Programa - Roda de Saberes - RS09 - Soberania Alimentar, Nutrição e Direito Humano à Alimentação Adequada
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
FEIRA AGROECOLÓGICA DA UESB-JEQUIÉ: CONSUMO POLÍTICO, SUSTENTÁVEL E SAUDÁVEL
Apresentação oral
1 Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
Contextualização
A luta pela terra compreende o território como espaço vivo, ancestral e produtor de saberes, não restrito à dimensão física, mas entendido como chão de memória, pertencimento e organização coletiva. Nesse horizonte, a agroecologia emerge como crítica ao modelo capitalista que transforma a terra em mercadoria, defendendo-a como território de vida e dignidade. Em contraposição à lógica da produção intensiva e ao uso indiscriminado de agrotóxicos, propõe relações éticas com o solo, valorizando identidades camponesas e a saúde coletiva. O consumo alimentar, inserido no mercado convencional, distancia produtor e consumidor, obscurecendo a origem dos alimentos e seus impactos socioambientais. Assim, pensar a alimentação implica reconhecer que não há saúde dissociada da natureza. A universidade, por meio do tripé ensino-pesquisa-extensão, é convocada a dialogar com saberes populares e a assumir compromisso social. A extensão universitária constitui-se como espaço de interlocução entre conhecimentos acadêmicos e experiências sociais, fortalecendo práticas contra-hegemônicas e promovendo formação crítica e socialmente referenciada.
Descrição da Experiência
A Feira Agroecológica constitui-se como espaço permanente de mediação entre agricultoras e agricultores familiares e a comunidade acadêmica. Com a colaboração do MST – Brigada do Vale do Jiquiriçá – e feirantes municipais, são ofertados alimentos cultivados sem agrotóxicos, respeitando o tempo da natureza e práticas sustentáveis de manejo do solo. A experiência dialoga com iniciativas da comunidade Terra de Preto, no Assentamento Popular Claudemiro Dias Lima, em Jitaúna (BA), que desenvolve ações como Comunidade que Sustenta a Agricultura, mutirões de sementes crioulas e processos formativos. Durante os dias de feira, aplicam-se instrumentos avaliativos direcionados a agricultores, consumidores e equipe do projeto, investigando trajetória de luta pela terra, hábitos de consumo, percepções sobre alimentação saudável e impactos formativos da participação na ação extensionista.
Objetivo e período de Realização
O presente relato objetiva analisar a experiência da Feira Agroecológica da UESB – Jequié como prática articuladora entre promoção da saúde, consumo consciente e valorização da agricultura familiar, evidenciando sua contribuição para a integração entre campo, universidade e sociedade. A iniciativa integra o projeto “Feira Agroecológica do Campo ao Campus: Por um Consumo Político, Sustentável e Saudável”, vinculado ao Centro Interdisciplinar de Pesquisa Agroambiental (CIPAM). Iniciado em 2019, a partir de diálogos com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o projeto permanece em execução contínua, envolvendo bolsistas e voluntários organizados em diferentes frentes de trabalho, com ações sistemáticas de planejamento, organização e avaliação coletiva das atividades desenvolvidas.
Resultados
Os dados revelam significativa trajetória de resistência dos agricultores, com mais de quinze anos de luta pela terra e forte protagonismo feminino na produção e preservação de saberes. Entre consumidores, observou-se dependência inicial de supermercados e desconhecimento sobre alimentos sem agrotóxicos. Entretanto, a presença contínua da feira favoreceu mudanças progressivas nos hábitos de consumo, ampliando a valorização da agricultura familiar, da produção local e do consumo responsável. Para bolsistas e voluntários, a experiência demonstrou relevância formativa ao articular teoria e prática, fortalecendo a integração entre ensino, pesquisa e extensão e ampliando a compreensão crítica acerca das desigualdades socioambientais.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que a Feira Agroecológica ultrapassa a dimensão comercial, configurando-se como território de saberes, resistência e produção de consciência crítica. Ao integrar campo e cidade, promove diálogo entre conhecimentos acadêmicos e populares, reafirmando o papel social da universidade pública. Persistem desafios, como ampliar o alcance da feira e consolidar mudanças permanentes nos padrões de consumo. Ainda assim, a iniciativa demonstra que práticas extensionistas comprometidas com a agroecologia fortalecem a soberania alimentar, o protagonismo feminino e a construção de uma universidade socialmente referenciada, capaz de aprender com o território e valorizar a vida em suas múltiplas dimensões.
AMBIENTE INDIVIDUAL E ESCOLAR NO CONSUMO REGULAR DE VERDURAS DE ESTUDANTES EM CUIABÁ-MT
Apresentação oral
1 UFMT
Apresentação/Introdução
A adolescência é um período da vida onde o jovem estabelece de fato os seus hábitos alimentares,
que frequentemente serão mantidos na vida adulta, esses hábitos não resultam apenas de escolhas individuais,
mas de processos com influência social e ambiental. Entre possíveis fragilidades, podemos destacar o consumo
de legumes e verduras que apresenta-se abaixo do recomendado (400 gramas ou 5 porções de frutas, legumes e
verduras diariamente) de forma constante, estando associado ao maior consumo de ultraprocessados, distrações
enquanto faz a refeição e o ambiente que o adolescente convive. Nesse contexto, o ambiente escolar pode atuar
como um espaço onde as desigualdades se materializam, influenciando escolhas alimentares e o comportamento
alimentar propriamente dito. Portanto, investigar possíveis associações entre escolhas alimentares e influência
do meio, possibilita a criação de medidas e ações mais direcionadas aos estudantes.
Objetivos
Descrever o
consumo regular de legumes e verduras, segundo características do ambiente individual e escolar de
adolescentes da educação básica no município de Cuiabá, Mato Grosso.
Metodologia
Trata-se de um estudo
baseado em dados secundários da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2019). A amostra incluiu
5.069 estudantes de escolas urbanas e rurais da capital mato-grossense. A variável dependente em estudo foi o
consumo de legumes e verduras, avaliada por meio da pergunta: “Nos últimos 7 dias, em quantos dias você
comeu pelo menos um tipo de legume ou verdura que não seja batata ou aipim (mandioca/macaxeira)?”
. As
respostas foram categorizadas em: consumo esporádico, definido como o consumo em menos de cinco dias na
última semana, e consumo regular, definido como o consumo em cinco ou mais dias na última semana. As
variáveis independentes analisadas compreenderam características sociodemográficas (sexo, raça/cor), de
composição familiar (morar com pais), nível socioeconômico (presença de empregado doméstico) e do ambiente
escolar (infraestrutura para atividade física; venda de alimentos e horta na escola). Para comparações entre cada
variável independente e o consumo regular de legumes e verduras utilizamos o teste qui-quadrado de Pearson.
Resultados
A maioria dos estudantes possui consumo esporádico de legumes e verduras. O consumo regular
foi maior nos estudantes do sexo masculino (31,9%), de raça/cor branca (32%), que moravam tanto com o pai
(32,6%) quanto com a mãe (32,3%) e que possuiam empregado(a) doméstico(a) (36,9%). Com relação ao
ambiente escolar, observou-se que o consumo regular de vegetais pelos alunos nas escolas que participam de
jogos ou competições físico-esportivas é maior (32,7%), inclusive quando a escola organiza jogos entre turmas
ou entre escolas (31,8%). Em contrapartida, 37,4% dos estudantes que possuíam consumo regular estavam
matriculados em escolas que não possuem cantina (onde são comercializados alimentos e/bebidas) e nas escolas
em que se tem esse ambiente de compra, os alunos que escolhiam não comprar possuía maior consumo regular
de vegetais (32%). Porém, nas escolas com horta (37,3%) e que realizavam ações de educação alimentar e
nutricional (37,8%), o consumo regular de legumes e verduras foi maior.
Discussão
Considerando o ambiente
individual com foco na composição familiar e o uso de telas, observa-se que a influência das condições socioeconômicas e comportamentais impacta diretamente no consumo regular
de verduras e legumes. Além disso, o ambiente escolar com incentivo à prática de exercício físico, existência de
horta e a oferta de ações de educação alimentar e nutricional favoreceram o consumo regular de verduras e
legumes.
Conclusões/Considerações
Dessa forma, pode-se concluir que o ambiente individual e o ambiente escolar possuem grande
influência nas escolhas e hábitos alimentares dos estudantes, evidenciando a importância de ações e políticas
públicas que favoreçam a promoção da saúde no ambiente escolar por meio de ações intersetoriais.
ENTRE CORES E DESIGUALDADES: DISPARIDADES SOCIOECONÔMICAS E DE SAÚDE NOS RESTAURANTES POPULARES DE BH
Apresentação oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) representa um elemento central para a promoção da saúde e do bem viver, sendo diretamente influenciada pelas condições sociais, econômicas e estruturais que determinam o acesso aos alimentos. No Brasil, apesar de avanços recentes nas políticas públicas de enfrentamento da fome, persistem desigualdades históricas que atingem de forma desproporcional a população preta e parda. Evidências nacionais apontam que domicílios chefiados por pessoas negras apresentam maior prevalência de Insegurança Alimentar e Nutricional (IAN) quando comparados àqueles chefiados por pessoas brancas, refletindo desigualdades associadas ao racismo estrutural, à renda, às condições de moradia e ao acesso a oportunidades sociais. Nesse contexto, os Restaurantes Populares (RP) configuram-se como importantes Equipamentos de Segurança Alimentar e Nutricional, responsáveis por garantir refeições adequadas e acessíveis, especialmente para grupos em situação de vulnerabilidade social. Entretanto, ainda são limitados os estudos que analisam como as desigualdades raciais se manifestam entre os usuários desses equipamentos públicos.
Objetivos
Analisar as desigualdades sociodemográficas, econômicas e de saúde entre usuários brancos e pretos/pardos dos Restaurantes Populares de Belo Horizonte, Minas Gerais.
Metodologia
rata-se de um estudo observacional, de delineamento transversal, realizado entre outubro e dezembro de 2023 nas quatro unidades dos RP de Belo Horizonte. Participaram usuários com 18 anos ou mais, frequentadores dos restaurantes durante o período de coleta de dados. A amostra mínima estimada foi de 367 participantes, sendo incluídos 380 usuários selecionados por amostragem aleatória simples. As informações foram obtidas por meio de entrevistas presenciais com aplicação de questionário estruturado, contemplando características sociodemográficas, condições socioeconômicas, hábitos de vida, demandas carenciais e condições de saúde. A IAN foi avaliada por meio da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). As análises estatísticas foram realizadas no software Stata, utilizando testes Qui-quadrado, Exato de Fisher e teste t de Student, adotando-se nível de significância de 5%. A pesquisa seguiu as diretrizes da Resolução nº 466/2012 , sob o parecer nº CAAE 68126523.2.0000.5149.
Resultados
Participaram do estudo 380 usuários dos RP, com predominância do sexo masculino em ambos os grupos raciais. Usuários brancos apresentaram maior média de idade e maior renda familiar. Entre pretos e pardos observou-se maior prevalência de indivíduos solteiros, maior proporção de pessoas em situação de rua ou abrigo e maior frequência do hábito de fumar. A IAN moderada ou grave foi significativamente mais prevalente entre pretos e pardos (34,6%) quando comparados aos brancos (21,0%). Demandas relacionadas à moradia também foram mais frequentes nesse grupo. Além disso, pretos e pardos apresentaram maior consumo de desjejum e jantar nos RP.
Discussão
Os resultados evidenciam que a cor da pele se relaciona a desigualdades sociais, econômicas e de saúde entre os usuários dos RP. A maior prevalência de IAN e de vulnerabilidade social entre pretos e pardos reflete processos históricos de desigualdade racial que ainda estruturam o acesso à renda, moradia e oportunidades educacionais no país. Nesse contexto, os RP desempenham papel relevante ao garantir refeições acessíveis e regulares para populações em situação de maior vulnerabilidade.
Conclusões/Considerações
As desigualdades observadas evidenciam a persistência de disparidades raciais associadas aos determinantes sociais da saúde e da alimentação. Pretos e pardos apresentaram maior vulnerabilidade social, maior prevalência de IAN e maior dependência desses equipamentos para garantir refeições ao longo do dia. Esses achados reforçam a necessidade de que políticas públicas de SAN incorporem a dimensão racial em sua formulação e implementação. O fortalecimento e a expansão dos RP, articulados a políticas intersetoriais de redução das desigualdades sociais, são fundamentais para promover o direito humano à alimentação adequada e avançar na construção de maior equidade social.
MINHOCARINHO: UM RECURSO PARA A VIVÊNCIA DO SOLO VIVO E DO RESPEITO À VIDA
Apresentação oral
1 Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais, Universidade Federal de Mato Grosso câmpus Sinop.
2 Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso câmpus Sinop.
3 Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais, Universidade Federal de Mato Grosso câmpus Sinop
4 Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso câmpus Sinop
Contextualização
A técnica de vermicompostagem, ou minhocultura, pode estimular a curiosidade das crianças pelo seres vivos do solo, além de produzir húmus e biofertilizante, os quais são úteis na adubação agroecológica. As minhocas são excelentes aliadas para transformar o que seria considerado lixo em adubo para as plantas, trazendo assim a atenção das crianças ao processo de compostagem dos resíduos orgânicos de uma forma mais interessante. Além disso, a proposta de realizar atividades investigativas cria oportunidade para o exercício da argumentação científica, permitindo aos estudantes construir conhecimento sobre as ciências da natureza pela observação dos fenômenos naturais.
Descrição da Experiência
Seis turmas de uma escola de ensino fundamental, de 3o e 4o anos, receberam a responsabilidade de cuidar de minhocas em um sistema de composteira doméstica com três baldes empilhados, o qual foi colocado dentro das salas de aula. As professoras associaram esta atividade à manutenção da horta agroecológica da escola, durante o período de aproximadamente seis meses. Ao longo do projeto, as crianças acompanharam a produção do húmus e do biofertilizante gerados pelo processo de compostagem dos resíduos orgânicos utilizados como alimento das minhocas. Essas observações constantes permitiram a percepção direta da natureza das minhocas, como a fotossensibilidade, por exemplo. A grande vulnerabilidade destes seres vivos, por outro lado, facilmente suscetíveis à morte por excesso de calor ou acidez do meio externo, despertou nas crianças a atenção à manutenção das características do ambiente ideal para sua existência, pondo em evidência o conceito de “solo vivo”. A integração com as atividades na horta agroecológica permitiu a vivência de uma abordagem integrada do processo de cultivo de plantas e manutenção da saúde do solo. De forma complementar, as atividades pedagógicas relacionadas ao tema, como contação de histórias e criação de desenhos, permitiram trabalhar hipóteses que as crianças, em seu próprio tempo, puderam investigar diretamente. Por exemplo, a percepção de que nas histórias infantis as minhocas tem olhos, mas as reais não os têm.
Objetivo e período de Realização
O objetivo deste trabalho foi desenvolver atividades pedagógicas utilizando a criação de minhocas no processo de vermicompostagem, para estimular o conhecimento dos seres vivos que mantêm a saúde do solo, e a valorização destas vidas. Cada turma tinha o objetivo de manter seu minhocário vivo ao longo do ano letivo de 2025. Durante este tempo, as professoras e a equipe de extensão trouxeram conhecimentos científicos e técnicos relacionados a minhocultura, preservação do solo e do meio ambiente como um todo. Paralelamente, o projeto também utilizou o tema da minhoca para trabalhar a criatividade das crianças, fazendo contação de histórias, desenvolvendo atividades lúdicas e brincadeiras, motivando as crianças a manter os cuidados com o minhocário.
Resultados
Todas as turmas participantes participaram do projeto até o fim do período definido, participando das atividades propostas, contornando revezes que ocorreram e demonstrando interesse em aprender sobre a biologia das minhocas utilizadas na criação. Houve, em especial, uma situação dramática, onde as crianças de uma turma vivenciaram a perda de todas as minhocas do minhocário devido ao excesso de calor ambiental. A vivência desta situação e os desdobramentos subsequentes, foram uma experiência significativa e surpreendente para as crianças e participantes do projeto.
Aprendizado e Análise Crítica
Observamos que o interesse das crianças pelas minhocas foi mantido ao longo de todo o processo, havendo muitas oportunidades de investigação, de acordo com as descobertas encontradas no balde de minhocas. A morte das minhocas por excesso de calor em uma das turmas provocou uma onda de solidariedade nas demais, que se mobilizaram para que a classe pudesse ter novas minhocas para cuidar. Observamos também que, para as crianças da educação especial, o balde de minhocas trouxe muitas vivências importantes que estimularam o aprendizado de biologia.
NATUREZA, CORPO E CUIDADO: PICS NA PROMOÇÃO DA SAÚDE - HORTO FLORESTAL DE CUIABÁ (MT)
Apresentação oral
1 URPICS-SMS-CUIABA MT
Contextualização
As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) têm se consolidado no Brasil como estratégias relevantes para a promoção da saúde e o fortalecimento do cuidado integral no Sistema Único de Saúde (SUS). Essas práticas ampliam o modelo biomédico tradicional ao incorporar abordagens terapêuticas que valorizam o autocuidado, a escuta qualificada e a integração entre corpo, mente e ambiente. A institucionalização dessas práticas ocorreu com a criação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS, instituída pelo Ministério da Saúde em 2006, ampliando o acesso da população a terapias integrativas na rede pública.
No município de Cuiabá, a implementação das PICS ganhou relevância com a criação da Unidade de Referência em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (URPICS), localizada no Horto Florestal Tote Garcia. O espaço integra ações ambientais, educativas e de promoção da saúde, favorecendo a realização de práticas terapêuticas em contato com a natureza. A política municipal foi regulamentada pela Lei Municipal nº 6.296 de 2018, que instituiu diretrizes para o desenvolvimento das PICS na rede municipal de saúde.
Descrição da Experiência
A URPICS foi implantada em 2014 no Horto Florestal Tote Garcia, espaço tradicional da cidade voltado à preservação ambiental, educação ecológica e convivência comunitária. O ambiente natural favorece práticas terapêuticas relacionadas ao relaxamento, bem-estar e reconexão com a natureza.
O presente relato refere-se às atividades desenvolvidas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025. A unidade oferece atendimentos individuais e atividades coletivas voltadas ao cuidado integral de usuários do SUS, conduzidas por terapeutas holísticos vinculados à política municipal de práticas integrativas. O município possui em seu Plano de Cargos, Carreiras e Salários o cargo de terapeuta holístico destinado à atuação nas PICS na rede municipal de saúde, representando avanço no reconhecimento institucional dessas práticas.
Entre as atividades desenvolvidas destacam-se práticas de relaxamento e meditação, dança circular, expressão corporal, arteterapia e vivências grupais voltadas ao desenvolvimento humano. Também são ofertadas práticas integrativas como reiki, florais, auriculoterapia, movimentos sistêmicos, quiropraxia e atividades relacionadas ao uso de plantas medicinais. As atividades são realizadas em espaços internos e nas áreas verdes do Horto Florestal, favorecendo a integração entre saúde, natureza e convivência comunitária.
Objetivo e período de Realização
Apresentar a experiência de implantação, organização e funcionamento da Unidade de Referência em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (URPICS) no município de Cuiabá, destacando suas contribuições para a promoção da saúde, o cuidado integral e a valorização das práticas corporais e expressivas no SUS.
Resultados
A experiência da URPICS demonstrou contribuições relevantes para a promoção da saúde no município. Observou-se ampliação do acesso da população às práticas integrativas no SUS, fortalecimento de estratégias de cuidado não farmacológico e melhoria do bem-estar físico, emocional e social dos participantes.
As atividades também favoreceram a criação de espaços de convivência e apoio comunitário, valorizando saberes tradicionais e práticas populares de cuidado. As vivências coletivas estimularam processos de socialização e fortalecimento de vínculos, especialmente entre usuários em situação de vulnerabilidade social ou sofrimento emocional.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia o potencial das PICS como estratégia de cuidado ampliado no SUS, contribuindo para modelos de atenção mais humanizados e centrados na integralidade da saúde. Destacam-se como aprendizados a importância da integração entre saúde, meio ambiente e cultura, o papel das práticas corporais e expressivas no fortalecimento do vínculo comunitário e a valorização do autocuidado.
Persistem, contudo, desafios para a consolidação dessas práticas na rede pública, como a ampliação de recursos institucionais, o fortalecimento da formação profissional e a maior integração das PICS com a atenção básica e a rede de atenção psicossocial.
ASSOCIAÇÃO ENTRE TEMPERATURA E NUTRIÇÃO INFANTIL: APLICAÇÃO DE DISTRIBUTED LAG NON-LINEAR MODELS
Apresentação oral
1 CENTRO DE INTEGRAÇÃO DE DADOS E CONHECIMENTO PARA SAÚDE (FIOCRUZ)
2 Universidade Federal da Bahia / CENTRO DE INTEGRAÇÃO DE DADOS E CONHECIMENTO PARA SAÚDE (FIOCRUZ)
Apresentação/Introdução
Estudos sobre clima e saúde frequentemente utilizam medidas agregadas de exposição, como médias anuais ou mensais, desconsiderando a dimensão temporal dos efeitos ambientais. Essa simplificação limita a compreensão da dinâmica entre intensidade, duração e momento da exposição. Modelos Distributed Lag Non-Linear (DLNM) permitem integrar não linearidade e defasagem temporal em uma mesma estrutura analítica, ampliando a capacidade interpretativa da epidemiologia ambiental.
Objetivos
Apresentar a aplicação de DLNM na modelagem da associação entre temperatura ambiente e desfechos nutricionais infantis, explorando efeitos defasados e padrões temporais complexos.
Metodologia
Estudo observacional com dados do SISVAN vinculados à Coorte de 100 Milhões de Brasileiros (2008–2017), abrangendo território nacional. A exposição foi definida como temperatura média semanal proveniente da base BR-DWGD, com defasagem de até 11 semanas. Ajustou-se modelo linear generalizado binomial incorporando estrutura crossbasis, com função linear para a dimensão exposição e splines cúbicos naturais para a dimensão lag. Os modelos foram ajustados por variáveis sociodemográficas e ambientais.
Resultados
A modelagem identificou associação positiva entre temperaturas elevadas e maior probabilidade de déficit estatural, com maior concentração de efeitos nas primeiras semanas após a exposição. A estrutura DLNM permitiu distinguir componentes agudos e cumulativos, evidenciando padrões temporais complexos que não seriam detectados por modelos baseados em médias simples de temperatura.
Discussão
Os resultados evidenciam o potencial analítico dos Distributed Lag Non-Linear Models para investigar relações entre exposições ambientais e desfechos em saúde em contextos populacionais complexos. Diferentemente de abordagens tradicionais baseadas em médias agregadas ou modelos com defasagens únicas, os DLNMs permitem explorar simultaneamente a forma da associação exposição–resposta e a estrutura temporal dos efeitos, possibilitando identificar períodos críticos de maior sensibilidade à exposição térmica.
A aplicação dessa abordagem em bases administrativas de grande escala, como o SISVAN vinculado à Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, amplia as possibilidades de investigação na epidemiologia ambiental ao integrar dados populacionais e variáveis climáticas com alta resolução temporal. Nesse contexto, a modelagem com estrutura crossbasis mostrou-se adequada para decompor os efeitos da temperatura ao longo do tempo, permitindo diferenciar componentes imediatos e acumulados da exposição.
Além disso, o uso de funções spline para modelar a dimensão lag contribui para capturar padrões temporais potencialmente não lineares, frequentemente observados em estudos sobre clima e saúde. Essa característica representa uma vantagem importante em relação a modelos convencionais de regressão, que podem subestimar ou simplificar excessivamente a dinâmica temporal dos efeitos ambientais.
Conclusões/Considerações
A aplicação de DLNMs demonstrou ser uma estratégia metodológica robusta para analisar efeitos temporais complexos de exposições climáticas sobre desfechos em saúde infantil. Ao incorporar simultaneamente não linearidade e defasagem temporal, essa abordagem amplia a capacidade de compreensão dos mecanismos pelos quais fatores ambientais influenciam processos biológicos e sociais relacionados à saúde.
No campo da saúde coletiva, o uso dessa metodologia contribui para o aprimoramento das ferramentas analíticas disponíveis para o estudo das relações entre clima, ambiente e saúde, especialmente em cenários de mudanças climáticas e ampliação das bases de dados populacionais. Assim, a incorporação de abordagens que considerem explicitamente a dimensão temporal da exposição representa um avanço relevante para o desenvolvimento da epidemiologia ambiental.
TERRITORIALIZAÇÃO DA INSEGURANÇA ALIMENTAR EM COMUNIDADE URBANA DE CUIABÁ
Apresentação oral
1 UFMT
Apresentação/Introdução
A fome constitui uma das expressões das desigualdades socioespaciais no Brasil. Mais do que resultado da escassez de alimentos, trata-se de um fenômeno socialmente produzido, associado à distribuição desigual de renda, às condições de inserção no mercado de trabalho e ao acesso às políticas públicas. Nesse contexto, a insegurança alimentar torna-se uma categoria analítica relevante para compreender os diferentes níveis de privação alimentar vivenciados pela população.
No campo da Geografia, a fome pode ser analisada como fenômeno territorialmente produzido, manifestando-se de forma desigual no espaço urbano. Áreas periféricas, marcadas por vulnerabilidade socioeconômica e acesso limitado a serviços públicos, tendem a concentrar maiores níveis de insegurança alimentar. O bairro Jardim Eldorado, localizado na zona leste de Cuiabá (MT), insere-se nesse contexto e constitui o recorte territorial desta pesquisa.
Objetivos
O objetivo geral desta pesquisa é analisar como a insegurança alimentar se manifesta no bairro Jardim Eldorado, em Cuiabá (MT), considerando sua relação com as condições socioeconômicas e territoriais da população.
Como objetivos específicos, busca-se identificar as políticas públicas acessadas pelos moradores no enfrentamento da fome, analisar iniciativas comunitárias presentes no território e compreender a relação entre precarização do trabalho, renda e insegurança alimentar no contexto local.
Metodologia
A pesquisa fundamenta-se no materialismo histórico-dialético, abordagem que permite compreender a fome como expressão da questão social produzida pelas contradições estruturais do capitalismo. Adotou-se uma abordagem qualitativa, associada à análise de dados secundários.
O estudo foi realizado entre 2022 e 2024 no bairro Jardim Eldorado, localizado na zona leste de Cuiabá (MT). O percurso metodológico incluiu revisão bibliográfica sobre desigualdade social, produção do espaço urbano e insegurança alimentar, análise de relatórios e diagnósticos socioterritoriais produzidos em atividades de extensão universitária no bairro, além da interpretação de dados estatísticos da PNAD Contínua e do II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar (VIGISAN).
Resultados
Os resultados indicam que a insegurança alimentar no bairro está diretamente associada à precarização do trabalho e à instabilidade da renda familiar. Observou-se que parte significativa dos moradores encontra-se inserida em atividades informais, trabalhos autônomos de baixa remuneração ou em situações de desemprego.
No cotidiano das famílias, a insegurança alimentar manifesta-se principalmente pela redução do número de refeições, pela substituição de alimentos mais nutritivos por produtos de menor custo e pela dependência eventual de auxílios ou doações.
Também foram identificadas iniciativas comunitárias, como a horta existente no bairro, que contribui para a produção local de alimentos e para o fortalecimento das redes de solidariedade entre moradores.
Discussão
A análise evidencia que a fome observada no território não decorre da ausência de produção de alimentos, mas das desigualdades no acesso à renda, ao trabalho e às políticas públicas. A precarização das condições de trabalho amplia a vulnerabilidade social das famílias residentes nas periferias urbanas.
Nesse contexto, a territorialização da fome revela como as desigualdades estruturais se materializam no espaço urbano, atingindo com maior intensidade áreas periféricas caracterizadas por menor acesso a oportunidades econômicas e serviços públicos.
Conclusões/Considerações
A pesquisa demonstra que a insegurança alimentar no bairro Jardim Eldorado está associada às condições de precarização do trabalho, à instabilidade da renda e às desigualdades socioespaciais presentes nas periferias urbanas.
Embora políticas públicas e iniciativas comunitárias contribuam para amenizar situações de fome, tais estratégias apresentam limites diante das determinações estruturais que produzem a desigualdade social. Assim, o enfrentamento da insegurança alimentar requer políticas públicas integradas, voltadas à geração de emprego, à ampliação da proteção social e à garantia do direito humano à alimentação adequada.
PROMOÇÃO DA ALIMENTAÇÃO ADEQUADA E SAUDÁVEL NAS ESCOLAS: AVALIAÇÃO DO PROGRAMA DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR PAULISTANO
Apresentação oral
1 USP
Contextualização
A alimentação é central na determinação socioambiental da saúde. Hábitos alimentares são influenciados por fatores diversos, como raça, gênero e território; e sujeitos aos sistemas alimentares contemporâneos, que organizam de forma desigual o acesso a alimentos, contribuindo para a insegurança alimentar e a crise climática.
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) representa uma política pública fundamental de promoção da alimentação adequada e saudável, oferecendo regularmente alimentos in natura e minimamente processados, prioritariamente adquiridos da agricultura familiar.
Em São Paulo, a Coordenadoria de Alimentação Escolar da Secretaria Municipal de Educação (SME/CODAE) promove Educação Alimentar e Nutricional (EAN) crítica e emancipatória, articulada ao currículo escolar. A EAN amplia o contato dos estudantes com diferentes alimentos, práticas culinárias e saberes relacionados à cultura alimentar; sendo essenciais na promoção da alimentação adequada e saudável nas escolas e na formação de espaços coletivos que possibilitam repensar a alimentação na atualidade.
Descrição da Experiência
Para acompanhar as ações e seus efeitos, a CODAE realiza anualmente o Monitoramento. Ele se caracteriza como um questionário simultaneamente amplo e específico, que aborda aspectos objetivos e subjetivos das diretrizes do PNAE, tanto por território quanto tipo de escola. Em 2024, foi elaborado em reuniões intersetoriais, apoiadas pelo Laboratório de Inovação Pública de São Paulo.
As equipes gestoras das escolas responderam perguntas detalhadas sobre refeições, espaços de alimentação, cultura alimentar, EAN e hortas. Os dados de 2024 foram sistematizados em boletins direcionados às escolas e à gestão dos territórios educacionais, fornecendo informações relevantes para avaliação das iniciativas vigentes sobre alimentação, planejamento e implementação de novas ações.
Objetivo e período de Realização
O Monitoramento objetiva acompanhar a execução do PNAE em São Paulo integralmente, subsidiando gestores públicos na tomada de decisões e apoiando o planejamento das ações nos diferentes territórios urbanos. Ele permite avaliar com maior precisão e objetividade os efeitos dos programas desenvolvidos, possibilitando aprimoramento das estratégias utilizadas e potencialização das transformações positivas. A última edição foi realizada entre novembro de 2024 e março de 2025.
Resultados
Em 2024 foram obtidas 3.015 respostas, quase 80% das escolas ativas no período. Dessas, 73% indicaram ampliação do repertório alimentar como principal impacto da EAN. Simultaneamente, 40% das escolas relataram que estudantes trazem com frequência ultraprocessados de casa, evidenciando a influência dos ambientes alimentares externos no cotidiano escolar.
O desafio do desperdício, evidenciado pela menor aceitação de vegetais como grão-de-bico (52%) e berinjela (44,6%), reflete sistemas alimentares urbanos que restringem o contato precoce com alimentos in natura e minimamente processados, reforçando o papel estratégico da EAN nesse contexto.
Os resultados evidenciam o papel da alimentação escolar como nó crítico de políticas intersetoriais. Na CODAE, os dados promovem a integração de saberes entre os atores da rede, fortalecendo a execução do programa. Simultaneamente, em interface com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, as informações sobre hortas nos territórios apoiam a gestão de iniciativas voltadas à soberania alimentar e à sustentabilidade, integrando o combate à crise climática às dinâmicas locais.
Aprendizado e Análise Crítica
Os resultados evidenciam que a alimentação no cotidiano escolar é parte de sistemas alimentares urbanos complexos. A baixa aceitação de determinados alimentos e o consumo de ultraprocessados trazidos de casa refletem dinâmicas socioeconômicas, ambientais e culturais de cada território, que devem ser analisadas com atenção no planejamento e acompanhamento de políticas públicas.
O Monitoramento mostra-se ímpar no acompanhamento do PNAE sob ótica da comunidade escolar, evidenciando questões emergentes para a promoção da alimentação adequada e saudável no contexto educacional em uma cidade marcada por desigualdades socioeconômicas. Ainda, possibilita análises cruzadas e confere temporalidade aos resultados dessas iniciativas, apoiando a gestão de políticas públicas, promovendo articulação intersetorial e integração dos dados coletados.
HORTAS AGROECOLÓGICAS COMO ESTRATÉGIA DE PROMOÇÃO DA SAÚDE E EQUIDADE EM TERRITÓRIOS URBANOS
Apresentação oral
1 PSAT / Fiocruz Brasília
2 Câmara dos Deputados
Contextualização
No segundo semestre de 2025 foram implantadas nove hortas e hortos comunitários em territórios do município de Porto Alegre e da Região Metropolitana. Os espaços foram cultivados com legumes, verduras e plantas medicinais de uso comum nas comunidades e integraram as atividades do Curso Livre de Formação-ação de Agentes Populares de Equidade em Saúde no estado do Rio Grande do Sul, ofertado pela Fiocruz Brasília. A formação reuniu mais de 150 mulheres e abordou temas relacionados à promoção da saúde, justiça social, soberania e segurança alimentar e nutricional, considerando as singularidades dos territórios e as trajetórias das participantes.
A experiência dialoga com marcos importantes das políticas públicas brasileiras, como a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS e a Política Nacional de Alimentação e Nutrição, que incentivam práticas de cuidado integradas, o uso sustentável da biodiversidade e a promoção de ambientes alimentares saudáveis. Nesse contexto, as hortas comunitárias configuraram-se como dispositivos territoriais de cuidado, educação em saúde e fortalecimento comunitário.
Descrição da Experiência
A implantação das hortas ocorreu como etapa prática da formação das Agentes Populares de Equidade em Saúde. Durante quatro meses, as participantes realizaram atividades formativas sobre território, cultura, participação social e promoção da saúde, culminando na construção coletiva dos espaços de cultivo.
As hortas foram implantadas em nove territórios de Porto Alegre, Canoas, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo e Alvorada, em espaços comunitários como associações, escolas de samba, creches, coletivos culturais e terreiros de matriz africana. O processo incluiu reuniões de mobilização comunitária, rodas de conversa e oficinas práticas de cultivo agroecológico, abordando temas como produção de alimentos sem agrotóxicos, compostagem de resíduos orgânicos, cultivo de plantas medicinais e valorização de espécies alimentícias tradicionais.
Objetivo e período de Realização
O projeto foi realizado no segundo semestre de 2025 e teve como objetivo fortalecer processos comunitários de promoção da saúde por meio da implantação de hortas agroecológicas, deixando como legado concreto do curso espaços coletivos de cultivo, aprendizagem e cuidado nos territórios participantes.
Resultados
Foram implantadas nove hortas comunitárias em territórios da Região Metropolitana de Porto Alegre. Os espaços passaram a funcionar como locais de produção de alimentos saudáveis, educação ambiental, convivência comunitária e promoção da saúde física e mental.
A iniciativa também destacou o protagonismo feminino, ao formar mulheres como multiplicadoras de práticas agroecológicas e de cuidado nos territórios. Em muitos casos, as hortas tornaram-se espaços permanentes de encontro, troca de saberes e fortalecimento de vínculos comunitários.
Outro resultado relevante foi a sistematização das oficinas em uma cartilha intitulada Agroecologia Urbana: o cultivo afetivo de legumes, verduras e plantas medicinais em hortas domésticas e comunitárias, prevista para publicação pela Fiocruz em 2026, ampliando o alcance pedagógico da experiência.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstrou que hortas comunitárias são ferramentas úteis em estratégias de promoção da saúde e fortalecimento da atenção primária no SUS. Para além da produção de alimentos, esses espaços favorecem práticas de autocuidado, convivência e apoio mútuo, contribuindo para a saúde mental e para o fortalecimento de vínculos comunitários.
O processo também evidenciou o potencial das hortas urbanas na promoção da segurança alimentar e nutricional em territórios vulnerabilizados, ampliando o acesso a alimentos frescos e incentivando hábitos alimentares mais saudáveis.
Encontraram-se desafios para a manutenção das hortas, disponibilidade de tempo de algumas participantes e condições urbanas às vezes críticas, reforçando a importância do acompanhamento comunitário contínuo. Isto está sendo superado pelo fortalecimento da autonomia e do protagonismo das mulheres, que passaram a atuar como agentes de mobilização comunitária e difusão de práticas agroecológicas em seus territórios. Assim, as hortas consolidaram-se como territórios de cuidado, aprendizagem coletiva e construção de alternativas sustentáveis de vida nas cidades.
JARDINS TERAPÊUTICOS EM HOSPITAIS: NATUREZA, PROMOÇÃO DA SAÚDE E HUMANIZAÇÃO DO CUIDADO NO AMBIENTE HOSPITALAR
Apresentação oral
1 UnB
Apresentação/Introdução
Nas últimas décadas, a literatura em saúde ambiental e psicologia ambiental tem ampliado a compreensão de que os processos de saúde e adoecimento são influenciados não apenas por intervenções clínicas, mas também pelas características físicas e sensoriais dos ambientes onde o cuidado ocorre (van den Berg and van den Berg, 2015; Cervinka et al., 2014; Warner and Baron, 1993). Nesse contexto, hospitais passam a ser compreendidos como territórios terapêuticos complexos, nos quais o espaço físico atua como componente ativo na produção do cuidado.A incorporação da natureza em ambientes hospitalares tem sido associada à melhora do bem-estar psicológico, redução da ansiedade e maior satisfação de pacientes e profissionais (Marcus, 2018; Asano, 2008; Cui and Miao, 2012). Jardins terapêuticos se apresentam como intervenções socioambientais planejadas para promover experiências restauradoras por meio do contato sensorial com elementos naturais (Söderback et al., 2004; Halajova et al., 2019; Pachana et al., 2003).
Objetivos
Apresentar o delineamento e os avanços iniciais de uma revisão de escopo em andamento sobre jardins terapêuticos em ambientes hospitalares, visando mapear conceitos, benefícios associados à saúde, estratégias de implementação e lacunas de pesquisa existentes na literatura científica, a fim de subsidiar a proposição de jardins terapêuticos no Hospital universitário de Brasília - HuB.
Metodologia
Trata-se de uma revisão de escopo em desenvolvimento, integrante de pesquisa de mestrado em Engenharia Biomédica, conduzida conforme recomendações do Joanna Briggs Institute e diretrizes PRISMA-ScR.
A pergunta de pesquisa foi estruturada segundo o modelo PCC (População, Conceito e Contexto), considerando: (P) usuários de ambientes hospitalares; (C) jardins terapêuticos e intervenções baseadas na natureza; e (C) hospitais e seus espaços assistenciais. A estratégia de busca foi aplicada nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus e Web of Science no período de 09 a 13 de fevereiro de 2026, utilizando descritores controlados e termos livres relacionados à ambientes restauradores, design biofílico e ambiente hospitalar. Os registros foram exportados em formato BibTeX, integrados em biblioteca única e submetidos à remoção de duplicatas na plataforma Mendeley.
Resultados
Foram identificados 593 registros, resultando em 296 estudos únicos após a remoção das duplicatas. A etapa atual compreende triagem por títulos e resumos, seguida de leitura dos textos completos e extração sistemática dos dados. A análise exploratória inicial evidencia crescimento das publicações na última década, acompanhando o avanço das discussões sobre humanização da assistência e sustentabilidade em saúde. Os estudos descrevem jardins terapêuticos como espaços projetados para estimular interações positivas com a natureza por meio de vegetação, iluminação natural, acessibilidade e estímulos multissensoriais (Marcus, 2018; Asano, 2008). Entre os benefícios mais investigados destacam-se redução do estresse psicológico, melhora do humor, apoio à recuperação clínica e melhor experiência hospitalar (Naderi and Shin, 2008; Cui and Miao, 2012;Rivasseau-Jonveaux et al., 2013)
Discussão
Os achados iniciais reforçam a compreensão dos jardins terapêuticos como tecnologias ambientais de cuidado alinhadas aos princípios da promoção da saúde e da humanização do cuidado. A literatura sugere que o contato com a natureza atua como mediador psicossocial capaz de favorecer a restauração da saúde e ampliar abordagens integrativas entre saúde coletiva, arquitetura e planejamento ambiental (Karakaya
and Kiper, 2011; Droli, 2019; Abas et al., 2015).
Conclusões/Considerações
Embora ainda em desenvolvimento, a revisão indica o potencial dos jardins terapêuticos como estratégia promissora para a qualificação dos ambientes hospitalares . Ao sistematizar evidências e identificar lacunas de conhecimento, o estudo busca contribuir para a consolidação teórica do tema e subsidiar iniciativas de planejamento ambiental em serviços de saúde. Nesse sentido, os resultados finais deverão fundamentar a proposição de jardins terapêuticos no Hospital Universitário de Brasília (HuB), de acordo com os objetivos da dissertação de mestrado em desenvolvimento.
SAÚDE E AMBIENTE NOS CENTROS URBANOS: EDUCAÇÃO E VIGILÂNCIA POPULAR NO PROJETO CRIA SAÚDE
Apresentação oral
1 Cooperação Social / Fiocruz
2 Lavsa/EPSJV/Fiocruz
3 Projeto Cria Saúde
Contextualização
A população brasileira é majoritariamente urbana, com mais de 86% vivendo em cidades. Uma parte importante dessa população não vive em ambientes considerados saudáveis, impactadas pelas injustiças ambientais e climáticas, enfrentando a poluição (ar, água, sonora e solo) e a manutenção das significativas desigualdades no acesso à infraestrutura e serviços essenciais, como transporte, habitação e emprego, o que já se agrava com as mudanças climáticas. Neste sentido, é imprescindível impulsionar uma transformação urbana por meio de abordagens que harmonizem a diminuição das disparidades socioeconômicas, a promoção de uma melhor qualidade de vida, a mitigação das emissões de gases de efeito estufa e poluentes atmosféricos e a capacidade de adaptação aos impactos das mudanças climáticas. Neste sentido, adoção/indução/fortalecimento de iniciativas, projetos e políticas promotoras de territórios saudáveis e sustentáveis se apresentam como estratégicos.
Descrição da Experiência
Nas favelas do Complexo do Alemão, Cidade de Deus, Jacarezinho, Manguinhos, Maré e Rio das Pedras, a Coordenação de Cooperação Social da Presidência da Fiocruz em interlocução com diferentes setores da instituição e de organizações populares, numa perspectiva dialógica e cooperativa, constituiu o projeto Cria Saúde, cujo desenho operacional foi estruturado para incidir na indução e/ou apoio de agendas promotoras de territórios saudáveis e sustentáveis a partir de uma estratégia que perpassa tanto pela ampliação da consciência sanitária de parte dos moradores dos territórios envolvidos como no fortalecimento do Capital Social . Incorpora-se a possibilidade de estimular o surgimento de novas redes intra/inter_territórios e, ainda, na ampliação do capital de evidências (geração cidadã de dados) para tomadas de decisão e do advocacy.
Objetivo e período de Realização
O projeto se organiza a partir de duas linhas de ação: I. de formação; II. estímulo_e/ou_apoio a constituição de núcleos territoriais de Vigilância Popular em Saúde. A formação vem sendo conduzida com a EPSJV (Fiocruz), por meio do curso de atualização profissional de agentes populares promotores de territórios saudáveis e sustentáveis. Neste processo formativo, a construção de diagnósticos, o mapeamento do capital social local, a mobilização popular para conferências livres e a formulação de planos de vigilância popular para a saúde constituem ações estratégicas para a constituição e/ou fortalecimento dos núcleos territoriais de vigilância popular.
Iniciado em 2024 com previsão de encerramento no final de 2026.
Resultados
Primeira etapa da formação com 200 educandos concluída, tendo iniciado uma mobilização em torno da realização de uma conferência livre que debaterá temas apresentados pelos educandos no processo formativo, a saber: Saneamento, Habitação, Saúde Mental e Cultura/Lazer.
Aprendizado e Análise Crítica
A realização de projetos (sociais, de pesquisa, extensão, cultural, esportivo, etc) nas favelas cariocas não é algo novo. Se observa que em muitos dos escopos e planos de trabalho os termos “participativo, democrático, popular, inclusivo, emancipador, empoderador, etc” estão com grande destaque, mas que ao cabo de sua realização, reproduzem estruturas verticais e práticas de baixa densidade republicana. Neste ponto, ao acolhermos o tema saúde e ambiente dentro de um processo que visa propor, incentivar e apoiar a Vigilância Popular em Saúde junto a moradores de favelas tem demandado a busca por uma postura dialética, horizontal, com a escuta do território, estruturada na construção compartilhada de conhecimento. Importante destacar, neste processo de ação cooperativa, que a dimensão de um agir comunicativo, propositivo e crítico, de incidência política para o viver saudável está acolhido no desenvolvimento deste projeto.
RAÍZES PRIMEIRAS
Apresentação oral
1 Prefeitura de Belo Horizonte
Processo de escolha do tema e de produção da obra
Poema apresentado como trabalho final para o curso Trilhas da Agroecologia promovido pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional. Pensar no desenvolvimento sustentável, e que para ser sustentável, um modelo de desenvolvimento deve considerar a pluralidade e a valorização da diversidade das culturas locais, respeitando às especificidades de cada ecossistema, de cada cultura e de cada local. Busca uma abordagem interdisciplinar, enquanto noção de sustentabilidade cultural, voltada para protagonizar o significado da cultura e a importância das suas características locais, regionais e globais, defendendo uma visão mais ampla de cultura, que dá conta de dimensões maiores que arte, e que trata da cultura como um bem comum para o planeta, que pode assumir uma materialidade ou imaterialidade, mas bens necessários para a vida.
Objetivos
Educar e sensibilizar sobre agroecologia como resistência,
Resgatar memórias ancestrais e saberes tradicionais,
Advogar por justiça social e ambiental,
Inspirar ação e esperança transformadora.
Ano e local da produção
2025 - Belo Horizonte
Descrição da produção
O primeiro dia, um ficus podado,
das mãos que semeiam memórias,
nasce e brota a História da agricultura,
luta de povos, sementes caboclas e sonhos de campesinos e campesinas
movimentos que buscam e clamam por cura da angústia.
O primeiro presente, uma enxada,
para remover a terra do território que vibra em seus segredos,
onde o bem viver floresce nas Leucenas da cidade,
rios e árvores, corpos e quintais da amada Lagoinha,
vamos tecendo, como a aranha, a teia do saber,
na batuta e ancestralidade dos pais e mães de santo.
O primeiro impacto, a lógica capitalista,
precisamos da transposição com coragem,
e o orgânico e a orgânica que nos habitam é a fé,
certificar-se é mais que um carimbo,
ética e a certeza do diálogo nos conflitos aquáticos.
.
A primeira saída, um encontro com a sibipuruna,
na construção do berço, no plantar e cuidar,
na BH que encontra e reencontra o seu verde,
que mostram que a sustentabilidade
deve e pode irmanada com os vulneráveis.
A primeira fome, psicológica,
pensando a Segurança Alimentar,
políticas públicas agroecológicas mostrando o chão do caminho,
da pluralidade das várias culturas,
e que a monocultura seja banida
assim como o transgênico da nossa nação.
O primeiro entendimento, o não familiar,
que nas pancs se desmitificam nos saberes ancestrais,
que resgata a essência de nossa essência,
no sabor amável do biscoito de beldroega,
que agora faz a boca salivar.
A primeira academia, na força da Botânica,
que faz a magia das inflorescências,
das plantas que curam nos cuidados que brotam,
na saúde que mora e habita a horta,
Agroecologia é remédio, medicamento,
saída para as alterações climáticas.
O primeiro cultivo, vem do Grotão,
porque cultivar o futuro é saída e ternura,
compostar o passado, o presente e o futuro, plantar,
pois na cidade, a agricultura é entrega, doação,
e ao cuidar, semente que se perpetua.
O primeiro discurso,
justiça climática, participação com controle social,
Educação Ambiental para erguer os sonhos do nosso inconsciente coletivo,
acreditar na democracia,
não esta que defende o agronegócio,
mas na democracia participativa que se entrelaça.
O primeiro descarte, a dúvida, de como fazer,
sem se esquecer de Lavoisier,
que pensou nos resíduos do viver,
e de forma singela, abraçar a compostagem,
do potencial de refazer o ser,
e que da sobra, com trabalho, carinho e afeto nasce o alimento.
Análise crítica da obra relacionada ao tema do congresso
O poema "Raízes primeiras" traça uma jornada poética e reflexiva sobre as origens e os fundamentos da agroecologia, usando a metáfora de "primeiras" experiências para narrar um despertar pessoal e coletivo. Seus objetivos principais são inspirar, educar e mobilizar, conectando memórias ancestrais, lutas sociais e práticas sustentáveis.
UMA EXPERIÊNCIA FORMATIVA: CURSO DE ATUALIZAÇÃO AGRICULTURAS URBANAS AGROECOLÓGICAS E DETERMINAÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA SAÚDE
Apresentação oral
1 VPAAPS/Fiocruz
2 ENSP/Fiocruz
3 AUÊ!/UFMG
Introdução
O curso “Agriculturas Urbanas Agroecológicas e Determinação Socioambiental da Saúde” procurou orientar o estudo da Determinação Socioambiental da Saúde como abordagem teórica para a compreensão dos desafios colocados para ossistemas alimentares e a saúde da população, no contexto de uma sociedade em urbanização. A Educação Popular e a construção compartilhada do conhecimento foram a abordagem teórico-metodológica de apoio à compreensão da realidade centrada no diálogo entre diferentes saberes.
A formação é fruto de uma cooperação entre a Agenda de Saúde e Agroecologia da VPAAPS/Fiocruz, o Departamento de Endemias Samuel Pessoa da Ensp/Fiocruz e o Grupo de Estudos em Agricultura Urbana AUÊ da Universidade Federal de Minas Gerais.
Objetivos
O curso foi oferecido na modalidade “atualização” da pós graduação da Ensp e teve como objetivos: a) apresentar o campo da saúde coletiva e a abordagem da determinação social/socioambiental da saúde; b) dialogar sobre os processos de urbanização no Brasil, na perspectiva do acesso à terra, ao território e à saúde; c) caracterizar as agriculturas urbanas, a agroecologia e suas interações com a determinação socioambiental da saúde e outras categorias em disputa no campo da Saúde coletiva; d) construir reflexões sobre as relações entre saúde, urbano, agroecologia e agricultura urbana.
Processo de produção com período de realização
A formação foi realizada entre os dias 7 e 11 de julho de 2025 no Rio de Janeiro. Foram 60 horas de formação, sendo 40 horas presenciais e 20 horas virtuais para elaboração e avaliação do trabalho final.
O curso foi destinado aos seguintes perfis: a) trabalhadoras/es da Fiocruz com trajetória e atuação com o tema da agroecologia; a) estudantes da Fiocruz que pesquisam temas relacionados à agroecologia; c) profissionais e estudantes de pós-graduação, pesquisadoras/es de nível superior e/ou trabalhadoras/es do SUS atuando em projetos de agricultura urbana e saúde junto a territórios e movimentos sociais.
O percurso metodológico foi integrado por momentos de exposição dialogada e atividade de campo, leituras e discussão. As aulas aconteceram no campus Maré e no espaço Raízes do Brasil do Movimento dos Pequenos Agricultores (Santa Teresa). Houve uma visita de campo à experiência Providência Agroecológica (Morro da Providência, Gamboa). Foi ofertado almoço foi a todas as pessoas participantes, produzido por culinaristas do RJ.
Resultados
No total, 43 pessoas se inscreveram e 33 participaram, entre candidaturas homologadas e ouvintes. Em relação à participação por gênero, foram 32 pessoas autodeclaradas mulheres cis (91% do total) e 3 homens cis; já na participação por raça foram 18 pessoas autodeclaradas negras (55%) e 15 brancas. Em relação à diversidade regional, foram 21 do Sudeste (65% do total, sendo 17 pessoas do estado do Rio de Janeiro), 6 do Nordeste e 5 do Centro-oeste.
As aprendizagens foram sistematizadas via três processos principais: 1. “diário-semente”: anotações individuais das reflexões dos educandos a partir das leituras, conversas e exposições dialogadas; 2. “sementário de palavras”: seleção de palavras e categorias em cinco grupos fixos, delimitados no início do curso. 3. “relato-alimento”: um trabalho final individual em formato textual que pôde contar com o apoio de outras linguagens, visando a consolidação dos aprendizados, entregue por via remota após a finalização da etapa presencial.
Análise crítica e impactos sociais do produto relacionados aos temas do congresso
Como proposta interdisciplinar, o curso avançou na integração de três principais áreas de estudo associadas ao tema das agriculturas urbanas: a saúde coletiva, o urbano e a agroecologia. Ficou evidenciada a importância de se oportunizar espaços de diálogo respeitoso entre o conhecimento técnico-científico e conhecimentos produzidos a partir das experiências das agriculturas urbanas agroecológicas.
Com base na atividade coletiva final de avaliação com as participantes e no trabalho final individual, identifica-se a demanda em processos formativos qualificados sobre a interface saúde coletiva – agroecologia para trabalhadoras/es, pesquisadoras/es e estudantes com atuação ligada aos temas.
DETERMINAÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA OBESIDADE: TRABALHO INFORMAL, CRISE CLIMÁTICA E CUIDADO NUTRICIONAL NO SUS
Apresentação oral
1 IBMR - Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação
Contextualização
A obesidade no Brasil distribui-se de forma desigual, com maior carga e crescimento mais acelerado em grupos atravessados por desigualdades de gênero e raça, com destaque para mulheres e pessoas negras (Estivaleti et al., 2022). Esse cenário é produzido por um sistema alimentar que prioriza ultraprocessados a baixo custo em detrimento de alimentos in natura, configurando, sobretudo em territórios periféricos, um ambiente alimentar obesogênico (Hawkes; Popkin, 2015). Apesar disso, o discurso predominante opera na individualização da responsabilidade, ancorado na noção de "hábito alimentar", categoria naturalizada que apaga o caráter social, econômico e territorial das práticas alimentares e reduz o comer a comportamento individual corrigível (Klotz-Silva; Prado; Seixas, 2017).
Descrição da Experiência
O estágio supervisionado em Nutrição Social foi realizado no Hospital Municipal Miguel Couto (HMMC), no Rio de Janeiro, incluindo atendimento ambulatorial, discussão de casos clínicos, protocolo nas enfermarias e educação nutricional. O perfil predominante era de pacientes com sobrepeso/obesidade e comorbidades como diabetes mellitus, hipertensão arterial e hipercolesterolemia. Os recordatórios revelaram alto consumo de ultraprocessados. O plano de adequação considerava condições financeiras, e informativos impressos sobre "mudanças de hábitos" eram o principal recurso entre retornos. Um caso sintetiza esses achados: R.J.A.M., 26 anos, manicure autônoma, moradora da Cidade de Deus, IMC 43,1 kg/m², com depressão e compulsão alimentar, realizava duas refeições diárias, condição imposta pelo trabalho informal, com predomínio de ultraprocessados e carboidratos simples, frutas e hortaliças 1 a 2× por semana.
Objetivo e período de Realização
Analisar, a partir da vivência no ambulatório do HMMC (agosto–setembro/2021), como determinantes socioambientais e a individualização do cuidado se expressam no padrão alimentar e no perfil nutricional de usuárias do SUS, contribuindo para uma reflexão crítica sobre a atenção nutricional em saúde coletiva.
Resultados
O perfil clínico e alimentar observado evidenciou que o adoecimento por obesidade e doenças crônicas não transmissíveis não resulta de falhas individuais, mas de condições estruturais. A informalidade, sem pausas para refeições e com remuneração insuficiente para alimentos in natura, emergiu como determinante central, num contexto em que determinantes comerciais moldam o ambiente alimentar e deslocam a responsabilidade para o indivíduo (Hassan et al., 2025). No caso acompanhado, a exigência de perda de 55 kg como condição para neurocirurgia expôs uma cadeia de vulnerabilidades na qual gênero, classe e território se interseccionam: o sistema de saúde demanda do corpo individual uma transformação que pressupõe condições estruturais inexistentes (Dardot; Laval, 2016).
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência revelou que o atendimento nutricional ambulatorial no SUS, embora potente como espaço de escuta, opera sob limitações que reproduzem a lógica individualizante: retornos espaçados, ausência de equipe multiprofissional e recursos centrados em informativos transferem ao indivíduo a responsabilidade por mudanças que dependem de condições coletivas (Seixas et al., 2020). As ações de educação alimentar demonstraram o potencial da nutrição articulada ao território, mas a vivência expôs uma camada adicional: as usuárias do SUS são também as mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas, cujos eventos extremos aprofundam a insegurança alimentar nos mesmos territórios onde o ambiente alimentar já é obesogênico. O cuidado nutricional centrado no consultório não alcança essa sobreposição, porque opera na escala individual enquanto os determinantes operam em escala territorial e climática. A Comissão The Lancet (2019) nomeou essa convergência como sindemia global, na qual obesidade, desnutrição e crise climática se reforçam mutuamente, recaindo sobre os mesmos corpos responsabilizados pelo discurso sanitário. A Declaração de Belém (COP30, 2025) reconheceu esse nexo ao vincular ação climática à erradicação da fome e à proteção social. Fortalecer a nutrição social dentro de um SUS público, universal e climaticamente adaptado, horizonte traçado pelo AdaptaSUS, é condição para superar a culpabilização individual e enfrentar os processos de determinação socioambiental que produzem o adoecimento, na direção do Bem Viver.
INSEGURANÇA ALIMENTAR E PARTICIPAÇÃO SOCIAL ENTRE MULHERES IDOSAS FREQUENTADORAS DE CENTROS DE CONVIVÊNCIA EM CUIABÁ
Apresentação oral
1 UFMT
2 Fiocruz Minas
Apresentação/Introdução
A insegurança alimentar entre pessoas idosas constitui importante problema de saúde pública, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Aspectos do ambiente social, como participação comunitária, redes de apoio e coesão social da vizinhança, podem influenciar as condições de vida e saúde nessa população. No entanto, a relação entre participação social e insegurança alimentar em mulheres idosas ainda é pouco explorada em estudos brasileiros.
Objetivos
Analisar a associação entre indicadores do ambiente social, suporte social e participação comunitária com a insegurança alimentar entre mulheres idosas frequentadoras de Centros de Convivência de Idosos (CCI) no município de Cuiabá, Mato Grosso.
Metodologia
Trata-se de estudo transversal realizado com pessoas idosas (≥60 anos) frequentadoras de Centros de Convivência do município de Cuiabá. Os dados foram coletados entre abril e julho de 2025 por meio de entrevistas presenciais, utilizando questionário estruturado que incluiu características sociodemográficas, indicadores de coesão social da vizinhança, suporte social, participação comunitária e insegurança alimentar. Foram incluídos 588 participantes, dos quais 507 (86,2%) eram mulheres. Considerando essa predominância, as análises foram conduzidas com foco na população feminina. A insegurança alimentar foi estimada a partir de perguntas sobre restrição alimentar por falta de recursos financeiros. As associações foram inicialmente avaliadas pelo teste do qui-quadrado. Modelos de regressão de Poisson com variância robusta foram utilizados para estimar razões de prevalência (RP) e intervalos de confiança de 95% (IC 95%), ajustados por faixa etária e classe econômica (classificação ABEP). O nível de significância adotado foi de 5%. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa (parecer nº 7.160.592; CAAE: 83150124.4.0000.8124).
Resultados
A prevalência de insegurança alimentar foi de 27,4%, sendo significativamente maior entre mulheres (30,2%) do que entre homens (9,9%) (p<0,001). Entre as mulheres (n=507), observou-se maior concentração nas faixas etárias de 70–79 anos (47,1%) e 60–69 anos (42,4%). A prevalência de insegurança alimentar foi maior entre mulheres mais jovens (60–69 anos: 34,0%) e diminuiu com o avanço da idade (p=0,004). Também foi observada associação com raça/cor (p=0,019), com maiores prevalências entre mulheres pretas (36,2%) e pardas (26,4%). Não foram identificadas associações significativas entre insegurança alimentar e indicadores de coesão social da vizinhança ou apoio familiar. Por outro lado, mulheres que realizavam trabalho voluntário apresentaram maior prevalência de insegurança alimentar (37,1% vs. 27,5%; p=0,034), bem como entre aquelas que relataram participar de atividade religiosa, com prevalência de 35,5% entre participantes e 14,6% entre não participantes (p<0,001). Nos modelos ajustados, a participação em trabalho voluntário (RP=1,36; IC95%: 1,03–1,80) e a participação em atividades religiosas (RP=2,66; IC95%: 1,71–4,14), mantiveram-se associadas a insegurança alimentar.
Discussão
A maior frequência de insegurança alimentar entre mulheres negras corrobora com a literatura, que apontam a influência de desigualdades sociais, econômicas e raciais nas condições de acesso aos alimentos. Quanto ao apoio social, estudos têm indicado que espaços como igrejas podem atuar como redes de suporte para indivíduos em situação de vulnerabilidade. Esse aspecto pode ajudar a explicar por que mulheres frequentadoras desses espaços apresentaram maior prevalência de insegurança alimentar, possivelmente refletindo a busca por apoio social e comunitário diante de contextos de maior vulnerabilidade.
Conclusões/Considerações
Entre mulheres idosas frequentadoras de centros de convivência, a insegurança alimentar mostrou-se associada a indicadores de participação social, especialmente atividades religiosas e trabalho voluntário.
Esses achados sugerem que espaços comunitários e religiosos podem representar estratégias de enfrentamento e busca por apoio social entre mulheres em situação de vulnerabilidade alimentar. A compreensão dessas dinâmicas é fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas e ações intersetoriais voltadas à promoção da segurança alimentar e do envelhecimento saudável.
Realização: