Programa - Roda de Saberes - RS10 - Envelhecimento, Saúde do Idoso e Desafios do Ambiente Urbano
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
PERCEPÇÃO DA PESSOA IDOSA SOBRE AMIGABILIDADE DAS CIDADES BRASILEIRAS: ESTUDO ELSI-BRASIL
Apresentação oral
1 Programa de Pós Graduação em Estudos da Ocupação UFMG
2 Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento (NESPE) - UFMG/Instituto René Rachou
3 Programa de Pós Graduação em Saúde Pública - UFMG
Apresentação/Introdução
Introdução: A agenda de Cidades e Comunidades Amigas das Pessoas Idosas, proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS), recomenda que a avaliação de ambientes urbanos considere múltiplas dimensões e a perspectiva de quem envelhece nesses territórios. Dados populacionais robustos como os do ELSI-Brasil se apresentam como oportunidade para construir indicadores nacionais comparáveis, capazes de apoiar diagnósticos e políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável em contextos urbanos diversos.
Objetivos
Objetivos: Estabelecer um conjunto de indicadores de amigabilidade urbana a partir da percepção de pessoas idosas brasileiras, alinhado às oito dimensões do marco da OMS, a partir de dados do estudo ELSI-Brasil, permitindo comparações por faixa etária, sexo, região, escolaridade e renda. Período: agosto de 2024 a fevereiro de 2026.
Metodologia
Metodologia: Realizou-se uma estratégia de mapeamento conceitual entre referenciais internacionais e as variáveis disponíveis no ELSI-Brasil. Foram analisados três instrumentos amplamente utilizados: Age-Friendly Cities and Communities Questionnaire (23 itens), Checklist da OMS (84 itens) e o Guia Europeu: Age friendly environments in Europe: indicators, monitoring and assessments (53 indicadores). Na primeira etapa, três avaliadores independentes identificaram e selecionaram questões do ELSI-Brasil que representeassem os itens das oito dimensões do modelo da OMS, consolidando uma planilha consensuada. Em seguida, a lista foi submetida à apreciação de cinco especialistas em envelhecimento e saúde urbana, que revisaram aderência conceitual, redundâncias e lacunas, apontando itens a manter, excluir e incluir, além de observações qualitativas para qualificar a matriz.
Resultados
Resultados: Foram identificadas 95 variáveis do ELSI-Brasil com potencial aderência às dimensões da OMS, distribuídas em: Habitação (13), Espaços ao ar livre e edifícios (9), Comunicação e informação (9), Transportes (3), Participação cívica e emprego (12), Participação social (26), Respeito e inclusão social (5) e Apoio comunitário e serviços de saúde (18). A avaliação especializada irá agregar recomendações de ajuste de escopo e refinamento conceitual por dimensão, com indicações de exclusão por baixa especificidade, manutenção por pertinência direta e inclusão de itens para melhor cobertura temática.
Discussão
Discussão: A experiência evidenciou o potencial de articular modelos internacionais consolidados com uma coorte nacional, como alternativa metodológica factível, de baixo custo e com base populacional para produzir indicadores de percepção. A abordagem em duas etapas (consenso entre avaliadores e revisão por especialistas) irá fortalecer a validade de conteúdo e explicitar desafios inerentes ao uso de dados secundários, como limitações de cobertura e a necessidade de evitar redundâncias.
Conclusões/Considerações
Conclusões/Considerações Finais: Como próximos passos, prevê-se uma reunião deliberativa para definição da lista final de indicadores e a realização de análises fatoriais por dimensão, com o objetivo de selecionar os indicadores mais informativos e consistentes. Espera-se, assim, sustentar comparações nacionais e subsidiar políticas públicas intersetoriais voltadas à promoção de cidades mais inclusivas e acessíveis ao envelhecimento.
ENVELHECIMENTO POPULACIONAL EM CUIABÁ E AS DESIGUALDADES SOCIOESPACIAIS
Apresentação oral
1 UFMT
2 UFMT / IRR Fiocruz MG
Apresentação/Introdução
As cidades caracterizam-se por acentuadas disparidades espaciais, demográficas, econômicas, culturais e sociais, resultantes de processos históricos, geográficos e de relações estruturais de poder, que se convertem frequentemente em iniquidades no acesso a bens, serviços e recursos. Essas assimetrias repercutem diretamente no campo da saúde, manifestando-se em padrões diferenciados de adoecimento, exposição a riscos e acesso aos sistemas de saúde, afetando de forma particular a população idosa que demanda maior suporte social, infraestrutura urbana adequada e acesso contínuo aos serviços de saúde.
Objetivos
Descrever as desigualdades socioespaciais do envelhecimento populacional no município de Cuiabá/ Mato Grosso a partir dos dados do censo demográfico de 2022.
Metodologia
Estudo ecológico da área urbana do município de Cuiabá. Foram utilizados os dados do Censo Demográfico de 2022 e coletadas informações sobre a população, a renda média dos responsáveis pelo domicílio e a distribuição etária da população. Foi calculado o percentual da população de 60 anos ou mais por setores censitários. Foram construídos mapas temáticos para análise da distribuição espacial do percentual da população de 60 anos e da renda.
Resultados
Em 2022 Cuiabá possuía 650.877 habitantes, sendo 639.724 residentes no perímetro urbano (98,3% da população) e o percentual da população de 60 anos ou mais era de 13,0%. Dos 1.097 setores censitários com informação de população, 15 (1,4%) não possuíam população com 60 anos ou mais, 33,6% <10% de idosos, 44,0% de 15-19% de idosos e 21,0% possuem 20-41% de idosos. Os setores censitários com maior concentração de idosos (15–20% e 20–41%) e maior renda (R$ 3.579 e R$ 29.927) se localizam predominantemente em áreas centrais do município, em especial as regiões Oeste e Leste. Em contrapartida, os setores de menor renda (R$ 0 e R$ 2.612) ocupam as áreas periféricas, especialmente na Região Sul e nas bordas das demais regiões administrativas.
Discussão
A formação e a expansão urbana de Cuiabá revela um processo histórico marcado por crescimento acelerado e intensificação das desigualdades socioespaciais. A distribuição etária da população reforça essa fragmentação, com predomínio de idosos nos setores urbanos das regiões Oeste e Leste. A distribuição da renda evidencia a persistência de um modelo urbano excludente, no qual a oferta de serviços permanece desigual, reforçando a fragmentação territorial. As regiões Norte e Sul se desenvolvem em um contexto de vulnerabilidades.
Conclusões/Considerações
O estudo identificou uma distribuição heterogênea do processo de envelhecimento populacional e da distribuição de renda no município de Cuiabá, apontando para a necessidade de políticas públicas integradas que enfrentam as desigualdades territoriais e promovam maior equidade no acesso à cidade e um envelhecimento sustentável.
PERCEPÇÃO DA VIZINHANÇA E A PROMOÇÃO DA CAMINHADA ENTRE IDOSOS BRASILEIROS
Apresentação oral
1 UFMT
2 UFMG
3 UNIPLAC
4 Fiocruz Minas
Apresentação/Introdução
O envelhecimento populacional e a urbanização são fenômenos mundiais que ocorrem de forma acelerada e sobreposta, transformando os espaços urbanos e influenciando a forma como os idosos utilizam e circulam nas cidades. A caminhada regular traz benefícios físicos e mentais, incluindo redução de sintomas depressivos, melhora da saúde cardiovascular e controle de doenças crônicas. Entretanto, sua realização não depende apenas de fatores individuais, mas também das características do ambiente construído, que podem favorecer ou dificultar essa prática entre idosos.
Objetivos
Analisar a associação entre atributos físicos da vizinhança e a prática de caminhada em idosos brasileiros residentes em áreas urbanas.
Metodologia
Estudo transversal, realizado com dados da linha de base do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil). Foram analisados 3.548 indivíduos com 60 anos ou mais residentes em áreas urbanas no Brasil. A prática de caminhada global foi avaliada pela versão curta do Questionário Internacional de Atividade Física e classificada como ativa quando ≥150 minutos/semana. As variáveis de exposição foram atributos físicos da vizinhança em nível de setor censitário obtidos do Censo Demográfico 2010 (iluminação pública, pavimentação das vias, arborização, bueiro/boca de lobo, lixo acumulado em vias públicas, esgoto a céu aberto, meio-fio/guia, calçada e rampa para cadeirantes). Foram consideradas variáveis de ajuste: faixa etária, estado civil, escolaridade, renda familiar per capita, tempo de residência e número de doenças crônicas. A associação entre os atributos físicos da vizinhança e a prática de caminhada foi avaliada por meio de modelos de regressão logística multinível.
Resultados
A prevalência de caminhada global foi de 47,8%, semelhante entre homens (49,8%) e mulheres (46,2%; p = 0,090). Entre as mulheres, atributos físicos da vizinhança, como pavimentação das vias (OR = 1,15; IC95%: 1,02–1,31), arborização (OR = 1,22; IC95%: 1,06–1,41) e rampa para cadeirante (OR = 1,11; IC95%: 1,02–1,21) foram associados a maior chance de caminhada, enquanto a desordem física foi associada à redução de 13% na chance de caminhar (OR = 0,87; IC95%: 0,76–0,99). Entre homens, não houve associações significativas.
Discussão
A associação entre caminhada e atributos físicos da vizinhança observada somente entre mulheres é consistente com evidências científicas que indicam que mulheres idosas tendem a se preocupar mais com as características do ambiente urbano, como as condições das vias e das calçadas, a presença de arborização e a desordem física, fatores que podem influenciar a prática de caminhada. Entre os homens, a ausência de associações estatisticamente significativas pode refletir diferenças nos padrões de prática da caminhada entre idosos, possivelmente relacionadas a rotinas de deslocamento ou a outros fatores individuais menos dependentes das condições do ambiente urbano.
Conclusões/Considerações
Os resultados indicam que atributos físicos da vizinhança podem influenciar a prática de caminhada entre mulheres idosas residentes em áreas urbanas. Esses achados evidenciam a necessidade de políticas públicas e intervenções direcionadas à requalificação do espaço urbano, com ênfase na redução da desordem física e na criação de ambientes mais acessíveis e favoráveis à prática de caminhada entre idosos.
ÁREAS VERDES DA VIZINHANÇA E TEMPO DE DESLOCAMENTO ATIVO ENTRE PARTICIPANTES DO ELSA-BRASIL
Apresentação oral
1 LEAS/IOC/Fiocruz e PPGEPI/ENSP/Fiocruz
2 ISC/UFBA
3 IME/UFBA
4 LEAS/IOC/Fiocruz
Apresentação/Introdução
O deslocamento ativo, como caminhar e andar de bicicleta para ir de um lugar a outro, proporciona oportunidades para o aumento da prática de atividade física. A literatura tem indicado que a presença de áreas verdes urbanas, definidas como qualquer local com presença de vegetação, como parques, praças, jardins, zoológicos ou árvores nas ruas, podem estimular o deslocamento ativo entre adultos. Diferenças na condição socioeconômica e no ambiente construído da vizinhança devem ser considerados.
Objetivos
Este trabalho investigou a associação das áreas verdes da vizinhança com o tempo de deslocamento ativo entre participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil).
Metodologia
Estudo transversal descritivo com participantes (N=7192) de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo avaliados na linha de base do ELSA-Brasil (2008–2010). Quantidade de áreas verdes foi avaliada como valores médios do Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI) para áreas públicas em buffer circular de 500m no entorno residencial, em quartis. A medida autorreferida do tempo de deslocamento ativo foi avaliada por meio do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ) e mensurada em minutos/semana de deslocamento a pé ou de bicicleta para ir de um lugar a outro. A associação da mediana do tempo de deslocamento ativo conforme quartis de NDVI foi investigada por meio do teste de Kruskal-Wallis (α=0,05).
Resultados
Em mediana, os participantes relataram deslocar-se a pé ou de bicicleta de um lugar a outro por 80 minutos/semana (IIQ = 0 – 200). Foi encontrada associação estatisticamente significante da mediana do tempo de deslocamento ativo conforme quartis de NDVI (p<0,001). Participantes residentes em vizinhanças com a menor quantidade de áreas verdes (1º quartil de NDVI) deslocavam-se, em mediana, 100 minutos/semana ao passo que participantes residentes em vizinhanças com a maior quantidade de áreas verdes (4º quartil de NDVI), deslocavam-se 75 minutos/semana.
Discussão
Os resultados refutam nossa hipótese de que a maior quantidade de áreas verdes estimula o deslocamento ativo entre adultos. Nas cidades avaliadas, é possível que o entorno residencial com maior quantidade de áreas verdes também seja uma vizinhança de maior condição socioeconômica, com melhor acesso a estabelecimentos comerciais, de saúde e de educação e segurança pública, bem como melhor caminhabilidade pela qualidade de calçadas e ruas, e existência de ciclofaixas, contribuindo para a maior eficiência no deslocamento ativo e consequentemente menor tempo para se locomover de um lugar a outro.
Conclusões/Considerações
Participantes residentes em vizinhanças com maior quantidade de áreas verdes relataram menor tempo de deslocamento a pé ou de bicicleta para ir de um lugar ao outro. É possível que a condição socioeconômica da vizinhança, não analisada neste estudo, seja o principal determinante da distribuição de áreas verdes e demais estruturas urbanas que contribuem para o deslocamento ativo.
ASSOCIAÇÃO DE INDICADORES DO AMBIENTE FÍSICO E SOCIAL COM FORÇA MUSCULAR REDUZIDA EM PESSOAS IDOSAS
Apresentação oral
1 UFMT
2 Fiocruz Minas
Apresentação/Introdução
O declínio da força muscular tem impacto na mobilidade e funcionalidade e está associada ao aumento do risco de quedas e outros eventos adversos entre pessoas idosas. Atributos dos ambientes urbanos físicos e sociais constituem determinantes relevantes dos níveis de saúde e a ausência de apoio social e de elementos de infraestrutura viária, de segurança e de saneamento no entorno da moradia das pessoas idosas são preditores de desfechos negativos em saúde. Ambientes socioeconomicamente desfavoráveis limitam a caminhabilidade e dificultam a manutenção de níveis adequados de atividade física, contribuindo para a redução da força muscular.
Objetivos
Analisar a associação de indicadores do ambiente físico e social com a força muscular reduzida em pessoas idosas frequentadoras de centros de convivência.
Metodologia
Estudo transversal realizado com pessoas idosas (idade ≥60 anos), frequentadoras dos Centros de Convivência do município. Os dados foram coletados no local, entre os meses de abril e julho de 2025, por meio de entrevista direta, utilizando questionário estruturado. A força de preensão manual foi medida por dinamômetro científico. A variável desfecho foi a força reduzida, adotando-se o ponto de corte no percentil ≤20, de acordo com o sexo. As variáveis independentes foram os indicadores do ambiente físico e social, avaliados por perguntas que investigaram a percepção dos participantes do estudo em relação às características da vizinhança onde residem. O teste do qui-quadrado foi utilizado para estimar as associações, ao nível de significância de 5%. O projeto de pesquisa foi aprovado por Comitê de Ética (parecer nº 7.160.592; CAAE: 83150124.4.0000.8124) e os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Resultados
Participaram do estudo 588 pessoas idosas, 86,2% do sexo feminino. A prevalência de força muscular reduzida foi de 20,0% entre os homens e 22,1% entre as mulheres. Entre os homens, a força muscular reduzida foi mais frequente nos que relataram a inexistência de calçada na maioria das ruas da vizinhança, comparados aos que informaram a presença de calçadas (45,5% vs 15,9%, p=0,02), e entre os que afirmaram ter medo de cair ao sair de casa por causa de defeitos nas calçadas, comparados aos que não sentem medo de cair por esse motivo (31,25% vs 12,5%, p=0,04). Menores prevalências do desfecho foram observadas naqueles que percebiam a presença de árvores na vizinhança, comparados aos que não contam com a presença de árvores no entorno de suas casas (12,1% vs 40,9%, p<0,01), e ainda, entre aqueles que percebiam a vizinhança como um bom lugar para viver, comparados aos que não consideravam a vizinhança com essa característica (18,2% vs 66,7%, p=0,04). Entre as mulheres não foram observadas associações do ambiente físico e social com o desfecho avaliado.
Discussão
São poucos os estudos brasileiros que mostraram a influência do ambiente físico e social em espaços urbanos nos aspectos da saúde e qualidade de vida das pessoas idosas. Esse estudo mostrou que indicadores desfavoráveis do contexto vivenciado por pessoas idosas se associam ao declínio da força muscular, o que pode comprometer a funcionalidade, a qualidade de vida e as condições de saúde desse grupo populacional.
Conclusões/Considerações
Indicadores do ambiente físico e social percebido se mostraram associados com a força muscular reduzida entre os homens. Outros estudos são necessários para a melhor compreensão dessa temática, considerando a necessidade de tornar as cidades mais amigáveis ao envelhecimento saudável. Ampliar o estudo de temas ainda pouco explorados com relação aos seus determinantes ambientais e sociais é uma iniciativa importante para a compreensão da saúde em seu conceito mais amplo. Gerar novos conhecimentos com essa abordagem é essencial para a formulação de políticas públicas de promoção da saúde.
LIMITAÇÃO DA CAPACIDADE FUNCIONAL E INDICADORES DESFAVORÁVEIS DO AMBIENTE FÍSICO DA VIZINHANÇA ENTRE PESSOAS IDOSAS
Apresentação oral
1 UFMT
2 Centro de Reabilitação de Louveira (CRL) - SP
Apresentação/Introdução
Características desfavoráveis do ambiente físico e social são marcadores de vulnerabilidade e representam risco para a vida independente do idoso, por comprometerem habilidades físicas e cognitivas, limitando a capacidade funcional. A deterioração visível do espaço urbano, caracterizada pela ausência de calçadas, iluminação, pavimentação, acúmulo de lixo, dentre outros atributos, representa uma barreira importante para a mobilidade e compromete a vida ativa em comunidade, afetando a saúde física e mental das pessoas idosas.
Objetivos
Verificar se indicadores de desordem do ambiente físico se associam com a capacidade funcional de pessoas idosas frequentadoras de centros de convivência.
Metodologia
Estudo transversal realizado com pessoas idosas (idade ≥60 anos), de ambos os sexos, frequentadoras dos Centros de Convivência em Cuiabá-MT. Os dados foram coletados nos centros de convivência, entre os meses de abril e julho de 2025, por meio de entrevista direta, utilizando um questionário estruturado. A capacidade funcional reduzida, desfecho do estudo, foi identificada pelo SPPB (Short Physical Performance Battery), no ponto de corte ≤8. O SPPB apresenta uma pontuação que varia de 0-12 e é composto por três testes físicos: de equilíbrio, velocidade da marcha e sentar e levantar de uma cadeira. As variáveis independentes foram os indicadores do ambiente físico, avaliados por perguntas que investigaram a percepção dos idosos em relação à presença de características marcadoras de desvantagens socioeconômicas no entorno de suas residências. O teste do qui-quadrado foi utilizado para estimar as associações, ao nível de significância de 5%. O projeto de pesquisa foi aprovado por Comitê de Ética (parecer nº 7.160.592; CAAE: 83150124.4.0000.8124) e os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Resultados
Do total de pessoas idosas participantes do estudo (n= 581), 86,2% eram mulheres. A prevalência global de capacidade funcional reduzida foi de 38,7%, sendo maior entre as mulheres (39,7% vs 31,3%). Entre as pessoas idosas avaliadas, a capacidade funcional reduzida foi mais frequente nos que afirmaram que a rua da casa onde moram não é pavimentada, comparados aos idosos cujas ruas onde residem possuem pavimentação (53,7% vs 37,4%, p=0,04).
Discussão
Promover e manter a capacidade funcional é essencial para uma boa qualidade de vida no envelhecimento. Pessoas que envelhecem participando ativamente da vida em família e na comunidade tendem a apresentar melhores níveis de saúde física e mental. A manutenção de uma vida ativa e saudável no envelhecimento depende de características individuais, mas também está intimamente relacionada a indicadores de qualidade do ambiente físico e social vivenciado. A falta de pavimentação nas ruas pode comprometer a caminhabilidade do idoso, impactando na prática de atividade física de lazer e na locomoção a pé, representando uma barreira para a manutenção da capacidade funcional em níveis desejáveis.
Conclusões/Considerações
A frequência de capacidade funcional reduzida entre os participantes deste estudo foi elevada e associada à ausência de pavimentação nas ruas das casas onde moram. Em nível nacional, são poucos os estudos que abordaram a associação do ambiente físico e social com a capacidade funcional de pessoas idosas. O aprofundamento na investigação dessa relação poderá fornecer subsídios úteis para o planejamento de ações locais que visem a redução das desigualdades sociais em saúde.
INFRAESTRUTURA E ATRIBUTOS URBANOS DAS PRAÇAS DE CUIABÁ: ANÁLISE BASEADA EM AUDITORIA VIRTUAL
Apresentação oral
1 UFMT
Apresentação/Introdução
Os espaços públicos de lazer desempenham um papel fundamental na melhoria da qualidade de vida, oferecendo benefícios à saúde, promovendo interação social e fortalecendo o vínculo entre a comunidade e o ambiente urbano. Diversos fatores, como condições de manutenção, acessibilidade, estética, segurança, assim como a qualidade e adequação dos atributos presentes nesses espaços, podem ser determinantes para seu uso efetivo.
Objetivos
Descrever as características e infraestrutura das praças de Cuiabá a partir de dados coletados pela auditoria virtual pelo aplicativo Google Earth utilizando a ferramenta do Google Street View.
Metodologia
Foi realizada a auditoria virtual das condições físicas de praças da área urbana de Cuiabá, realizada entre junho e setembro de 2025. Das 210 praças do município de Cuiabá foi possível realizar a auditoria virtual de 201. A coleta de dados foi conduzida por observadores previamente treinados, utilizando as plataformas Google Earth e Google Street View para visualização virtual das praças e KoboToolbox para coleta e armazenamento das características definidas no instrumento de coleta de dados.
Resultados
Das 201 praças auditadas, 87 estavam localizadas na região Leste, 64 na Oeste, 28 na Sul e 22 na Norte. A maior parte das praças eram retangulares ou quadradas (48,8%) e com pavimentação na área interna da praça em cimentado/concreto (69,2%). Embora as praças apresentassem a presença de infraestrutura, como iluminação (87,1%), bancos (86,1%), arbustos ou mudas (80,1%) e lixeiras (72,1%), também foram observados a coexistência de problemas como rachaduras (46,8%), lixo espalhado (36,3%), sinais de deterioração (33,3%), mato alto (24,9%), lixo inadequadamente acondicionado (24,4%), saliências (18,4%), pixações (16,4%), buracos (13,4%) e uso de álcool (6,5%) na área interna da praça. Quanto aos equipamentos de lazer e convivência, 45,8% das praças tinham estruturas de brinquedos infantis, 38,8% academias ao ar livre e 27,4% quadras esportivas.
Discussão
A qualificação dos espaços públicos de lazer, em especial das praças, para além da análise da distribuição espacial e da quantidade desses equipamentos nas áreas urbanas, constitui-se como um elemento central para o fortalecimento das ações de promoção da atividade física e do lazer nas cidades. Embora a adoção e promoção de comportamentos ativos seja um processo complexo e multifatorial, os aspectos relacionados ao ambiente construído em que os indivíduos estão inseridos desempenham papel relevante, além de serem passíveis de intervenção. Nesse contexto, faz-se necessária a identificação de áreas prioritárias a partir da avaliação das condições de infraestrutura, incluindo manutenção e acessibilidade, bem como dos aspectos estéticos, de segurança e da qualidade e adequação dos equipamentos disponíveis, de modo a potencializar a utilização efetiva dos espaços públicos nas cidades brasileiras.
Conclusões/Considerações
O presente estudo evidenciou desigualdades na distribuição e na qualidade das praças de Cuiabá. Observou-se concentração das praças nas regiões Oeste e Leste do município e heterogeneidade na distribuição dos atributos das praças, tanto positivos quanto negativos, como presença de infraestrutura (bancos, calçadas e equipamentos de lazer e convivência) e condições de limpeza, estética, evidência de uso de álcool e sinais de vandalismo.
RINS EM ALERTA: DOENÇA RENAL CRÔNICA COMO REFLEXO DA INIQUIDADE PRESENTE NO MATO GROSSO
Apresentação oral
1 UFMT
Apresentação/Introdução
Estima-se que em 2017 haveria cerca de 850 milhões de pessoas com doença renal - DR no mundo, decorrente de várias etiologias, causando pelo menos 2,4 milhões de mortes por ano, com uma taxa ascendente de mortalidade. Já a prevalência de pessoas em tratamento dialítico no Brasil até 2023 é de 157.357 usuários, um aumento de 40% das ocorrências nos últimos 10 anos.
Objetivos
Discutir a ocorrência de Doença renal crônica - DRC no Mato Grosso e as interferências do agronegócio sobre esse agravo de saúde.
Metodologia
Metodologia: Trata-se de uma pesquisa transversal com base de dados secundários de domínio público presente no DATASUS/TABNET utilizando a SIM e SIH/SUS no período de 2019 a 2023.
Resultados
No MT a taxa de internação por DRC em 2019 era de 3,4/10mil habitantes, entre 2020 a até 2022 houve um decréscimo chegando em 2022, contudo, em 2023 a internação chegando a 3,2/10mil habitantes. Quando analisamos os municípios com maior frequência de internação temos em 1º Cáceres, após Rondonópolis, Sinop e Cuiabá. Quanto ao perfil dos pacientes temos 62% de homens, 55% são pardos seguido por 32% brancos. Quando a escolaridade temos 39% entre usuários com nenhuma ou até 3 anos estudo completo. A faixa etária mais comum 21% encontra-se com 80 anos ou mais, porem a DRC começa a ter uma incidência significativa a partir dos 50 a 59 anos.
Discussão
O Mato Grosso é o estado que mais produz soja do Brasil, tendo como uma das atividades econômicas mais presentes no território é o agronegócio. O DRC é mais comum em pessoas mais idosas, contudo, nas últimas duas décadas tem sido relatada uma forma grave de DRC em indivíduos jovens, que vivem em região rural e tem contato com agroquímicos, sem os fatores de risco tradicionais para DRC que são HAS, DM e infecções do trato urinário.
Conclusões/Considerações
Os fatores desencadeadores da DRC de origem ambiental e ocupacional têm sido identificados como possíveis contribuintes para o desenvolvimento dessa condição, indicando uma mudança no perfil epidemiológico e etiológico da DRC, sendo associado ao atual modelo de produção agrícola traz impactos que não se distribuem de forma equânime nos territórios, afetando de forma mais severa os trabalhadores que residem em municípios do interior, do sexo masculino, pardos e com baixo índice de instrução. As populações que residem nessas regiões, que estão sobre forte ataque pela contaminação de matrizes ambientais, perda da biodiversidade, adoecimentos e mortes relacionadas com a exposição aos agrotóxicos e fertilizantes químicos.
TEMPERATURA AMBIENTE E ALEITAMENTO MATERNO EXCLUSIVO: UM ESTUDO DE COORTE DE BASE NACIONAL NO BRASIL
Apresentação oral
1 Universidade Federal da Bahia - UFBA
2 Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde - CIDACS
3 DataHealth Lab, Institut de Recerca Sant Pau (IR SANT PAU)
4 London School of Hygiene and Tropical Medicine
5 Instituto Gonçalo Moniz, FIOCRUZ-Ba
Apresentação/Introdução
Nas últimas duas décadas, os indicadores de amamentação progrediram globalmente, mas a meta da OMS de 70% para 2030 permanece distante. No Brasil, o aleitamento materno exclusivo (AME) subiu para 45,8% em 2019, ritmo ainda insuficiente. Paralelamente, a crise climática emerge como um desafio; evidências sugerem que variações térmicas influenciam as práticas alimentares infantis, embora estudos em diferentes países apresentem resultados divergentes sobre o impacto do calor e da sazonalidade. Lacunas metodológicas persistem, com pesquisas frequentemente limitadas a indicadores sazonais em vez de medições diretas de temperatura.
Objetivos
Avaliar a associação entre temperaturas ambientais (tanto calor quanto frio) e a interrupção do aleitamento materno exclusivo em uma coorte de base nacional no Brasil. Além disso, investigamos disparidades na relação temperatura-amamentação de acordo com características infantis e fatores socioeconômicos.
Metodologia
Trata-se de um estudo de coorte longitudinal de base populacional, realizado com microdados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), abrangendo o período de 2015 a 2019. O AME foi operacionalizado como um desfecho binário baseado no consumo exclusivo de leite materno no dia anterior à visita, com exclusão rigorosa de quaisquer outros líquidos (incluindo água ou chás) ou sólidos. As variáveis de exposição incluíram as temperaturas ambientais diárias (mínimas e máximas) e a umidade relativa do ar. Esses dados foram extraídos da grade meteorológica de alta resolução Brazilian Daily Weather Gridded Data (BR-DWGD), que utiliza interpolação de dados de estações de superfície para fornecer estimativas precisas por coordenadas geográficas ou municípios. A associação entre temperatura ambiente e o tempo até a interrupção (falha) do AME foi estimada por meio de modelos de riscos proporcionais de Cox. Para capturar a complexidade da relação dose-resposta e os efeitos retardados da temperatura ao longo do tempo, os modelos de Cox foram integrados a Modelos Lag Não Lineares Distribuídos (DLNM). Essa abordagem permite modelar simultaneamente a não linearidade da exposição térmica e a estrutura de defasagem temporal (lags) por meio de funções de spline.
Resultados
Este estudo de base populacional com 397.239 lactentes revelou que a exposição ao calor aumenta em 10% o risco de interrupção do AME (HR 1,10; IC 95%: 1,08–1,14), com efeito consistente entre diferentes sexos, idades e níveis de privação municipal. Em contraste, o frio não apresentou associação significativa nacionalmente (HR 1,01; IC 95%: 0,98–1,05). Contudo, análises de subgrupo indicam que o impacto das baixas temperaturas é heterogêneo, variando conforme a idade da criança e vulnerabilidades socioeconômicas locais.
Discussão
Este estudo nacional vincula o calor ao maior risco de interrupção do AME, corroborando evidências globais. O efeito do calor é homogêneo entre subgrupos, possivelmente devido a percepções maternas sobre desidratação infantil. Já o frio apresenta efeitos heterogêneos por idade e privação socioeconômica. Os achados reforçam a necessidade de considerar estressores térmicos e dinâmicas de cuidado nas políticas de amamentação.
Conclusões/Considerações
Nossos achados destacam a importância de fortalecer o apoio à amamentação durante períodos de calor elevado e de integrar abordagens sensíveis ao clima nas políticas de saúde materno-infantil.
MAPEAMENTO DE EVIDÊNCIAS SOBRE OS EFEITOS DOS EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS NA SAÚDE DA POPULAÇÃO IDOSA
Apresentação oral
1 Unifesp
2 UFPB
Apresentação/Introdução
INTRODUÇÃO: Eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos nas últimas décadas, configurando um desafio crescente para a saúde pública global. Fenômenos como ondas de calor, enchentes, secas, tempestades e incêndios florestais estão associados a mudanças climáticas, transformações ambientais e processos de urbanização que ampliam a exposição de populações humanas a situações de risco. Em determinados contextos, quando esses eventos ultrapassam a capacidade de resposta de governos, serviços e comunidades, podem resultar em desastres com repercussões relevantes para a saúde, as condições de vida, a organização dos territórios e o funcionamento dos sistemas de saúde.
Entre os grupos mais sensíveis a esses processos estão as pessoas idosas. O envelhecimento associa-se a alterações fisiológicas, maior prevalência de doenças crônicas, limitações funcionais e maior necessidade de cuidados contínuos, fatores que podem aumentar a suscetibilidade a agravos desencadeados por eventos ambientais extremos. Entretanto, a vulnerabilidade da população idosa não se explica apenas por aspectos biológicos do envelhecimento. Barreiras de mobilidade, dificuldades de acesso à informação, fragilidade das redes de apoio e desigualdades socioeconômicas também influenciam a exposição aos riscos e a capacidade de resposta em situações de emergência.
Objetivos
OBJETIVOS: Este estudo teve como objetivo mapear as evidências científicas disponíveis sobre os efeitos dos eventos climáticos extremos na saúde da população idosa.
Metodologia
METODOLOGIA:Foi realizada uma revisão de escopo conduzida conforme as recomendações metodológicas do Joanna Briggs Institute (JBI). A busca foi realizada em bases de dados relevantes para a área da saúde, incluindo EMBASE, Scopus, Web of Science, PubMed e LILACS, além da consulta a literatura cinzenta no Portal de Teses e Dissertações da CAPES. Foram incluídos estudos publicados em português, inglês e espanhol que abordassem efeitos negativos na saúde de pessoas idosas associados a eventos climáticos extremos ou desastres ambientais, sem delimitação temporal.
Resultados
RESULTADOS:Ao final do processo de seleção, foram incluídos 41 estudos. A análise das evidências demonstrou que os fenômenos climáticos mais frequentemente investigados estão relacionados a temperaturas extremas, especialmente ondas de calor. Outros eventos analisados incluem enchentes, desastres ambientais, ondas de frio e episódios de poluição atmosférica associados a condições climáticas adversas. Em relação aos desfechos em saúde, os estudos apontam associação entre esses eventos e aumento da mortalidade e morbidade em pessoas idosas, particularmente por doenças cardiovasculares e respiratórias. Diversos estudos também relatam maior ocorrência de hospitalizações, atendimentos de emergência e agravamento de condições crônicas durante períodos de temperaturas extremas.
Além dos efeitos físicos, parte da literatura descreve impactos relevantes na saúde mental e no bem-estar psicológico. Foram identificadas associações entre eventos climáticos extremos e aumento de sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidade social. Os estudos também indicam que fatores como renda, escolaridade, condições de moradia, acesso a serviços de saúde e presença de redes de apoio influenciam tanto a exposição aos eventos climáticos quanto a capacidade de adaptação das populações.
Discussão
ANÁLISE CRÍTICA: Os resultados indicam que os efeitos dos eventos climáticos extremos na saúde da população idosa resultam da interação entre processos ambientais, condições sociais e características biológicas do envelhecimento, evidenciando a relevância da determinação socioambiental da saúde para compreender a vulnerabilidade climática desse grupo populacional. Os achados reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas intersetoriais, estratégias de adaptação climática e ações de promoção da saúde que considerem as especificidades do envelhecimento populacional.
Conclusões/Considerações
Eventos climáticos extremos estão associados a agravos importantes à saúde de pessoas idosas. A vulnerabilidade observada resulta da interação entre fatores ambientais, sociais e biológicos. Sob a perspectiva da determinação socioambiental da saúde, desigualdades sociais e barreiras de acesso aos serviços ampliam a exposição aos riscos e limitam a capacidade de resposta.
DESIGUALDADE ECONÔMICA E TAXAS DE HOMICÍDIO EM BELO HORIZONTE NO PERÍODO 2020 A 2022
Apresentação oral
1 Fiocruz Minas
2 UFMG
Apresentação/Introdução
A violência configura-se como um grave problema de saúde pública e social em escala global, sendo responsável por mais de 1,3 milhão de mortes anuais decorrentes de formas auto infligidas, interpessoais e coletivas, com predomínio da violência interpessoal, também denominada homicídio. Entretanto, a violência apresenta padrões espaciais marcantes, com variações entre e dentro de países, regiões e cidades, incidindo de forma desproporcional sobre grupos em situação de vulnerabilidade e configurando-se como um dos indicadores mais sensíveis das desigualdades sociais no espaço urbano.
Objetivos
Descrever a distribuição espacial da taxa de homicídios nos territórios de abrangência das Unidades Básicas de Saúde de Belo Horizonte, no período de 2020 a 2022.
Metodologia
A partir de dados harmonizados do projeto “Mortalidade e morbidade por violência e segregação residencial econômica: desenvolvimento de soluções locais orientadas por sistemas complexos” foram analisados os dados georreferenciados dos óbitos por violência (Capítulo XX, CID-10 com os códigos X85-Y09, Y871 e Y35) registrados no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), disponibilizadas pela Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Os dados populacionais e rendimento nominal médio mensal das pessoas responsáveis pelo domicilio foram obtidos do Censo demográfico de 2022. Os dados foram agregados por áreas de abrangência, que correspondem à unidade territorial de organização da Atenção Básica, definida com base nos princípios da territorialização. O Índice de Moran Local foi utilizado para identificar os agrupamentos espaciais.
Resultados
A taxa de homicídio variou de 4,22 a 152,94 por 100.00 habitantes nas 153 áreas de abrangência das Unidades Básicas de Saúde do município. Observou-se autocorrelação espacial negativa entre a taxa de homicídio e o rendimento médio do responsável pelo domicílio, com formação de 13 clusters do tipo baixo–alto, localizados principalmente nas regionais Nordeste e Norte; 11 clusters alto–baixo localizado nas regionais Centro-Sul e Pampulha; e 4 clusters baixo–baixo localizados nas regionais Pampulha, Norte e Venda Nova.
Discussão
Os homicídios expressam a síntese das desvantagens urbanas, enquanto a segregação socioespacial constitui uma das manifestações mais evidentes das desigualdades sociais, ao refletir a distribuição desigual de oportunidades no acesso a bens, recursos e serviços, com repercussões diretas nas condições de saúde da população.
Conclusões/Considerações
A distribuição espacial das taxas de homicídio nas áreas de abrangência das Unidades Básicas de Saúde em Belo Horizonte mostrou-se heterogênea e apresentou autocorrelação espacial negativa com o rendimento médio do responsável pelo domicílio. Nesse sentido, os serviços de Atenção Básica à Saúde assumem papel estratégico na identificação, no acolhimento e no enfrentamento das situações de violência, dada sua proximidade com os territórios. Assim, o avanço na qualidade da atenção e do acesso, orientado pelos princípios da justiça social e da integralidade, deve estar ancorado em uma análise contextualizada das dinâmicas territoriais.
MAPEAMENTO DE EVIDÊNCIAS SOBRE OS EFEITOS DOS EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS NA SAÚDE DA POPULAÇÃO IDOSA
Apresentação oral
1 Unifesp
2 UFPB
Apresentação/Introdução
INTRODUÇÃO: Eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos nas últimas décadas, configurando um desafio crescente para a saúde pública global. Fenômenos como ondas de calor, enchentes, secas, tempestades e incêndios florestais estão associados a mudanças climáticas, transformações ambientais e processos de urbanização que ampliam a exposição de populações humanas a situações de risco. Em determinados contextos, quando esses eventos ultrapassam a capacidade de resposta de governos, serviços e comunidades, podem resultar em desastres com repercussões relevantes para a saúde, as condições de vida, a organização dos territórios e o funcionamento dos sistemas de saúde.
Entre os grupos mais sensíveis a esses processos estão as pessoas idosas. O envelhecimento associa-se a alterações fisiológicas, maior prevalência de doenças crônicas, limitações funcionais e maior necessidade de cuidados contínuos, fatores que podem aumentar a suscetibilidade a agravos desencadeados por eventos ambientais extremos. Entretanto, a vulnerabilidade da população idosa não se explica apenas por aspectos biológicos do envelhecimento. Barreiras de mobilidade, dificuldades de acesso à informação, fragilidade das redes de apoio e desigualdades socioeconômicas também influenciam a exposição aos riscos e a capacidade de resposta em situações de emergência.
Objetivos
OBJETIVOS: Este estudo teve como objetivo mapear as evidências científicas disponíveis sobre os efeitos dos eventos climáticos extremos na saúde da população idosa.
Metodologia
METODOLOGIA:Foi realizada uma revisão de escopo conduzida conforme as recomendações metodológicas do Joanna Briggs Institute (JBI). A busca foi realizada em bases de dados relevantes para a área da saúde, incluindo EMBASE, Scopus, Web of Science, PubMed e LILACS, além da consulta a literatura cinzenta no Portal de Teses e Dissertações da CAPES. Foram incluídos estudos publicados em português, inglês e espanhol que abordassem efeitos negativos na saúde de pessoas idosas associados a eventos climáticos extremos ou desastres ambientais, sem delimitação temporal.
Resultados
RESULTADOS:Ao final do processo de seleção, foram incluídos 41 estudos. A análise das evidências demonstrou que os fenômenos climáticos mais frequentemente investigados estão relacionados a temperaturas extremas, especialmente ondas de calor. Outros eventos analisados incluem enchentes, desastres ambientais, ondas de frio e episódios de poluição atmosférica associados a condições climáticas adversas. Em relação aos desfechos em saúde, os estudos apontam associação entre esses eventos e aumento da mortalidade e morbidade em pessoas idosas, particularmente por doenças cardiovasculares e respiratórias. Diversos estudos também relatam maior ocorrência de hospitalizações, atendimentos de emergência e agravamento de condições crônicas durante períodos de temperaturas extremas.
Além dos efeitos físicos, parte da literatura descreve impactos relevantes na saúde mental e no bem-estar psicológico. Foram identificadas associações entre eventos climáticos extremos e aumento de sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidade social. Os estudos também indicam que fatores como renda, escolaridade, condições de moradia, acesso a serviços de saúde e presença de redes de apoio influenciam tanto a exposição aos eventos climáticos quanto a capacidade de adaptação das populações.
Discussão
ANÁLISE CRÍTICA: Os resultados indicam que os efeitos dos eventos climáticos extremos na saúde da população idosa resultam da interação entre processos ambientais, condições sociais e características biológicas do envelhecimento, evidenciando a relevância da determinação socioambiental da saúde para compreender a vulnerabilidade climática desse grupo populacional. Os achados reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas intersetoriais, estratégias de adaptação climática e ações de promoção da saúde que considerem as especificidades do envelhecimento populacional.
Conclusões/Considerações
Eventos climáticos extremos estão associados a agravos importantes à saúde de pessoas idosas. A vulnerabilidade observada resulta da interação entre fatores ambientais, sociais e biológicos. Sob a perspectiva da determinação socioambiental da saúde, desigualdades sociais e barreiras de acesso aos serviços ampliam a exposição aos riscos e limitam a capacidade de resposta.
INIQUIDADES EM DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS SEGUNDO ORIENTAÇÃO SEXUAL: SÍNTESE DE ESTUDOS POPULACIONAIS
Apresentação oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) constituem a principal causa de morbimortalidade no Brasil e no mundo. Apesar da centralidade dessas condições na agenda da Saúde Coletiva, a produção de evidências sobre iniquidades em saúde segundo orientação sexual ainda é limitada, especialmente em estudos baseados em inquéritos populacionais. A recente inclusão da variável orientação sexual na Pesquisa Nacional de Saúde ampliou as possibilidades analíticas sobre desigualdades em saúde no país. No cenário internacional, entretanto, a maioria das evidências concentra-se em inquéritos conduzidos nos Estados Unidos, evidenciando assimetrias na produção do conhecimento.
Objetivos
Sintetizar a produção científica sobre orientação sexual e DCNT baseada em inquéritos populacionais, identificando padrões epidemiológicos, lacunas investigativas e implicações para a vigilância em saúde.
Metodologia
Trata-se de síntese narrativa estruturada da literatura científica, realizada em 2025, com levantamento em bases internacionais (Web of Science, PubMed e outras) e nacionais. Foram incluídos estudos observacionais baseados em inquéritos populacionais que analisaram DCNT segundo orientação sexual em adultos. Extraíram-se informações sobre desenho do estudo, base de dados utilizada, definição de orientação sexual, desfechos investigados, medidas de associação e ajustes empregados. A análise priorizou comparabilidade metodológica, consistência dos achados e limites epistemológicos das investigações.
Resultados
Observou-se predominância de estudos derivados de grandes inquéritos norte-americanos, majoritariamente com delineamento transversal e uso de regressão logística ou de Poisson para estimativas ajustadas. As DCNT mais investigadas foram doenças cardiovasculares, diabetes mellitus, asma, obesidade e transtornos mentais. De modo geral, indivíduos pertencentes a minorias sexuais apresentaram maiores prevalências e maior exposição a fatores comportamentais de risco, especialmente relacionados à saúde mental. No Brasil, a produção ainda é incipiente, concentrando-se em análises secundárias da Pesquisa Nacional de Saúde. Persistem limitações quanto à mensuração da orientação sexual, ausência de abordagem interseccional robusta e escassez de análises longitudinais
Discussão
A síntese evidencia iniquidades em saúde consistentes nas DCNT segundo orientação sexual e aponta fragilidades na incorporação sistemática desse marcador nos sistemas de vigilância em saúde. Observa-se predominância de estudos produzidos em países de alta renda, especialmente nos Estados Unidos, enquanto a produção brasileira ainda é incipiente. As limitações metodológicas identificadas; como dificuldades na mensuração da orientação sexual, ausência de abordagens interseccionais robustas e escassez de estudos longitudinais; indicam desafios para a compreensão mais aprofundada das desigualdades em saúde entre minorias sexuais.
Conclusões/Considerações
O fortalecimento de inquéritos populacionais com inclusão qualificada da variável orientação sexual é estratégico para o monitoramento das iniquidades em saúde e para o avanço da agenda de redução da mortalidade prematura por DCNT prevista na Meta 3.4 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A ampliação da produção científica nacional pode contribuir para subsidiar políticas públicas orientadas à equidade e ao enfrentamento das iniquidades em saúde relacionadas à orientação sexual.
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RINS EM ALERTA: DOENÇA RENAL CRÔNICA COMO REFLEXO DA INIQUIDADE PRESENTE NO MATO GROSSO
Apresentação oral
1 UFMT
Apresentação/Introdução
Estima-se que em 2017 haveria cerca de 850 milhões de pessoas com doença renal - DR no mundo, decorrente de várias etiologias, causando pelo menos 2,4 milhões de mortes por ano, com uma taxa ascendente de mortalidade. Já a prevalência de pessoas em tratamento dialítico no Brasil até 2023 é de 157.357 usuários, um aumento de 40% das ocorrências nos últimos 10 anos.
Objetivos
Discutir a ocorrência de Doença renal crônica - DRC no Mato Grosso e as interferências do agronegócio sobre esse agravo de saúde.
Metodologia
Metodologia: Trata-se de uma pesquisa transversal com base de dados secundários de domínio público presente no DATASUS/TABNET utilizando a SIM e SIH/SUS no período de 2019 a 2023.
Resultados
No MT a taxa de internação por DRC em 2019 era de 3,4/10mil habitantes, entre 2020 a até 2022 houve um decréscimo chegando em 2022, contudo, em 2023 a internação chegando a 3,2/10mil habitantes. Quando analisamos os municípios com maior frequência de internação temos em 1º Cáceres, após Rondonópolis, Sinop e Cuiabá. Quanto ao perfil dos pacientes temos 62% de homens, 55% são pardos seguido por 32% brancos. Quando a escolaridade temos 39% entre usuários com nenhuma ou até 3 anos estudo completo. A faixa etária mais comum 21% encontra-se com 80 anos ou mais, porem a DRC começa a ter uma incidência significativa a partir dos 50 a 59 anos.
Discussão
O Mato Grosso é o estado que mais produz soja do Brasil, tendo como uma das atividades econômicas mais presentes no território é o agronegócio. O DRC é mais comum em pessoas mais idosas, contudo, nas últimas duas décadas tem sido relatada uma forma grave de DRC em indivíduos jovens, que vivem em região rural e tem contato com agroquímicos, sem os fatores de risco tradicionais para DRC que são HAS, DM e infecções do trato urinário.
Conclusões/Considerações
Os fatores desencadeadores da DRC de origem ambiental e ocupacional têm sido identificados como possíveis contribuintes para o desenvolvimento dessa condição, indicando uma mudança no perfil epidemiológico e etiológico da DRC, sendo associado ao atual modelo de produção agrícola traz impactos que não se distribuem de forma equânime nos territórios, afetando de forma mais severa os trabalhadores que residem em municípios do interior, do sexo masculino, pardos e com baixo índice de instrução. As populações que residem nessas regiões, que estão sobre forte ataque pela contaminação de matrizes ambientais, perda da biodiversidade, adoecimentos e mortes relacionadas com a exposição aos agrotóxicos e fertilizantes químicos.
Realização: