigar a partir de narrativas de sujeitos da agricultura familiar, moradores do território, os conflitos ambientais ocorridos no bairro Cidade dos Meninos, que se originaram com a desativação da Fundação Abrigo Cristo Redentor (FACR).
Metodologia
A metodologia utilizada combinou pesquisas bibliográficas sobre a FACR; a leitura de estudos e de jornais de época sobre o desastre químico e o conflito ambiental, bem como as fontes orais obtidas através das narrativas dos sujeitos da agricultura familiar e moradores do bairro Cidade dos Meninos, Duque de Caxias, RJ, entre julho de 2022 a julho de 2024.
Resultados
Constatou-se a ausência de políticas públicas mais efetivas, sobretudo com relação à infraestrutura e às construções indevidas que colocam em risco a saúde e a segurança da população. Ficou evidenciada a importância do trabalho coletivo, sobretudo o fortalecimento da Associação de Moradores, que exerce um importante papel aglutinador, na luta pelos direitos e no reconhecimento da história e da memória que constituíram o bairro Cidade dos Meninos, para as presentes e futuras gerações.
Discussão
As leituras e observações realizadas e as narrativas colhidas proporcionaram o conhecimento de muitas questões relevantes para além daquelas que envolvem a contaminação e demonstraram a necessidade de instaurar o debate sobre racismo ambiental, injustiça ambiental, políticas públicas, sobretudo para a promoção da conscientização de novos moradores e dos jovens residentes no bairro, acerca da história do território e da construção das identidades ali presentes.
Conclusões/Considerações
Os resultados alcançados com essa pesquisa impulsionaram a realização de novas investigações, aprofundando o olhar sobre o território, as identidades e sobre o necessário papel educativo a ser desenvolvido com vistas a uma conscientização socioambiental e à busca de soluções para as questões diagnosticadas. discussão : Na atualidade, esta perspectiva encontra-se sendo desenvolvida na dissertação de Mestrado, no âmbito do programa de pós-graduação em Educação Agrícola (PPGEA/UFRRJ), onde a autora, bolsista da CAPES, busca desenvolver ferramentas metodológicas para problematizar, com os jovens da comunidade, conceitos de identidade, memória, justiça e consciência ambiental. A partir de rodas de conversa e outras atividades pedagógicas, tendo como base os pressupostos da Educação Ambiental Crítica e da Educação Popular será possível articular as questões de saúde, cidadania, educação, ambiente e trabalho, na perspectiva de um desenvolvimento socioambiental. Com base no diagnóstico realizado e nas constatações sobre a realidade do território, pretende-se construir, em conjunto com a comunidade, ferramentas capazes de apontar soluções para as distintas problemáticas que vêm se estendendo ao longo dos anos e que possibilitem que as pessoas tenham uma qualidade de vida digna.
TERRITÓRIOS DA GESTÃO SOCIOAMBIENTAL E SAÚDE NA AMAZÔNIA
Apresentação oral
1 UEA
2 UERJ
Apresentação/Introdução
As Unidades de Conservação (UC) de uso sustentável constituem, atualmente, um dos principais instrumentos de gestão socioambiental na Amazônia brasileira. Em tese, esse modelo busca articular a conservação da biodiversidade com a participação das populações tradicionais na governança dos territórios onde historicamente vivem. Assim, garantir a governabilidade dos territórios tradicionais significa também garantir as condições de reprodução da vida dessas populações. Nessa perspectiva, saúde e bem-estar na Amazônia estão diretamente relacionados à capacidade coletiva de controle sobre o território (Lacerda; Acosta, 2017). Esse debate torna-se ainda mais relevante diante do avanço do desmatamento e das pressões sobre os ecossistemas amazônicos, processos que têm afetado diretamente as condições de vida e saúde das populações residentes em áreas protegidas.
Objetivos
Buscou-se problematizar aspectos fundamentais que envolvem a gestão socioambiental desses territórios, suas principais controvérsias e perspectivas, considerando que as UC têm se constituído no mais eficaz modelo de sustentabilidade ambiental para a Amazônia.
Metodologia
O presente estudo teve como unidade de investigação a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, localizada entre os municípios de Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, no estado do Amazonas. A reserva possui aproximadamente 102 mil hectares distribuídos em 19 comunidades rurais, com cerca de 900 famílias residentes (Amazonas, 2016). A pesquisa foi realizada entre 2021 e 2022, por meio de trabalho de campo com abordagem qualitativa (Deslandes, 2005), combinando entrevistas semiestruturadas, observação direta e mapeamento. Foram entrevistadas 23 famílias e cinco lideranças locais, incluindo gestores da reserva, profissionais de saúde e representantes comunitários.
Resultados
Os resultados indicam que a maior parte das famílias organiza sua subsistência a partir de unidades de produção familiar baseadas na agricultura e na pesca, com renda média mensal inferior a um salário mínimo. As entrevistas revelam a percepção de que os atuais modelos de gestão das Unidades de Conservação ainda apresentam limitações no que se refere à promoção do desenvolvimento humano e social das populações residentes. Embora o modelo socioambiental de conservação da biodiversidade seja reconhecido como fundamental, os entrevistados questionam a forma restrita com que as populações são frequentemente consideradas no interior dessas políticas. Essa percepção torna-se particularmente evidente quando se analisam as condições de acesso aos serviços de saúde. Na RDS do Rio Negro existe apenas uma Unidade Básica de Saúde (UBS) responsável pelo atendimento das 19 comunidades da reserva. A equipe de Saúde da Família Ribeirinha realiza atendimentos presenciais apenas dois dias por semana, enquanto nos demais dias o serviço permanece sob responsabilidade de profissionais residentes na comunidade e de agentes comunitários de saúde.
Discussão
As grandes distâncias entre as localidades, associadas à precariedade da infraestrutura logística e à alta rotatividade de profissionais, dificultam a continuidade do cuidado e limitam o acesso universal à atenção primária. Esse cenário reflete a desigual distribuição da rede assistencial entre áreas urbanas e rurais, frequentemente justificada por discursos que atribuem as dificuldades de implementação das políticas às características geográficas da região (Garnelo; Sousa; Silva, 2019). Diante desse contexto, moradores e lideranças da RDS questionam as garantias efetivas associadas à condição de viver em uma Unidade de Conservação. Para alguns entrevistados, a UC representa apenas um conjunto de normas e restrições para o uso dos recursos naturais que nem sempre se traduz em contrapartidas concretas para as populações que realizam a gestão cotidiana desses territórios.
Conclusões/Considerações
Nesse sentido, fortalecer a governança socioambiental na Amazônia implica reconhecer as especificidades territoriais da região e superar perspectivas etnocêntricas que historicamente têm orientado projetos de desenvolvimento, incorporando de forma mais consistente as dimensões sociais, culturais e sanitárias na gestão das áreas protegidas.
REEXISTÊNCIAS BIOCENTRADAS NO NORTE MATO-GROSSENSE: FRAGMENTOS DE PERSPECTIVAS DE OUTROS MODOS DE VIDA
Apresentação oral
1 UFMG
2 UFMT
Apresentação/Introdução
O Brasil destaca-se como o maior consumidor de agrotóxicos no mundo, sendo o Estado do Mato Grosso o maior consumidor entre as unidades federativas (BOMBARDI, 2012; BOMBARDI & CHANGOE, 2022; PIGNATI et al., 2007). Tal padrão de consumo está intrinsecamente associado ao modelo produtivo do agronegócio, que implica o uso intensivo de pesticidas aplicados por meio de pulverizações aéreas, mecanizadas ou manuais (PIGNATI et al., 2007; 2014). No contexto brasileiro, observa-se que o elevado consumo de agrotóxicos na cadeia produtiva do agronegócio resulta em impactos ambientais negativos, fundamentados em uma lógica específica de desenvolvimento econômico. Ainda, observa-se de forma consistente os efeitos dos processos de colonização do ser, saber e poder em nome do desenvolvimento da cadeia produtiva do agronegócio, à medida que são desconsiderados impactos sobre a vida humana e ambiental, resultando na exposição de trabalhadores(as) e populações envolvidas.
Objetivos
Este ensaio analisa perspectivas biocêntricas apresentadas pelos participantes da pesquisa, que evidenciam rupturas nos processos de colonização do ser, do saber e do poder, mediadas pelo agronegócio brasileiro nos territórios
Metodologia
Este ensaio se orienta por uma perspectiva metodológica qualitativa que, compreende o processo de pesquisa como lugar onde “o pesquisador se lança, então, a experimentar os encontros proporcionados pela pesquisa, com a clareza de que não sabe ao certo o que irá encontrar, nem o que resultará desses encontros.” (QUINTANILHA, 2012, p. 53). A produção de dados por meio de entrevistas narrativas em grupo, orientadas por um questionário semiestruturado e gravadas em áudio digital. Ao todo, foram realizados 4 (quatro) encontros. Cada encontro teve um eixo temático central, acompanhado de um conjunto de questões semiestruturadas para orientar as entrevistas.
Resultados
Os participantes foram solicitados a narrar o que mudariam, transformariam na realidade vivida diante dos problemas ambientais relatados por eles.
Fragmento 1: Ah, iria transformar em um quilombo… nós íamos transformar em um grande quilombo, tem duas coisas que mudaria aqui, aumentar as matas e as águas, aqui antes tinha muita qualidade, e agora…
Fragmento 2: Eu iria mudar quase tudo, tanto para nós indígenas… eu mudaria bastante coisa para a nossa região, principalmente agora que vamos ter bastante queimadas, nosso rio poluído, hoje nossas crianças estão com doenças, vão pro rio e voltam doentes, com diarreia, manchas nos corpos, a saúde também, não só a saúde da cidade, mas a saúde para nós indígenas é muito precária
Discussão
Ambos os fragmentos retratam a demanda pelo grupo de participantes por uma relação simbiótica com a natureza, bem como revelam o pano de fundo de destruição socioambiental, no qual houve diminuição de matas e águas, poluição e doenças. Além disso, ambos os fragmentos ainda destacam como os povos tradicionais quilombolas e indígenas são os mais afetados por todo um projeto de desenvolvimento socioeconômico que apregoa uma cisão entre humano e natureza. Os fragmentos evidenciam uma perspectiva de bem-viver que emerge como experimentações e acontecimentos a partir de relações com o mundo, a natureza e os/as outros/as que se opõem às noções coloniais de desenvolvimento, bem-estar e “viver melhor” (ACOSTA, 2016).
Conclusões/Considerações
Os fragmentos apresentados evidenciam que, para os participantes da pesquisa, a organização da vida em consonância com a natureza é fundamental, visto que a transformação do território em quilombo resgata valores de solidariedade e reciprocidade entre indivíduos, coletividade e o meio natural. Viver em um território impactado por modelos produtivos extrativistas e espoliadores do agronegócio faz com que, sob a ótica biocentrada, essa reorganização seja percebida como uma aspiração legítima ou como um projeto necessário de reexistência diante dessa realidade.
DIREITO À SAÚDE NO CAMPO, FLORESTA E ÁGUAS: DIÁLOGO ENTRE SABERES PARA FORTALECER LUTAS
Apresentação oral
1 Ministério da Saúde
Contextualização
A luta pelo direito à saúde das populações do campo, da floresta e das águas é histórica e se dá em meio a profundas desigualdades sociais e ambientais. No contexto recente de fragilização de políticas públicas, precarização do Sistema Único de Saúde e avanço de modelos de desenvolvimento que impactam territórios e modos de vida, esses povos enfrentam ameaças crescentes à saúde e à permanência em seus territórios. A Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA) constitui uma conquista resultante das mobilizações sociais, porém sua implementação ainda enfrenta obstáculos como o desconhecimento institucional, o racismo estrutural e a limitada participação dos sujeitos dos territórios nos processos de decisão.
Descrição da Experiência
Descrição da experiência
A experiência consiste na realização de uma Roda de Diálogo com representantes de movimentos sociais, trabalhadores da saúde e sujeitos dos territórios, construída a partir da perspectiva da Educação Popular em Saúde. A metodologia busca promover um espaço horizontal de escuta e troca entre saberes populares e conhecimentos técnico-políticos, estimulando a reflexão coletiva sobre o direito à saúde e os desafios para implementação da PNSIPCFA. A roda parte das experiências concretas vividas nos territórios, problematizando situações como exposição a agrotóxicos, conflitos socioambientais e violência no campo.
Objetivo e período de Realização
O objetivo da atividade é fortalecer a luta pelo direito à saúde integral das populações do campo, da floresta e das águas, promovendo a apropriação da PNSIPCFA como instrumento de mobilização social e controle democrático do SUS. As atividades foram realizadas no contexto de processos formativos e encontros com movimentos sociais no período de 2025 a 2026.
Resultados
A experiência possibilitou ampliar o conhecimento sobre a política entre lideranças comunitárias e trabalhadores da saúde, estimular a identificação coletiva de violações de direitos e mapear problemas que afetam a saúde nos territórios. Também contribuiu para o compartilhamento de estratégias de resistência e incidência política, fortalecendo a articulação entre movimentos sociais e o SUS.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que a efetivação de políticas públicas depende da participação ativa dos sujeitos dos territórios e do reconhecimento de seus saberes. A roda de diálogo mostrou-se uma estratégia potente para produzir reflexão crítica, fortalecer o controle social e aproximar a política pública das realidades vividas. Ao mesmo tempo, revelou limites estruturais na implementação da PNSIPCFA, reforçando a necessidade de ampliar processos formativos, espaços participativos e articulações intersetoriais para enfrentar as iniquidades em saúde nesses territórios.
SUS E TERRITÓRIOS NAS PERIFERIAS URBANAS: RESISTÊNCIAS PELO BEM-VIVER EM SALVADOR E RIO DE JANEIRO
Apresentação oral
1 Neepes- Fiocruz
2 Neepes-Fiocruz
3 Ensp-Fiocruz
4 MSTB
5 CEM
6 ISC-UFBA
Apresentação/Introdução
O projeto “O SUS e o território nas lutas por bem viver em periferias urbanas: resistências e experiências de Promoção Emancipatória da Saúde (PES) em ocupações Sem Teto de Salvador e numa favela do Rio de Janeiro”, financiado pelo Edital CNPq Chamada Nº 21/2023, é uma continuidade e aprofundamento das pesquisas do Neepes envolvendo experiências territoriais em periferias urbanas no Rio de Janeiro (CEM/Complexo da Penha) e Salvador (Movimento Sem Teto da Bahia), desde 2019.
Objetivos
Identificar potencialidades de ações comunitárias de cuidado provenientes de experiências territoriais que possam aprimorar ações do SUS local, a partir de espaços de diálogo intercultural com as equipes dos serviços de saúde. Busca-se contribuir para a visibilização do protagonismo da organização comunitária CEM e do MSTB, por meio das ocupações coordenadas, a ocupação Manuel Faustino e o Conjunto Habitacional Quilombo Paraíso.
Metodologia
O percurso metodológico do projeto é composto de reuniões e oficinas onde destacamos as denúncias e os anúncios e damos relevância aos relatos significativos das experiências trazidas pelos sujeitos (Fasanello; Porto, 2019). Essas oficinas atualmente vem focando na elaboração de questionários semiestruturados nas comunidades e estão em fase de aplicação e de discussão das questões, com resultados parciais até o momento apresentados. A elaboração compartilhada do questionário pelos próprios sujeitos dos territórios foca no cuidado coletivo e comunitário, com elementos ligados à saúde e à sabedoria ancestral.
Resultados
Constata-se um trabalho territorial impulsionado tanto pelo MSTB como pelo CEM, que busca conectar as múltiplas dimensões do cuidado, desde uma perspectiva individual/familiar, ampliando-a para um cuidado coletivo/comunitário.
A atuação do MSTB vincula-se a atividades comunitárias como teatro, capoeira, boxe e música, com foco na educação ambiental. Esse cuidado também se materializa pelo acolhimento das diferentes experiências trazidas pelos moradores que chegam ao conjunto habitacional a partir de outras localidades. No CEM, esses cuidados comunitários são percebidos nas experiências de acolhimento às mulheres de outros estados que chegam para morar no território. Elas retomam práticas de suas ancestrais, como cultivo de ervas, chás, escalda-pés e banho de assento. Em ambos os territórios, constata-se dificuldade de acesso dessas populações ao SUS local.
Discussão
Na experiência latino-americana, a medicina social e a saúde coletiva basearam-se na medicina científica e biomédica (Nunes; Porto, 2023), realizando profundas críticas às dinâmicas do capitalismo sobre os impactos à saúde das populações.
Porém, tal perspectiva é considerada fruto da modernidade eurocêntrica (Porto, 2019). Ela gerou distanciamentos entre as diversas formas de saberes, tendendo a negar a sabedoria advinda das populações localizadas no campo, floresta e cidades e relegando-as a um conhecimento subalterno e de menor valor. Por outro lado, a noção de Promoção Emancipatória da Saúde (PES) emerge como paradigma de apoio às lutas sociais por saúde, dignidade e direitos nos territórios, orientada através da articulação entre quatro dimensões de justiça: social, sanitária, ambiental e cognitiva (Porto, 2019). As experiências do MSTB e do CEM revelam fortes componentes dessas quatro justiças, sobretudo a ambiental e cognitiva
Conclusões/Considerações
Ambos os territórios apresentam potentes conhecimentos inscritos nas chamadas sociologias das emergências (Santos, 2023), pois as práticas de cuidado coletivo e comunitário — como o uso de chás, quintais produtivos, farmácia viva e outros elementos ligados à agroecologia — estão permanentemente presentes, mas são eclipsadas pelos conhecimentos ocidentais pretensamente universalizantes. Essas práticas buscam propiciar uma produção de alimentos em harmonia com a natureza e com as comunidades. Portanto, no campo da PES, a sabedoria e os conhecimentos ancestrais constituem elementos-chave de resistência frente às injustiças nas periferias urbanas, reconhecendo, na linha de frente, as mulheres negras e indígenas como ambientalistas e produtoras de saúde e bem viver.
REFLEXÕES SOBRE DESIGUALDADES SOCIOAMBIENTAIS E A SAÚDE DE PESSOAS TRANS
Apresentação oral
1 UFR
Contextualização
A discussão antropológica no campo da saúde é fundamental para a formação de profissionais críticos, humanizados e capazes de atuar em uma sociedade plural. Essa área do conhecimento evidencia que diferentes grupos sociais, como povos indígenas, comunidades tradicionais, pessoas LGBTQIA+, quilombolas, entre outros, produzem normas próprias de organização social e de cuidado, desafiando a ideia de uma epistemologia única e centralizada. Atrelado a isso, diferentes formas de vida são influenciadas pelas particularidades do contexto e do ambiente em que esses grupos estão inseridos, uma vez que, para além de marcadores sociais como cor de pele, gênero, classe, sexualidade e geração, existem também desigualdades socioambientais que organizam e hierarquizam os indivíduos na sociedade.
Descrição da Experiência
A partir da disciplina de Antropologia, componente curricular do curso de Licenciatura Plena em História da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), foi realizada uma aula de campo na “Associação de Profissionais do Sexo de Rondonópolis: Damas da Noite”, uma casa de acolhimento destinada a pessoas trans (travestis, transgênero e transexuais) no município de Rondonópolis/MT. A visita ocorreu em julho de 2025 e, na ocasião, o grupo conversou com integrantes da casa, em sua maioria mulheres trans, que relataram aspectos de suas trajetórias de vida, como inserção no trabalho, acesso a serviços públicos de saúde, vivências de violência, exclusão familiar e situações de preconceito enfrentadas no cotidiano.
Objetivo e período de Realização
O presente relato tem como objetivo analisar como a intersecção entre marcadores sociais da diferença, associada a aspectos ecológicos e ambientais, afeta corpos não hegemônicos, incidindo de maneira mais intensa sobre grupos historicamente marginalizados por gênero e sexualidade.
Resultados
Corpos dissidentes, frequentemente excluídos dos espaços formais de trabalho, moradia e cuidado, vivenciam de forma agravada os efeitos da precarização ambiental, da insegurança territorial e da violência institucional. No que se refere às questões ambientais, pessoas trans podem enfrentar barreiras adicionais, considerando que os espaços disponíveis para moradia e trabalho são, muitas vezes, marcados por precarização habitacional, exposição a riscos de desastres ambientais, violência em abrigos emergenciais e dificuldades no acesso aos serviços de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência de diálogo com pessoas trans em uma casa de acolhimento trouxe à tona relatos de vida marcados por violência, desumanização e o sequestro de oportunidades. Para além das condições de trabalho que frequentemente colocam essas pessoas em situações de risco à vida e à saúde, observa-se também a dificuldade de acesso a ambientes urbanos mais arborizados, o que contribui para maior exposição a ondas de calor e ao estresse térmico. Em razão de fatores políticos, econômicos e territoriais, essas pessoas frequentemente vivem em áreas mais expostas à poluição do ar, situadas próximas a rodovias, áreas industriais ou regiões com menor cobertura vegetal. Soma-se a isso a vulnerabilidade ampliada diante de eventos extremos, como enchentes e desmoronamentos, que atingem com maior intensidade populações socialmente marginalizadas.
CARNAVAL COMO INCIDÊNCIA POLÍTICA: BLOCO NOVO AVANTE, UM ESPAÇO DE FORMAÇÃO, IDENTIDADE E AMOROSIDADE
Apresentação oral
1 FURG
Contextualização
Esse resumo é um relato, vinculando a cultura, o modo de vida, amorozidade e resistência das mulheres. Tem por objetivo evidenciar a importância do envolvimento das mulheres com o clube e com o bloco para sua resistência e identidade.
Contaremos sobre o carnaval 2026, que o bloco homenageou a pesca artesanal. O Novo Avante é um clube de futebol fundado em 1948 e que de acordo com Costa e Teixeira (2024) tem grande importância para cultura da comunidade e do município de Rio Grande no RS.
A Ilha da Torotama é uma comunidade tradicional pesqueira situada no município de Rio Grande no Rio Grande do Sul e que é margeada pela Laguna dos Patos, recentemente acolhida pelo INCRA a ser a primeira comunidade do Rio grande do Sul a ter um assentamento agroextrativista com o projeto PAE , de acordo com Costa (2023) a Ilha é uma comunidade pequena que tem seu sustento vindo da pesca artesanal.
Descrição da Experiência
O Novo Avante se consolidou no desfile do Cassino, desde 2011 sendo importante espaço de expressão cultural da comunidade. O Cassino é um bairro da cidade e tem um dos maiores carnavais do estado do RS, neste contexto, o bloco Novo Avante levou para a avenida o segundo carnaval temático da história do clube e da Ilha, em 2026 falando da pesca, atividade que faz parte da história e da identidade de 1248 famílias do município. Na Torotama 180 famílias dependem exclusivamente da pesca. A escolha buscou valorizar os saberes tradicionais, dar visibilidade ao trabalho das pescadoras(es) e reafirmar a importância dessa atividade para a cultura e a economia local.
A organização e construção dos desfiles são um processo coletivo que envolve a participação das mulheres. Elas são peças fundamentais nas tarefas para realização do desfile tanto no cassino como na Ilha. Esse envolvimento fortalece os laços comunitários e proporciona momentos de convivência, troca de experiências e apoio mútuo, pois todas as tarefas são realizadas a muitas mãos. Para muitas mulheres, esses encontros representaram também um espaço de cuidado e fortalecimento, possibilitam momentos de alegria, criatividade e pertencimento. O envolvimento durante todo ano é uma forma de estar aproximada ao contexto do clube e muitas vezes de se envolver com algo que as tire das rotinas de trabalho e doméstica.
Objetivo e período de Realização
Esse processo dialoga com os princípios da educação popular, pois valoriza os saberes construídos no cotidiano da comunidade. A pesca além de atividade econômica, é um conhecimento que se transmite de geração em geração, passando de pais para filhos e filhas, mantendo viva a cultura e a identidade local. Ao levar esse tema para a avenida, o bloco reafirmou a importância de reconhecer e respeitar esses saberes.
A metodologia da escrevivência de Conceição Evaristo e descrita por Duarte e Nunes (2020) também orienta este relato, uma vez que as autoras fazem parte da comunidade e participam ativamente do bloco. Assim, a escrita parte da experiência vivida, das memórias e das práticas compartilhadas.
Resultados
Além da cultura, o tema também representou incidência política. A pesca artesanal vem sendo cada vez mais impactada pelas mudanças climáticas, afetando, o sustento das famílias dependentes dessa atividade para viver. Ao trazer essa temática para o desfile, o Novo Avante utilizou a festa como um espaço de visibilidade sobre os desafios enfrentados pelo municipio. O desfile, mostrou que o carnaval também pode ser um espaço de valorização cultural, fortalecimento comunitário,cuidado entra as mulheres e mobilização social, unindo tradição, identidade e luta por reconhecimento.
Aprendizado e Análise Crítica
Esse relato traz uma demostração de amorisada a cultura que trabalha a saude e o envolvimento das mulheres pescadoras da comunidade.
EDUCAÇÃO EMANCIPATÓRIA COMO INSTRUMENTO DE ENFRENTAMENTO DAS DESIGUALDADES SOCIOAMBIENTAIS
Apresentação oral
1 Escola de Enfermagem da USP (EEUSP)
2 Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP(EERP/USP)
Apresentação/Introdução
A intensificação da crise socioambiental e das desigualdades de classes deve ser motivo de debates acerca da saúde planetária e suas implicações ao campo da Saúde Coletiva. Essa relação reconhece a interdependência entre sistemas ecológicos, organização social e condições de vida e saúde, evidenciando que a degradação dos meios naturais e exploração do trabalho estão relacionadas às formas de viver e adoecer na sociedade contemporânea. Nesse contexto, a teoria da determinação social do processo saúde-doença (DSPS) se propõe como referencial analítico capaz de compreender essas dinâmicas como expressões das estruturas políticas e econômicas do modo de produção capitalista. Paralelamente, a educação emancipatória, baseada na DSPS, tem emergido como ferramenta que fundamenta espaços de educação horizontal e troca de saberes coletivos com foco na emancipação dos sujeitos e formação crítica. No campo da enfermagem e saúde coletiva, essa abordagem amplia o pensamento do trabalhador ao oferecer cuidado integral, articulando prática clínica, política e educação.
Objetivos
Discutir as contribuições da educação emancipatória para a compreensão das desigualdades socioambientais e da saúde planetária, a partir da perspectiva da determinação social do processo saúde-doença e de suas implicações para a formação crítica em enfermagem e saúde coletiva.
Metodologia
Trata-se de um estudo de natureza teórico-reflexiva realizado a partir da construção de um capítulo de livro produzido coletivamente entre estudantes, alunos de pós-graduação e docentes da área de saúde coletiva vinculados à Universidade de São Paulo (USP). A construção do capítulo foi realizada entre 2024 e 2025 a partir da sistematização de discussões teóricas, encontros de organização dos autores e estudos da literatura sobre saúde planetária, educação emancipatória e determinação social. O processo de produção foi orientado por referenciais da pedagogia crítica, da saúde coletiva latino-americana e por estudos que discutem a relação entre sociedade, natureza e modos de produção.
Resultados
O resultado da construção coletiva do capítulo evidenciou que a crise socioambiental não deve ser abordada apenas como questão ecológica ou ambiental, mas como expressão da desigualdade de classes produzida pelo modelo de exploração capitalista. A saúde planetária, para ser efetivamente debatida, também deve considerar questões sociais e políticas para que o adoecimento seja compreendido como resultado da degradação dos meios naturais fortalecida pela lógica do lucro. Nesse sentido, a emancipação dos sujeitos, através da educação emancipatória, é estratégia importante para reflexão dessas relações, ao estimular processos de formação baseados na reflexão crítica e na construção coletiva de propostas de enfrentamento. Para a enfermagem, maior quantitativo de trabalhadores de saúde e com proximidade com a população e territórios, essa perspectiva política é fundamental no processo de cuidado como prática que supere a alienação e defenda condições de vida que subvertem a lógica capitalista.
Discussão
A articulação entre educação emancipatória, saúde planetária e determinação social da saúde aponta para a necessidade de processos formativos capazes de superar abordagens tecnicistas e biologicistas ainda predominantes na formação em saúde. A inclusão de referenciais críticos na construção do capítulo permite que os leitores compreendam o cuidado em saúde como prática que carrega história e contextos sociais marcados por exploração do trabalho, degradação da natureza e relações de poder. Assim, a formação na enfermagem deve reconhecer o cuidado como prática comprometida com a defesa da vida, da justiça social e da sustentabilidade.
Conclusões/Considerações
O capítulo demonstra que a educação emancipatória pode ser recurso no desenvolvimento de uma formação em saúde comprometida em romper com a lógica de um sistema que adoece. Ao associar a DSPS com saúde planetária, amplia-se a visão dos trabalhadores de enfermagem e da saúde, que passam a ter como finalidade de seu processo de trabalho a defesa da vida e construção de sociedades mais justas e sustentáveis.
SAÚDE, AMBIENTE E ANTIRRACISMO: FORMAÇÃO-AÇÃO DE AGENTES DE PROMOÇÃO DA SAÚDE E IGUALDADE RACIAL
Apresentação oral
1 Fiocruz/Brasília, ISC/UFBA, CONAQ
2 Fiocruz/Brasília
3 Câmara dos Deputados
Contextualização
O Sistema Único de Saúde (SUS) tem avançado na estruturação de ações, programas e políticas voltadas a superação do racismo institucional na saúde e das barreiras de acesso aos serviços de saúde vivenciados por essa população. Permanece o desafio de melhorar os indicadores de saúde, as condições de vida, coleta do quesito raça/cor/etnia nos sistemas de informação em saúde, além da implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População negra (PNSIPN), que alcança menos de 50% dos municípios do país (Ministério da Saúde, 2023).
Descrição da Experiência
A formação-ação de Agentes de Promoção da Saúde e Igualdade Racial (APPSIR) surge da parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz/Brasília e Ministério da Igualdade Racial, com apoio do mandato Daiana Santos. Para isso, três etapas foram cumpridas: I) mobilização territorial com movimentos sociais negros, planejamento das ações com base na pedagogia da alternância, divisão do grupo em Núcleos de Aprendizagem e Estudo (NAE), tempo comunidade, tempo estudo, além da elaboração de materiais pedagógicos de apoio ao curso (Cadernos A - Intersecções entre Racismo, Patriarcado e Capitalismo; Caderno B - Estado, Democracia e Movimentos Sociais e Caderno C - Determinação Social da Saúde e Políticas Públicas de Equidade Racial; II) oferta de formação semanal presencial e remota/síncrona com multiplicadores territoriais; III) ação territorial com 18 APPSIR, cada um com uma turma de 20 educandas(os) em seus territórios para o desenvolvimento de atividades de promoção da saúde, enfrentamento ao racismo, fortalecimento dos saberes populares e da participação social no SUS.
Objetivo e período de Realização
Este estudo tem por objetivo relatar a experiência de construção de formação-ação de Agentes de Promoção da Saúde e Igualdade Racial no Rio Grande do Sul. No período de 2025 a 2026.
Resultados
A formação-ação contou com os 18 educandos de diversos municípios do Rio Grande do Sul, garantindo a inclusão de jovens, idosos, homens, mulheres, povos de terreiro, pessoas LGBTQIAPN+, ativistas e lideranças dos movimentos negros, movimento estudantil, dentre outros. Cada APPSIR tem conduzido uma turma de até 20 pessoas em seus territórios. Dentre os principais resultados, destacam-se: a) produção e sistematização de conhecimentos, por meio de três cadernos pedagógicos voltados a discussão dos temas relacionados a saúde da população negra, promoção da saúde e igualdade racial; b) formação crítica de sujeitos multiplicadores e socialmente engajados com a cidadania participativa, superação das desigualdades raciais e sociais, enfrentamento a todos os tipos de preconceito e discriminação, fortalecimento do SUS e construção de saberes de forma autônoma e emancipadora; c) ação territorial, que envolve cerca de 17 territórios em diversas regiões do estado, buscando o estabelecimento de elos com os serviços de saúde, universidade, associação de moradores, coletivos negros, terreiros de matriz africana, comunidades quilombolas, dentre outros espaços.
Aprendizado e Análise Crítica
A Região Sul do Brasil é a mais desigual quanto as taxas de mortalidade dos quilombolas, em comparação com o restante da população. Segundo dados da Fiocruz/CONAQ/UFBA (2025), são altas as taxas de mortalidade por causas não determinadas e mal definidas, como diarreia, desnutrição, homicídio e questões de saúde mental, nesses dois últimos casos, com relações com conflitos territoriais. Tomando como base a Determinação Social da Saúde (DSS), a população negra, quilombola e de terreiros de matriz africana se caracterizam historicamente como grupos populacionais expostos a processos intensos de vulnerabilização, invisibilização, marginalização e exclusão, associados ao racismo sistêmico que no Brasil, guarda relações com os mais de 400 (quatrocentos) anos de escravização e colonização. Realizar a partir da educação popular em saúde, processos de formação-ação junto a pessoas negras, pode contribuir na constituição de sujeitos socialmente engajados com a transformação da realidade social, antirracismo e fortalecimento do SUS. Sob a base da construção de autonomia, emancipação e protagonismo popular nos territórios.
Realização: