Programa - Roda de Saberes - RS08 - Trabalho, Precarização e Saúde do Trabalhador e trabalhadora
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
ACIDENTES DE TRÂNSITO NO SERVIÇO DE ATENDIMENTO MÓVEL DE URGÊNCIA EM TANGARÁ DA SERRA
Apresentação oral
1 Docente na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), campus Tangará da Serra-MT. Doutoranda no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT, Cuiabá - MT. Brasil.
2 Fundação Oswaldo Cruz. Instituto René Rachou. Belo Horizonte, MG, Brasil; Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Instituto de Saúde Coletiva, Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva, Cuiabá - MT. Brasil.
Apresentação/Introdução
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) é componente essencial da atenção pré-hospitalar, responsável pelo atendimento imediato a situações de urgência e emergência. Entre essas demandas, destacam-se os acidentes de transporte terrestre (ATT) que se configuram como um fenômeno socialmente determinado, relacionado à estrutura urbana e mobilidade, às condições de vida e trabalho e às dinâmicas econômicas locais. Esse agravo tem impacto social e sobrecarrega os serviços de saúde ao resultar em incapacidades, mortes prematuras e perda de produtividade. A análise do perfil desses atendimentos permite subsidiar ações preventivas, qualificar a assistência e otimizar a alocação de recursos.
Objetivos
Caracterizar os atendimentos prestados pelo SAMU a vítimas de acidentes de trânsito no município de Tangará da Serra-MT.
Metodologia
Estudo descritivo, com abordagem quantitativa, realizado a partir de um recorte do banco de dados de uma pesquisa matricial conduzida em Tangará da Serra, Mato Grosso. Foram incluídas fichas de atendimento do SAMU referentes a vítimas de ATT ocorridos nos anos de 2022 e 2023. Procedeu-se à análise descritiva das características gerais e demográficas.
Resultados
Foram analisados 2.619 atendimentos relacionados a acidentes de transporte terrestre. Observou-se predominância do sexo masculino (56,82%). A maioria das ocorrências foi atendida pela Unidade de Suporte Básico (94,27%), enquanto 5,73% demandaram Unidade de Suporte Avançado. Quanto ao local, 96,45% dos atendimentos ocorreram no município de Tangará da Serra. A principal unidade receptora foi a Unidade de Pronto Atendimento, responsável por 89,27% dos encaminhamentos. A faixa etária mais acometida foi de 1 a 29 anos (50,69%), seguida de 30 a 59 anos (43,66%) e de 60 anos ou mais (5,65%). O período noturno concentrou o maior número de atendimentos (38,22%), seguido do vespertino (33,60%) e matutino (27,64%).
Discussão
A predominância de vítimas do sexo masculino e de adultos jovens corrobora achados recorrentes na literatura sobre os ATT, possivelmente relacionados à maior exposição a comportamentos de risco, como velocidade excessiva, consumo de álcool e circulação em períodos noturnos. Além das exposições desiguais produzidas por condições estruturais de vida, trabalho e mobilidade urbana. A elevada proporção de atendimentos realizados por Unidades de Suporte Básico sugere menor gravidade imediata na maioria dos casos, embora represente importante demanda para o sistema de urgência. A concentração das ocorrências à noite reforça a necessidade de estratégias preventivas direcionadas a esses períodos, incluindo ações educativas e intensificação da fiscalização. O predomínio de encaminhamentos para a Unidade de Pronto Atendimento evidencia seu papel estratégico na rede de atenção às urgências e a importância da integração com o SAMU.
Conclusões/Considerações
A caracterização dos atendimentos por ATT assistidos pelo SAMU revela padrões relevantes quanto ao perfil das vítimas, períodos críticos e tipo de assistência prestada. Esses achados subsidiam o planejamento de ações preventivas, a qualificação do atendimento pré-hospitalar e a gestão do serviço baseada em evidências, contribuindo para a redução da morbimortalidade e o fortalecimento das políticas públicas de trânsito e saúde.
VIGILÂNCIA EM SAÚDE DO TRABALHADOR E TRABALHADORA DO CAMPO, FLORESTA E ÁGUAS EM PERNAMBUCO
Apresentação oral
1 Centro de Referência em Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora de Pernambuco- Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária – Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco.
2 Gerência de Vigilância em Saúde do Trabalhador – Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária – Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco.
3 Residência em Saúde Coletiva do Instituto Aggeu Maglhães – Fiocruz-PE
4 Coordenação de Povos e Comunidades Tradicionais – Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco.
Contextualização
Todos os trabalhadores são contemplados pela Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT), entretanto, devem ser priorizados pessoas e grupos em situação de maior vulnerabilidade. Do mesmo modo, a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, Floresta e Águas (PNSIPCFA) possui o objetivo de melhorar o nível de saúde por meio de ações que reconheçam as especificidades de gênero, de geração, de raça/cor, de etnia e de orientação sexual, objetivando o acesso aos serviços de saúde, a redução de riscos decorrente dos processos de trabalho e das inovações tecnológicas agrícolas. Dessa forma, o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora de Pernambuco (CEREST/PE) destacou como prioridade a construção de um Plano de Ação de Vigilância em Saúde do Trabalhador e Trabalhadora do Campo, Floresta e Águas de Pernambuco (PVISATTCFA/PE).
Descrição da Experiência
O Plano de Ação possui o objetivo de fortalecer a vigilância, a prevenção e a promoção da saúde do trabalhador e da trabalhadora do campo, floresta e águas (CFA). Para o seu desenvolvimento foi necessário realizar diversas ações como: 1) Articulações intra e intersetoriais; 2) Reuniões para apresentação da proposta e pactuações da construção do Plano; 4) Apresentação entre as áreas da PNSTT e da PNSIPCFA; e 5) Compartilhamento de dados institucionais disponibilizados pela Coordenação de Atenção à Saúde dos Povos e Comunidades Tradicionais (CASPCT) da Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE); 6) Proposta de capacitação da equipe do CEREST/PE sobre a PNSIPCFA; 7) Proposta de criação de Grupo de Trabalho (GT). Diante das discussões realizadas foi definida para elaboração do Plano a utilização da ferramenta 5W2H, Araújo (2017), que estabelece eixos estratégicos, ações, objetivos, metas, responsáveis e prazo de execução. Por conseguinte, os eixos pactuados foram: 1) Caracterização do território, identificação do perfil epidemiológico e produtivo e riscos relacionados ao trabalho da PCFA; 2) Vigilância dos ambientes e processo de trabalho e vigilância epidemiológica em saúde do trabalhador; 3) Educação permanente em saúde; 4) Atenção integral à saúde da PCFA; 5) Educação Popular em Saúde.
Objetivo e período de Realização
Apresentar o processo de construção do plano de ação estadual de vigilância em saúde do trabalhador e da trabalhadora do campo, da floresta e das águas.
Agosto de 2025 até o presente momento.
Resultados
Como principais resultados alcançados destacam-se: 1) A finalização da primeira versão do Plano; 2) O mapeamento dos povos e comunidades tradicionais no estado de Pernambuco; 3) Processo formativo com a equipe do CEREST/PE, realizada pela CASPCT, da SES/PE; 4) Formação de GT. O GT tem como atribuição finalizar e validar o PVISATTCFA/PE. Para isto, serão desenvolvidas ações como o aperfeiçoamento da primeira versão; a realização de duas oficinas regionais; e de um seminário estadual, bem como estabelecer a implantação do Plano.
Aprendizado e Análise Crítica
A articulação entre a PNSTT e a PNSIPCFA possibilitou a reflexão sobre a necessidade de incorporar o olhar crítico a partir das desigualdades de gênero, etnia, raça, território e diferentes modos de vida, no planejamento das ações de Vigilância em Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (VISAT). No âmbito político-institucional, o processo fortaleceu a articulação intra e intersetorial, possibilitando o reconhecimento desses sujeitos de direitos, além de evidenciar desafios estruturais, como a limitação de dados específicos sobre agravos relacionados ao trabalho dessas populações e a necessidade permanente de sensibilização das equipes de saúde sobre esta temática. Para além da elaboração de um instrumento formal, o processo revelou-se um movimento de construção coletiva, que tensiona práticas tradicionais e aponta para uma VISAT comprometida com a justiça social.
FORMAÇÃO EM VIGILÂNCIA DO CÂNCER RELACIONADO AO TRABALHO E AMBIENTE: APERFEIÇOAMENTO PARA AÇÃO NO TERRITÓRIO
Apresentação oral
1 Centro de Estudos, Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico em Saúde Coletiva
2 Instituto Nacional de Câncer, Coordenação de Prevenção e Vigilância, Área Técnica Ambiente, Trabalho e Câncer
Introdução
O câncer relacionado ao trabalho e ao ambiente tem ganhado relevância na saúde pública, impulsionado pela expansão do uso de agentes cancerígenos nos processos produtivos, pela complexidade das exposições e pela diversidade de neoplasias associadas. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) reconhece 525 agentes carcinogênicos; 79 ocorrem em atividades laborais e estão associados a 38 tipos de câncer. No Brasil, a industrialização ampliou a exposição a carcinógenos ocupacionais, muitas vezes em contextos de tecnologias inseguras e fragilidades normativas e institucionais na proteção à saúde do trabalhador. A mortalidade por Câncer Relacionado ao Trabalho em diversas unidades federativas brasileiras, particularmente nas regiões Norte e Nordeste, evidencia desigualdades estruturais nas atividades produtivas, nas condições laborais e na capacidade de vigilância em saúde. Esse cenário é agravado pela subnotificação nos sistemas de informação, o que reduz a efetividade das ações de prevenção, monitoramento e controle.
Objetivos
Apresentar o Curso de Aperfeiçoamento em Câncer Relacionado ao Trabalho e ao Ambiente desenvolvido pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), para fortalecer a compreensão das relações entre ambiente, trabalho e câncer, e qualificar as práticas de vigilância em saúde
Processo de produção com período de realização
Edições do curso de 2024 e de 2025
Resultados
O curso é destinado a profissionais do SUS, no Instituto Nacional do Seguro Social, do Ministério Público do Trabalho e no Ministério do Trabalho e Emprego, visando ampliar a capacidade de prevenção e vigilância do câncer nos territórios de atuação. Alinhado à Política Nacional de Educação Permanente em Saúde, o curso fundamenta-se em referenciais da saúde coletiva e da saúde do trabalhador, nas diretrizes da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer e em evidências sobre exposições ocupacionais e ambientais. Sua elaboração e coordenação envolveram profissionais da Área Técnica Ambiente, Trabalho e Câncer da Coordenação de Prevenção e Vigilância do INCA, em parceria com o Núcleo de Ensino a Distância, com parceria do Centro de Estudos, Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico em Saúde Coletiva, e apoio do Ministério Público do Trabalho. Com 180 horas, distribuída em seis unidades de aprendizagem, o curso aborda: o trabalho como uma determinação social da saúde; saúde e segurança do trabalhador; câncer e trabalho; sistemas de informação e notificação; vigilância das exposições ocupacionais a agentes cancerígenos; políticas públicas relacionadas ao câncer e ao trabalho. As atividades combinam momentos síncronos e assíncronos, promovendo interação e troca de experiências entre tutores e participantes. A avaliação inclui componentes formativos e somativos.Nas edições de 2024 e 2025, 114 profissionais foram certificados.
Análise crítica e impactos sociais do produto relacionados aos temas do congresso
O questionário de opinião indicou alta satisfação: 80% declararam-se satisfeitos e 100% reconheceram coerência entre objetivos e conteúdos, qualidade da tutoria e adequação da bibliografia. Mais de 90% avaliaram positivamente os recursos audiovisuais e as atividades avaliativas, embora parte tenha sugerido ampliação das videoaulas. Entre as recomendações destacam-se: exercícios práticos para elaboração de nexo causal entre trabalho e câncer; compartilhamento de experiências exitosas de vigilância em diferentes territórios; e ampliação da carga horária para 240 horas. Para a edição de 2026 (abril e novembro), estão previstas atualizações do conteúdo programático, incluindo a publicação de um e-book para os alunos; maior organização das atividades síncronas e incorporação de temas sugeridos pelos participantes. A proposta pedagógica estimula a reflexão crítica sobre os sistemas de produção e seus impactos relacionados ao ambiente e a saúde humana, reconhecendo exposições ocupacionais e ambientais no território. Espera-se que a formação contribua para qualificar profissionais como agentes de transformação, capazes de intervir no trabalho e no território para reduzir adoecimento por câncer e promover condições laborais seguras. A integração entre saúde do trabalhador, saúde ambiental e controle do câncer é estratégica para políticas públicas eficazes, orientadas pela prevenção, equidade e proteção social.
AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO DOCENTE NO ENSINO SUPERIOR NA PERSPECTIVA DA DETERMINAÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA SAÚDE
Apresentação oral
1 UESB
Apresentação/Introdução
No contexto contemporâneo, a universidade pública brasileira vem sendo atravessada por processos de intensificação produtiva, desfinanciamento e reconfiguração das relações de trabalho, que impactam diretamente nas condições de vida e trabalho do corpo docente. Enquanto território institucional, o espaço universitário materializa processos de determinação socioambiental da saúde, nos quais exigências produtivistas, sobrecarga administrativa e desigualdades de gênero se articulam na produção de situações críticas de adoecimento.
Objetivos
Descrever o perfil dos agravos relacionados ao trabalho de docentes do ensino superior notificados entre 2021 e 2025, sob à luz da determinação socioambiental da saúde nos territórios acadêmicos.
Metodologia
Trata-se de estudo epidemiológico descritivo, realizado com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), acessados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), abrangendo o território brasileiro no período de 2021 a 2025. Foram inclusos os registros de agravos relacionados ao trabalho de docentes do ensino superior. cApós avaliação da frequência dos registros, selecionaram-se os agravos mais frequentes: acidente de trabalho com exposição a material biológico, lesões por esforço repetitivo e distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER/DORT), e transtornos mentais relacionados ao trabalho. Agravos menos frequentes, como câncer ocupacional e perda auditiva induzida por ruído (PAIR), foram excluídos devido à baixa frequência no período. As variáveis analisadas foram tipo de agravo, sexo e ano de notificação, com cálculo de frequências absolutas e relativas para descrição dos dados. Por tratar-se de dados secundários, o estudo dispensa apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa.
Resultados
No período analisado, os transtornos mentais relacionados ao trabalho totalizaram 148 casos, sendo o agravo mais frequente, com predominância do sexo feminino (92,5%). Os acidentes de trabalho com exposição a material biológico somaram 135 casos, também com maior proporção no sexo feminino (68,8%) em relação ao masculino (31,2%). As LER/DORT registraram 74 casos, com predomínio do sexo feminino (83,7%), enquanto o masculino representou 16,2%. Em 2025 concentraram-se os menores percentuais do quinquênio: 16,2% dos registros de transtornos mentais relacionados ao trabalho, 14,8% dos casos de LER/DORT e 9,6% dos acidentes com exposição a material biológico. Não foram identificados casos de câncer ocupacional ou PAIR no período estudado.
Discussão
A predominância de transtornos mentais evidencia a centralidade do sofrimento psíquico no trabalho docente contemporâneo, marcado por intensificação produtiva e múltiplas exigências institucionais. A concentração de casos entre mulheres indica que a determinação socioambiental do adoecimento também se articula às desigualdades de gênero no território universitário, onde persistem assimetrias na distribuição de responsabilidades acadêmicas e na conciliação entre trabalho produtivo e reprodutivo. Enquanto território de vida e trabalho, a universidade mostra-se atravessada por tensões estruturais que se materializam em agravos à saúde, evidenciando a necessidade de fortalecer a Vigilância em Saúde do Trabalhador nas instituições de ensino superior.
Conclusões/Considerações
Os achados evidenciam que o adoecimento docente expressa as condições estruturais que organizam o trabalho nos territórios universitários brasileiros. A predominância de agravos entre mulheres reforça que a determinação socioambiental da saúde se articula às desigualdades de gênero no ensino superior, indicando que sofrimento e sobrecarga não se distribuem de forma homogênea. Os resultados apontam para a necessidade de fortalecer políticas institucionais sensíveis às desigualdades de gênero, capazes de transformar condições organizacionais que produzem adoecimento. Como limitação, destaca-se a subnotificação e incompletude dos registros no sistema de informação, o que pode impactar a magnitude real dos agravos analisados.
METODOLOGIA DE REVISÃO DE ESCOPO: CONTRIBUIÇÃO PARA A VIGILÂNCIA DA SAÚDE DOS TRABALHADORES BRIGADISTAS FLORESTAIS
Apresentação oral
1 FIOCRUZ/EPSJV
2 FIOCRUZ/ENSP
Introdução
As mudanças ambientais locais e globais, impulsionadas pelas atividades econômicas e somadas às ações de desmatamento, potencializam a ocorrência de incêndios florestais e contribuem para os agravos à saúde dos trabalhadores e trabalhadoras brigadistas de incêndio, responsáveis pelo combate aos incêndios florestais. Devido às precárias condições e práticas de trabalho, essa categoria profissional é considerada vulnerável aos impactos negativos à saúde, assim como pela falta de capacitação para a realização de suas atividades laborais com proteção e qualificação necessárias. As brigadas florestais são compostas por trabalhadores contratados e voluntários. Enquanto os brigadistas florestais voluntários exercem tal atividade por forte sentimento de pertencimento e de proteção do território que ocupam, a atividade profissional do brigadista florestal contratado, apesar de essencial para a sustentabilidade ambiental e proteção dos ecossistemas, ainda não é regulamentada.
Objetivos
Com o objetivo de fornecer subsídios técnicos e orientar a operacionalização de políticas públicas, sociais e de saúde, voltadas às ações de vigilância em saúde dos brigadistas florestais, propomos a realização de uma revisão de escopo como metodologia para avaliação da exposição ocupacional desses trabalhadores, além da capacitação desses profissionais e dos técnicos e gestores das Redes de Atenção à Saúde (RAS) do Sistema Único de Saúde (SUS), da RENAST, e do Sistema de Vigilância em Saúde dos estados, Distrito Federal e municípios.
Processo de produção com período de realização
Essa proposta será objeto de estudo do pós-doutorado do autor, sob orientação da coautora, a ser realizado no período de dezoito meses. A revisão de escopo compreende a realização de uma revisão prévia da literatura, para apreender o conhecimento do campo de pesquisa e identificar possíveis lacunas sobre vigilância em saúde dos brigadistas florestais, e definição da hipótese de partida ou pergunta norteadora a fim de delimitar a temática. Posteriormente, serão estabelecidos os critérios de inclusão e exclusão dos estudos levantados, e a escolha das bases de dados a serem utilizadas. Baseado na hipótese de partida ou pergunta norteadora deve ser formado um banco de dados a partir da organização dos estudos selecionados e incluídos, cujos dados extraídos na revisão de literatura devem ser avaliados e interpretados à luz do conhecimento científico atual, possibilitando a discussão dos resultados.
Propomos a utilização do processo de estudos Delphi, que dentre as metodologias de pesquisa qualitativa é considerada uma técnica de investigação que permite reunir um conjunto de especialistas na questão, que, mesmo distantes geograficamente, podem contribuir para uma melhor compreensão de temáticas complexas e abrangentes como esta, e orientar a tomada de decisões importantes, considerando todas as opiniões e consenso entre os pesquisadores. A metodologia Delphi tem na sua essência o potencial para ouvir, de maneira conjunta, as vozes, e considerar as opiniões de todos os envolvidos, buscando-se um consenso final.
Resultados
Acreditamos que a regulamentação da profissão "brigadista de incêndio", com consequente adoção de normas de segurança e saúde desse trabalhador, poderá garantir melhores condições de trabalho e proteção efetiva à sua saúde, devido a exposição a inúmeros fatores de riscos, como inalação de fumaça, exaustão, altas temperaturas, acidentes com animais peçonhentos, quedas e queimaduras, entre outros. Além disso, o reconhecimento dessa profissão contribuirá não apenas para a eficácia no combate aos incêndios florestais, mas também para a preservação da biodiversidade e manutenção dos modos de vida das comunidades indígenas e tradicionais.
Análise crítica e impactos sociais do produto relacionados aos temas do congresso
Apesar das recentes diretrizes de vigilância em saúde para os brigadistas florestais recomendadas pelo Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde (DSAST/SVSA/MS), ainda existem muitas lacunas a serem identificadas, compreendidas, avaliadas e preenchidas, no sentido da busca de ações estratégicas de prevenção eficazes de vigilância em saúde desses trabalhadores e trabalhadoras.
INVISIBILIDADE NA SAÚDE DO TRABALHADOR: UM ESTUDO DA LEISHMANIOSE TEGUMENTAR AMERICANA EM MATO GROSSO (2007-2025)
Apresentação oral
1 Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT)
Apresentação/Introdução
A Leishmaniose Tegumentar Americana vincula-se à determinação social e processos produtivos. Embora reconhecida como Doença Relacionada ao Trabalho (Portaria 1.339/1999), sua vigilância enfrenta desafios estruturais resultando em invisibilidade sistemática. Sob a lente da Epidemiologia Crítica, este estudo problematiza como o monitoramento oficial apaga o trabalhador, operando indicadores como dispositivos de saber-poder que privilegiam enfoques restritos à biologia, ao ambiente e às zoonoses.
Objetivos
Analisar a qualidade da informação sobre LTA em MT (2007-2025), investigando como as limitações do Sinan Net invisibilizam a caracterização sócio-ocupacional do agravo.
Metodologia
Estudo epidemiológico descritivo-crítico com dados do Sinan Net/MT (2007-2025), variáveis sócio-ocupacionais confrontando a oferta assistencial do CNES, serviços de saúde do trabalhador (Cód. 108) com os parâmetros de acurácia da Nota Técnica nº 02/2024-CGSAT/MS, sob o referencial da Epidemiologia Crítica
Resultados
No período (2007-2025), registraram-se 41.413 casos de LTA em Mato Grosso, dos quais 89,8% (n=37.210) concentram-se na População em Idade Ativa (PIA). O perfil é majoritariamente masculino (80%), com as regiões Alto Tapajós, Teles Pires e Noroeste concentrando 36% da carga estadual. Ao realizar a depuração dos dados e excluir ocupações não laborais, emergem como categorias predominantes os trabalhadores da agropecuária, mineração, extrativistas, motoristas, que representam aproximadamente 62% das ocupações válidas. Contudo, o percentual de "ignorado" ou "em branco" no campo ocupação é elevado, atingindo 44%. Variáveis críticas para a Vigilância em Saúde do Trabalhador, como o Campo 55 (DRT) e o CNAE, apresentam incompletude superior a 70%, revelando um vazio informacional estrutural que inviabiliza a caracterização plena da dimensão sócio-ocupacional e resulta em subnotificação do agravo.
Discussão
As evidências demonstram uma contradição epidemiológica: enquanto os dados demográficos apontam para a centralidade da relação com o trabalho, o dispositivo informacional silencia essa evidência. Conforme teoriza Jaime Breilh (2006), a estatística oficial, sob o manto de uma suposta neutralidade, muitas vezes opera como um dispositivo de apagamento, onde a omissão do dado é um ato político de ocultamento da determinação social. Este silenciamento no Sinan Net é crítico, pois sem dados confiáveis não existe gestão pública. A análise do CNES revela que Mato Grosso possui 190 estabelecimentos com registro de serviço em Saúde do Trabalhador (Cód. 108); contudo, essa oferta nominal não se traduz em sensibilidade notificadora, expondo um descompasso entre a produtividade assistencial e a vigilância real. Adicionalmente, a ausência de indicadores com elevado grau de acurácia — como os limitados pela Nota Técnica 02/2024-CGSAT/MS — prejudica os trabalhadores, uma vez que a LTA é reconhecida no campo jurídico e da seguridade social como doença ocupacional via NTEP. Embora as bases do Sinan não se vinculem diretamente ao benefício, a fragilidade dos dados no SUS compromete a visibilidade necessária para subsidiar políticas de proteção. Tal apagamento desonera as instâncias de intervenção sobre os processos produtivos e dificulta o reconhecimento da LTA como agravo vinculado à dinâmica econômica do território.
Conclusões/Considerações
A epidemiologia da LTA em Mato Grosso evidencia um apagamento institucional do trabalho no território. Sob a ótica de Foucault (2008), o sistema opera como um dispositivo de governamentalidade, onde a ausência de indicadores sensíveis funciona como uma tática de biopoder que invisibiliza o adoecimento. Conclui-se que o atual modelo revela uma vigilância míope, pautada em normatizações operacionais — como a Nota Técnica 02/2024-CGSAT/MS — que falham ao não integrar indicadores assistenciais. O vazio revelado pelo CNES demonstra que a existência nominal de 190 serviços não garante a vigilância real, servindo a uma lógica de produtividade que foca no procedimento e silencia a notificação. Em diálogo com Firpo (2012) e Breilh (2006), é urgente que este monitoramento pioneiro transforme o dado em instrumento de emancipação, garantindo que a relação saúde-trabalho seja, após décadas, finalmente nomeada e protegida.
INVISIBILIDADE DOS TRABALHADORES DE ENDEMIAS E A LUTA POR ASSISTÊNCIA À SAÚDE, APOSENTADORIA E INDENIZAÇÃO.
Apresentação oral
1 1Agente de Combate às Endemias do Estado do RJ.; 2Projeto Integrador Multicêntrico: Estudo do impacto à saúde de Agentes de Combate às Endemias/Guardas de Endemias (ACE) pela exposição a agrotóxicos no Estado do Rio de Janeiro, Centro de Estudos da Saúde
2 2Projeto Integrador Multicêntrico: Estudo do impacto à saúde de Agentes de Combate às Endemias/Guardas de Endemias (ACE) pela exposição a agrotóxicos no Estado do Rio de Janeiro, Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, Escola Nacional
Apresentação/Introdução
A exposição a agrotóxicos não está relacionada somente à agricultura. Ela atinge toda a população brasileira, do campo à região urbana, através dos alimentos e água contaminados, inseticidas de uso doméstico, produtos para jardins e animais e na saúde pública, para combater vetores de doenças. Nesse cenário, os agentes de combate às endemias/guardas de endemias (ACE) têm adoecido precocemente por trabalharem com agrotóxicos desde a década de 1980 a fim de combaterem endemias como a dengue. Em pesquisa no Rio de Janeiro (RJ), realizada em conjunto com trabalhadores e academia, foi possível constatar que, os ACE vêm sendo expostos cronicamente a agrotóxicos de várias classes e capazes de causar danos renais, hepáticos, neurológicos, genéticos, hematológicos, imunológicos, reprodutivos, hormonais e cânceres. Alguns, inclusive, são banidos em outros países devido aos seus efeitos à saúde humana e ambiental.
Como resultado de décadas de exposição dos ACE do RJ observa-se o aumento dos casos de adoecimento e mortes precoces em idade média de 55 anos. Constatou-se que os exames periódicos dos trabalhadores federais não eram realizados há décadas pelos entes governamentais, situação que começou a ser regularizada em 2025. Ademais, não são fornecidos treinamentos sobre os perigos dos produtos utilizados ou equipamentos de proteção individual e os Pontos de Apoio não são adequados às Normas Regulamentadoras brasileiras.
Objetivos
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Metodologia
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Resultados
Os dados epidemiológicos, clínicos e toxicológicos produzidos forneceram subsídios para fundamentar a necessidade de proteção previdenciária diferenciada, considerando o caráter insalubre, perigoso e historicamente invisibilizado da atividade. A pesquisa realizada contribuiu técnica, cientifica e politicamente para o debate legislativo que culminou na PEC 14/2021, que redefine regras previdenciárias, o reconhecimento das condições especiais de trabalho e aposentadoria dos ACE, sendo aprovada na Câmara de Deputados TI23/2/26 em 2025, após anos de luta e do Projeto de Lei 5489/2023 (ACE federais), que estabelece o custeio integral da assistência à saúde desses trabalhadores e 30h de trabalho (PL 5312/2016).
Discussão
Verifica-se que os ACE são invisibilizados inclusive no Sistema de Notificação (SINAN) do país, onde não consta o nome dessa categoria nem dados de intoxicação. Somente os dados identificados junto aos ACE do RJ identificaram mais de 200 casos autorreferidos. A maioria dos profissionais de saúde inclusive ACS, aparecem como categoria no SINAN. No entanto, o mesmo não ocorre com os ACE, que são classificados como “outros profissionais de saúde”, evidenciando a invisibilidade da categoria na base de dados. Ademais, os trabalhadores têm vivenciado, agora com a disponibilidade da vacina da dengue, a crença de que a imunização prescinde a inspeção domiciliar, um equívoco que aprofunda tal invisibilidade e a importância do trabalho do agente para a saúde coletiva, ignorando que a vacina protege o indivíduo, mas o manejo ambiental realizado pelo agente assegura a proteção coletiva contra o vetor. Ressalta-se que é preciso notificar quaisquer casos suspeitos de intoxicação por agrotóxicos, e, eliminar o modelo químico-dependente empregado no combate às endemias promovido no país pelo poder público.
Conclusões/Considerações
A estratégia de combate aos vetores é baseada em envenenar e silenciar, quando o país, na realidade deveria investir em medidas que resolvessem a causa dos problemas e das condições favoráveis para a proliferação dos vetores de doenças endêmicas como o investimento em saneamento ambiental público e imunização, e ações centradas na educação e vigilância em saúde. As estratégias de educação em saúde precisam ser construídas entre os agentes e a comunidade, visando a prevenção e o controle do surgimento de focos de vetores. Além do controle mecânico e biológico como alternativas mais seguras e eficientes se comparadas ao modelo químico-dependente hoje preconizado, para o controle vetorial e de endemias.
AVALIAÇÃO DA PERDA AUDITIVA RELACIONADA AO CONSUMO DE ÁLCOOL EM TRABALHADORES.
Apresentação oral
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
A perda auditiva é a diminuição da capacidade de ouvir e compreender sons, podendo variar de leve a profunda e afetar a comunicação, a qualidade de vida e o desempenho nas atividades diárias. Essa condição pode ser causada por danos às células sensoriais do ouvido interno ou ao nervo auditivo, os quais são irreversíveis. A condição pode estar associada a diversas doenças relacionadas à saúde do trabalhador. Dentre essas, o alcoolismo, relacionado ao hábito etílico, caracterizado pelo consumo frequente e excessivo de bebidas alcoólicas. Esse comportamento pode levar à dependência e provocar diversos prejuízos à saúde física e mental, afetando o funcionamento do sistema nervoso central e podendo contribuir para alterações auditivas. O consumo de álcool também pode ocasionar efeitos ototóxicos, possível degeneração do córtex auditivo, além de sintomas como zumbido e tontura. Além disso, o consumo excessivo de álcool pode afetar o trabalhador em aspectos cognitivos e sociais, comprometendo atenção, memória, interação social e desempenho no ambiente de trabalho. A importância da adoção de hábitos de prevenção voltados à redução do consumo de álcool, à promoção à saúde, à conscientização sobre os riscos do alcoolismo e à preservação da saúde auditiva, bem como a atuação de profissionais da saúde, como psiquiatras, psicólogos e equipes multidisciplinares, além de grupos de apoio, voltados a preservação da saúde auditiva.
Objetivos
Avaliar a perda auditiva e sua associação com o consumo de álcool em trabalhadores atendidos em centro de referência em saúde do trabalhador.
Metodologia
Estudo descritivo de 887 trabalhadores que foram atendidos no ambulatório de audiologia do Cesteh/Ensp/Fiocruz, no período de 2023 a 2025. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (N° CAE 44863121.0.3002.5257).
Resultados
Dos 887 prontuários, 281(31,6%) relataram ingerir álcool em diferentes doses e, a perda auditiva foi detectada em 146 (52%) trabalhadores. Destes, 44 (15,7 %) não tinham exposição ao ruído ou exposição química, mas em 24 (54%) foi encontrada perda auditiva. Outro aspecto importante foi o relato de zumbido por 185 (56%) trabalhadores. E, entre os 28 trabalhadores que relataram pausa do consumo de álcool, apenas 2 (7%) não apresentaram perda auditiva na reavaliação.
Discussão
Os dados revelam uma relação preocupante entre o consumo de álcool e o comprometimento auditivo, mesmo esse estudo tendo sido conduzido num ambulatório especializado e o efeito do trabalhador sadio. O registro mais significativo é que 54% dos pacientes que consomem álcool apresentaram perda auditiva, mesmo sem exposição a ruído ou a agentes químicos ototóxicos, sugerindo que o álcool pode atuar como um agente isolado. A constatação de que 56% dos pacientes que consumiram álcool apresentaram zumbido corrobora o impacto deletério dessa substância no sistema auditivo. A baixa taxa de recuperação auditiva após a interrupção do consumo de álcool (apenas 2 trabalhadores não apresentaram perda auditiva) indica que os danos podem ser persistentes ou de difícil reversão.
Conclusões/Considerações
Os dados sugerem associação entre o consumo de álcool e o risco relevante a saúde auditiva. A manutenção da perda auditiva na maioria dos trabalhadores que interromperam o consumo de álcool sugere ainda que os danos podem ser permanentes. Este estudo ressalta a urgência em políticas públicas relacionadas ao consumo de álcool para melhor preservação auditiva dos trabalhadores e evidencia a necessidade de incluir a informação do hábito etílico nos programas de prevenção.
O DIREITO AO ADOECIMENTO: O TRABALHO DAS CAMELÔS E AS REIVINDICAÇÕES DO ADOECER.
Apresentação oral
1 MUCA - RJ; UFRJ.
2 MUCA - RJ.
3 MUCA - RJ
4 UFRJ.
Contextualização
Com mais de vinte anos de atuação militante na cidade do Rio de Janeiro, o Movimento Unido dos Camelôs (MUCA) se constituiu como um espaço de circulação dos saberes dos camelôs a respeito de suas condições trabalhistas, sendo, por esse motivo, um interlocutor privilegiado na proposição de políticas de saúde a este respeito. Nessa condição, por muitas vezes o movimento é convidado para a participação em conferências e encontros voltados a políticas de saúde. Ainda assim, nota-se um especial desconforto com o fato de que por vezes suas falas são como que “silenciadas” diante dos discursos dos especialistas em saúde pública. A recorrência com que esses atos ocorriam fez com que, no início de 2024, o Grupo de Trabalho em Saúde do MUCA propusesse a realização de alguns encontros com o objetivo de debater sua presença nos espaços das conferências voltadas à saúde, assim como de estruturar suas pautas sem as fronteiras que acabavam por ser impostas nessas mesmas conferências.
Descrição da Experiência
Os encontros ocorreram na Ocupação Gilberto Domingo e reuniram trabalhadoras camelôs e estudantes universitárias. A ideia que orientava os encontros era a de formar uma versão própria sobre os problemas enfrentados pelas trabalhadoras camelôs para além das fronteiras dos especialismos em saúde e, assim, poder marcar uma posição a despeito desses limites que sempre acabavam sendo impostos. Em função das urgências a que todo movimento social está propenso, foram poucos os encontros realizados. Ainda assim, os debates se mostraram intensos e muito ricos.
Objetivo e período de Realização
Os encontros ocorreram entre os primeiros meses do ano de 2024 e tinham como objetivo criar um espaço próprio de debates para questões relacionadas à saúde que não precisassem se submeter a fronteirizações. Esses encontros buscavam estabelecer um espaço livre desses constrangimentos, em que a partir de suas próprias falas as trabalhadoras pudessem dar forma a seu saber a ponto de este poder ser defendido publicamente em seu poder de contraposição às fronteirizações que bloqueiam o debate em saúde.
Resultados
De forma surpreendente, assumiu o protagonismo dos debates não o conhecido lema do “direito à saúde”, mas aquilo que resolvemos chamar de “direito ao adoecimento”. A impossibilidade de “tirar um atestado” nos momentos de adoecimento faz com que muitas vezes não se tenha o direito de adoecer – ou seja: o direito a respeitar os limites físicos e mentais do corpo e, assim, poder “tirar um tempo” para cuidar de si sem ter prejuízos financeiros. E isto de modo que, por vezes, buscam-se formas de “camuflar” o adoecimento justamente para não se ter prejuízo na renda – que se apresenta muito restrita para a maior parte das pessoas. A necessidade de manter a produtividade pesa sobre as possibilidades de reconhecer, vivenciar e mesmo evidenciar para si e para o outro alguma condição de adoecimento. Isso faz com que muitas das vezes ele seja reconhecido apenas quando a doença se impõe em um estado já agravado e mais difícil de tratar. Dessa forma, o que se apresentou como questão foi justamente a ausência de condições sociais de se vivenciar a experiência do adoecimento e as suas reivindicações. É crucial estabelecer que essas questões se apresentaram de forma incisivamente articuladas às imposições sociais de gênero.
Aprendizado e Análise Crítica
Em nossa perspectiva, a importância do debate em torno do “direito ao adoecimento” se dá justamente naquilo em que sua surpresa põe em causa o distanciamento entre os especialistas “oficiais” em saúde do trabalhador e as trabalhadoras informais em seu cotidiano. Acreditamos que a reflexão sobre as condições políticas que estão envolvidas na demanda pelo "direito ao adoecimento" possam elucidar os limites que até então encontramos nas políticas públicas em saúde voltadas às trabalhadoras informais.
MAPEAMENTO DE CASOS ENVOLVENDO TRABALHADORES DA CIÊNCIA BRASILEIRA PERSEGUIDOS E AMEAÇADOS POR SUAS ATIVIDADES LABORAIS
Apresentação oral
1 ENSP/Fiocruz
Apresentação/Introdução
Indivíduos que expõem e denunciam potenciais irregularidades e riscos envolvidos em processos, produtos ou atividades de interesse público são denominados whistleblowers. Trabalhadores que atuam na ciência brasileira, como pesquisadores e servidores públicos alocados em órgãos de pesquisa e fiscalização, podem se tornar possíveis denunciantes ou whistleblowers científicos. Esse ato os coloca em posição de vulnerabilidade, expostos a perseguições, ameaças e represálias, que visam silenciá-los e descredibilizá-los, além de desencorajar novas denúncias e investigações.
No Brasil a rede de proteção e acolhimento a denunciantes científicos está em processo de construção, sendo necessário investigar o perfil dos casos, as áreas mais afetadas e os mecanismos utilizados para intimidar esses denunciantes. Essas informações podem contribuir para a implementação de medidas de proteção às vítimas e para a criação de condições para que novas perseguições não ocorram.
Objetivos
Mapear casos de whistleblowers científicos ocorridos no período de 2000 a 2025 no Brasil.
Metodologia
Foi realizada uma pesquisa documental exploratória entre outubro e dezembro de 2025, para identificação de casos de whistleblowers científicos. Os casos de denunciantes foram prospectados em fontes digitais de acesso aberto, utilizando-se os portais G1, UOL, CNN Brasil, Terra, Metrópoles, Agência Pública, The Intercept Brasil e Repórter Brasil. Os dados foram organizados em planilhas, contendo o ano da denúncia, a temática, atividade econômica envolvida, unidade da federação, e o gênero, raça/cor e estado de origem do denunciante.
Resultados
Foram identificados no Brasil 16 casos de perseguição a cientistas (15 indivíduos e 1 grupo de pesquisa). Dois casos individuais tiveram ocorrência em múltiplos anos, o primeiro caso ocorreu em 2016 e continuou em 2017, o segundo caso sofreu episódios de violência em 2019 e em 2021. O caso mais antigo foi registrado no ano 2000 e o mais recente em 2021, com os anos de 2018 (3 casos) e 2019 (4 casos) concentrando a maior parte dos casos.
A região sudeste concentrou a maior parte dos casos (5), seguida pelas regiões Centro-Oeste(4), Sul (2), Norte (2) e Nordeste (1). Com relação ao gênero dos denunciantes, 60% eram homens e 40% eram mulheres
A maioria dos casos eram associados ao agronegócio (56,3%), existindo casos relacionados a Covid-19 (18,8%), Setor de infraestrutura e energia (12,5%), Direitos reprodutivos (6,3%) e Indústria alimentícia (6,3%).
Discussão
Os dados apontam que trabalhadores da ciência brasileira são potenciais alvos de perseguição durante o exercício de suas funções, expostos a situações de risco a sua integridade física e profissional. O fenômeno é complexo e plural, afetando diversos setores do conhecimento e da economia. Destaca-se que os casos encontrados representam apenas uma fração da realidade nacional, dado que o estado de vulnerabilidade do whistleblower científico faz com que por motivos de segurança, esses indivíduos busquem o anonimato.
Conclusões/Considerações
A perseguição na ciência brasileira apresenta diferentes manifestações, perpassando assédio moral e jurídico, ameaças à integridade física e profissional, provocando adoecimento físico e psíquico e resultando em interrupções de pesquisas, afastamentos, demissões e exílio. Para assegurar a qualidade da pesquisa brasileira, é necessário garantir o bem-estar de seus trabalhadores, através do fortalecimento dos mecanismos de proteção aos pesquisadores, da responsabilização dos agentes públicos e privados que promovem a perseguição, do combate à desinformação, e da valorização da ciência como instrumento de transformação social e melhoria da realidade.
A democracia necessita que o acesso à informação de qualidade de todo cidadão seja garantido, o que só pode ser alcançado se a liberdade de expressão científica for garantida a todos os trabalhadores da ciência.
TRABALHO, RAÇA E CLIMA: UMA CARTOGRAFIA SOCIAL DA SAÚDE DE PESCADORAS DIANTE DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Apresentação oral
1 Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Pernambuco), Instituto Aggeu Magalhães (IAM), Laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho (Lasat) – Recife (PE), Brasil.
2 Faculdade Pernambucana de Saúde - FPS Universidade Católica de Pernambuco - Unicap.
3 Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Pernambuco), Instituto Aggeu Magalhães (IAM), Laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho (Lasat) – Recife (PE), Brasil. Faculdade Pernambucana de Saúde - FPS
Apresentação/Introdução
A Ilha de Deus, comunidade pesqueira tradicional situada entre os bairros da Imbiribeira e do Pina, no Recife, configura-se como um território de resistência histórica marcado pela luta das mulheres na defesa do manguezal e pela permanência na terra. Localizada em uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), a comunidade enfrenta conflitos socioambientais decorrentes da expansão de grandes empreendimentos urbanos, que impõem uma lógica de exploração e desarticulação do modo de vida tradicional em favor da acumulação de capital. Nesse contexto, a crise climática e o racismo aprofundam as desigualdades, exigindo uma análise que compreenda a determinação social do processo saúde-doença sob a ótica das trabalhadoras da pesca artesanal.
Objetivos
A pesquisa teve por objetivo evidenciar as percepções das trabalhadoras da pesca artesanal da Ilha de Deus sobre as expressões da questão racial e das mudanças climáticas no processo saúde-doença.
Metodologia
Trata-se de pesquisa participante, de abordagem qualitativa, fundamentado na tradição da medicina social latino-americana e no materialismo histórico-dialético, desenvolvido por meio de cartografia social com três oficinas participativas e um encontro de validação coletiva com 17 mulheres. A coleta de dados ocorreu entre os meses de agosto a dezembro de 2025.
Resultados
A pesquisa identificou que o território da Ilha de Deus é marcado pela coexistência de processos destrutivos e protetores à saúde, sintetizados em cinco temas centrais que abrangem trabalho, questão racial e mudanças climáticas. O mapa social revelou que a precarização do trabalho na pesca e na catação do sururu está diretamente ligada à poluição de grandes empreendimentos e do saneamento deficitário, resultando em adoecimentos físicos como alergias, infecções e até câncer de pele, este último agravado pela falta de equipamentos de proteção e exposição solar. As trabalhadoras relataram uma ruptura no conhecimento tradicional devido às mudanças climáticas, fenômeno que denominam "Recife bipolar", onde a perda da previsibilidade das marés e do clima compromete a segurança produtiva. Além disso, a violência estrutural, manifestada pelo tráfico de drogas e pela ausência do Estado, foi apontada como um fator que gerou traumas, expulsões compulsórias do território e restrição da liberdade de circulação, impactando o bem-estar psicossocial das mulheres. Por outro lado, emergiram potentes processos protetores ancorados na organização coletiva feminina e no sentimento de pertencimento. Destaques incluem a construção da "Ponte Vitória das Mulheres" como símbolo de luta política, a criação de hortas comunitárias como espaços de lazer e segurança alimentar, e a economia solidária que transforma resíduos da pesca em artesanato, fortalecendo a autonomia financeira e a preservação da memória local.
Discussão
A crise ambiental e climática na Ilha de Deus não é um problema técnico, mas uma crise estrutural do capital que subordina a natureza e os corpos ao lucro. O termo "batalha pela memória" surge como um campo de disputa política, onde recuperar as narrativas das pescadoras serve para confrontar a invisibilização da classe trabalhadora. Conclui-se que ir além da resistência implica transformar a sobrevivência cotidiana em organização política efetiva, buscando uma emancipação que garanta vida digna e a permanência soberana no território.
Conclusões/Considerações
O território é apresentado como um espaço de disputa permanente, onde o manguezal sofre as pressões da especulação imobiliária e da poluição industrial, enquanto a população resiste através de saberes tradicionais e organizações locais. Os achados destacam que o desgaste das pescadoras se manifesta de forma concreta em doenças dermatológicas, traumas psicológicos causados pela violência e na insegurança gerada pelas mudanças climáticas. Em contrapartida, processos protetores como o sentimento de pertencimento e o retorno ao território após períodos de conflito atuam como mecanismos fundamentais de preservação da vida e da dignidade.
ESTRESSORES OCUPACIONAIS E SAÚDE MENTAL EM TRABALHADORES DA INDÚSTRIA DE ÓLEO E GÁS
Apresentação oral
1 Nupem - UFRJ
2 Cesteh - ENSP - Fiocruz
3 Cesteh - Ensp - Fiocruz
Apresentação/Introdução
Apresentação/Introdução: Os trabalhadores da indústria de Oleo & Gás vivem condições adversas no ambiente de trabalho, acarretando em altos níveis de estressores ocupacionais, como confinamento, imprevisibilidade devido à questões climáticas e de vínculode trabalho, regime de turnos, ruído constante e um ambiente de risco, com exposição à solventes. Dessa forma, esse estudo visa investigar a qualidade da saúde mental desses trabalhadores, avaliando indicadores de sofrimento psíquico.
Objetivos
Objetivo: Avaliar a saúde mental dos trabalhadores da indústria de Óleo & Gàs e associar aos riscos ocupacionais.
Metodologia
Metodologia: Participaram do estudo 44 trabalhadores da indústria de petróleo e gás, com a média de idade de 43 anos, em que responderam um questionário sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho por meio da plataforma RedCap, durante o ano de 2025. Esse questionário é composto por escalas validadas e padronizadas que avaliam o bem estar dos usuários, como o nível de estresse no trabalho, o equilíbrio entre vida e trabalho e a sobrecarga laboral.
Este trabalho foi aprovado pelo comitê de ética e pesquisa (CAAE 31197820.0.0000.5240).
Resultados
Resultados: As escalas com maior frequência de scores elevados, observou que: 47% dos trabalhadores têm alto nível de estresse no trabalho, 57,1% afirmam sentirem sobrecarga no trabalho, 52,4% tem conflito de expectativa de função, contudo, 57,1% acreditam ter um equilíbrio entre vida e trabalho. Além disso, um dado alarmante foi o resultado do questionário sobre sono, que 100% dos trabalhadores que possuem alto nível de estresse no trabalho têm algum nível de insônia. Além disso, 47,6% destes consomem café e 42,8% usam medicamentos para dormir. É válido ressaltar que todos trabalham em regime de turnos.
Discussão
Discussão: Esse estudo indica que os riscos psicossociais no contexto do ambiente de trabalho nas indústrias de óleo e gás pode estar diretamente relacionado à exposição química e aos estressores ocupacionais, que podem ser os responsáveis pelo prejuízo da saúde, como a diminuição da qualidade do sono, acumulando alto nível de estresse.
Conclusões/Considerações
Conclusões/Considerações finais: Considerando os resultados obtidos, faz-se necessário estratégias de manejo do estresse e suporte psicossocial, a fim de mitigar essas mazelas. Esse contexto laboral exige alto nível de atenção e vigilância, o que pode ser controlado com programas de promoção da saúde, onde os trabalhadores participem ativamente.
CADEIA DA CARNAÚBA NO PIAUÍ: INCLUSÃO SOCIOPRODUTIVA E GERAÇÃO DE RENDA EM COMUNIDADES EXTRATIVISTAS
Apresentação oral
1 Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)
2 Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
Contextualização
A carnaúba (Copernicia prunifera), é uma palmeira nativa do Nordeste brasileiro, símbolo de resistência ecológica e base de sustento para inúmeras famílias. O termo “carnaúba” é derivado do Tupi e significa “árvore-que-arranha”. Seu potencial está no aproveitamento integral das folhas, do talo, tronco, raízes e frutos, por isso é conhecida como “árvore da vida”, em que o uso pleno reforça sua importância econômica, social e ambiental (SOUSA, et al. 2015; ALMEILDA et al.2021). Nesse contexto, o projeto ArticulaFito, iniciativa conjunta da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), tem atuado no fortalecimento da cadeia de valor da carnaúba no estado do Piauí, com foco nos territórios de Campo Maior e Piripiri.
Descrição da Experiência
A experiência compreende o diagnóstico territorial participativo que integra a promoção da saúde e do trabalho digno, diversificação de produtos, organização produtiva, visibilidade do artesanato, resiliência climática e valorização da sustentabilidade e do conhecimento tradicional, envolvendo extrativistas, artesãos, cooperativas e demais atores locais. Uma das complexidades na cadeia é a assimetria de poder, especialmente entre a base produtiva e a indústria. Embora o pó da cera tenha alta valorização no mercado externo, a maior parte desse valor não é distribuída por igual entre todos os elos da cadeia, desde o extrativismo à exportação. A cadeia produtiva da carnaúba gera renda para milhares de trabalhadores durante a safra, sendo uma das principais atividades econômicas sazonais da região (SILVA et al. 2025). Nesse sentido, a falta de organização produtiva, gestão e acesso à informação, comprometem capacidade de negociação, compreensão dos custos reais da produção e acesso a políticas públicas.
Objetivo e período de Realização
Dessa forma, um dos objetivos estratégicos do ArticulaFito para o fortalecimento da cadeia é a assessoria em gestão financeira, no período de agosto de 2025 a março de 2026. Assim, foram desenvolvidas ferramentas adaptadas à realidade local, voltadas ao controle de despesas, planejamento financeiro e cálculo do preço justo.
Resultados
Esse processo demonstrou desafios significativos, como a inexistência de registros sistemáticos, falta de dimensionamento da capacidade ou volume de produção e a maturidade do pensamento e práticas cooperativistas ainda incipiente nas pessoas que trabalham na cadeia, predominando ainda o trabalho individualizado, aspectos que impactam diretamente na autonomia econômica das organizações. A metodologia adotada, baseada na educação popular e na construção coletiva do conhecimento, possibilitou não apenas a qualificação técnica, mas também a reflexão crítica sobre a posição dos diferentes atores na cadeia. Observou-se que o fortalecimento organizacional e financeiro das cooperativas como a COOAFRUT e COOPAFEX contribui para ampliar o poder de negociação e reduzir vulnerabilidades dentro da cadeia. Nesse contexto, o artesanato surge como alternativa de recuperação de histórias e memórias dos trançados, da diversificação de renda, de autonomia e prática terapêutica. Dessa forma atua como potencial alternativa sustentável ao enfrentamento da sazonalidade laboral das famílias que dependem da comercialização do pó da carnaúba, uma vez que a produção de artesanato pode ser feita durante o ano e a produção de pó somente por quatro meses. Assim, se tem um produto que gera perenidade de renda, com características ecologicamente corretas, sociocultural justo, pois deriva de habilidades e saberes populares próprios da região.
Aprendizado e Análise Crítica
Como principais aprendizados, destaca-se que o fortalecimento de cadeias da sociobiodiversidade exige abordagens integradas, que articulem dimensões produtivas, culturais e organizacionais. Portanto, a visibilidade do artesanato e o desenvolvimento de capacidades de gestão são fundamentais, acompanhados de estratégias para enfrentar as desigualdades estruturais da cadeia de valor da carnaúba nos territórios de Campo Maior e Piripiri no estado do Piauí.
DIVERSIDADE, AMBIENTE E TERRITÓRIO: FORMAÇÃO PARA TRABALHADORAS(ES) DA ESF EM ÁREA DE CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL (RJ)
Apresentação oral
1 Fiocruz
Contextualização
A Estratégia Saúde da Família(ESF), principal modelo de organização da Atenção Primária à Saúde no SUS, e que atua por meio de equipes multiprofissionais responsáveis por uma população em território definido, valoriza o vínculo com a comunidade, a coordenação do cuidado e a identificação de determinantes sociais, econômicos e ambientais do processo saúde-doença, além de desenvolver ações coletivas, vigilância em saúde e articulação intersetorial.
O presente trabalho foi realizado com trabalhadoras(es) da saúde que atuam em de Cidade dos Meninos, em Duque de Caxias(RJ), local marcado pela contaminação histórica por pesticidas organoclorados, como o HCH, com população de cerca de 2.400 pessoas.
A área é acompanhada pela USF Cidade dos Meninos(CDM), cuja equipe multiprofissional de 14 integrantes, inclui agentes comunitários de saúde, enfermeiros, técnico de enfermagem, assistente social, dentista, técnico em saúde bucal, fisioterapeuta, médico, nutricionista, e psicólogo, que atuam de forma integrada no cuidado de aproximadamente 2.155 pessoas.
Descrição da Experiência
A partir do diagnóstico situacional do território e da prática cotidiana da equipe de saúde, identificou-se, em parceria com a SMS de Duque de Caxias(RJ), a necessidade de atualização técnica em temáticas relevantes para o contexto local, dentre as quais destacaram-se a qualificação do cuidado em território vulnerabilizado e a ampliação do debate sobre gênero e diversidade.
Nesse contexto, foi proposto uma série de oficinas de atualização com o objetivo de fortalecer conhecimentos técnicos e ampliar a abordagem do cuidado das(os) trabalhadoras(res) da USF, incorporando perspectivas interseccionais. Como parte da formação, que abordou 12 temas de relevância, foi incluído um recorte específico voltado às questões de gênero e à população LGBTQIAPN+, considerando que a abordagem de gênero é fundamental na APS para reconhecer desigualdades estruturais que impactam o processo saúde-doença-cuidado.
A oficina na temática, que foi realizada na Fiocruz em dois encontros, contou com a presença das(os) 14 trabalhadoras(es) USF, abordou conceitos como sexo biológico, identidade de gênero, orientação sexual, marcos históricos das conquistas de direitos da população LGBTQIAPN+, incluindo avanços no âmbito do SUS, além de discutir práticas de atendimento e acolhimento.
Objetivo e período de Realização
O período de realização foi de 09/09/25 a 14/10/25, e teve como objetivos atualizar conhecimentos técnicos da equipe, qualificar o cuidado em um território marcado por vulnerabilidade socioambiental e incorporar uma abordagem ampliada e interseccional nas práticas de saúde.
Resultados
Após a realização da oficina, foi aplicado aos participantes um questionário de avaliação em formato fechado. Em relação às expectativas iniciais, cinco trabalhadores indicaram que foram alcançadas e nove relataram que foram superadas.
Apesar da realização de doze dias de encontros para cada grupo, a avaliação indicou que o tempo foi considerado insuficiente para aprofundar todos os temas abordados, especialmente diante da complexidade do território e das demandas identificadas. Entre os conteúdos discutidos, o tema relacionado à população LGBTQIAPN+ foi apontado pelos participantes como um dos três mais relevantes abordados.
Aprendizado e Análise Crítica
A oficina foi considerada uma experiência extremamente rica e necessária, especialmente em um contexto social marcado pela LGBTfobia e pela invisibilização dessa população. Segundo os palestrantes, a ausência de processos educativos que abordem historicamente essas questões contribui para que muitas pessoas não possuam conhecimentos básicos sobre a população LGBTQIAPN+.
Como o território se localiza em uma área mais afastada do centro urbano, foi considerada fundamental a apresentação de conceitos relacionados à população LGBTQIAPN+, com o objetivo de apoiar o atendimento nos serviços de saúde e esclarecer dúvidas relacionadas à orientação sexual e à identidade de gênero.
A avaliação geral indicou a relevância da experiência, destacando a necessidade de continuidade das ações formativas, fortalecimento da educação permanente em saúde e realização de novos encontros que permitam aprofundar os temas e acompanhar longitudinalmente os impactos da oficina na qualificação do cuidado.
SAÚDE DE TRABALHADORES CAMELÔS NO RIO DE JANEIRO: EXPERIÊNCIA DE FORMAÇÃO EM VIGILÂNCIA EM SAÚDE
Apresentação oral
1 CESTEH/FIOCRUZ
Contextualização
A informalidade constitui um elemento estrutural do mercado de trabalho brasileiro, caracterizado por intensa heterogeneidade das relações laborais e pela recorrente exclusão de direitos e proteções sociais. No Rio de Janeiro, esse cenário se agrava diante de processos históricos de negligência do poder público e de práticas de violência institucional direcionadas aos trabalhadores informais, intensificadas em contextos de reorganização urbana associados a mega eventos. Entre os grupos mais afetados por essas dinâmicas estão os trabalhadores e trabalhadoras camelôs, cuja atividade é frequentemente marcada por precarização, instabilidade e invisibilidade social. Nesse contexto, destaca-se a atuação do Movimento Unido dos Camelôs (MUCA), organização com mais de duas décadas de militância na defesa dos direitos da categoria e na construção coletiva de saberes sobre suas condições de trabalho e de vida. A partir dessa articulação entre movimento social e instituição de pesquisa, Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Fundação Oswaldo Cruz (CESTEH), emergiu a proposta de uma iniciativa formativa voltada à saúde do trabalhador camelô.
Descrição da Experiência
A experiência refere-se à realização da primeira turma do Curso de Formação em Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora Camelô na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, desenvolvida em parceria entre o CESTEH e o MUCA. A proposta articula formação e pesquisa, tendo como eixo central a análise da relação entre saúde, trabalho e ambiente no contexto da informalidade. O curso integra um projeto mais amplo de investigação sobre as condições de saúde dos trabalhadores camelôs e busca fortalecer a participação ativa da categoria na identificação de riscos ocupacionais, agravos à saúde e estratégias de vigilância em saúde do trabalhador.
Objetivo e período de Realização
A iniciativa tem como objetivo contribuir para a formação de trabalhadores camelôs como Multiplicadores de Vigilância em Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, estimulando processos de reflexão crítica sobre condições de trabalho, direitos sociais e acesso à rede pública de saúde. A primeira turma foi iniciada em agosto de 2025, com término em 19 de setembro de 2025.
Resultados
Para a primeira turma foi lançado edital público de inscrição no Campus Virtual da Fiocruz, com oferta de 26 vagas, sendo registradas 25 inscrições. O curso foi estruturado em oito encontros semanais, realizados às terças-feiras no período da manhã, com duração de quatro horas cada. As atividades formativas foram conduzidas por docentes do CESTEH/Fiocruz e abordaram temas como saúde dos trabalhadores camelôs, atenção integral à saúde, direitos trabalhistas e organização coletiva. Os participantes receberam auxílio estudantil no valor de 120 reais, visando apoiar sua permanência no processo formativo. A realização do curso tem possibilitado uma aproximação direta entre pesquisadores, docentes e trabalhadores camelôs, favorecendo a construção de vínculos de confiança, diálogo e troca de saberes.
Aprendizado e Análise Crítica
Os relatos dos participantes indicam a relevância da iniciativa ao evidenciar a ausência histórica de espaços de formação e debate voltados à saúde dos trabalhadores camelôs. Questões relacionadas à alimentação, saneamento, condições ambientais de trabalho e impactos físicos e mentais da atividade foram amplamente discutidas, permitindo ampliar a compreensão dos participantes sobre a relação entre trabalho e saúde. Também foram abordadas situações recorrentes de vulnerabilidade vivenciadas pela categoria, como apreensões de mercadorias e conflitos no espaço urbano. A experiência evidenciou o potencial de processos formativos construídos em parceria com movimentos sociais para fortalecer a produção compartilhada de conhecimento e ampliar a visibilidade das demandas dessa população. Ao reconhecer os trabalhadores camelôs como sujeitos ativos na construção de saberes e estratégias de vigilância em saúde do trabalhador, a iniciativa reafirma a importância de práticas formativas comprometidas com a justiça social e com o fortalecimento das políticas públicas de saúde do trabalhador.
IMPACTOS DO CALOR EXTREMO E DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NA SAÚDE DE SERVIDORES DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL
Apresentação oral
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnolgia Fluminense
2 Fundação Oswaldo Cruz
Apresentação/Introdução
O contexto capitalista neoliberal de industrialização desenfreada, degradação ambiental e precarização do trabalho tem ampliado desigualdades sociais e problemas de saúde. Como consequência principal desse contexto de impacto das atividades humanas no Sistema da Terra, as mudanças climáticas intensificam eventos extremos, que afetam a economia e a saúde, configurando uma sociedade de riscos. No Brasil o aumento da temperatura supera a média mundial, e o verão de 2024/2025 foi o mais quente desde 1961, acompanhado de incêndios, enchentes e secas prolongadas, com impactos severos sobre a infraestrutura, os ecossistemas e a população. No campo ocupacional, os riscos ampliados pelas mudanças climáticas afetam principalmente os trabalhadores, primeiros os expostos a eventos adversos, de forma intensa e inevitável, sobretudo em atividades ao ar livre. Entre os fatores ambientais, o calor extremo é o que mais compromete a saúde desses profissionais, como agricultores, garis, guardas municipais, trabalhadores da construção civil e ambulantes. Relatórios internacionais indicam que 70% da classe trabalhadora global está exposta ao calor extremo em algum momento do dia, com impactos sobre rendimento do trabalho, concentração, risco de acidentes e agravos à saúde. No caso dos trabalhadores da educação, o processo de ensino-aprendizagem também pode ocasionar riscos à saúde e à segurança, como distúrbios de voz e transtornos mentais, além dos riscos associados ao trabalho ao ar livre, como insolação, doença renal e câncer de pele, especialmente na educação profissional. Entre servidores públicos, tais riscos são agravados pelo estigma de não trabalharem e de fraudarem licenças médicas, responsabilizando-os pelo próprio adoecimento e resultando em políticas pontuais. Nesse cenário de futuro incerto, o trabalho decente e ambientes saudáveis são essenciais para o bem-estar e para uma sociedade justa.
Objetivos
Compreender os impactos do calor extremo e das mudanças climáticas sobre a saúde e as condições de trabalho dos servidores da educação profissional federal do Norte Fluminense do Rio de Janeiro.
Metodologia
A pesquisa está sendo desenvolvida no Doutorado Acadêmico em Saúde Pública e Meio Ambiente (Fiocruz/RJ) e encontra-se na fase de revisão integrativa. Trata-se de um estudo epidemiológico observacional descritivo seccional, com abordagem qualitativa e quantitativa, abrangendo servidores públicos da educação profissional federal do Norte Fluminense/RJ. O estudo contempla os territórios institucionais das atividades pedagógicas, administrativas e práticas ao ar livre, em ambientes internos e externos. São investigadas estratégias de enfrentamento, percepções, condições de trabalho, impactos sobre a saúde relacionados ao calor extremo e aos efeitos das mudanças climáticas, além dos dados climáticos locais.
Resultados
O estudo identifica como o calor extremo e os eventos climáticos intensos interferem na saúde física e mental dos servidores, influenciam a capacidade para o trabalho, ampliam riscos de acidentes e agravos, e se relacionam com as condições e a organização do trabalho na educação profissional.
Discussão
Os achados são discutidos à luz do contexto neoliberal de precarização do trabalho, da intensificação dos eventos climáticos extremos, da crescente exposição ocupacional ao calor, dos estigmas e das políticas institucionais. A discussão dialoga com o conceito de sociedade de riscos e com a necessidade de reconhecer o trabalho na educação como atividade sujeita a impactos ambientais diretos, especialmente em regiões marcadas por desigualdades térmicas.
Conclusões/Considerações
A pesquisa contribui para o reconhecimento dos efeitos do calor extremo e das mudanças climáticas sobre a saúde e as condições de trabalho dos servidores da educação profissional federal, evidenciando a urgência de políticas públicas e institucionais que garantam ambientes seguros, saudáveis e alinhados ao princípio do trabalho decente. Os resultados subsidiam ações preventivas, adaptações infraestruturais e estratégias de cuidado que fortaleçam a proteção social e a justiça climática no campo da educação.
Realização: