Programa - Roda de Saberes - RS06 - Saúde Mental, Sofrimento Social e Desastres Socioambientais
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
PERCEPÇÃO DA VIZINHANÇA E SINTOMAS DEPRESSIVOS APÓS ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE REJEITOS: PROJETO SAÚDE BRUMADINHO
Apresentação oral
1 Instituto René Rachou/ Fiocruz Minas
Apresentação/Introdução
O rompimento da barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão, em janeiro de 2019, em Brumadinho (Minas Gerais), sob responsabilidade da Vale S.A., causou 272 mortes e atingiu considerável extensão territorial. Além dos impactos imediatos, eventos dessa magnitude geram consequências para a saúde, especialmente as condições de saúde mental e suas consequências psicossociais. Os transtornos depressivos envolvem sintomas como tristeza, perda de interesse ou prazer e alterações no sono e no apetite, podendo manifestar-se em diferentes graus de intensidade. No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, a prevalência de transtorno depressivo maior em adultos foi de 10,9%. Na população adulta atingida pelo rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho, os sintomas depressivos constituíram a condição mais prevalente (29,3%), seguidos pelos sintomas de estresse pós-traumático (22,9%) e pelos sintomas ansiosos (18,9%). A ocorrência de transtornos depressivos resulta de uma interação complexa entre fatores de risco e de proteção no curso de vida, sendo também influenciada pelas características sociais e físicas da vizinhança, que podem intensificar estressores cotidianos e ampliar iniquidades em saúde.
Objetivos
Analisar a associação entre sintomas depressivos e os atributos da vizinhança de adultos residentes em Brumadinho após o rompimento da barragem de rejeitos.
Metodologia
Estudo transversal realizado com os dados da linha de base do Projeto Saúde Brumadinho (2021) que incluiu amostra representativa de 3,037 indivíduos com 18 anos ou mais. A presença de sintomas depressivos foi avaliada pelo instrumento Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9) (ponto de corte ≥9). As variáveis de exposição foram os atributos da vizinhança (coesão social, segurança, agradabilidade). As variáveis de ajustes foram sexo, faixa etária, escolaridade e local de moradia. Foram estimadas as razões de prevalência (RP) e respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%) pela regressão de Poisson com variância robusta bivariada e múltipla com ajuste de cada variável de exposição pelas variáveis sociodemográficas.
Resultados
A prevalência de sintomas depressivos foi de 28,7% (IC95%: 26,1; 31,6), sendo maior entre as mulheres (38,3% vs 18,8%; p<0,001), aqueles com menor escolaridade (30,2% sem estudo/fundamental incompleto; 28,9% ensino fundamental; 33,0% ensino médio; 17,2% ensino superior; p=0,001) e residentes na região de mineração (44,2% vs 36,4% população diretamente atingida pela lama vs 28,2% amostra do restante do município; p<0,001). A prevalência de depressão foi semelhante entre os grupos de faixa etária (32,98% de 18 a 34 anos; 28,22% de 35 a 44 anos; 29,38% de 45 a 59 anos; 22,94% de 60 anos ou mais; p=0,062). Na análise múltipla, a prevalência de sintomas depressivos foi menor entre aqueles que relatam que na vizinhança as pessoas ajudam umas às outras (RP=0,60; IC95%: 0,50;0,72), podem confiar nas pessoas (RP=0,63; IC95%: 0,52;0,76), as pessoas se unem em torno de interesses comuns (RP=0,73; IC95%: 0,61;0,88), é um bom lugar para viver (RP=0,45; IC95%: 0,37;0,54), as crianças/jovens tratam os adultos com respeito (RP=0,59; IC95%: 0,48;0,72), é um bom lugar para as crianças brincarem e para criar adolescentes (RP=0,52; IC95%:0,44;0,62), é agradável para fazer caminhada, correr ou andar de bicicleta (RP=0,65; IC95%:0,53;0,79) e é segura (RP=0,51; IC95%: 0,43;0,61).
Discussão
Promover vizinhanças com maior coesão social, agradabilidade e segurança pode reduzir o impacto do estresse cotidiano, especialmente diante do aumento da vulnerabilidade a eventos adversos e da perda de vínculos comunitários. Esses fatores configuram-se como importantes recursos de proteção contra o desenvolvimento da depressão, ao diminuir o isolamento e fortalecer a interação social, mesmo em um cenário de pós desastre de grande magnitude.
Conclusões/Considerações
Nossos resultados mostraram que maior percepção de coesão social, segurança e agradabilidade na vizinhança reduziram a prevalência de sintomas depressivos independentemente de características sociodemográficas.
“SOU O MUNDO, SOU MINAS GERAIS”: BARRAGENS, RACISMO AMBIENTAL E SAÚDE.
Apresentação oral
1 Coalizão pelo Cilma e membro do GEPOL-Racial
2 ENSP/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
As barragens da mineração são potencialmente nocivas, aumentando a exposição a riscos à saúde das populações próximas. Os desastres recentes envolvendo seus rompimentos em Minas Gerais evidenciam falhas sistêmicas e envolvem aspectos técnicos, negligência no monitoramento, fiscalização e flexibilização das regras de controle. Estes riscos são distribuídos desigualmente e oneram mais populações negras, evidenciando o racismo ambiental.
O conceito de racismo ambiental passou a ser tratado como um fenômeno histórico-estrutural com especificidades locais. Além de uma consequência, ele é a autodeterminação da dinâmica espacial do capitalismo racial em detrimento do apagamento ancestral de povos não brancos que valorizam e protegem a natureza.
O conceito ganhou relevância à elaboração de políticas de combate à desigualdade como na Resolução Conama nº 26.916/2025 que estabelece e incorporar diretrizes a justiça climática e ao enfrentamento ao racismo ambiental para todos os órgãos que compõe o Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama).
Objetivos
O objetivo deste artigo é apresentar a importância da relação do racismo ambiental para refletir sobre a presença de riscos e potenciais danos relacionados com a presença de barragens de rejeitos de mineração em territórios, majoritariamente negros e suas implicações a saúde.
Metodologia
O caso de estudo baseia-se no estudo da distribuição espacial das barragens de rejeito de mineração em Minas Gerais próximas a comunidades e algumas questões relacionadas a saúde já relatadas. Metodologicamente, foi realizado um levantamento dos impactos ambientais e sanitários de forma exploratória e não exaustiva, buscando compreender quais 2
demandas emergem dos grupos atingidos por meio de revisão de relatórios, dados estatísticos e estudos correlatos. Por fim o estudo visa relacionar o capitalismo racial com a proximidade de comunidades negras a barragens de rejeito como determinantes sociais de saúde explicitando formas coletivas de adoecimento e morte.
Resultados
O Estado de Minas Gerais, em 2026, abriga 319 das 913 barragens de rejeitos de mineração do Brasil, segundo Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração (SIGBM/ANM), localizadas em municípios onde residem, em média, 64% de população negra, superando a média estadual de 59%, segundo o Censo Demográfico de 2022.
Nos casos em que o dano potencial de perdas de vidas humanas, degradação ambiental e perda de atividades econômicas é alto, há maior presença de pessoas negras, na ordem de 64%, concentrados em nos municípios em que a população negra varia entre 60 e 80%. Quando as barragens estão em nos níveis de emergência de rompimento mais altos - nível de emergência 2 e 3-, o percentual de pessoas negras é de 69%.e 73%, respectivamente.
Discussão
Tais resultados possuem implicações diretas sobre a saúde física e mental. Nos desastres das barragens em Mariana e Brumadinho, as populações além de sofreram com o deslocamento forçado, a perda de modos de vida tradicionais e a perpetuação das desigualdades tiveram convivem com doenças associadas à poluição e contaminação da água, do solo, do ar e com maior incidência de transtornos mentais. Tais agravos a saúde são extensivos, em maior ou menor grau, a outras populações que convivem com as barragens e o chamado de terrorismo de barragem - a emissão de alertas de rompimento, sirenes tocando sem risco iminente, causando mais pânico e medo nestas populações .
Conclusões/Considerações
As barragens se inserem numa lógica de capitalismo racial na mineração, onde os impactos ambientais e sociais são distribuídos de maneira desigual, configurando o racismo ambiental. Os estudos avaliados e os dados estatísticos evidenciam que as barragens estão localizadas onde a presença de pessoas negras residentes excede a média estadual. Isso reflete na saúde ambiental e pública de várias Reconhecer estes processos é imprescindível para a adequação do Sistema Único de Saúde na assistência às necessidades específicas destas populações.
TECENDO RESISTÊNCIAS: CUIDADO PSICOSSOCIAL EM TERRITÓRIOS ATINGIDOS POR ENCHENTES NO RIO GRANDE DO SUL
Apresentação oral
1 FIOCRUZ Brasília
2 FGSM - Fórum Gaúcho de Saúde Mental
Processo de escolha do tema e de produção da obra
Como parte do enfrentamento às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 foi ofertado o curso “Atenção Psicossocial em Desastres Socioambientais: o cuidado no caminho das águas”, uma articulação entre o Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (DESMAD) do Ministério da Saúde (MS) e o Núcleo de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (NUSMAD) da Fiocruz Brasília, em parceria com o Fórum Gaúcho de Saúde Mental e a Coordenação da Política Estadual de Saúde Mental do Rio Grande do Sul. O curso buscou acolher e capacitar gestores, trabalhadores e usuários da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para atuação frente ao sofrimento psíquico advindo das questões socioambientais. Dentre as atividades do curso foram oportunizados encontros presenciais em 48 municípios do estado, contemplando 138 municípios participantes. Os encontros presenciais formaram um espaço de escuta e fortalecimento de vínculos entre pessoas que de diferentes maneiras foram impactadas pelas enchentes. As expressões das memórias do que foi vivido se materializaram na confecção de colchas, inspirada na experiência do pós-enchente de setembro de 2023, que devastou os municípios do Vale do Taquari. Na ocasião, os serviços de saúde mental das cidades atingidas produziram uma colcha, no intuito de elaborar aquela experiência traumática, a colcha coletiva do Vale do Taquari seria exposta nas atividades do 18 de maio (dia da Luta Antimanicomial) em um evento com municípios da região. No entanto, dias antes do evento, a colcha ficou submersa nas dependências do CAPS de Lajeado, atingido na enchente de maio de 2024. A colcha resgatada e modificada pela ação de uma nova enchente, ainda maior que a anterior, se tornou um símbolo de resistência e resiliência frente às mudanças climáticas e seus impactos na saúde mental, simbolizando aquecimento, acolhimento, aconchego e abraço. A colcha inicial, do Vale do Taquari, também circulou por diversas oficinas e territórios do curso “O Cuidado no Caminho das Águas”.
Objetivos
A produção das colchas buscou valorizar a memória coletiva, o pertencimento comunitário e a potência da arte e da cultura como dispositivos de cuidado psicossocial em contextos de desastre socioambiental. O processo de criação permitiu elaborar experiências de sofrimento, fortalecer vínculos entre participantes e reconhecer práticas comunitárias de cuidado como dimensões fundamentais da reconstrução territorial.
Ano e local da produção
2025, Rio Grande do Sul.
Descrição da produção
A obra consistiu em uma série de colchas artesanais confeccionadas coletivamente por participantes do curso “Atenção Psicossocial em Desastres Socioambientais: o cuidado no Caminho das Águas”. As colchas foram produzidas em grupos, utilizando pedaços de tecidos bordados, pintados e desenhados pelos cursistas. Cada retalho costurado representou fragmentos de memória, experiências vividas durante o desastre e narrativas de reconstrução coletiva.
Análise crítica da obra relacionada ao tema do congresso
O processo de costura das colchas oportunizou, em um cenário de grave crise ambiental e seus agravos em saúde, a valorização da escuta e do reconhecimento das práticas comunitárias de cuidado, encontrando no afeto e na arte a força motriz para o estado reerguer-se através do fortalecimento de vínculos e da memória. A experiência da construção das colchas evidenciou que a arte pode funcionar como tecnologia social de cuidado, permitindo a elaboração do trauma, a circulação da palavra e a reconstrução de vínculos comunitários. Ao transformar memórias dolorosas em expressão coletiva, o processo contribuiu para fortalecer redes de solidariedade e reafirmar o território como espaço de produção de vida. Nesse sentido, a expressão artística e o pertencimento comunitário emergiram como eixos centrais de um cuidado psicossocial em desastres, na medida em que permitiram que as experiências fossem reconhecidas e compartilhadas coletivamente. A costura das colchas revelou, assim, que reconstruir após uma tragédia não envolve apenas recuperar infraestruturas materiais, mas também restaurar vínculos, narrativas e sentidos de comunidade.
O CUIDADO NO CAMINHO DAS ÁGUAS: FORMAÇÃO CONTRACOLONIAL EM ATENÇÃO PSICOSSOCIAL EM DESASTRES SOCIOAMBIENTAIS
Apresentação oral
1 FIOCRUZ Brasília
Contextualização
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2023–2024 evidenciam que os desastres socioambientais não são eventos naturais isolados, mas expressão de um modelo de desenvolvimento que dissocia humanidade e natureza, produzindo desigualdades e vulnerabilidades territoriais. Como argumenta Krenak (2019), a crise ambiental é também crise civilizatória, resultado de uma racionalidade que transforma territórios e corpos em recursos exploráveis. No campo da saúde coletiva, essa dinâmica se articula com o que denominamos racismo ambiental, evidenciando que populações historicamente racializadas e precarizadas concentram os maiores impactos dos desastres (ACSELRAD; MELLO; BEZERRA, 2009). No âmbito da saúde mental, tais eventos tensionam modelos biomédicos centrados na normalização e reatualizam os princípios da Reforma Psiquiátrica brasileira, que, conforme relata Tykanori (2001), desloca o cuidado em saúde mental para o território e para as relações sociais. Nesse contexto, o Curso “Cuidado no Caminho das Águas” foi concebido como experiência formativa ancorada em perspectiva contracolonial (BISPO. 2023), articulando bem-viver, territorialidade e enfrentamento ao racismo estrutural.
Descrição da Experiência
O “Cuidado no Caminho das Águas” é uma formação em saúde mental estruturada em duas fases complementares. A primeira consistiu em oficinas presenciais realizadas nos territórios atingidos, envolvendo trabalhadores do SUS e SUAS, usuários da saúde mental, lideranças comunitárias e gestores. As atividades incluíram rodas de escuta, práticas artísticas e elaboração coletiva de planos de ação territoriais para atuação psicossocial em desastres socioambientais, partindo do reconhecimento de que o sofrimento mental é socialmente produzido e atravessado por desigualdades estruturais. A segunda fase ocorreu em ambiente virtual, com videoaulas, fóruns e debates síncronos, aprofundando discussões sobre território, saberes comunitários, racismo estrutural e cuidado em liberdade. Inspirada na noção dos saberes do território (BISPO, 2015), a metodologia rompeu com a lógica transmissiva, reconhecendo usuários e comunidades como sujeitos epistêmicos. As reflexões dialogaram ainda com a crítica de Núñez (2020) às hierarquias epistemológicas e com a defesa do bem-viver como horizonte ético-político de reconstrução coletiva (Krenak, 2020).
Objetivo e período de Realização
O objetivo foi qualificar profissionais, usuários e comunidades para a atuação em saúde mental durante e pós-desastres socioambientais, fortalecendo redes territoriais de cuidado sob perspectiva comunitária. A experiência foi desenvolvida entre 2024 e 2025, envolvendo municípios diretamente impactados pelas enchentes no Rio Grande do Sul.
Resultados
A experiência resultou na construção de planos de ação territorializados sobre atenção psicossocial em desastres socioambientais, no fortalecimento da articulação intersetorial e na ampliação do protagonismo de usuários como agentes de formação e cuidado. Observou-se maior reconhecimento das relações entre desigualdade ambiental e sofrimento comunitário pós desastre, bem como a incorporação de práticas comunitárias (como cartografias afetivas e rodas de memória) como dispositivos de elaboração coletiva.
Aprendizado e Análise Crítica
O curso “Cuidado no Caminho das Águas” evidenciou que a atenção psicossocial em desastres exige deslocamentos epistemológicos no campo da saúde coletiva. Ao articular Reforma Psiquiátrica, justiça ambiental e bem-viver, a experiência tensionou protocolos universalizantes que buscam restaurar uma suposta “normalidade”, propondo uma abordagem territorial, comunitária e politicamente situada. Como alerta Krenak (2019), enfrentar a crise ambiental implica revisar os fundamentos do modelo civilizatório vigente. Nesse sentido, a integração entre saberes comunitários, expressões artísticas, análise crítica estrutural e produção de memória coletiva se configura como uma inovação metodológica, contribuindo para o campo da saúde coletiva ao integrar saúde, ambiente e trabalho por meio de uma perspectiva crítica e contracolonial.
TERRITÓRIOS DE ARTE, CULTURA, MEMÓRIAS E ECONOMIA SOLIDÁRIA NA RAPS: REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL COMO CIDADANIA
Apresentação oral
1 Fiocruz
2 Ministério da Saúde
Contextualização
Nos territórios de vida e trabalho, pessoas usuárias da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) enfrentam processos históricos de estigmatização, exclusão produtiva e precarização das condições materiais de existência, expressões das desigualdades estruturais que atravessam a sociedade brasileira. A restrição ao acesso ao trabalho compromete a autonomia, a contratualidade social e o exercício pleno da cidadania. Em 2025, o Núcleo de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas da Fiocruz Brasília e o Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas da Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, lançaram a “Chamada Pública de Seleção de Projetos/Coletivos de Geração de Trabalho Associativo e Cooperação na perspectiva da Economia Popular e Solidária desenvolvidos no âmbito da RAPS: reabilitação psicossocial como cidadania”, visando apoiar estratégias de inclusão produtiva constituidas por usuários da saúde mental.
Descrição da Experiência
A iniciativa fundamenta-se no encontro da Reforma Psiquiatrica com a Economia Solidária, como práticas contra-hegemônicas, baseadas na defesa dos Direitos Humanos e nos princípios da autogestão, cooperação e sustentabilidade, reconhecendo o trabalho como direito e dimensão estruturante da vida social. A Chamada articula cuidado em liberdade, produção econômica e cultura, entendendo o território como espaço socialmente produzido, atravessado por vulnerabilidades, e também por potências comunitárias.
Objetivo e período de Realização
A Chamada teve como objetivo selecionar propostas de projetos/coletivos de trabalho, arte, cultura constituidos por pessoas usuárias da RAPS, por meio do apoio de insumos, bolsa reabilitação psicossocial, processos formativos e articulação de redes nacional e reginais, ao longo de 12 meses.
Resultados
Dos 70 projetos inscritos, 64 foram selecionados, distribuídos nas cinco regiões do país, contemplando 17 estados, o Distrito Federal e 45 municípios. A ação envolve diretamente 320 pessoas bolsistas, que atuarão como multiplicadores em seus territorios. Os coletivos atuam em diferentes frentes produtivas — artesanato, alimentação, música, artes visuais, reciclagem, brechó e comunicação digital — estruturadas sob princípios de autogestão e cooperação. Observa-se fortalecimento no protagonismo das pessoas bolsistas, aumento da autonomia, reconstrução de projetos de vida, acesso a renda, ampliação das redes de sociabilidade e maior participação social. A constituição das Redes Nacional e Regionais de Arte, Cultura, Memória e Economia Solidária na RAPS tem favorecido intercâmbio entre experiências, circulação de saberes e consolidação de identidade coletiva.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que o trabalho associado, quando sustentado por financiamento adequado, apoio institucional e formação continuada, constitui potente dispositivo de reabilitação psicossocial. A Economia Solidária se mostra como uma alternativa social e econômica inclusiva com soluções ambientais sustentavéis, contrária ao modelo capitalista e neoliberal vigente. O território emerge como espaço estratégico de transformação, onde se articulam cuidado, produção e reconhecimento social. Destaca-se o pioneirismo da Chamada com a centralidade do protagonismo das pessoas usuárias na gestão dos coletivos, a importância da articulação intersetorial e o papel da cultura e da memória na reconstrução identitária e no enfrentamento do estigma. A iniciativa tensiona a lógica individualizante e competitiva do mercado formal de trabalho, propondo formas cooperativas e solidárias de inserção produtiva. Contudo, persistem desafios relacionados à sustentabilidade econômica dos coletivos, à inserção em mercados desiguais e à necessidade de políticas públicas permanentes de apoio à economia solidária. Ainda assim, a experiência reafirma a reabilitação psicossocial como prática territorial de produção de direitos, ampliando a cidadania e contribuindo para a transformação dos territórios em arte, cultura, memoria e trabalho.
ENTRE VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS: SOFRIMENTO PSICOSSOCIAL EM TERRITÓRIO DE LUTA PELA TERRA
Apresentação oral
1 UFMT
Apresentação/Introdução
A luta pela terra no Brasil ocorre em um contexto histórico marcado por desigualdades estruturais, conflitos agrários e formas de violência direcionadas às populações do campo. Nos acampamentos de trabalhadores rurais sem terra, as condições de vida são atravessadas por precarização, estigmatização social e incertezas quanto ao acesso à terra e às políticas públicas. Esses processos podem produzir impactos na saúde e no bem viver das comunidades, especialmente no sofrimento psicossocial. No campo da saúde coletiva, compreender a saúde como socialmente determinada permite analisar como condições de vida, trabalho, território e relações de poder influenciam os processos de adoecimento e cuidado. Investigar experiências de violência e sofrimento em contextos de luta pela terra torna-se fundamental para compreender suas implicações na saúde das populações rurais e fortalecer estratégias coletivas de enfrentamento e cuidado.
Objetivos
Investigar a relação entre sofrimento psicossocial e violência no campo em uma comunidade acampada na luta pela reforma agrária em Juscimeira, Mato Grosso. Analisar a ocorrência de sofrimento psicossocial, descrever as formas de violência vivenciadas, discutir suas relações com o sofrimento e identificar estratégias de enfrentamento e cuidado coletivo em saúde mental.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa realizada por meio de rodas de conversa com moradores de um acampamento vinculado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no estado de Mato Grosso. As rodas ocorreram entre 2024 e 2025 e foram organizadas como espaços de diálogo coletivo, permitindo a expressão das experiências, percepções e vivências dos participantes sobre as condições de vida no acampamento. Participaram trabalhadores e trabalhadoras rurais residentes no território, que compartilharam relatos sobre sofrimento, violências vividas e estratégias de enfrentamento.
Resultados
As rodas de conversa evidenciaram que o sofrimento psicossocial está no cotidiano das famílias acampadas e se manifesta como experiência coletiva associada às condições de vida e às violências vivenciadas. Entre os sentimentos relatados destacam-se desânimo, tristeza, revolta, sensação de impotência e vontade de desistir, expressos em falas como “sensação de desistência, vontade de desistir de tudo, jogar tudo por alto”, “chorosa” e “sensação de impotência, de ser incapaz, de não ser ouvido”. Esses relatos indicam que o sofrimento é percebido como resultado das experiências sociais e políticas que atravessam o território. As rodas revelaram formas de violência, incluindo violência institucional ligada a ações e omissões do Estado, violência simbólica e estigmatização social dirigidas às famílias acampadas, violência de gênero nas relações familiares e exploração do trabalho marcada por ameaças, assédio e condições precárias. Os participantes relacionaram essas experiências à sobrecarga emocional, revolta e desequilíbrio. Emergiram estratégias coletivas de enfrentamento baseadas na solidariedade, no apoio mútuo e na organização comunitária, expressas em falas como “aqui a gente se abraça e se torna mais forte”, “companheiro, me ajude, que eu não posso andar só” e “aqui ninguém está só”.
Discussão
Os resultados indicam que o sofrimento psicossocial vivenciado no acampamento está relacionado a violências estruturais, institucionais e simbólicas que marcam a luta pela terra. Nesse contexto, o sofrimento não se apresenta como condição individual ou clínica, mas como expressão das desigualdades sociais, das incertezas territoriais e da estigmatização que afetam populações em luta por direitos. As experiências relatadas evidenciam como a violência e a precarização das condições de vida produzem impactos na saúde e no bem viver das comunidades.
Conclusões/Considerações
As estratégias coletivas identificadas demonstram que o acampamento também se constitui como espaço de solidariedade, cuidado e resistência. Práticas de apoio mútuo, escuta e organização comunitária fortalecem os vínculos sociais e contribuem para o enfrentamento do sofrimento psicossocial, evidenciando o território como espaço de cuidado coletivo e resistência.
DA INVISIBILIDADE À UMA POLÍTICA DE CUIDADO EM CONSTRUÇÃO DO SERVIDOR PRISIONAL DO RJ
Apresentação oral
1 SEAP-RJ
Contextualização
O sistema prisional do Estado do Rio de Janeiro é historicamente marcado por uma crise estrutural e por lógicas punitivas que afetam tanto a população privada de liberdade quanto os seus trabalhadores. Durante décadas, observei a Saúde do Trabalhador (ST) dos policiais penais ser negligenciada, operando em um cenário de total desregulação prática. O estigma da profissão e a cultura de naturalização do sofrimento impunham uma invisibilidade institucional ao adoecimento físico e mental da minha categoria. Minha experiência empírica de mais de vinte anos na linha de frente prisional me evidenciou, na própria pele, o impacto devastador dessa realidade que adoece e exclui quem deveria garantir o funcionamento do sistema.
Descrição da Experiência
Neste relato, apresento a minha transição de uma vivência de vulnerabilidade laboral para a construção de caminhos de resistência por meio da qualificação científica e da intervenção na gestão. A minha busca por formação especializada em Saúde Coletiva tornou-se um instrumento de luta contra os processos de destruição no trabalho prisional. Esse percurso culminou com a minha integração na gestão institucional, quando assumi a liderança da recém-criada Assessoria Técnica de Cuidados Especiais e Qualidade de Vida do Servidor (ASSCEQS) na Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP-RJ). Essa posição me permitiu converter as dores e necessidades reais da minha categoria em práticas estruturadas de acolhimento e cuidado institucional.
Objetivo e período de Realização
O objetivo central da minha atuação tem sido estruturar e implementar uma política de atenção integral à saúde mental dos policiais penais, rompendo com a inércia institucional e combatendo o paradigma punitivo interno. Esta experiência vem sendo desenvolvida na gestão desde o ano de 2022 até o presente momento (2026).
Resultados
Como resultado direto desta intervenção, atuei na consolidação de um Acordo de Cooperação Técnica com o Ministério Público do Trabalho, que viabilizou financiamento e execução de um programa de assistência. Conseguimos implementar, de forma inédita, o Plantão de Emergência Psicossocial 24 horas, através do qual já coordenamos inúmeros resgates e intervenções de alta complexidade em colegas policiais penais em situação de crise aguda ou ideação suicida. Além disso, promovi a realização da primeira pesquisa diagnóstica sobre o sofrimento psíquico da categoria, fundamentando ações de prevenção com base em evidências locais e auxiliando na desmistificação do pedido de ajuda psicológica em um ambiente de trabalho fortemente marcado pelo "mito do herói".
Aprendizado e Análise Crítica
Esta experiência me ensinou que intervir em um território marcado por intensas relações de poder exige aliar o meu saber empírico de trabalhadora da ponta à fundamentação técnico-científica. O meu principal aprendizado é que a resistência não se esgota na denúncia do adoecimento; ela se efetiva quando ocupamos espaços de decisão e formulamos soluções institucionais viáveis. Criticamente, observo que as vitórias que alcançamos ainda dependem de dinâmicas conjunturais. O meu grande desafio atual é lutar para que essas ações de resistência se transformem em políticas de Estado inegociáveis, dotadas de orçamento sustentável, garantindo que o cuidado a quem opera a segurança pública deixe de ser uma concessão e se afirme como um direito humano fundamental.
PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DOS CASOS DE TRANSTORNO MENTAL RELACIONADOS AO TRABALHO
Apresentação oral
1 Univag
Apresentação/Introdução
A relação entre o homem e o trabalho tem se tornado cada vez mais relevante, alterando os determinantes do processo saúde-doença ao longo dos anos. Com a reformulação produtiva e inovações organizacionais, notou-se um grande desenvolvimento da produtividade, transformando o ambiente laboral no causador de novos riscos que resultam em sobrecarga para os trabalhadores. Tais modificações configuram-se em aumento do ritmo de trabalho, longas jornadas, pressão temporal, repetitividade e conflitos interpessoais. Essas cobranças, associadas às condições individuais, refletem negativamente na saúde física e mental. No Brasil, a reorganização produtiva iniciada na década de 1990, com novos métodos gerenciais e precarização laboral, trouxe consequências como o surgimento de "novas" doenças, a exemplo do Burnout. Diante da evidente subnotificação de casos no sistema SINAN/Tabwin em Mato Grosso, torna-se necessário o monitoramento preciso do perfil epidemiológico para traçar medidas de intervenção na rede de atenção.
Objetivos
O objetivo geral deste estudo é identificar o perfil epidemiológico dos casos de transtorno mental relacionado ao trabalho na macrorregião Centro Norte de Mato Grosso, desenvolvendo estratégias de promoção à saúde por meio de práticas de matriciamento na Rede de Atenção à Saúde (RAS). Os objetivos secundários incluem analisar os casos notificados no SINAN/Tabwin entre 2007 e 2024, descrever o perfil socioeconômico regional e intensificar o aporte técnico-pedagógico sobre a importância do registro correto desses agravos.
Metodologia
Trata-se de um estudo epidemiológico quantitativo sobre os casos registrados na macrorregião Centro Norte entre os anos de 2007 e 2024. A pesquisa baseia-se em dados secundários dos censos demográficos e no sistema SINAN-Tabwin da Secretaria Estadual de Saúde de Mato Grosso. A população compreende trabalhadores notificados com transtornos mentais e comportamentais (CID-10 F00 a F99), alcoolismo, Síndrome de Burnout e sintomas relativos à cognição e estado emocional, tendo como nexo causal o trabalho. As variáveis incluem aspectos sociodemográficos, clínicos e ocupacionais, analisados por meio de estatística descritiva e cálculos de taxa de incidência baseados na População em Idade Ativa. Após a análise, são desenvolvidas práticas de matriciamento nas unidades de saúde, visando a sensibilização dos profissionais e a capacitação técnico-pedagógica.
Resultados
Em 2024, confirmaram-se 80 casos de Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho (TMRT) em Mato Grosso. A distribuição regional foi heterogênea, com maiores coeficientes em Barra do Garças (10,76) e Diamantino (10,13) por 100.000 habitantes. Em números absolutos, destacaram-se Sinop (14), Barra do Garças (12) e Cuiabá (11). A faixa etária predominante foi de 30 a 44 anos (50% do total), com pico no grupo de 40 a 44 anos (31,25%). Houve prevalência marcante do sexo feminino, com 70% das notificações (56 casos). Quanto à raça/cor, 48,75% declararam-se pardos e 31,25% brancos. No perfil de escolaridade, a maioria dos trabalhadores possui Ensino Superior Completo (35%), totalizando 28 registros.
Discussão
Os resultados evidenciam que o adoecimento mental atinge majoritariamente mulheres em idade produtiva e com alto nível de instrução, sugerindo que cargos de elevada responsabilidade técnica e pressão gerencial são focos críticos de estresse. A variação dos coeficientes entre as regionais indica que a subnotificação ainda é um desafio persistente, exigindo que as estratégias de vigilância identifiquem territórios com baixo registro. O aumento do nexo causal estabelecido para Burnout e episódios depressivos reflete a necessidade de maior sensibilidade diagnóstica na rede.
Conclusões/Considerações
O estudo demonstra que o adoecimento mental ocupacional em Mato Grosso é um desafio crescente que atinge perfis específicos da força de trabalho. A identificação de lacunas nas notificações reforça a urgência das práticas de matriciamento e do treinamento técnico para os profissionais da RAS. Espera-se que estes achados contribuam para o desenvolvimento de políticas públicas e práticas clínicas mais eficazes, promovendo ambientes de trabalho saudáveis no estado.
OS ATINGIDOS DE BRUMADINHO. A TRAGÉDIA DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM E SUAS CONSEQUÊNCIAS
Apresentação oral
1 CETEM
2 CLAVES/FIOCRUZ
3 Jornalista
4 UFRJ
Apresentação/Introdução
Brumadinho, a cidade onde ocorreu o rompimento da barragem B-I de rejeitos da mineração de ferro da VALE, é o foco deste trabalho. A B-I, da Mina Córrego do Feijão, rompeu-se às 12:28h de 25 de janeiro de 2019. A massa de rejeitos avançou e, em segundos, atingiu o refeitório e a área administrativa da empresa, e seguiu arrastando e destroçando o que havia em seu caminho. Além de 60 pessoas feridas, outras 272 pessoas tiveram morte violenta por múltiplas lesões e fraturas. Dentre elas, funcionários e terceirizados, moradores e turistas, adultos e crianças, incluindo dois bebês em gestação de cinco meses. É o maior acidente de trabalho do Brasil, externalizado à empresa, que acarretou radical ruptura da normalidade e regularidade de vida da população e mudança abrupta nas condições gerais de produção. Impactos ambientais de difícil mensuração e prognóstico.
Objetivos
Este estudo objetiva dar ênfase e privilegiar a perspectiva e a lógica dos atingidos, como grupo social importante, buscando a peculiaridade do impacto do rompimento da barragem em suas vidas, bem como suas estratégias de reestruturação e de futuro, para si e para sua cidade; organizar os dados existentes e indicar caminhos integradores de aspectos ambientais, sociais e culturais.
Metodologia
Foram realizados 2 trabalhos de campo em Brumadinho: de 05 a 11/02/2019 e de 24/01 a 30/01/2020. No primeiro foram realizadas coletas de amostras de solo com rejeito em 15 pontos (20 cm de profundidade), em três localidades: (1) na Zona Quente, próximo à barragem rompida (n=9); (2) no Parque das Cachoeiras, localizado a jusante da Zona Quente (n=3); e (3) em Alberto Flores, local mais distal da Barragem I (n=3). Caracterização física, química e mineralógica e ensaios ecotoxicológicos foram realizados. No segundo trabalho de campo, foram acompanhadas as cerimônias do primeiro ano da tragédia. A metodologia de avaliação de riscos à saúde humana e ao meio ambiente foi utilizada como base organizacional de informações para a caracterização da fonte. Os bioensaios agudos e crônicos foram efetuados com organismos terrestres e aquáticos, utilizando elutriatos das amostras sólidas. As informações obtidas com a caracterização física, química e mineralógica foram utilizadas para dar suporte à interpretação dos dados toxicológicos obtidos.
Foram realizadas 10 entrevistas abertas com pessoas de diferentes setores sociais diretamente afetadas pela tragédia, priorizando quatro temas pré-determinados a que denominamos “eixos”. (1) Perdas e impactos pessoais por causa da tragédia; (2) Reivindicações pessoais; (3) Estratégias de reconstrução; (4) Projetos para o futuro.
Resultados
O inventário sobre a fonte indicou que os contaminantes transcendem os metais oriundos dos rejeitos da mineração de ferro, e que inclui compostos orgânicos de toxicologia relevante, como os HPA e PCB.
Os resultados ecotoxicológicos mostraram que efeitos crônicos sobre a reprodução foram mais intensos do que os agudos, tanto em organismos terrestres quanto em organismos aquáticos.
As pessoas entrevistadas, de maneira geral, demonstraram um sentimento de decepção com a Vale; elas indicam que as obras de reconstrução da cidade interferiram diretamente em suas vidas, pois o custo de vida local subiu, sobretudo o valor das moradias, e há receio diante da minero-dependência, não apenas em Brumadinho, mas no estado de Minas Gerais, sendo a diversificação da economia uma preocupação expressa por todos os entrevistados, entre outros aspectos.
Discussão
A pesquisa aqui mostrada utilizou metodologia de estudos ecossistêmicos que acrescentam à investigação científica tradicional a escuta de homens e mulheres cuja vida foi profundamente afetada, abordagem típica das ciências humanas e sociais.
Conclusões/Considerações
Este estudo pode servir para subsidiar discussões de fenômenos complexos nos centros de pesquisa e nas instituições, contribuindo para a defesa da vida e busca de justiça para vítimas e familiares de tragédias semelhantes.
LIMITES METODOLÓGICOS NA VIGILÂNCIA DA SAÚDE MENTAL FRENTE ÀS SECAS HIDROLÓGICAS NO RIO SOLIMÕES
Apresentação oral
1 Unb
Apresentação/Introdução
A saúde humana é sensível a mudanças climáticas (IPCC, 2014), e esses efeitos ultrapassam as dimensões físicas, atingindo os domínios psicossociais e culturais. Na calha do Rio Solimões, as secas hidrológicas severas, que saltaram de uma a cada século para quatro em menos de 25 anos (Costa et al., 2024), ameaçam a integridade dos modos de vida de comunidades cuja existência está estruturalmente entrelaçada ao pulso do rio. À luz da Saúde Planetária (Whitmee et al., 2015), os danos à natureza repercutem nos corpos e subjetividades. Perda dos meios de subsistência, insegurança hídrica e alimentar, isolamento e dissolução de vínculos comunitários tecem uma ecologia do sofrimento psicossocial de difícil mensuração. Se por um lado a literatura já reconhece esse nexo (Berry; Bowen; Kjellstrom, 2010; WHO, 2022), por outro persiste uma lacuna metodológica profunda, os instrumentos disponíveis no SUS para registro da demanda em saúde mental, como o SIA-PS, foram concebidos sem sensibilidade ao contexto climático e hidrológico dos territórios. Investigar essa lacuna não é apenas uma escolha analítica, é uma necessidade epistemológica.
Objetivos
Investigar variações temporais nos atendimentos psicossociais de CAPS nos municípios da Calha do Solimões (2013–2024) em função do ciclo hidrológico, e a partir do resultado obtido, problematizar os limites epistemológicos e instrumentais da vigilância em saúde mental para capturar o impacto de extremos climáticos em territórios ribeirinhos amazônicos.
Metodologia
Estudo ecológico de séries temporais (jan/2013–dez/2024), com 167.741 registros do SIA-PS em 20 municípios da calha. A variável hidrológica foi operacionalizada como proxy sazonal baseado na classificação do Instituto Mamirauá: Enchente (dez–abr), Cheia (mai–jun), Vazante (jul–ago) e Seca (set–nov). Após teste formal de superdispersão, que contraindicou o modelo de Poisson, foi aplicada Regressão Binomial Negativa, com Razões de Taxa de Incidência (IRR) para cada estação em relação à Cheia como referência. Toda a análise foi conduzida em R 4.5, com scripts reproduzíveis.
Resultados
O modelo não identificou efeito sazonal estatisticamente significativo sobre o volume de atendimentos (p global = 0,6). Os períodos de Vazante (IRR = 1,14; IC 95%: 0,82–1,59) e Seca (IRR = 1,10; IC 95%: 0,82–1,49) apresentaram tendência de maior demanda em relação à Cheia, coerente com a hipótese do estudo, mas com intervalos de confiança largos demais para confirmação. A presença de outliers em meses específicos sugere que picos de demanda estão associados a anomalias climáticas pontuais, como as secas de 2015–2016 e 2023–2024, e não ao padrão sazonal regular. O perfil de morbidade revelou predominância de transtornos ansiosos e episódios depressivos, com crescimento progressivo da demanda ao longo da série.
Discussão
O resultado negativo desta análise é, ele mesmo, a contribuição teórico-metodológica central do trabalho. A não-significância não revela ausência de efeito, mas sim insuficiência do instrumento de medição. O proxy sazonal codifica o mês de outubro de 2023, durante a seca mais severa já registrada no Solimões, de forma idêntica a um outubro comum, apagando exatamente a informação mais relevante. Isso trata de um problema epistemológico mais amplo, os sistemas de vigilância em saúde mental devem ser desenhados em interface com a realidade hidrológica dos territórios amazônicos, e entendidos como estratégias de adaptação no setor saúde. À luz da Psicologia Ambiental, esse achado faz sentido, visto que para as comunidades ribeirinhas o ciclo regular do rio não é ameaça, é identidade, ritmo de vida, e parte da autodefinição de si (Clayton, 2003).
Conclusões/Considerações
A incorporação de cotas altimétricas contínuas como preditoras, e o teste de defasagens temporais entre o evento hidrológico e a demanda por cuidado constituem os próximos passos metodológicos necessários. O aperfeiçoamento da análise responde a uma demanda política urgente: construir sistemas de vigilância em saúde mental que reconheçam os territórios ribeirinhos como climáticos de risco.
VIOLÊNCIA, SOFRIMENTO PSICOSSOCIAL E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO ENTRE CAMPONESES NA LUTA PELA REFORMA AGRÁRIA.
Apresentação oral
1 UFMT
Apresentação/Introdução
A história da questão agrária em Mato Grosso é marcada pelo contexto de violência como estratégia de ocupação de suas terras, produzindo ainda mais desigualdade social e agravos à saúde das pessoas no campo, com poucos estudos no Estado que enfatizem a dimensão da saúde mental. Diante disso, coloca-se para esta pesquisa a seguinte questão: Quais as formas de violência sofridas por comunidades acampadas na luta pela terra? De que forma tais violências se relacionam com a determinação do sofrimento psicossocial? Como os acampados e acampadas lidam com essas situações-limites?
Objetivos
Geral: Investigar a ocorrência de violência e sofrimento psicossocial entre camponeses e as estratégias coletivas de enfrentamento e cuidado coletivo, no contexto de luta por reforma agrária na Gleba Mestre I, no município de Jaciara-MT. Específicos: Caracterizar as formas de violência sofridas por camponeses acampados da Gleba Mestre I, no município de Jaciara-MT; Descrever a prevalência de sofrimento psicossocial entre os participantes; Compreender a experiência de violência e sofrimento psicossocial na perspectiva dos participantes; Descrever as estratégias de enfrentamento da violência e cuidado coletivo utilizadas pelos participantes.
Metodologia
A metodologia é de pesquisa-ação, com uso de questionários de caracterização socioeconômica, avaliação de ansiedade e depressão, além de grupos reflexivos e entrevistas narrativas. A pesquisa ocorre de março de 2025 a março de 2027, com coleta de dados iniciada in loco em outubro de 2025 e prevista até junho de 2026. O território é a comunidade Gleba Mestre I, a 38 km de Jaciara, situada em área da União, composta pelas Comunidades das Associações dos Pequenos Agricultores Familiares União da Vitória e Renascer, área de 5,6 mil hectares, em litígio segundo Relatório Técnico (2024). Participam moradores do acampamento Gleba Mestre I, que segundo a Secretaria de Meio Ambiente de Jaciara, em 2022, contava com cerca de 200 famílias cadastradas na UBS. Os critérios de inclusão consideram adultos a partir de 18 anos, residentes no acampamento, sem transtornos de saúde que impossibilitem responder às entrevistas ou participar das atividades em grupo.
Resultados
Os dados ainda preliminares, coletados nas rodas de conversa, indicam a ocorrência de diferentes formas de violência vivenciadas pelos participantes, física, psicológica, incluindo violência institucional, ameaças, insegurança territorial e precarização das condições de vida. Os relatos apontam para a presença de sintomas compatíveis com sofrimento psicossocial, especialmente relacionados à ansiedade, à insônia, ao medo constante, ao sentimento de insegurança quanto à permanência no território e, inclusive, há relatos que apontam para o transtorno de estresse pós-traumático.
Discussão
O estudo aponta que a violência no campo tem sido um componente central do sofrimento psicossocial, sendo um determinante de saúde e doença para as pessoas que moram na comunidade Gleba Mestre I. A insegurança fundiária, as condições precárias de moradia, os desafios de logística, a circulação diária de pessoas ligadas aos grupos de empresários que estão na disputa litigiosa pela terra, configuram-se como fatores de estresse crônico, produzindo impactos na saúde mental. A luta pela terra, nesse contexto, revela-se simultaneamente como espaço de sofrimento e de construção coletiva de estratégias de cuidado e resistência.
Conclusões/Considerações
As leituras, assim como a coleta de dados, permitiram verificar que a ocupação da nova fronteira do agronegócio, que envolve o território de Mato Grosso, mantem-se marcada por conflitos e violência contra pessoas e a natureza. Mantendo o modus operandi de expropriação, demonstrando que a determinação social do processo saúde-doença sobre essa população, é atravessada pelo poderio do grupo fundiário e suas conexões com o poder político. Quanto ao cuidado coletivo, ele pode ser a estratégia que atenue o sofrimento psicossocial, porém é necessário a articulação de políticas públicas que assegurem o direito à saúde, além do direito à terra.
SAÚDE MENTAL E RESILIÊNCIA EM ADOLESCENTES E ADULTOS EMERGENTES APÓS RUPTURA DE BARRAGEM EM BRUMADINHO
Apresentação oral
1 FIOCRUZ MINAS
2 FIOCRUZ MINAS; UFMG
Apresentação/Introdução
A saúde mental é um direito humano fundamental e pode sofrer efeitos adversos em decorrência de fatores de risco e ameaças associados a ações antrópicas no meio ambiente. As alterações socioambientais provenientes das atividades de grandes empreendimentos, como aquelas decorrentes da ruptura de barragens de empresas mineradoras, podem resultar em consequências para a saúde, o que evidencia a relação entre processos produtivos, transformações ambientais e condições de saúde das populações. Nesse contexto, a resiliência constitui um processo dinâmico de adaptação positiva diante de experiências adversas que ameaçam a saúde e o bem viver dos indivíduos em seus territórios.
Objetivos
Investigar as associações da resiliência com sintomas de depressão e ansiedade em adolescentes e adultos emergentes residentes no município de Brumadinho (MG), após a ruptura da barragem de rejeitos de mineração.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório transversal, conduzido na linha de base da coorte prospectiva do Projeto Saúde Brumadinho, com residentes no município de Brumadinho (MG), em 2021. Foram utilizadas as escalas Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9), para o rastreio dos sintomas de depressão, e Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7), para o rastreio dos sintomas de ansiedade, como principais variáveis de exposição, e a Brief Resilience Scale (BRS), para mensurar a resiliência, variável de desfecho do estudo, considerando possíveis variáveis de confusão e modificadoras de efeito. A amostra incluiu 852 adolescentes e adultos emergentes, de 12 a 29 anos de idade, residentes no território. Foram utilizadas as proporções do total de pontos na escala de resiliência (0 a 20 pontos). A partir de uma distribuição de Poisson, foram estimadas as razões de proporção de pontos (RP) e os intervalos de confiança de 95%, utilizando Modelos Aditivos Generalizados (modelos GAM). Um termo suave foi atribuído às escalas de sintomas depressivos e de ansiedade, bem como termos de interação destes com variáveis relacionadas ao desastre na região.
Resultados
Observou-se associação inversa consistente entre resiliência e sintomas depressivos e de ansiedade, com redução progressiva da resiliência à medida que aumentam os níveis de sintomas. Em relação à idade, verificou-se diminuição dos níveis de resiliência com o avanço etário, indicando menor efeito protetor da resiliência nos participantes com mais idade. Mesmo com níveis menores de sintomas depressivos, participantes expostos a potenciais condições adversas, como contato com a água do rio após o rompimento e residência nos estratos geográficos atingidos pela lama, apresentaram menores níveis de resiliência em comparação aos respectivos grupos de referência. Participantes que vivenciaram perdas de familiares no rompimento ou devido à COVID-19 também apresentaram níveis menores de resiliência, mesmo com cargas menores de sintomas de ansiedade. Adicionalmente, observou-se que, mesmo com níveis altos de sintomas depressivos, a prática de atividade física em níveis recomendados esteve associada a níveis mais altos de resiliência, em comparação aos que não realizavam atividade física. A raça/cor e a composição familiar alterada não modificaram a relação entre os sintomas e a resiliência.
Discussão
De forma geral, verificou-se que níveis mais elevados de resiliência estiveram associados a menores níveis de sintomas. Esses achados reforçam o papel da resiliência como fator protetivo no contexto da exposição a adversidades. O estudo contribui para o avanço do conhecimento acerca dos fatores de proteção e de risco relacionados à resiliência em contextos de desastres associados a grandes empreendimentos e às transformações socioambientais nos territórios. Sugere-se o delineamento de estudos longitudinais e qualitativos para aprofundar o conhecimento sobre as associações encontradas.
Conclusões/Considerações
A investigação dos processos de enfrentamento de adversidades que culminam em desfechos positivos mostra-se fundamental, podendo subsidiar o desenvolvimento de intervenções e ações voltadas à prevenção de agravos e à promoção da saúde mental de adolescentes e adultos emergentes após a exposição a desastres tecnológicos e socioambientais.
DETERMINAÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA SAÚDE NAS FRONTEIRAS ANDINAS: ESCASSEZ HÍDRICA, SOFRIMENTO PSÍQUICO E NEOLIBERALISMO
Apresentação oral
1 UNILA
2 UFSCar
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa analisa como a escassez hídrica, o sofrimento psíquico e os fluxos migratórios se articulam nas fronteiras andinas da América Latina, em especial na região trinacional entre Argentina, Chile e Bolívia. Parte-se da perspectiva da determinação socioambiental da saúde, compreendendo que os processos de saúde-doença-cuidado são produzidos por relações históricas, políticas, econômicas, ambientais e territoriais, e não por fatores exclusivamente individuais. Em contextos marcados pela racionalidade neoliberal, pela intensificação de atividades extrativas e pelo recrudescimento de políticas de controle fronteiriço, a chamada crise hídrica passa a operar como expressão material de desigualdades e disputas em torno da reprodução da vida. Nesse cenário, o sofrimento psíquico aparece imbricado à precarização das condições de existência, à instabilidade econômica, à mobilidade forçada e à fragilização das redes de cuidado.
Objetivos
Analisar como escassez hídrica, políticas migratórias restritivas, instabilidade econômica e expansão da mineração de minerais estratégicos conformam ecologias da crise nas fronteiras andinas. Busca-se compreender de que maneira esses processos afetam a saúde mental e produzem formas situadas de sofrimento psíquico, bem como identificar tensões entre abordagens biomédicas individualizantes e práticas coletivas de cuidado e autoatenção mobilizadas nos territórios.
Metodologia
Trata-se de pesquisa de natureza qualitativa, com abordagem etnográfica, realizada entre 2023 e 2026 em territórios da fronteira andina entre Argentina, Chile e Bolívia. A investigação contempla áreas de circulação migratória, localidades afetadas por escassez hídrica e contextos vinculados à presença de atividades extrativas. Os ambientes pesquisados incluem espaços de fronteira, territórios de vida e circulação de migrantes, serviços e redes locais de cuidado e atenção, além de contextos comunitários atravessados por conflitos em torno da água. Participaram da pesquisa migrantes, moradores locais, agentes estatais, trabalhadores de serviços e integrantes de organizações da sociedade civil. A produção do material empírico ocorreu por meio de observação etnográfica, registros de campo e interlocuções com sujeitos diretamente implicados nas dinâmicas territoriais investigadas.
Resultados
Os resultados indicam que a escassez hídrica, longe de se restringir a um problema de disponibilidade natural, se configura como processo social e político que intensifica vulnerabilidades pré-existentes. Observou-se que experiências de ansiedade, medo, desgaste emocional, exaustão e incerteza se articulam à dificuldade de acesso à água, à insegurança material, à violência institucional nas fronteiras e às disputas territoriais relacionadas à mineração. Também se evidenciou que discursos biomédicos centrados no indivíduo tendem a despolitizar o sofrimento, enquanto práticas comunitárias, redes solidárias e estratégias coletivas de autoatenção produzem respostas territorializadas de cuidado diante da precarização da vida.
Discussão
Os achados sugerem que a saúde mental, nesses territórios, não pode ser compreendida fora das dinâmicas de expropriação, controle, desigualdade e degradação ambiental que estruturam a vida nas fronteiras andinas. A crise hídrica, nesse sentido, expressa uma ecologia política da escassez, na qual água, mobilidade, trabalho, extração mineral e cuidado se encontram profundamente imbricados. A pesquisa dialoga com o campo da Saúde Coletiva ao reforçar a centralidade da determinação socioambiental da saúde e ao tensionar leituras individualizantes do sofrimento psíquico. Além disso, evidencia que o colapso ecológico se materializa de forma desigual, incidindo com maior intensidade sobre populações migrantes e grupos territorialmente vulnerabilizados.
Conclusões/Considerações
Conclui-se que a análise das fronteiras andinas permite evidenciar a inseparabilidade entre saúde mental, justiça socioambiental e disputas em torno da água e do território. Em contextos de neoliberalização, extrativismo e controle fronteiriço, o sofrimento psíquico emerge como expressão de processos estruturais de vulnerabilização. Ao mesmo tempo, redes solidárias e práticas coletivas de cuidado revelam possibilidades concretas de resistência e defesa da vida. O trabalho contribui, assim, para o debate da Saúde Coletiva sobre colapso ecológico, soberania dos territórios e construção de respostas políticas e comunitárias comprometidas com transformação social.
RESISTÊNCIA E SABERES: O FEMININO NO CUIDADO
Apresentação oral
1 UNEMAT
2 UFMT
Apresentação/Introdução
A relação entre mulheres, cuidado e saúde está historicamente marcada por papéis sociais atribuídos ao feminino e frequentemente naturalizados. Entretanto, o cuidado desenvolvido por coletivos de mulheres pode representar resistência e reconfiguração de saberes. Conforme aponta Federici (2019, 2023), processos históricos de controle sobre o corpo e o trabalho feminino retiraram das mulheres autonomia sobre seus conhecimentos. Tal movimento pode ser compreendido como epistemicídio, entendido como a destruição sistemática de saberes subalternizados, como argumenta Sousa Santos (2017). Nesse contexto, a medicina ocidental consolidou uma racionalidade biomédica marcada pela fragmentação do corpo e pela objetivação da doença, conferindo às práticas em saúde um caráter técnico e impessoal (Camargo Jr., 2005).
Objetivos
Discutir como o protagonismo de mulheres no cuidado à saúde em Cuiabá (MT) produz práticas que resistem à hegemonia da biomedicina.
Metodologia
Trata-se de um recorte de uma pesquisa qualitativa desenvolvida por meio de experiência etnográfica. O campo empírico corresponde ao quotidiano de uma casa situada no bairro Alvorada, em Cuiabá, Mato Grosso, onde um grupo de mulheres voluntárias desenvolve práticas medicinais como forma de cuidado à comunidade há cerca de 30 anos. A inserção no campo ocorreu entre setembro de 2022 e agosto de 2023, com registros sistemáticos em caderno de campo. A organização do material empírico resultou em pontos analíticos relacionados ao território como espaço de cuidado, aos saberes femininos na produção do cuidado e ao cuidado como resistência.
Resultados
Os resultados indicam que as práticas de cuidado do grupo de mulheres se organizam em três dimensões: o território como espaço de cuidado, os saberes femininos na produção do cuidado e o cuidado como resistência. O território do Alvorada está situado em uma casa reorganizada para acolher práticas medicinais voltadas à comunidade, com espaços destinados aos atendimentos e um quintal fitoterápico cultivado de forma agroecológica.
O grupo é composto principalmente por mulheres que chegaram ao espaço como usuárias e por trabalhadoras da educação pública. As atividades são organizadas de forma colaborativa e incluem preparo de insumos terapêuticos, cultivo de plantas medicinais, acolhimento e práticas como benzimento, radiestesia e bioenergética. Observou-se que muitas pessoas procuram o espaço após experiências pouco resolutivas no sistema biomédico.
Discussão
Os resultados evidenciam que o Alvorada se configura como um território de cuidado que ultrapassa a dimensão física da casa, constituindo-se como espaço comunitário de produção da saúde. A reorganização do espaço doméstico para práticas coletivas revela a potência das redes femininas na sustentação de iniciativas comunitárias de cuidado. As práticas desenvolvidas articulam saberes populares, espiritualidade e experiências de vida, produzindo formas de cuidado baseadas na escuta, no diálogo e na construção coletiva do conhecimento. Nesse contexto, o cuidado assume também dimensão educativa e relacional. A procura pelo espaço após trajetórias frustradas no sistema biomédico indica a coexistência de diferentes racionalidades de cuidado. Conforme argumenta Menéndez (2009), os sujeitos transitam entre sistemas médicos diversos na busca por respostas às suas necessidades de saúde. Assim, o protagonismo dessas mulheres contribui para afirmar saberes historicamente desqualificados e ampliar os sentidos da produção do cuidado.
Conclusões/Considerações
A análise do protagonismo de um grupo de mulheres orientado pela coletividade evidencia a produção de sentidos de cuidado que tensionam a hegemonia da medicina ocidental. A mobilização de saberes populares, espirituais e ancestrais sustenta práticas que escapam às lógicas tecnicistas e mercantilizadas da biomedicina, ainda que estabeleçam com ela relações estratégicas. A centralidade da casa como território de cuidado e a organização colaborativa das atividades reafirmam saberes femininos como formas legítimas de conhecimento e ação, evidenciando a potência de práticas coletivas na construção de outras possibilidades de viver e cuidar.
DESIGUALDADE ECONÔMICA E TAXAS DE HOMICÍDIO EM BELO HORIZONTE NO PERÍODO 2020 A 2022
Apresentação oral
1 Fiocruz Minas
2 UFMG
Apresentação/Introdução
A violência configura-se como um grave problema de saúde pública e social em escala global, sendo responsável por mais de 1,3 milhão de mortes anuais decorrentes de formas auto infligidas, interpessoais e coletivas, com predomínio da violência interpessoal, também denominada homicídio. Entretanto, a violência apresenta padrões espaciais marcantes, com variações entre e dentro de países, regiões e cidades, incidindo de forma desproporcional sobre grupos em situação de vulnerabilidade e configurando-se como um dos indicadores mais sensíveis das desigualdades sociais no espaço urbano.
Objetivos
Descrever a distribuição espacial da taxa de homicídios nos territórios de abrangência das Unidades Básicas de Saúde de Belo Horizonte, no período de 2020 a 2022.
Metodologia
A partir de dados harmonizados do projeto “Mortalidade e morbidade por violência e segregação residencial econômica: desenvolvimento de soluções locais orientadas por sistemas complexos” foram analisados os dados georreferenciados dos óbitos por violência (Capítulo XX, CID-10 com os códigos X85-Y09, Y871 e Y35) registrados no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), disponibilizadas pela Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Os dados populacionais e rendimento nominal médio mensal das pessoas responsáveis pelo domicilio foram obtidos do Censo demográfico de 2022. Os dados foram agregados por áreas de abrangência, que correspondem à unidade territorial de organização da Atenção Básica, definida com base nos princípios da territorialização. O Índice de Moran Local foi utilizado para identificar os agrupamentos espaciais.
Resultados
A taxa de homicídio variou de 4,22 a 152,94 por 100.00 habitantes nas 153 áreas de abrangência das Unidades Básicas de Saúde do município. Observou-se autocorrelação espacial negativa entre a taxa de homicídio e o rendimento médio do responsável pelo domicílio, com formação de 13 clusters do tipo baixo–alto, localizados principalmente nas regionais Nordeste e Norte; 11 clusters alto–baixo localizado nas regionais Centro-Sul e Pampulha; e 4 clusters baixo–baixo localizados nas regionais Pampulha, Norte e Venda Nova.
Discussão
Os homicídios expressam a síntese das desvantagens urbanas, enquanto a segregação socioespacial constitui uma das manifestações mais evidentes das desigualdades sociais, ao refletir a distribuição desigual de oportunidades no acesso a bens, recursos e serviços, com repercussões diretas nas condições de saúde da população.
Conclusões/Considerações
A distribuição espacial das taxas de homicídio nas áreas de abrangência das Unidades Básicas de Saúde em Belo Horizonte mostrou-se heterogênea e apresentou autocorrelação espacial negativa com o rendimento médio do responsável pelo domicílio. Nesse sentido, os serviços de Atenção Básica à Saúde assumem papel estratégico na identificação, no acolhimento e no enfrentamento das situações de violência, dada sua proximidade com os territórios. Assim, o avanço na qualidade da atenção e do acesso, orientado pelos princípios da justiça social e da integralidade, deve estar ancorado em uma análise contextualizada das dinâmicas territoriais.
Realização: