Programa - Roda de Saberes - RS04 - Crise Climática, Vulnerabilizações e Repercussões sobre a Saúde Coletiva
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
JUSTIÇA REPRODUTIVA E CLIMÁTICA: PERSPECTIVAS ECOFEMINISTAS NA SAÚDE COLETIVA
Apresentação oral
1 Fiocruz
2 UFF
Apresentação/Introdução
A criminalização do aborto no Brasil tem sido tradicionalmente debatida sob marcos jurídicos ou morais, frequentemente dissociada dos processos estruturais que produzem adoecimento e desigualdades. No entanto, à luz da determinação socioambiental da saúde, torna-se necessário compreender a regulação penal da reprodução como parte de um arranjo histórico, político e econômico que organiza de forma desigual a exposição ao risco e as possibilidades de viver com dignidade. Em contexto de aprofundamento do modelo neoliberal e de intensificação da crise climática, as vulnerabilidades territoriais são ampliadas, incidindo de maneira desproporcional sobre mulheres negras, pobres e residentes em periferias urbanas e áreas ambientalmente precarizadas. Dialogando com o ecofeminismo e com o campo da justiça climática, este estudo parte da hipótese de que a exploração ambiental e o controle dos corpos femininos constituem dimensões articuladas de um mesmo modelo de desenvolvimento que hierarquiza vidas e naturaliza desigualdades.
Objetivos
O objetivo é analisar a distribuição desigual do risco e a produção de vulnerabilidade decorrente da crise climática e da criminalização do aborto no Brasil a partir da perspectiva da determinação socioambiental da saúde, articulando os campos da justiça reprodutiva, justiça climática e ecofeminismo, visando compreender como a regulação penal da reprodução produz e aprofunda desigualdades territoriais, raciais e econômicas.
Metodologia
O estudo adota abordagem qualitativa e interdisciplinar, fundamentada na análise crítica de políticas públicas e legislações brasileiras, além da literatura acadêmica nos campos da Saúde Coletiva, do ecofeminismo e da justiça reprodutiva, buscando articular criticamente os debates sobre criminalização do aborto, desigualdades estruturais e crise climática. A análise é orientada pela perspectiva da determinação socioambiental da saúde como eixo interpretativo, incorporando contribuições do ecofeminismo para superar o dualismo entre sociedade e natureza e compreender a reprodução como dimensão estruturante do metabolismo socioambiental.
Resultados
Os achados indicam que a criminalização do aborto opera como dispositivo de distribuição desigual do risco, incidindo de forma mais severa sobre mulheres negras e empobrecidas situadas em territórios marcados por precarização ambiental e fragilidade de políticas públicas. A restrição ao acesso ao aborto seguro amplia a exposição a procedimentos inseguros, violência institucional e sofrimento psíquico, reproduzindo ciclos intergeracionais de pobreza. Observa-se que os mesmos territórios mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, como insegurança hídrica, alimentar e habitacional, são aqueles onde o acesso ao aborto legal é mais limitado, evidenciando a sobreposição de vulnerabilidades socioambientais e reprodutivas.
Discussão
A articulação entre justiça reprodutiva e justiça climática permite compreender que a distribuição desigual dos riscos ambientais e reprodutivos não é contingente, mas estrutural. Assim como a crise climática afeta desproporcionalmente populações que menos contribuíram para sua produção, a criminalização do aborto penaliza aquelas com menor acesso a recursos econômicos e proteção social. O ecofeminismo contribui para essa análise ao evidenciar que as lógicas patriarcais e capitalistas de dominação operam simultaneamente sobre a natureza e sobre os corpos das mulheres, integrando exploração ambiental e controle reprodutivo em um mesmo modelo de desenvolvimento. Nesse sentido, a autonomia reprodutiva emerge como condição para o bem viver e para a construção de territórios sustentáveis, uma vez que a sustentação da vida exige tanto integridade ecológica quanto garantia de direitos corporais.
Conclusões/Considerações
Por fim, a crise climática intensifica a instabilidade econômica, fragiliza políticas públicas e tensiona sistemas de saúde já precarizados, comprometendo a capacidade estatal de assegurar o acesso à saúde sexual e reprodutiva. Assim, a restrição ao aborto seguro amplia riscos físicos e psíquicos, perpetua ciclos de pobreza e aprofunda desigualdades intergeracionais. A assimetria na distribuição dos impactos ambientais revela um paralelo evidente com a distribuição dos riscos reprodutivos: os danos climáticos e a criminalização do aborto recaem mais sobre as populações mais vulneráveis.
TEMPERATURA AMBIENTE E MORTALIDADE CARDIORRESPIRATÓRIA EM 36 MUNÍCIPIOS PAULISTAS: ESTUDO DE SÉRIES TEMPORAIS
Apresentação oral
1 UNICAMP
Apresentação/Introdução
As mudanças climáticas têm intensificado extremos térmicos, importantes determinantes socioambientais da saúde. Evidências atuais indicam associação entre temperatura ambiente e mortalidade cardiovascular e respiratória. No estado de São Paulo, marcado por grande heterogeneidade socioeconômica e climática, compreender esses efeitos é essencial para orientar políticas de vigilância em saúde relacionadas ao clima.
Objetivos
Estimar a associação cumulativa exposição-resposta entre a temperatura média diária e a mortalidade por causas respiratórias e cardiovasculares em 36 municípios do estado de São Paulo, Brasil, bem como identificar a temperatura de mínima mortalidade (TMM) para cada causa de óbito.
Metodologia
Realizou-se estudo ecológico de séries temporais em duas etapas, abrangendo o período de 2010 a 2022, em 36 municípios com média igual ou superior a 0,5 óbitos diários por causa específica. Foram analisados óbitos diários por doenças respiratórias e cardiovasculares registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade, totalizando 170.928 registros no período. As informações de temperatura média diária e umidade relativa do ar foram obtidas da base meteorológica BR-DWGD, representativa das condições climáticas urbanas dos municípios analisados. Na primeira etapa, estimaram-se associações específicas por município por meio de modelos lineares generalizados quasi-Poisson combinados a modelos distribuídos de defasagem não linear (DLNM), permitindo estimar efeitos não lineares e retardados da temperatura (até 14 dias). Os modelos foram ajustados por umidade relativa do ar, tendência temporal de longo prazo, sazonalidade e dia da semana, a fim de controlar fatores temporais que também influenciam a mortalidade.Na segunda etapa, as estimativas municipais foram combinadas por meta-análise multivariada de efeitos fixos, produzindo estimativas consolidadas de risco relativo cumulativo. Os riscos foram referenciados à temperatura de mínima mortalidade (TMM), identificada separadamente para cada causa. Realizaram-se análises de sensibilidade com exclusão do período da pandemia de COVID-19 (março de 2020 a dezembro de 2022), além de comparação com modelo binomial negativo.
Resultados
Todos os municípios apresentaram convergência nas duas etapas analíticas. A temperatura de mínima mortalidade foi estimada em 20,7 °C para mortalidade respiratória e 24,6 °C para mortalidade cardiovascular,indicando perfis térmicos distintos de vulnerabilidade. Observou-se predomínio do efeito do frio sobre a mortalidade cardiovascular: no 5º percentil de temperatura (16,0 °C), o risco relativo cumulativo foi 1,523 (IC95%: 1,40–1,59) em relação à TMM. Para a mortalidade respiratória, o calor extremo apresentou maior excesso de risco: no 95º percentil de temperatura (27,5 °C), o risco relativo foi 1,345 (IC95%: 1,29–1,41). A exclusão do período pandêmico produziu alterações mínimas nas estimativas, mantendo-se a significância estatística dos efeitos observados.
Discussão
Os resultados indicam que a temperatura ambiente é um determinante socioambiental relevante da mortalidade cardiorrespiratória em São Paulo, com padrões distintos segundo a causa de óbito. Observou-se maior impacto do frio na mortalidade cardiovascular e do calor na mortalidade respiratória. A diferença entre as temperaturas de mínima mortalidade (20,7 °C e 24,6 °C) sugere a necessidade de limiares específicos de alerta climático por causa de morte. A consistência nas análises de sensibilidade reforça a robustez dos achados e seu potencial para subsidiar sistemas de alerta precoce e estratégias de adaptação às mudanças climáticas em saúde pública.
Conclusões/Considerações
A temperatura ambiente mostrou-se determinante socioambiental relevante da mortalidade cardiorrespiratória em municípios paulistas, com maior efeito do frio sobre doenças circulatórias e do calor sobre doenças respiratórias. Esses resultados reforçam a importância da vigilância ambiental em saúde e podem subsidiar estratégias de adaptação climática no Sistema Único de Saúde, incluindo sistemas de alerta precoce e proteção de populações vulneráveis.
EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS, VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E NARRATIVAS MIDIÁTICAS: COBERTURA JORNALÍSTICA NO BRASIL
Apresentação oral
1 Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz PE
2 Universidade de Brasília
Apresentação/Introdução
Eventos climáticos extremos, como inundações e ondas de calor, têm se tornado mais frequentes e intensos nas últimas décadas, configurando desafios relevantes para a saúde pública e para a gestão socioambiental dos territórios, fenômenos associados a impactos significativos sobre a infraestrutura urbana, o acesso a serviços essenciais e as condições de vida das populações, especialmente em contextos marcados por desigualdades socioambientais. No Brasil, episódios recorrentes de enchentes, deslizamentos e temperaturas extremas têm evidenciado a vulnerabilidade de territórios urbanos e de populações expostas a múltiplos riscos e perigos ambientais. Nesse contexto, a mídia desempenha papel relevante na comunicação ambiental e na construção de narrativas públicas sobre mudanças climáticas e seus efeitos sociais e sanitários. No campo da comunicação ambiental, entende-se que os discursos midiáticos não apenas informam sobre problemas ambientais, mas contribuem para a construção social dos significados associados e formas de enfrentá-los mediante políticas de prevenção, adaptação e resposta a desastres.
Objetivos
Analisar como a mídia jornalística aborda eventos climáticos extremos no Brasil, com foco em inundações e ondas de calor, identificando os impactos relatados, as condições de vulnerabilidade socioambiental mencionadas e as intervenções governamentais descritas nas reportagens.
Metodologia
Realizou-se um estudo de caso baseado em análise documental de reportagens online publicadas entre 2015 e 2024 em jornais brasileiros de circulação nacional e estadual (Pernambuco). O corpus foi composto por 87 reportagens. A análise de conteúdo foi conduzida com auxílio do software IRaMuTeQ, utilizando estatística descritiva, classificação hierárquica descendente e análise de especificidade. Adicionalmente, foi realizada uma categorização manual dos impactos dos eventos climáticos e das intervenções adotadas por diferentes níveis de governo.
Resultados
A análise das reportagens indica que a cobertura midiática sobre eventos climáticos extremos se organiza em quatro eixos principais: (1) efeitos na vida da população; (2) alterações meteorológicas e ocorrência de ondas de calor; (3) condições socioambientais que influenciam a vulnerabilidade; e (4) intervenções governamentais. Entre as 87 reportagens analisadas, 63 (72%) mencionaram intervenções governamentais. As ações mais frequentes foram classificadas como intervenções de recuperação, incluindo resgates, evacuação de áreas de risco, assistência humanitária e oferta de abrigos temporários. Em relação aos impactos relatados, destacaram-se danos à moradia, deslocamento de populações, perdas materiais e danos à infraestrutura urbana. Também foram mencionados efeitos sobre a saúde física e mental, como ferimentos, doenças relacionadas à exposição a ambientes contaminados e relatos de ansiedade e sofrimento psicológico. As reportagens evidenciaram ainda situações de vulnerabilidade socioambiental, como moradias em áreas de risco, ausência de saneamento básico e maior exposição de trabalhadores e idosos a temperaturas extremas.
Discussão
Os resultados indicam que a cobertura midiática tende a enfatizar os impactos imediatos dos eventos climáticos extremos e as respostas emergenciais adotadas pelos governos. Embora essa abordagem contribua para dar visibilidade aos efeitos dos desastres, aspectos estruturais relacionados à vulnerabilidade socioambiental e às estratégias de adaptação climática aparecem com menor destaque. Observa-se também que esses eventos estão frequentemente associados a desigualdades territoriais e urbanas preexistentes, ampliando a exposição de determinados grupos populacionais. Assim, a forma como a mídia comunica esses eventos influencia a compreensão sobre mudanças climáticas e o debate sobre políticas de prevenção e redução de vulnerabilidades.
Conclusões/Considerações
A análise da cobertura midiática evidencia a centralidade dos impactos sociais e sanitários associados aos eventos climáticos extremos, especialmente em contextos urbanos marcados por desigualdades. No entanto, as narrativas jornalísticas priorizam respostas emergenciais e dão menor atenção a estratégias estruturais de adaptação e prevenção. Os achados reforçam a importância de integrar comunicação ambiental e saúde coletiva para compreender como riscos climáticos são representados no espaço público e como essas narrativas podem ampliar o debate sobre justiça ambiental, prevenção de desastres e enfrentamento das mudanças climáticas.
AGROECOLOGIA E ENFRENTAMENTO DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: O PAPEL DAS EXPERIÊNCIAS TERRITORIAIS
Apresentação oral
1 Fiocruz/VPAAPS
2 AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia
Apresentação/Introdução
Aumento da temperatura, cheias, secas, erosão da biodiversidade, perda e diminuição da produção de alimentos são algumas das percepções sobre as mudanças climáticas levantadas ao longo da pesquisa-ação. Em termos planetários, o sistema agroalimentar corresponde por ⅓ da emissão de gases de efeito estufa; no Brasil, esse número sobe para ¾. O que se coloca em debate, todavia, não é a substituição de combustíveis fósseis, mas a necessidade de transformações estruturais do sistema agroalimentar. Sob essa ótica foi conduzida a pesquisa Agroecologia, Território e Justiça Climática, coordenada pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a AS-PTA - Agricultura Familiar e Agroecologia, a Fase - Solidariedade e Educação e a Associação Maranhense Tijupá.
Objetivos
O objetivo da pesquisa-ação foi identificar a atuação de experiências de agroecologia frente às mudanças climáticas e como essas apontam caminhos para a transição justa do sistema agroalimentar.
Metodologia
Os dados foram coletados por meio de formulário online, entre abril e junho de 2025. Além do apoio dos coletivos, organizações e redes de agroecologia para divulgação do instrumento em seus territórios, a iniciativa contou com uma equipe composta por cinco pesquisadoras, uma em cada região do Brasil, que teve a responsabilidade de mobilizar e buscar o engajamento dos territórios no cadastramento.
Resultados
Foram identificadas 516 experiências de agroecologia, para análise dos dados, porém, foram consideradas 503, uma vez que 13 não cumpriram requisitos da pesquisa. Apesar do número expressivo de experiências identificadas, a pesquisa-ação não se pretendeu exaustiva, assim, o universo é ainda mais amplo, composto por centenas de outras experiências não registradas.
Discussão
Os resultados do mapeamento apontam para estratégias coletivas de transformação do sistema agroalimentar. Um primeiro destaque está relacionado à centralidade de ações desenvolvidas pelas experiências na produção, beneficiamento, acesso a alimentos e mercados: 35% identificaram-se a partir destes focos. As experiências se dedicam, por exemplo, à construção de novas economias, como feiras, mercados institucionais e parcerias com cozinhas solidárias.
As estratégias de conservação da agrobiodiversidade e a convivência com os territórios foram focos de 31,4% das experiências. Têm-se aí combinações de práticas de regeneração ecológica, como manejo do solo e Sistemas Agroflorestais.
Foram identificadas, ainda, experiências de construção do conhecimento (14,7%) que buscam elaborar sobre a relação entre a agroecologia e o enfrentamento das mudanças climáticas. A promoção da saúde foi foco de 4,6% das experiências, com destaque para a saúde das pessoas e do ambiente. Por fim, 2,2% das experiências identificaram que seu trabalho tem como a gestão de resíduos sólidos e 1% afirmou ser sobre produção de bioinsumos.
O aumento da temperatura foi um fenômeno citado por mais de 73% das experiências. Em seguida, estão as percepções associadas à alteração do calendário de chuva (70,8%). No que se refere à saúde das pessoas, 34,4% das experiências perceberam o aumento de enfermidades nos territórios associadas às mudanças climáticas. A piora da qualidade do ar foi percebida por 42,9% das experiências, sobretudo em grandes centros urbanos e áreas de mineração.
Os impactos sobre a produção são alarmantes. A diminuição e a perda da produção, assinaladas por 56,3% e 48,1% das experiências, respectivamente, apresentam um cenário de insegurança alimentar e nutricional.
Nos distintos territórios, as experiências têm percebido como suas práticas contribuem para o enfrentamento das mudanças climáticas. Entre elas, destacam-se o manejo e conservação do solo (70,7%) e da água (42%), a diversificação dos sistemas produtivos (63%), o plantio de árvores e reflorestamento (56,9%), a compostagem (52,7%) e o tratamento ecológico de esgotos (26,2%).
Conclusões/Considerações
A pesquisa-ação permite concluir como, a partir dos territórios, as experiências têm construído estratégias para a transição justa do sistema agroalimentar e enfrentamento da emergência climática.
EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA PROVENIENTES DO SISTEMA ALIMENTAR BRASILEIRO: ANÁLISE DA SÉRIE HISTÓRICA
Apresentação oral
1 Universidade de São Paulo
Apresentação/Introdução
Os sistemas alimentares compreendem as atividades relacionadas à produção, processamento, distribuição e consumo de alimentos, bem como seus impactos sociais, econômicos e ambientais. Estima-se que os sistemas alimentares sejam responsáveis por cerca de um terço das emissões antrópicas de gases de efeito estufa (GEE) no mundo. Contudo, esse valor pode variar entre os países, sobretudo naqueles com grande produção de alimentos, como o Brasil. Analisar a emissão de GEE provenientes do sistema alimentar brasileiro e de seus componentes é fundamental para uma maior compreensão do impacto da produção de alimentos e para a proposição de ações para tornar essa atividade mais sustentável.
Objetivos
Analisar a contribuição do sistema alimentar e suas atividades individuais na emissão de GEE no Brasil.
Metodologia
Os dados de emissões de GEE foram obtidos na plataforma do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG). O banco contempla os setores de agricultura, energia, processos industriais, resíduos e mudança de uso da terra. Para este estudo, foram selecionadas as emissões relacionadas ao sistema alimentar brasileiro no período de 1990 a 2024, incluindo atividades associadas à mudança de uso do solo e à produção agropecuária. As emissões foram consideradas em equivalentes de dióxido de carbono. A análise consistiu no cálculo da participação percentual das emissões do sistema alimentar em relação ao total nacional de GEE, bem como na avaliação da contribuição das principais atividades emissoras, por meio de análise descritiva.
Resultados
A análise mostrou que o sistema alimentar foi responsável pela maioria das emissões de GEE no Brasil em toda a série histórica, sendo a maior contribuição percentual em 1995 (89,57%) e a menor em 2014 (70,74%). A proporção de GEE se manteve razoavelmente estável entre 1990 e 2004, com redução gradativa a partir de 2005, mas com aumento entre 2019 e 2023. Em relação às atividades que mais contribuíram para a emissão de GEE, destacaram-se a mudança do uso do solo e a fermentação entérica. Em relação à primeira, houve certa estabilidade na emissão de GEE entre 1990 e 2005, com média de contribuição de 65,78% em relação ao total. A partir de 2006 houve redução gradativa da emissão de GEE pela mudança do uso de solo, sendo a menor proporção em 2010 (40,52%). Também foi identificado um aumento da contribuição das alterações de uso da terra entre 2019 e 2023. A fermentação entérica foi a segunda atividade com maior contribuição para a emissão de GEE em todo o período. Diferentemente da emissão pela mudança do uso de solo, para essa atividade houve aumento gradativo a partir de 2006, com atingimento do maior valor em 2010 (19,64%).
Discussão
As atividades que compõem o sistema alimentar são as principais responsáveis pela emissão de GEE no país. A mudança do uso do solo e a fermentação entérica são as principais atividades que contribuem para esse cenário, demonstrando que o desmatamento ainda é muito presente no país, contrariando ações internacionais para cessação deste fenômeno. A principal atividade responsável pela contribuição da fermentação entérica é a criação de gado bovino. Recomendações recentes têm indicado a importância da redução da ingestão de carne vermelha devido ao seu elevado impacto ambiental. Os achados aqui apresentados também demonstram que o sistema alimentar brasileiro está desalinhado neste aspecto.
Conclusões/Considerações
O sistema alimentar é o principal responsável pelas emissões de GEE no Brasil, com destaque para a mudança de uso da terra e a fermentação entérica. Esses resultados indicam a necessidade de estratégias que promovam sistemas alimentares mais sustentáveis e alinhados às metas globais de mitigação das mudanças climáticas.
FORMAÇÃO MÉDICA DIANTE DAS EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UMA MÉDICA E DOCENTE
Apresentação oral
1 ULBRA São Jerônimo
Contextualização
Os eventos extremos como enchentes, ondas de calor e deslizamentos têm se tornado mais frequentes e intensos no Brasil exigindo que ocorra uma revisão urgente na formação médica nos processos de formação dos futuros profissionais de saúde. Como as emergências climáticas vêm se consolidando como um dos maiores desafios sanitários do presente e do futuro, será necessário respostas rápidas, integradas e tecnicamente efetivas do sistemas de saúde. Aqui apresento um relato de experiência que articula vivências pessoais e profissionais durante as enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul em 2024, inserindo e relacionando-as ao processo de ensino na graduação médica, especificamente na disciplina de Medicina e Família e Comunidade conectando a uma proposta da formação em saúde para emergências climáticas essencial ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Descrição da Experiência
A atuação como médica frente ao atendimento às vítimas da enchente, oportunizou observar, em campo, os impactos sobre a saúde coletiva tanto na dimensão estrutural, social e ambiental. A ampliação do aumento de doenças infecciosas, o agravamento de condições crônicas, a piora do sofrimento mental e o colapso de serviços essenciais, demonstrou a vulnerabilidade acentuada de populações marginalizadas. Esse momento de crise foi transformado como uma oportunidade na prática pedagógica como docente na área da saúde, reafirmando a necessidade de incorporar esses aprendizados reais ao cotidiano do currículo médico.
Objetivo e período de Realização
A importância de incluir este tema, a partir dessa vivência, como instrumento de estruturar uma formação mais humana, crítica e orientada para a intersetorialidade, como o objetivo de desenvolver competências como comunicação, liderança, ética e uma atuação em rede frente aos desastres. Algumas estratégias didáticas foram desenvolvidas como aulas temáticas, estudos de caso, rodas de conversa sobre sofrimento moral e como a vigilância em saúde e gestão de riscos existiu nos municípios afetados pela enchente. O engajamento positivo dos estudantes, ficou evidenciado tanto pelas vivências dos estudantes como moradores de municípios afetados, além da participação ativa nas práticas pedagógicas realizadas em aula, oportunizando a relação entre as mudanças climáticas, determinantes sociais e prática médica.
Resultados
A integração do eixo “saúde e clima” deve ter no espaço da formação médica no século XXI, não apenas como conteúdo complementar, mas como componente estruturante da educação profissional. Preparar médicos para atuar em emergências climáticas significa ampliar o olhar sobre o processo saúde-doença, compreender vulnerabilidades e iniquidades, e ousando usar uma gestão inovadora com as ferramentas que o SUS ainda necessita para desenvolver respostas resolutivas em cenários de crise. Significa reconhecer que a mudança climática não é apenas um fenômeno ambiental, mas um determinante mundial de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
Conclui-se que o relato apresentado demonstra a importância de experiências docentes baseadas na realidade vivida, que oportunizem aos futuros médicos entender o papel social da profissão médica frente à crise climática. Por isso, a urgência de pesquisas, políticas institucionais e inclusão de diretrizes curriculares que fortaleçam a educação médica para um mundo em constante mudança, deve ser tratado como prioridade na formação médica.
RACISMO AMBIENTAL, RACISMO CLIMÁTICO E SAÚDE INTEGRAL NO MACIÇO DA PEDRA BRANCA
Apresentação oral
1 QUILOMBO DONA BILINA
2 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
Contextualização
Este relato de experiência é construído a partir da vivência e do protagonismo do Quilombo Dona Bilina, localizado no entorno do Maciço da Pedra Branca, na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro. As reflexões apresentadas emergem das ações desenvolvidas no território por seus próprios moradores, autores deste trabalho e bolsistas do projeto Racismo Ambiental e Mudanças Climáticas, vinculado ao Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). A narrativa parte do entendimento de que o racismo ambiental incide de forma desproporcional sobre populações negras, periféricas e comunidades tradicionais, especialmente em contextos rurbanos marcados por processos históricos de exclusão territorial, sendo intensificado pelos efeitos das mudanças climáticas.
Descrição da Experiência
O Maciço abriga uma das maiores florestas urbanas do mundo e desempenha papel estratégico na preservação da Mata Atlântica, na proteção de nascentes e na regulação climática da cidade do Rio de Janeiro. Nesse território vivem comunidades quilombolas e agricultores tradicionais cujos modos de vida estão historicamente associados ao manejo sustentável da terra, à agricultura familiar e à preservação ambiental. No Quilombo, a produção agrícola se organiza, a partir das roças quilombolas, que articulam a produtividade com os saberes tradicionais, buscando a conservação do solo e proteção da biodiversidade em contexto rurbano.
As ações aqui relatadas se inserem no âmbito do projeto Racismo Ambiental e Mudanças Climáticas, iniciado em janeiro de 2026, que adota uma abordagem metodológica participativa e territorializada. A participação direta de moradores do quilombo no projeto fortalece o protagonismo comunitário na produção de conhecimentos, na mobilização social e na sistematização das experiências vividas no território. Ressaltamos que, antes mesmo da implementação do projeto, a comunidade já desenvolvia iniciativas voltadas à educação antirracista, à valorização da memória quilombola, à defesa socioambiental do território e ao fortalecimento da agricultura familiar, envolvendo crianças, jovens e adultos da comunidade.
Objetivo e período de Realização
Como experiência concreta, destacamos o mutirão comunitário de reflorestamento realizado em 17 de janeiro de 2026 no território. A atividade foi conduzida pela juventude da comunidade, articulada ao projeto Vivaz e ao projeto Racismo Ambiental e Mudanças Climáticas. O mutirão envolveu o plantio de mudas nativas, ações educativas sobre preservação ambiental e espaços de diálogo coletivo sobre mudanças climáticas, racismo ambiental e justiça socioambiental. A juventude desempenhou papel central na mobilização comunitária e na construção de processos educativos voltados à proteção ambiental e ao fortalecimento da identidade territorial.
Resultados
A experiência evidenciou aprendizados importantes, ao mesmo tempo em que revela desafios estruturais. Entre os principais aprendizados, destaca-se a centralidade do protagonismo comunitário na construção de ações de enfrentamento ao racismo ambiental e às mudanças climáticas, bem como a potência da articulação entre saberes tradicionais, juventude quilombola e instituições públicas de pesquisa. Por outro lado, o processo explicita desafios relacionados à sustentabilidade das ações no território, às limitações institucionais e financeiras e às assimetrias históricas nas relações entre comunidades tradicionais e o poder público. Esses desafios reforçam a necessidade de estratégias participativas de longo prazo, que respeitem os tempos do território, valorizem os processos formativos comunitários e contribuam para a construção coletiva de respostas às vulnerabilidades socioambientais vivenciadas por populações quilombolas em contextos rurbanos.
Aprendizado e Análise Crítica
Concluímos que a comunidade quilombola do Maciço da Pedra Branca desempenham papel estratégico na preservação dos ecossistemas locais e na construção de estratégias comunitárias de adaptação às mudanças climáticas. Ao partir do protagonismo quilombola e da experiência vivida no território, este relato contribui para ampliar o debate sobre racismo ambiental, saúde territorial e justiça socioambiental, reafirmando a centralidade dos povos e comunidades tradicionais na defesa da vida, do território e do bem comum em contextos rurbanos marcados por profundas desigualdades.
RELAÇÃO ENTRE VULNERABILIDADE CLIMÁTICA E DENGUE NOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS NO PERÍODO DE 2020 A 2024
Apresentação oral
1 Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), Fundação Oswaldo Cruz
2 Programa de Computação Científica (PROCC), Fundação Oswaldo Cruz,
3 Instituto Tecnológico de Imunobiológicos, Fundação Oswaldo Cruz,
4 Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), Fundação Oswaldo Cruz
Apresentação/Introdução
O mundo passa por intensificação das mudanças climáticas, sobretudo pelo aumento do efeito estufa e da queima de combustíveis fósseis. O impacto das mudanças climáticas é heterogêneo e potencia vulnerabilidade já existentes. A dengue é uma doença relacionada tanto com o clima, quanto com o ambiente e condições de moradia e saneamento.
Objetivos
Posto isto, este trabalho visa avaliar a relação entre vulnerabilidade climática e a incidência de dengue nos municípios brasileiros, no período de 2020 a 2024, identificando como essa relação varia no território através de modelos estatísticos espaciais.
Metodologia
Os dados de casos de dengue foram obtidos do SINAN - Sistema de Informação de Agravos de Notificação e agregados para o município para todo o período de estudo. O índice de vulnerabilidade climática ao estresse hídrico (IVCEH) foi obtido do AdaptaBrasil - sistema de informações e análises sobre impactos das mudanças do clima (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação). O IVCEH é definido como o grau de suscetibilidade do município aos efeitos das mudanças climáticas, especificamente aquelas que afetam os recursos hídricos. O IVCEH (variável explicativa de interesse) foi incluído no modelo permitindo que sua relação com o número de casos de dengue (variável dependente) variasse por Unidade Federativa. O modelo também incluiu como offset a população, uma estrutura de autocorrelação para condicionar as estimativas à dependência espacial dos dados, e um índice climático, que corresponde às variações climáticas de temperatura, precipitação, amplitude térmica, número de ondas de calor e umidade relativa nos últimos 20 anos relacionadas com a ocorrência das arboviroses, suavizado em splines cúbicos. A inferência foi feita com Integrated Nested Laplace Approximation (INLA).
Resultados
Os resultados revelam que a relação entre a vulnerabilidade climática e a incidência de dengue varia no território brasileiro, podendo variar de relações negativas à positivas dentro da mesma região. Os padrões espaciais evidenciados nos mapas de risco e de probabilidade de associação positiva revelam áreas que possuem tendência de associação positiva se concentraram nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, com exceção da Bahia no Nordeste (razão de taxa média de 1,56, Intervalo de Credibilidade - IC - 95%: 1,01–2,46). No Norte, houve predomínio de relações negativas, principalmente no Amazonas (média de 0,46; IC-95%: 0,16–0,98). A análise do componente climático, destaca a relação não linear entre dengue e as variações climáticas nos últimos 20 anos, sugerindo que apenas pequenos valores do índice de ameaça climática podem aumentar a incidência de dengue, até um ponto de estabilização em valores intermediários do índice.
Discussão
A relação entre vulnerabilidade climática para o estresse hídrico e a incidência de dengue pode estar relacionada ao armazenamento inapropriado de água em situações de falta ou interrupções de fornecimento, que afeta principalmente populações de média e baixa renda. Este armazenamento inapropriado favorece condições ideais para a reprodução do mosquito vetor da dengue.
Conclusões/Considerações
Em suma, os achados aqui apresentados reforçam a hipótese de que o estresse hídrico impulsionado pelas mudanças climáticas pode aumentar a incidência de dengue, possivelmente por meio de mecanismos relacionados com adaptações humanas precárias, abastecimento de água irregular e condições climáticas favoráveis. A vulnerabilidade climática pode atuar como um fator intermediário na dinâmica da dengue, principalmente em um cenário que as mudanças climáticas tendem a acentuar as desigualdades socioambientais já existentes no país.
POVOS INDÍGENAS DO SEMIÁRIDO: DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS A DEFESA DO MODO DE VIDA
Apresentação oral
1 FIOCRUZ CE
2 MOVIMENTO INDÍGENA
3 DSEI - CE E FIOCRUZ CE
Apresentação/Introdução
Apresentação: Nos sertões do Ceará, Nordeste do Brasil, predomina o bioma caatinga e o clima semiárido, sendo, a relação saúde e ambiente permeada por mudanças relacionadas às estiagens severas, intensificadas pelas alterações climáticas e processos produtivos não sustentáveis e degradantes. Os povos indígenas do semiárido buscam alternativas e soluções que reduzam o impacto do desmatamento e da degradação ambiental causadas pelos empreendimentos poluidores. A garantia da sobrevivência dos seus territórios, está articulada a preservação dos seus lugares sagrados, das matas, que produzem espécies utilizadas nas medicinas indígenas e nos rituais espirituais, contribuindo com o clima. Há um descompasso com a política de saúde, que desconsidera a necessidade de readequar a prática dos profissionais, considerando as mudanças climáticas e a saúde.
Objetivos
Objetivos: elaborar um diagnóstico participativo e um plano de ação para o enfretamento dos efeitos sociais, educacionais, histórico-culturais, ambientais, econômicos e de saúde associados às mudanças climáticas com povos indígenas do semiárido cearense.
Metodologia
Metodologia: Trata-se de um recorte de uma pesquisa-ação-participativa realizada em territórios indígenas nos Polos Base de Crateús (975 famílias em 18 Aldeias) e de Monsenhor Tabosa (1203 famílias em 39 Aldeias), no Ceará. Foram realizadas, em março e abril de 2025, três oficinas territoriais participativas, com 81 participantes indígenas, nas aldeias Realejo em Crateús, Mundo Novo e Olho D’Água dos Canutos em Monsenhor Tabosa. A pesquisa foi aprovada pelo CEP nº 7513391 e CONEP nº 7544866. Foram utilizadas metodologias participativas que valorizaram o diálogo, como círculos de cultura, mapeamento participativo e elaboração de planos de ação para enfrentamento dos problemas identificados. Foi realizada uma Oficina de compartilhamento dos resultados das três oficinas territoriais, em agosto de 2025 na sede da Fiocruz Ceará, com a participação de lideranças indígenas, pesquisadores, profissionais de saúde indígena e representantes do DSEI – Ceará para definir medidas de enfrentamento aos problemas identificados.
Resultados
Resultados: No mapeamento e na elaboração do plano de ação, percebe-se a potência de articulação, mobilização, participação e engajamento dos povos indígenas nas discussões que envolvem a luta política pela demarcação da terra, o reconhecimento da identidade cultural de Ser Indígena em meio aos sertões como protagonistas da defesa da natureza. Percebe-se uma intensa participação e liderança das mulheres no Movimento Indígena Potygatapuia que organiza 30 aldeias e no Movimento Indígena Tabajara da Serra das Matas que organiza 9 aldeias. No Sertão estão as etnias Potyguara, Tabajara, Tubiba-Tapuia,Gavião, Tabajara, Tupinambá, Kalabaça e Kariri. Há dois Polos Base implantados, gerenciados pelo DSEI-CE com equipes de saúde, que implantam a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) na Atenção Primária a Saúde (APS).
Discussão
Discussão: Foram enfatizadas questões relacionadas a escassez de água, a falta de saneamento, desmatamento, contaminação das águas, os efeitos no modo de vida e saúde na relação com o ambiente, a oferta dos serviços básicos de saúde e de saúde mental. A leitura transversal dos territórios, a partir dos mapas, dos problemas e das ações já pactuadas e realizadas nos planos de ação, permitiu discutir dentre a formação para profissionais do SASI-SUS, com temas prioritários para abordagem de questões socioambientais relacionadas a emergência climática no semiárido, dentre outras ações a serem deflagradas nas aldeias pelas lideranças indígenas e profissionais.
Conclusões/Considerações
Conclusões: Entendemos, que o indígena, que vive e resiste no semiárido, tem um saber sobre o cuidado em saúde, a promoção da saúde e vigilância popular em saúde, que nem sempre é conhecido pelo serviço de saúde. Esse saber precisa ser reconhecido e aprendido pelos profissionais da saúde para desenvolver uma atenção diferenciada e intercultural, que contribua para o enfrentamento dos processos de vulnerabilização dos modos de vida dos povos indígenas, relacionados as mudanças climáticas no semiárido.
CLIMA E TERRITÓRIO NA REORGANIZAÇÃO DO CUIDADO CARDIOVASCULAR ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Apresentação oral
1 BP - A Beneficencia Portuguesa de São Paulo
2 Novartis Foundation
Contextualização
O agravamento das mudanças climáticas e a intensificação das ondas de calor constituem manifestações do colapso ecológico, com repercussões sanitárias desiguais entre territórios e grupos populacionais. Evidências publicadas em periódicos, como The Lancet e Circulation, demonstram associação entre o aumento da temperatura e a elevação das internações e mortalidades por causas cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e indivíduos com doenças crônicas figuram entre os grupos mais vulneráveis.
Além do efeito térmico direto, a interação entre calor extremo, poluição atmosférica e vulnerabilidades sociais potencializa riscos e incide de forma desproporcional sobre populações com infraestrutura urbana precária e acesso limitado à saúde, como em Santarém (PA) e no sertão da Paraíba, configurando cenário de injustiça socioambiental.
Descrição da Experiência
O CARDIO foi estruturado para fortalecer a prevenção e o manejo das Condições Crônicas Não Transmissíveis (CCNT) no SUS, por meio de soluções integradas que envolvem governança, monitoramento da cascata de cuidado e educação permanente. A partir do reconhecimento do calor extremo como determinante do risco cardiovascular, a temática climática foi incorporada ao programa para adaptar o cuidado clínico, a vigilância em saúde e a organização dos serviços.
Essa adaptação é orientada pelo design thinking, fundamentado no modelo do duplo diamante (diagnóstico, exploração, cocriação e implementação). Após a fase diagnóstica, com mapeamento de vulnerabilidades territoriais e perfis clínicos sensíveis ao calor, a iniciativa está na exploração, na qual se aprofundam evidências científicas e se analisam protocolos clínicos, para adaptação a períodos de calor extremo, preparando subsídios para futura cocriação de soluções ajustadas às realidades locais.
Objetivo e período de Realização
Relatar o processo de construção do CARDIO + Clima como estratégia de adaptação territorial do cuidado cardiovascular na APS, estruturado nas etapas do duplo diamante, encontrando-se atualmente na fase de exploração. A iniciativa foi iniciada em 2026 e prevê piloto, escala progressiva e potencial influência em políticas públicas.
Resultados
A iniciativa CARDIO apresenta resultados consolidados na qualificação do cuidado cardiovascular no SUS. Nos territórios de implementação, as taxas de controle da hipertensão aumentaram de 12,3% para 31,2%, com projeção de redução de 7,9% na mortalidade cardiovascular em dez anos. A avaliação econômica demonstrou custo-efetividade (ICER de USD 784 por QALY). A iniciativa alcançou 44 municípios, 1.077 UBS e mais de 15 milhões de pessoas impactadas.
Com base no modelo já implementado, foram desenvolvidos ajustes para adaptação do cuidado às mudanças climáticas, incorporando soluções alinhadas às diretrizes nacionais de clima e saúde e às evidências que relacionam eventos extremos ao risco cardiovascular.
Entre as principais adaptações destacam-se: a atualização do material educativo destinado aos Agentes Comunitários de Saúde, com inclusão de conteúdos sobre clima e saúde; a incorporação da temática das mudanças climáticas nos protocolos clínicos da linha de cuidado; e a adequação de fluxos assistenciais, orientando as equipes na identificação e manejo dos impactos do clima na saúde da população.
Essas soluções encontram-se em fase de prototipagem no modelo CARDIO em implementação, com perspectiva de expansão progressiva para territórios onde a iniciativa está presente e expostos a ondas de calor extremo, como Patos (PB) e Teresina (PI).
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstra que adaptar o cuidado cardiovascular às mudanças climáticas exige abordagem territorializada e orientada por equidade, utilizando design thinking para articular evidência científica e prática assistencial. Reconhecer o calor extremo como expressão de injustiça ambiental amplia o papel da APS na proteção da vida. Persistem desafios na integração de dados climáticos à vigilância em saúde e na mensuração de impacto clínico, reforçando a necessidade de avaliação contínua e produção de evidências para subsidiar políticas públicas.
ESPÉCIES VEGETAIS EXÓTICAS E INTERFACES DE RISCO PARA ZOONOSES EM AMBIENTES PERIURBANOS
Apresentação oral
1 Fiocruz/VPAAPS/FMA
Apresentação/Introdução
A emergência de epidemias e pandemias associadas à interação entre humanos e animais nas últimas décadas evidencia a importância de compreender as interfaces ecológicas que favorecem a circulação de patógenos. Nesse contexto, espécies vegetais exóticas podem modificar interações ecológicas, especialmente em ambientes urbanos e periurbanos. A jaqueira (Artocarpus heterophyllus Lam.), amplamente disseminada em áreas urbanas da Mata Atlântica, produz grande quantidade de frutos que, ao caírem no solo, tornam-se recurso alimentar para fauna silvestre, animais domésticos e humanos. Esse compartilhamento favorece encontros diretos e indiretos entre espécies e potenciais vias de transmissão de patógenos. Sob a perspectiva da saúde ambiental, compreender essas interações é fundamental para subsidiar estratégias de vigilância de zoonoses e gestão ambiental em territórios no entorno de fragmentos florestais da Mata Atlântica.
Objetivos
Investigar como a presença de uma espécie vegetal exótica em ambiente periurbano pode favorecer interações entre fauna silvestre, animais domésticos e humanos, configurando interfaces ecológicas potencialmente relacionadas ao transbordamento de patógenos.
Metodologia
A investigação foi conduzida entre 2024 e 2025 na Estação Biológica Fiocruz Mata Atlântica (EFMA), na zona oeste do Rio de Janeiro. A unidade está inserida na Floresta da Pedra Branca, considerada a maior floresta urbana do mundo e importante remanescente de Mata Atlântica. Para o monitoramento da fauna foi instalada uma armadilha fotográfica (camera trap) em frente a um indivíduo de jaqueira, com o objetivo de registrar espécies que utilizam seus frutos como recurso alimentar. O equipamento foi configurado para captura automática por sensores de movimento, permitindo o registro contínuo das espécies visitantes. As imagens foram analisadas para identificação das espécies, frequência de ocorrência e evidências de uso compartilhado do recurso alimentar por diferentes grupos taxonômicos.
Resultados
Foram obtidos 268 registros, sendo a cutia (Dasyprocta sp., n = 112) a espécie mais frequente, seguida pelo teiú (Salvator merianae, n = 32) e pelo gambá (Didelphis aurita, n = 26). Também foram registrados cachorro doméstico (Canis lupus familiaris, n = 18), aves não identificadas (n = 18), saracura (Aramides saracura, n = 13), tatu (Dasypus sp., n = 12), mão-pelada (Procyon cancrivorus, n = 10), quati (Nasua nasua, n = 8), cachorro-do-mato (Cerdocyon thous, n = 7), paca (Cuniculus paca, n = 7), juriti (Leptotila verreauxi, n = 3), pombo (Columba livia, n = 2) e cavalo (Equus ferus caballus, n = 1). Do total, 8% estavam forrageando na base da jaqueira e 5% consumindo os frutos, principalmente cutias. Também foi registrado o consumo sequencial de um mesmo fruto, em curto intervalo, por teiú, quati, cavalo e um humano coletando e consumindo os frutos no local.
Discussão
A diversidade de espécies registradas indica que frutos de jaqueira funcionam como importantes pontos de atração e agregação de fauna em ambientes periurbanos. O registro de roedores e marsupiais frugívoros, carnívoros oportunistas, répteis, aves e animais domésticos, evidencia a sobreposição de diferentes níveis tróficos em torno de um mesmo recurso alimentar. O consumo do mesmo fruto por humanos, animais domésticos e fauna silvestre revela interfaces de contato por superfícies, restos alimentares e substratos potencialmente contaminados, ampliando oportunidades para a circulação de agentes infecciosos.
Conclusões/Considerações
Os resultados indicam que espécies vegetais exóticas em ambientes urbanos podem influenciar as interações entre humanos, animais domésticos e fauna silvestre. O consumo compartilhado de frutos de jaqueira evidencia pontos de agregação interespecífica que podem favorecer a circulação de patógenos. Esses achados reforçam a importância de integrar abordagens ecológicas, vigilância em saúde e educação ambiental na gestão urbana. Recomenda-se enriquecimento com espécies nativas para ampliar a oferta de recursos alimentares adequados à fauna, assim como pesquisas que identifiquem patógenos potencialmente presentes em frutos compartilhados entre espécies.
Realização: