Programa - Roda de Saberes - RS11 - Poluição, Contaminações e à Vida nos Territórios
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
OCORRÊNCIA E DISTRIBUIÇÃO DE MICROPLÁSTICOS EM PRAIAS URBANAS: EVIDÊNCIAS DE CONTAMINAÇÃO DIFUSA NO RJ
Apresentação oral
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
A presença de plásticos e, consequentemente, de microplásticos no ambiente constitui um problema ambiental emergente de escala global. A degradação de resíduos plásticos gera partículas menores, persistentes e altamente dispersivas, capazes de acumular-se em diferentes compartimentos ambientais e integrar cadeias tróficas. Essa contaminação pode afetar a biodiversidade, comprometer o funcionamento dos ecossistemas e representar riscos à saúde ambiental e humana. Em áreas costeiras urbanas intensamente frequentadas, como praias, essas partículas tendem a acumular-se em sedimentos arenosos. Embora frequentemente invisíveis a olho nu, os microplásticos configuram uma forma difusa de poluição que impacta ambientes marinhos.
Objetivos
O objetivo deste estudo foi avaliar a distribuição de microplásticos (1–5mm) nas areias das praias do trecho costeiro Arpoador-Ipanema-Leblon, no Rio de Janeiro, visando caracterizar a extensão da contaminação por plásticos em praias urbanas.
Metodologia
Foram delimitados seis pontos de coleta ao longo da faixa de praia em frente aos postos 7, 8, 9, 10, 11 e 12. As amostras de areia coletadas foram armazenadas em sacolas de papel e encaminhadas ao laboratório, onde foram secas a 110°C por 24h. Posteriormente realizou-se a separação granulométrica utilizando peneiras de 4 Mesh (4,75mm) e 16 Mesh (1,00mm), permitindo a remoção e triagem de partículas plásticas visíveis, posteriormente classificadas quanto à forma e cor por observação direta e microscopia óptica.
Resultados
Microplásticos foram detectados em todos os pontos analisados. A densidade variou entre aproximadamente 0,7 e 3,4 partículas por kg de areia, com maior ocorrência no posto 9. No posto 7, em 5,1kg de areia, foram identificadas 5 partículas; no posto 8, em 5,2kg, 7 partículas; no posto 9, em 4,4kg, 15 partículas; no posto 10, em 6,3kg, 11 partículas; no posto 11, em 5,5kg, 4 partículas; e no posto 12, em 5,8kg, 12 partículas. Predominaram fragmentos de formas irregulares e partículas incolores ou brancas, além da presença de fibras, sugerindo diferentes fontes de origem.
Discussão
A presença de microplásticos em todos os pontos amostrados indica que a contaminação por plásticos apresenta distribuição ampla ao longo da faixa costeira analisada. A predominância de fragmentos irregulares evidencia processos de degradação de resíduos plásticos maiores presentes no ambiente, enquanto a ocorrência de fibras pode estar associada a atividades urbanas e turísticas, incluindo descarte inadequado de resíduos e aporte de efluentes. Observou-se também predominância de partículas incolores e brancas, que podem estar relacionadas, predominantemente, à degradação de plásticos de uso único, como copos, garrafas, pratos e talheres descartáveis amplamente utilizados em praias urbanas. Esses achados evidenciam a relação entre padrões de consumo associados ao turismo em praias urbanas e a geração difusa de microplásticos no ambiente costeiro. Esses resultados reforçam o papel de praias urbanas intensamente frequentadas como áreas de acúmulo de microplásticos e evidenciam a relação entre processos de urbanização, turismo e contaminação ambiental; e reforçam a importância de compreender praias urbanas como territórios onde processos de urbanização, consumo e poluição plástica se articulam, com potenciais implicações para a saúde ambiental. A presença dessas partículas em sedimentos costeiros representa um potencial vetor de exposição ambiental para organismos marinhos e para populações humanas que utilizam esses espaços para lazer e atividades econômicas.
Conclusões/Considerações
Os resultados evidenciam a ocorrência disseminada de microplásticos nas areias das praias do Arpoador-Ipanema-Leblon, indicando contaminação difusa ao longo de um dos trechos litorâneos mais frequentados do RJ. A metodologia aplicada mostrou-se eficaz para a separação e identificação dessas partículas no intervalo granulométrico analisado. O estudo contribui para ampliar o conhecimento sobre a distribuição de microplásticos em ambientes costeiros urbanos e reforça a necessidade de monitoramento sistemático desses poluentes. Evidências sobre microplásticos em territórios costeiros urbanos podem subsidiar políticas públicas voltadas à redução da poluição plástica e à proteção da saúde ambiental.
CONFLITO QUÍMICO NA CIDADE DOS MENINOS– RJ: UM DESDOBRAMENTO DA CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL
Apresentação oral
1 Cesteh/ Ensp/ Fiocruz
Apresentação/Introdução
A contaminação química no bairro Cidade dos Meninos, em Duque de Caxias/RJ é considerada um dos maiores desastres ambientais causados por pesticidas, no Brasil. O problema começou em meados do século XX, com a criação do Instituto Nacional de Malariologia, do Ministério da Educação e Saúde e da Fábrica de Produtos Profiláticos, dedicada à produção de hexaclorociclohexano (HCH), arsenito de cobre, hexaclorobenzeno (BHC), monofluoroaetato de sódio, cianeto de cálcio e diclorodifenil tricloretano (DDT), entre outros. Com a desativação da Fábrica, em 1961, uma enorme quantidade de pesticidas foi abandonada no local, sem qualquer tipo de tratamento ou orientação à população local sobre os riscos daquelas substâncias, o que possibilitou o uso indiscriminado desses produtos, contaminando a população residente e arredores. Desde então, as questões envolvendo os mais diversos aspectos da área, como saúde humana, meio ambiente, definição sobre a destinação e uso do terreno, entre tantas outras, continuam sob discussão.
Objetivos
O objetivo do estudo é realizar um levantamento bibliográfico sobre as questões envolvendo a contaminação ambiental e exposição humana na Cidade dos Meninos e seus decorrentes impactos ambientais, de saúde e sociais sobre a população local, construindo também uma linha do tempo dos principais marcos históricos envolvendo o conflito químico da região, no período de 1950 até 2024.
Metodologia
Corresponde a um estudo exploratório-descritivo, baseado em revisão integrativa de artigos e documentos publicados de acesso público sobre o caso da Cidade dos Meninos, Duque de Caxias/RJ, com intervalo temporal de 1950 até 2024. Os bancos de dados utilizados na pesquisa foram PubMed; BVS; Scielo; CAPES; RiUFF; LILACs; ARCA (Fiocruz); Google Acadêmico (200 primeiros trabalhos) e os descritores Cidade dos Meninos OR Abrigo Cristo Redentor OR Fundação Abrigo Cristo Redentor AND Duque de Caxias AND Rio de Janeiro; AND contaminação ambiental AND inseticida AND organoclorado AND agrotóxico AND DDT AND lindano. O período de estudo escolhido parte de 1950, pois foi quando a Fábrica de pesticidas foi inaugurada.
Resultados
Até o momento, o levantamento obteve 690 trabalhos encontrados, tendo sido excluídos 245 trabalhos repetidos, totalizando 445 documentos para a etapa de triagem. Desses, foram selecionados 175 trabalhos completos e de livre acesso que abordavam o respectivo tema, conforme os critérios de inclusão
Discussão
No presente momento esses trabalhos estão sendo lidos por completo e uma linha do tempo com os principais marcos históricos envolvendo a contaminação ambiental e seus diversos impactos sobre a população do território. Os principais marcos históricos da linha do tempo envolvem a atuação de Fundações, Institutos e Fábricas no território da Cidade dos Meninos, as ações da Procuradoria Geral de Justiça, evacuação da área com remoção da população e os principais estudos no território e seus desdobramentos.
Conclusões/Considerações
Este trabalho faz parte de um projeto maior intitulado “Fortalecimento da vigilância ambiental e Saúde do Trabalhador na atenção integral à saúde das populações expostas a substância químicas em áreas contaminadas” firmado entre o CESTEH/ENSP/FIOCRUZ e o DSAST/SVSA/MS que tem como objetivo acompanhar e reavaliar e monitorar a contaminação ambiental no território, para orientação das ações de atenção, promoção e recuperação à saúde da população exposta. Desse modo, o presente trabalho contribui no entendimento desde a produção acadêmica dos diversos estudos realizado no território e na população exposta, aos conflitos de saúde, ambientais e sociais oriundos dos principais acontecimentos e desfechos das tomadas de decisão pelo poder governamental na tentativa de proteger a população.
IMPACTO DA EXPOSIÇÃO A POLUIÇÃO NA MORBIMORTALIDADE POR DOENÇA CARDIOVASCULAR NO ESTADO DE SÃO PAULO/2014-2024.
Apresentação oral
1 USP
2 Unimontes
Apresentação/Introdução
A relação entre a degradação da qualidade do ar e o incremento das doenças cardiovasculares constitui um dos desafios mais críticos da saúde pública. Dentre os poluentes atmosféricos, o Material Particulado (MP10) destaca-se pelo seu potencial agressivo, desencadeando diversas doenças. Globalmente, o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) permanece como a principal causa de morte prematura, apresentando taxas de morbidade que sobrecarregam sistemas hospitalares e elevam custos assistenciais. No contexto regional da Região de Piracicaba, no interior paulista, a dinâmica industrial e a queima de biomassa intensificam a concentração desse poluente, criando um cenário de exposição crônica para as populações residentes. Embora o monitoramento atmosférico seja restrito a polos específicos, a homogeneidade climática e geográfica permite o estabelecimento de modelos matemáticos que correlacionam a poluição com o desfecho clínico nos municípios adjacentes.
Objetivos
Este estudo objetiva quantificar, por meio de modelos matemáticos de regressão linear, o impacto direto do aumento das concentrações de MP10 sobre as taxas de morbidade e mortalidade por IAM em 26 municípios da Região de Piracicaba/SP entre 2014 e 2024. Ao estabelecer um coeficiente de resposta frente à exposição ambiental, a pesquisa busca fornecer evidências robustas para a fundamentação de políticas públicas de controle de emissões e estratégias de mitigação de danos à saúde cardiovascular na região.
Metodologia
A análise foi conduzida através de um modelo de regressão linear utilizando a linguagem de programação R. O estudo abrangeu 26 municípios da região de Piracicaba, no Estado de São Paulo, no período de 2014 a 2024. A variável proxy regional foi construída a partir da média aritmética das concentrações anuais de MP10 registradas nas estações da CETESB em Limeira, Piracicaba, Rio Claro e Santa Gertrudes, representando a exposição atmosférica média da região. As taxas de morbidade e mortalidade foram calculadas para a população de 20 a 69 anos (sem distinção de gênero ou raça e por 100 mil hab.) com dados obtidos nas bases do DATASUS e dados populacionais obtidos junto ao IBGE.
Resultados
A análise demonstrou uma tendência de crescimento em ambos os indicadores de saúde (morbidade e mortalidade) conforme a concentração de MP10 se eleva. No período analisado, observou-se que, apesar das oscilações anuais do MP10, as taxas de morbidade apresentam uma inclinação ascendente mais acentuada que a mortalidade, sugerindo que o sistema hospitalar tem maior sensibilidade imediata às variações da poluição. A análise estatística revelou que o impacto do MP10 é significativamente superior na morbidade (β = 1,84) em comparação à mortalidade (β = 0,29), ou seja, a cada aumento de 1 µg/m3 de aumento na média anual de MP10, a taxa de morbidade sobe 1,84 e a taxa de mortalidade sobe 0,29 por 100 mil hab.
Discussão
A maior sensibilidade da taxa de morbidade sugere que as variações nas concentrações de particulados atuam de modo mais imediato para a desestabilização da saúde cardiovascular das populações afetadas, levando a um aumento súbito na procura por serviços de saúde e refletindo-se nas estatísticas de internações por IAM. Este aumento demonstra que a população exposta ao poluente está chegando ao ambiente hospitalar. Portanto, a poluição aumenta o risco de o evento ocorrer (internação), mas o óbito (mortalidade) é mediado pela qualidade e agilidade da resposta assistencial, o que "achata" o coeficiente β de mortalidade no modelo matemático.
Conclusões/Considerações
Os resultados indicam que o MP10 atua como um potente catalisador do IAM na região e período estudado. Para os gestores públicos, isso significa que a poluição do ar não é apenas uma questão ambiental, mas um fator de pressão direta sobre a ocupação de leitos de UTI e custos hospitalares, mesmo que as taxas de mortalidade pareçam, sob uma análise superficial, menos afetadas.
QUALIDADE DO AR E SAÚDE COLETIVA APÓS O FIM DA QUEIMA DA CANA PAULISTA
Apresentação oral
1 FSP/USP
Apresentação/Introdução
Efeitos da queima de biomassa sobre a saúde vêm sendo amplamente investigados mundialmente, com destaque a queima da palha da cana-de-açúcar em regiões produtoras. No Brasil, o estado de São Paulo consolidou-se como o maior produtor nacional e mundial, expandindo o cultivo a partir de 2003, impulsionado pela introdução dos veículos flexfuel. Esse processo ampliou os impactos da poluição atmosférica sobre municípios de pequeno e médio porte situados no entorno das áreas canavieiras. Na saúde coletiva, a queima da cana insere-se na interface entre modelo de desenvolvimento agroenergético, degradação ambiental e vulnerabilidade populacional, evidenciando desigualdades socioambientais nos indicadores de internações hospitalares e qualidade de vida. A poluição decorrente da queima configurava-se como questão sanitária relevante, mobilizando o poder público estadual, sociedade civil e ambientalistas. Em resposta, São Paulo instituiu a Lei Estadual nº 11.241/2002, que estabeleceu a eliminação gradual do uso do fogo nas plantações até 2031, posteriormente antecipada para 2018 mediante acordo com o setor produtivo. A transição tecnológica incluiu a substituição da colheita manual pela mecanizada e a permanência da palha no solo como cobertura vegetal.
Objetivos
Avaliar a efetividade da política pública paulista na melhoria da qualidade do ar após a eliminação progressiva da queima da cana-de-açúcar.
Metodologia
Foram selecionados municípios do estado de São Paulo com grande extensão de cultivo de cana-de-açúcar e analisados dados de concentração de material particulado inalável (MP₁₀) das estações de monitoramento da CETESB, no período de 2010 a 2025. Considerando a meta intermediária II de padrões de qualidade do ar, vigente desde 01/01/2022, avaliou-se, também, as concentrações de MP₁₀ nos últimos três anos, 2023 a 2025.
Resultados
Acordo entre o Governo do Estado de São Paulo e os produtores de cana-de-açúcar, antecipando fim das queimadas, representa marco regulatório relevante na agenda ambiental. Observou-se redução gradual das concentrações de MP₁₀µg/m³ nas cidades monitoradas, fazendo com que estejam dentro dos padrões adotados pela legislação (MI 2), indicando efeitos positivos das medidas adotadas. Entretanto, o aumento pontual registrado em 2024 em algumas estações de monitoramento evidencia que, embora a eliminação da queima da cana tenha contribuído para a melhoria da qualidade do ar, outras fontes emissoras, como tráfego veicular, poeira ressuspensa e queimadas de outras naturezas, podem estar influenciando as concentrações de material particulado. Esse achado reforça a necessidade de vigilância ambiental contínua e de fortalecimento das ações de fiscalização e controle.
Discussão
A legislação paulista, articulada ao Protocolo Ambiental, estabeleceu instrumentos voltados à promoção do desenvolvimento sustentável nos setores produtivo, industrial e governamental, bem como entre fornecedores de cana-de-açúcar. Contudo, a consolidação e ampliação desses avanços, para a meta final, depende da integração efetiva entre políticas de controle da poluição atmosférica, mitigação das mudanças climáticas, participação popular e proteção à saúde, em perspectiva intersetorial. No âmbito da Saúde Coletiva, isso implica reconhecer que a melhoria da qualidade do ar é não apenas uma meta ambiental, mas uma estratégia fundamental para a redução de desigualdades socioambientais e para a promoção da saúde da população.
Conclusões/Considerações
O estudo evidencia avanços na redução da poluição atmosférica no contexto paulista, decorrentes da implementação de políticas públicas e da adoção de melhores práticas no setor sucroenergético. A antecipação do fim das queimadas demonstra a viabilidade de conciliar desenvolvimento econômico, responsabilidade ambiental e proteção à saúde. Demonstra, sobretudo, a viabilidade da proibição da queima de cana-de-açúcar que precisaria se estender a todo território nacional e a importância da vigilância contínua e do aprimoramento das ações intersetoriais para assegurar a sustentabilidade dos resultados e a promoção da saúde em bases equitativas.
QUALIDADE DO SONO EM DUAS POPULAÇÕES EXPOSTAS A SUBSTÂNCIAS TÓXICAS NO BRASIL.
Apresentação oral
1 1Projeto Integrador Multicêntrico: Estudo do impacto à saúde de Agentes de Combate às Endemias/Guardas de Endemias (ACE) pela exposição a agrotóxicos no Estado do Rio de Janeiro, Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, Escola Nacional
2 8 Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Rio de Janeiro, RJ.
Apresentação/Introdução
Os resíduos industriais e os agrotóxicos utilizados nas campanhas de saúde pública expõem as populações a substâncias químicas que afetam o sistema circadiano. Numerosos estudos investigam a relação entre essas exposições e a saúde humana, mas poucos exploram o impacto na qualidade do sono.
A privação de sono tem sido associada a comprometimentos nas funções corporais e mentais, enquanto a exposição a substâncias químicas impacta a qualidade do sono por meio de certos mecanismos e vias moleculares.
Objetivos
Este estudo teve como objetivo analisar a qualidade do sono em duas populações expostas a substâncias químicas, utilizando parâmetros de saúde.
Metodologia
Foi realizado um estudo transversal com 189 moradores da cidade de Volta Redonda (Rio de Janeiro), expostos a cádmio (Cd), manganês (Mn), níquel (Ni) e tolueno (TLN) e 66 trabalhadores do Controle Vetorial, Agentes de Combate a Endemias (ACE), expostos há mais de 20 anos a organoclorados, organofosforados, carbamatos, cumarínicos, piretroides e neonicotinoides em sua jornada de trabalho, alguns desses banidos ou restritos em outros países devido aos seus efeitos à saúde humana e ambiental. Foram realizados exames clínicos e toxicológicos. A qualidade do sono foi avaliada pelo Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI) e actimetria ActTrust; os níveis de chumbo (Pb), Cd, Mn, Ni, BZN e tolueno (TLN) no sangue e na urina foram determinados por GFAAS e GC-MS; e a genotipagem foi realizada por PCR.
Resultados
ESTUDO 1: Níveis mais elevados de Mn foram associados ao cronotipo matutino (p < 0,01). O cronotipo vespertino foi associado à pior qualidade do sono; níveis mais elevados de Pb no sangue; e BZN e TLN na urina (p < 0,01) em indivíduos não expostos ocupacionalmente (p < 0,01). Além disso, a maioria dos participantes (57%) relatou má qualidade do sono; e níveis significativamente mais elevados de Cd na urina em residentes com pontuações mais altas para disfunção diurna (U = 1,707.5; p = 0.01) e distúrbio do sono (U = 1,513; p < 0.01); Mn (U = 1,665; p < 0.01) e Ni (U = 1,875.5; p = 0.027); para distúrbio do sono; e TLN; para duração do sono (U = 1,043; p = 0.049). ESTUDO 2: Observou-se exposição a múltiplos pesticidas (substâncias cancerígenas, neurotóxicas e disruptoras endócrinas); aproximadamente 51% apresentaram pelo menos dois sintomas típicos de intoxicação após contato e/ou manuseio; principalmente associados ao horário de trabalho (RP: 2,09; 1,23 a 3,55); A exposição a piretróides (RP: 1,16; IC 95%: 1,01 a 1,34) e organofosforados (RP: 1,25; IC 95%: 1,07 a 1,47) resultou em qualidade do sono ruim ou muito ruim (RP: 1,40; IC 95%: 1,19 a 1,64). A pontuação da qualidade do sono foi de 7,8 pontos no PSQI e 60% da população foi classificada como tendo sono ruim (PSQI > 5). Além disso, o tempo total de sono foi de 5 a 6 horas, e houve correlação positiva entre o hormônio T4 e o tempo total de sono (p < 0,05). Observou-se também correlação positiva entre as escalas de transtornos mentais comuns e o PSQI (rho = 0,66; p < 0,05).
Discussão
.
Conclusões/Considerações
A exposição a contaminantes tóxicos influenciou os padrões de sono da população e os diferentes cronotipos, além de potencialmente afetar a qualidade do sono por meio da ativação do sistema circadiano neural.
QUALIDADE DO SONO E PERDA AUDITIVA RELACIONADOS À EXPOSIÇÃO A FORMALDEÍDO E XILOL EM TRABALHADORES
Apresentação oral
1 CESTEH/ENSP/FIOCRUZ
2 1- UFRJ, 2-CESTEH/ENSP/FIOCRUZ
3 1- IFRJ, 2-CESTEH/ENSP/FIOCRUZ
4 1- UNISUAM, 2-CESTEH/ENSP/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
Os compostos orgânicos voláteis formaldeído e xileno são irritantes de tecidos, neurotóxicos e o primeiro é classificado como carcinogênico para humanos pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). O vasto uso industrial e comercial os torna substâncias de interesse para a saúde pública e dos trabalhadores. Os trabalhadores de patologia e anatomistas estão entre as ocupações mais expostas, devido ao uso do formaldeído na conservação de peças biológicas e do xileno no preparo de lâminas para análise laboratorial que auxiliam em diagnósticos. A exposição ocupacional ao formaldeído e xileno está associada cânceres (leucemias e das vias respiratórias) e a distúrbios crônicos de ordem respiratória, dermatológica e neurológica, incluindo asma, alergias, dermatoses, distúrbios do sono e perda auditiva. A avaliação de exposição pode ser realizada pela análise do ar do ambiente de trabalho e por biomarcadores de exposição. Adicionalmente, analisar aspectos de saúde relacionados a essas substâncias (como prejuízo na qualidade do sono associada aos neurotóxicos e a perda auditiva associada ao xileno) também auxiliam na manutenção da qualidade de vida e prevenção de doenças para esses trabalhadores.
Objetivos
Caracterizar a exposição ao formaldeído e xilenos e avaliar de forma integrada a qualidade do sono e perda auditiva relacionadas à exposição em trabalhadores patologistas.
Metodologia
O estudo se dará nos anos de 2026 e 2029, no Rio de Janeiro, com aproximadamente 90 voluntários, trabalhadores patologistas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), 45 que lidam direta ou indiretamente com formaldeído e xileno e 45 que não lidam com essas substâncias. Serão coletados dados referentes aos seguintes aspectos: (1) qualidade do sono, com a utilização do dispositivo acelerômetro por duas semanas e pela aplicação de questionários e escalas de avaliação do sono; (2) perda auditiva por avaliação audiométrica; (3) avaliação de exposição no ambiente pela medição de formaldeído e xilenos no ar por análise cromatográfia; (4) e medição de biomarcadores de exposição ácido fórmico para formaldeído e ácidos orto, meta e para metilhipúricos para o xileno por análise cromatográfica. Após o final de todas as avaliações, será consolidado um banco de dados com todos os resultados. Será feita uma análise descritiva da população com as variáveis relacionadas à perda auditiva, qualidade do sono e parâmetros de exposição ao formaldeído, xilol e BTEX, considerando o tamanho amostral, a fim de entender possíveis associações.
Resultados
Espera-se obter dados comparativos entre os grupos exposto e não exposto quanto à exposição e às avaliações audiométricas e de qualidade do sono.
Discussão
Considerando os possíveis prejuízos à saúde dos trabalhadores expostos a compostos de alta toxicidade, como o formaldeído e xilol, medidas de avaliação da exposição se tornam aliadas na prevenção de danos. A presença de substâncias com toxicidade conhecida pela literatura já representa um risco aos expostos, mesmo com concentrações ambientais e de biomarcadores abaixo dos limites exigidos pela legislação. Esses limites são limites tecnológicos e são baseados na limitação técnica de detecção, e seu cumprimento não representa garantia de segurança plena à saúde do trabalhador, especialmente para as substâncias carcinogênicas. O formaldeído e o xilol são agentes neurotóxicos e genotóxicos, capazes de induzir danos a nível celular e nuclear por meio de alterações epigenéticas. Antes da manifestação de patologias mais crônicas e complexas, como cânceres e perda auditiva grave, podem haver condições que prejudicam a qualidade de vida, mas que não são imediatamente associadas à exposição, como prejuízo no sono e perda auditiva leve.
Conclusões/Considerações
Uma avaliação global, que considere tanto a exposição como os principais aspectos de saúde relacionados, preveniria o agravamento dessas e de outras condições, sendo de grande valor para a qualidade de vida e saúde do trabalhador.
OBSERVAURÂNIO: ARTICULAÇÃO TRANSDISCIPLINAR PARA VIGILÂNCIA DE IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS E DE SAÚDE DA MINERAÇÃO DE URÂNIO
Apresentação oral
1 Fiocruz/Ceará
2 UFC
Contextualização
Nos últimos anos, a energia nuclear tem sido frequentemente apresentada como alternativa “limpa” para a transição energética global e a mitigação das mudanças climáticas. Entretanto, esse discurso tende a invisibilizar os impactos territoriais, ambientais, sociais e da saúde associados ao ciclo da energia nuclear, especialmente em regiões historicamente vulnerabilizadas. No semiárido brasileiro, o Consórcio Santa Quitéria, que prevê a exploração simultânea de urânio e fosfato, insere-se em uma lógica desenvolvimentista baseada em megaprojetos minerários que prometem dinamização econômica, mas podem aprofundar desigualdades socioambientais e riscos à saúde da população geral, em especial povos indígenas e quilombolas. Estudos apontam que esse tipo de empreendimento pode gerar contaminação ambiental, pressão sobre recursos hídricos escassos e mudanças profundas nos modos de vida dessas comunidades. Nesse contexto, emerge a necessidade de produzir conhecimento científico articulado à vigilância em saúde e aos saberes populares, capaz de impedir a instalação de projetos dessa natureza, monitorar riscos, apoiar processos de tomada de decisão e fortalecer a participação social na defesa da saúde e do ambiente.
Descrição da Experiência
Este relato apresenta a experiência de concepção e organização do ObservaUrânio, um observatório transdisciplinar com colaboração nacional e internacional voltado ao monitoramento de impactos socioambientais e de saúde associados à mineração de urânio. A iniciativa articula pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, instituições nacionais e internacionais, profissionais da saúde e atores sociais dos territórios potencialmente afetados. O processo de construção do observatório envolveu a formação de redes colaborativas de pesquisa, a definição de eixos integrados de monitoramento em saúde, ambiente e território e o desenvolvimento de estratégias de produção e disseminação de conhecimento científico acessível às comunidades e aos serviços de saúde.
Objetivo e período de Realização
O objetivo desta experiência foi estruturar um observatório transdisciplinar capaz de integrar pesquisa científica e vigilância em saúde articulada com a vigilância hidrogeológica e popular para acompanhar e analisar os impactos potenciais da mineração de urânio em territórios vulnerabilizados. A iniciativa teve início em 2023 e encontra-se em processo contínuo de desenvolvimento, envolvendo etapas de articulação institucional, planejamento metodológico e mobilização de atores acadêmicos e comunitários. O fortalecimento dessa iniciativa deverá permanecer independente da instalação da mina, uma vez que tem se transformado em um elemento central na geopolítica atual.
Resultados
Entre os principais resultados destacam-se a constituição de uma rede de pesquisadores dedicada ao estudo dos impactos da mineração de urânio, a elaboração de estratégias integradas de vigilância em saúde, vigilância hidrogeológica e vigilância popular em saúde e a construção de protocolos de pesquisa que combinam métodos epidemiológicos, ambientais e sociais. O ObservaUrânio também tem contribuído para ampliar o debate público sobre os riscos socioambientais da mineração e para fortalecer iniciativas de disseminação da ciência e de diálogo entre pesquisadores, profissionais de saúde e população em geral, especialmente as mais vulnerabilizadas. Além disso, espera-se que a estruturação dessa rede possa colaborar com a continuidade da qualificação dos profissionais de saúde da atenção primária da região para lidar com as novas demandas que poderão ser criadas a partir da implementação do consórcio Santa Quitéria.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou o potencial dos observatórios científicos como instrumentos de articulação entre produção de conhecimento, políticas públicas e participação social em contextos de conflitos socioambientais. A construção do ObservaUrânio demonstrou que abordagens transdisciplinares são fundamentais para compreender problemas complexos que envolvem saúde e ambiente. Ao mesmo tempo, o processo revelou desafios importantes, como a necessidade de garantir sustentabilidade institucional, fortalecer mecanismos de participação comunitária e ampliar a integração entre pesquisa acadêmica e práticas de vigilância no SUS. Apesar disso, a experiência aponta caminhos promissores para o desenvolvimento de modelos colaborativos de vigilância e produção de conhecimento orientados pela justiça ambiental e pela defesa da vida.
PROCESSOS HISTÓRICOS DA NEGAÇÃO DO RISCO DO AMIANTO/ASBESTO NO BRASIL: UMA REVISÃO INTEGRATIVA
Apresentação oral
1 Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) / Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH) / Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) / Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)
2 Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) / Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Introdução
O amianto/asbesto, fibra mineral carcinogênica, tem sido objeto de longos debates no Brasil, especialmente, no que tange à proteção da saúde dos trabalhadores. Apesar dos problemas de saúde associados à sua inalação serem conhecidos desde o início do século XX, com doenças como asbestose, câncer de pulmão e mesotelioma, a exploração e o uso do amianto persistiram, influenciados por interesses econômicos que frequentemente protelaram a implementação de políticas públicas eficazes.
Objetivos
O objetivo foi realizar um levantamento bibliográfico das publicações e dos acontecimentos relacionados ao amianto/asbesto, proporcionando uma análise crítica à sequência de processos históricos, dos consequentes desfechos sanitários, do negligenciamento dos riscos aos trabalhadores expostos ao amianto/asbesto e da ineficiência de políticas públicas, a partir da década de 40 a 2024, no Brasil.
Processo de produção com período de realização
O presente trabalho caracteriza-se como um estudo exploratório-descritivo, fundamentado em uma revisão integrativa de artigos científicos e documentos de acesso público. O levantamento bibliográfico foi realizado nas bases de dados PubMed, American of Science, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), SciELO, Base de Dados de Enfermagem (BDEnf), Coleciona SUS, além de informações disponibilizadas pelas Secretarias de Saúde. Para a busca, utilizaram-se os termos “amianto” e “asbesto” combinados, por meio do operador booleano AND, aos descritores “história”, “trabalhadores”, “exposição ocupacional”, “risco” e “Brasil”, nos idiomas português e inglês. Foram selecionados os artigos e documentos técnicos completos; disponíveis e de livre acesso.
Resultados
Foram identificados um total de 179 trabalhos, sendo 16 repetidos e 82 excluídos por não estarem dentro dos critérios de inclusão. Assim, 81 foram selecionados na etapa de triagem e tiveram seus textos lidos por completo. O conhecimento dos processos históricos e dos desfechos sanitários relacionados ao amianto/asbesto no Brasil evidenciam que o atraso em seu banimento envolve fatores econômicos, disputas científicas e tomadas de decisões que influenciaram as políticas públicas do período.
Análise crítica e impactos sociais do produto relacionados aos temas do congresso
É importante contextualizar, que os aspectos invisíveis e silenciosos provocados pelo mercado transnacional do amianto/asbesto levantam questões sobre uma reflexão crítica, com um diálogo interdisciplinar, que revelam desfechos sanitários de grandes proporções ocultados por longo tempo e por conveniência econômica. Esses desfechos de saúde relacionados à exposição ao amianto/asbesto possuem uma dinâmica político-econômica, de um mundo interconectado pelo mercado internacional e caracterizado pela desigualdade crescente e pela injustiça ambiental, somados e agravados pela falácia “uso controlado do amianto”. Sendo assim, é importante reconhecer e centralizar de forma tática a discussão não apenas sobre os valores fundamentais relacionados ao direito ao trabalho e à defesa do emprego, mas também a garantia da segurança, bem como a preservação da vida e da saúde dos trabalhadores.
A historiografia do amianto/asbesto no Brasil desde 1940, com uma análise crítica sobre os processos históricos e desfechos sanitários evidenciam avanços e retrocessos nas políticas públicas, além de acesso as memórias dos trabalhadores envolvidos com suas percepções e relatos, sejam como profissionais de saúde, mineradores, os muitos que sofreram e/ou viram sofrer seus amigos, vizinhos, amores, todos relacionados ao amianto/asbesto. A luta dos trabalhadores contra uma visão violenta e distorcida dos valores humanos, em defesa da dignidade e da civilização, fortalece aqueles que ainda hoje buscam o reconhecimento de direitos básicos. Nesse contexto, a gradual formação de uma consciência coletiva, bem como a dor e os conflitos que ultrapassam os limites da fábrica para se transformarem em denúncia e em bandeira de mobilização comunitária, evidenciam o protagonismo de uma comunidade em uma batalha histórica contra o amianto/asbesto e contra um império econômico-financeiro.
FATORES DE RISCOS AMBIENTAIS E SINTOMAS RESPIRATÓRIOS EM CRIANÇAS NO MUNICÍPIO DE DIAMANTINO-MT
Apresentação oral
1 UNIC - Universidade de Cuiabá
Apresentação/Introdução
A saúde e qualidade de vida humana são determinadas por fatores ambientais, físicos, químicos, biológicos ou sociais. Relaciona-se também com a prática de avaliação, correção, controle e prevenção daqueles fatores que, presentes no ambiente, podem afetar potencialmente de forma adversa a saúde humana de gerações presentes ou futuras. Como também a sustentabilidade da vida, dada pelo equilíbrio e qualidade dos recursos naturais como o ar, o solo e a água. Paralelamente às questões e problemas ambientais, a poluição atmosférica tem aumentado, associando-se a vários efeitos deletérios sobre a saúde da população, aumento dos gastos nos sistemas assistenciais à saúde e vulnerabilidade da população pertencente a classe baixa. Dessa forma, este estudo pode contribuir para um melhor entendimento do impacto dos fatores de riscos ambientais na saúde infanto-juvenil.
Objetivos
Avaliar a influência dos fatores de riscos ambientais no desenvolvimento de sintomas respiratórios em crianças no Município de Diamantino-MT
Metodologia
O estudo foi desenvolvido em escolas da rede de ensino da zona urbana e rural do Município. As informações foram fornecidas pela Secretaria Municipal de Educação e pelo Centro de Formação e Atualização de Professores de Diamantino, por meio da assessoria pedagógica. A população estudada foi constituída por crianças na faixa etária de 5 a 9 anos. Para a coleta de dados foram utilizados questionários com informações sobre dados clínicos: presença de sintomas respiratórios, faixa etária, sexo, comorbidades; dados socioeconômicos: cor/raça, nível de escolaridade dos genitores e renda familiar, perfil da residência da criança, ocupação dos pais, profissão; hábitos de vida: prática de exercícios físicos, hábitos de assistir TV, usar computador; poeira doméstica, coleta e descarte do lixo, limpeza da casa e arredores.
Resultados
Foram analisadas por 12 crianças e adolescentes, distribuídas equitativamente entre os sexos (50% masculino, 50% feminino), com idade média de 6,9 anos. A maioria dos participantes reside na zona urbana (66,7%). A análise do questionário aplicado aos pais revelou uma homogeneidade socioeconômica, com 100% das famílias situadas na faixa de renda de 2 a 4 salários-mínimos. A escolaridade dos responsáveis divide-se igualmente entre Ensino Fundamental e Médio. A tosse noturna, a obstrução nasal e os espirros foram os sintomas mais comuns, afetando metade da amostra (50%). O monitoramento de partilados neste estudo mostrou que a qualidade do ar em Diamantino sofre variações críticas durante os meses de seca, sendo o mê de setembroi o mês mais crítico, com a maior média mensal de material particulado (64,7) e elevadas concentrações basais (mínima de 12,5). Este período coincide com o auge da estiagem e queimadas no Cerrado/Amazônia Legal.
Discussão
Os resultados obtidos neste estudo demonstram variação nos índices de qualidade do ar no município de Diamantino ao longo do período, com picos de maiores concentrações observados em setembro e início de outubro e redução dos índices a partir do final de outubro. Durante o período de maiores índices registrados, especialmente entre setembro e outubro, observou-se maior ocorrência de queimadas e incêndios florestais, fenômenos amplamente associados ao aumento de material particulado fino (PM₂.₅) na atmosfera. A presença desse material particulado está relacionada a processos inflamatórios no organismo, irritação das vias aéreas e aumento do estresse oxidativo, podendo desencadear ou agravar doenças respiratórias e cardiovasculares.
Conclusões/Considerações
Conclui-se que a saúde respiratória das crianças em Diamantino é moldada por uma complexa interação entre poluição atmosférica sazonal, localização geográfica (rural vs. urbana) e exposições domiciliares (tabagismo). A alta prevalência de sintomas sem diagnóstico formal aponta para uma lacuna na atenção primária, exigindo políticas públicas de monitoramento da qualidade do ar e, estratégias de saúde da família, com foco especial na redução do tabagismo parental e na proteção das populações rurais durante a estação de queimadas.
PLÁSTICOS E SAÚDE - ALMANAQUE PARA PROFISSIONAIS DA SAÚDE
Apresentação oral
1 UFRJ
Introdução
O plástico é um dos materiais sintéticos mais amplamente produzidos em escala global, devido às suas características de versatilidade, durabilidade e baixo custo de produção, que possibilitam sua utilização em diferentes contextos do cotidiano. No entanto, como consequência da sua baixa capacidade de degradação, gera significativa poluição ambiental, sendo o Brasil o 4º maior produtor de lixo plástico do mundo e um dos que menos recicla este tipo de lixo, apenas 1,2%. A exposição humana ocorre por diferentes vias, resultando na absorção de poluentes associados a desregulações metabólico-hormonais, problemas cardiovasculares e câncer. No contexto da saúde ambiental, é fundamental instrumentalizar profissionais do setor para que compreendam e atuem sobre esses poluentes e seus potenciais efeitos sobre a saúde humana. Este trabalho apresenta a elaboração do " Plásticos e Saúde - Almanaque para profissionais da saúde” realizada por alunos de iniciação científica dos cursos de graduação da área da saúde da UFRJ.
Objetivos
Sistematizar e difundir evidências científicas atualizadas sobre os impactos do uso excessivo de plásticos na saúde humana. O material visa oferecer orientações práticas para a redução da exposição no cotidiano e fomentar o engajamento de profissionais de saúde no debate sobre políticas públicas e sustentabilidade.
Processo de produção com período de realização
O desenvolvimento do almanaque ocorreu entre março/2025 e abril/2026, no âmbito do Projeto Infância e Poluentes Ambientais (PIPA-UFRJ). O processo dividiu-se em quatro etapas: 1) Revisão bibliográfica narrativa sobre plásticos, plastificantes e microplásticos; 2) Tradução do conteúdo científico para uma linguagem acessível; 3) Design gráfico e organização visual; 4) Revisão por pesquisadores da área de química e saúde ambiental. O conteúdo abrange desde conceitos fundamentais e vias de exposição até efeitos fisiopatológicos, estratégias de mitigação e avanços regulatórios. Todas estas etapas tiveram a participação ativa de alunos de iniciação científica das graduações de medicina e enfermagem.
Resultados
O produto final é um Almanaque, disponibilizado em formato digital e impresso, que tem por intenção servir de guia de apoio à prática clínica e de orientação à população. O Almanaque foi organizado em capítulos, a fim de simplificar a compreensão e facilitar a consulta rápida para os profissionais da saúde. O primeiro capítulo contextualiza a ascensão do uso de plástico, desde o século XIX até a atualidade. O capítulo seguinte define os conceitos de “plástico”, “plastificantes” e “microplásticos”, cujos impactos na saúde humana são descritos no terceiro capítulo. O quarto capítulo aborda aspectos fisiopatológicos e efeitos na saúde materno-infantil, período conhecido como janela crítica de exposição. Por tratar de exposição a poluentes químicos, o quinto capítulo trata dos estudos de biomonitoramento humano, destacando sua importância para o desenvolvimento de ações de vigilância e prevenção, servindo de gancho para os capítulos seguintes que apresentam recomendações visando a redução da exposição populacional e políticas públicas e regulamentações existentes, que buscam mitigar sua presença nos ecossistemas e nos organismos humanos. O texto foi escrito por duas alunas de pós graduação e sete alunos de graduação, sob orientação da coordenadora do projeto.
Análise crítica e impactos sociais do produto relacionados aos temas do congresso
O Almanaque busca contribuir para a ampliação do acesso ao conhecimento científico sobre um tema atual, um pilar fundamental da Saúde Coletiva. Ao capacitar profissionais de saúde, o produto potencializa a promoção de ambientes saudáveis e a prevenção da exposição a produtos potencialmente lesivos à saúde humana, especialmente em períodos de maior vulnerabilidade, como na infância e na gestação. Socialmente, o Almanaque busca conscientizar a população sobre os riscos relacionados à exposição aos plásticos, instigando a mudança de hábitos e instrumentalizando os indivíduos, para que pressionem por políticas públicas e regulamentações mais rígidas relacionados ao uso e consumo desse material.
PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE ADULTOS RESIDENTES NO ENTORNO DO PNCG EXPOSTOS À QUEIMADA
Apresentação oral
1 UNIC
Apresentação/Introdução
O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, localizado no bioma Cerrado, é frequentemente afetado por queimadas que geram impactos ambientais e à saúde da população local. A exposição recorrente à fumaça e ao material particulado fino (PM2,5) tem sido associada ao aumento de doenças cardiorrespiratórias e agravamento de comorbidades crônicas. Apesar disso, estudos que relacionem diretamente os efeitos das queimadas ao perfil da população residente ainda são escassos. Diante disso, torna-se relevante investigar as características epidemiológicas dos moradores da região e compreender como os fatores socioeconômicos e ambientais se inter-relacionam no contexto da saúde coletiva. Além disso, o crescente número de eventos climáticos extremos e de queimadas fora do período tradicionalmente seco levanta preocupações quanto ao agravamento dessas condições e seus reflexos sobre populações já vulneráveis.
Objetivos
Identificar o perfil socioeconômico, demográfico e de saúde da população residente no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães (PNCG), exposta aos efeitos das queimadas recorrentes na região.
Metodologia
Trata-se de um estudo transversal realizado com adultos atendidos por duas unidades do Programa de Saúde da Família em Chapada dos Guimarães – MT no period de agosto de 2022 a dezembro de 2023. Os dados foram coletados por meio de questionários validados, abordando variáveis sociodemográficas, econômicas, presença de comorbidades e hábitos de vida. As comorbidades, incluindo hipertensão, hipercolesterolemia, diabetes e histórico de COVID-19, foram autorreferidas pelos participantes.
Resultados
Observou-se predominância de mulheres (92,5%), jovens entre 18 e 44 anos (80,4%), autodeclarados pardos (73,4%) e pertencentes às classes econômicas C, D e E (79,9%). A maioria apresentava renda mensal de até dois salários-mínimos. Entre as comorbidades, destacaram-se a hipertensão arterial sistêmica (25,1%) e a hipercolesterolemia (10,6%). Além disso, 42,7% relataram já ter sido diagnosticados com COVID-19. Apesar de maioria serem fisicamente ativos, quase metade possuía alguma comorbidade. Com relação as queimadas no biênio 2022–2023, foram registrados 211 focos de queimadas em Chapada dos Guimarães, mostrando concentração marcante no período seco do ano, com padrão sazonal bem definido, com aumento progressivo dos focos a partir de junho, intensificação entre julho e agosto e pico no mês de setembro. Considerando os dois anos em conjunto, setembro destacou-se como o mês de maior ocorrência (118 focos no total), concentrando mais da metade dos registros do período analisado. Foi observado que nos meses do período chuvoso (novembro a abril), os registros foram significativamente menores, com valores variando entre 0 e 8 focos mensais, demonstrando forte influência da sazonalidade climática na dinâmica das queimadas.
Discussão
A exposição crônica aos poluentes das queimadas pode agravar doenças cardiovasculares e respiratórias, sendo fator de risco significativo para essa população. A vulnerabilidade socioeconômica associada à poluição atmosférica evidencia a necessidade de políticas públicas que integrem saúde e meio ambiente, especialmente em regiões afetadas por queimadas frequentes.
Conclusões/Considerações
O estudo identificou um perfil populacional marcado por fragilidades sociais, presença de comorbidades e exposição a queimadas, o que potencializa os riscos à saúde. Os resultados destacam a importância da atuação intersetorial entre saúde e meio ambiente, por meio de ações preventivas, vigilância epidemiológica e estratégias de promoção da saúde em regiões ambientalmente vulneráveis.
INJUSTIÇAS AMBIENTAIS, SAÚDE E POLOS PETROQUÍMICOS: O CASO DA REDUC (RJ): A EXPERIÊNCIA DO FAPP-BG
Apresentação oral
1 fapp-bg
Contextualização
Duque de Caxias é um município marcado por injustiças ambientais decorrentes da forma como as sociedades capitalistas “destinam a maior parte dos danos ambientais do desenvolvimento às populações de baixa renda, aos grupos raciais discriminados, [...] às populações marginalizadas e vulneráveis”(REDE BRASILEIRA DE JUSTIÇA AMBIENTAL, 2001, p. 1). Ao longo dos anos as injustiças ambientais imprimiram suas marcas na geografia do município, transformada pela instalação da indústria do petróleo e petroquímica, pela urbanização e industrialização aceleradas, pelo funcionamento do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, pela construção das rodovias, pela supressão das áreas verdes e pelos projetos de habitação, saneamento e drenagem inconclusos (ou insuficientes), que se somam a tantas outras expressões da desigualdade. No 2º distrito de Duque de Caxias, mais especificamente no bairro de Campos Elíseos (que dá nome ao distrito) e adjacentes encontra-se grandes empresas dos setores petróleo e petroquímica, como a Refinaria Duque de Caxias (REDUC) inaugurada, em 1961, quando as regras de proteção ambiental eram bastante frágeis, a BRASKEM, a ARLANXO, a TRANSPETRO ( inclusive TECAM), a termoelétrica Leonel de Moura Brizola e a Fábrica de Lubrificantes da PETROBRAS BR –GEI, entre outras, gerando riscos e danos cotidianos que podem atuar de forma sinérgica e afetar a saúde e o ambiente não só dos 200.000 residentes do distrito, mas estender seus efeitos para regiões mais distantes. E há o risco de ampliação das injustiças que sofrem, das precárias condições de vida, remoções sem ou com baixa indenização, da crescente contaminação da água, do ar e do solo.
Descrição da Experiência
O Fórum dos Atingidos pela Indústria do Petróleo e Petroquímica nas cercanias da Baia de Guanabara (FAPP-BG) foi criado em 2012 neste contexto, após o seminário “ 50 anos de REDUC: ganhos, perdas e danos”, compostos por representantes de movimentos sociais, moradores, sindicatos de trabalhadores, ONGs, pesquisadores universitários, professores e estudantes do entorno da Baía de Guanabara”. Em 2026 está com atuação mais restrita na cidade de Duque de Caxias, mas já participou ativamente da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA) e da Campanha Nem Um Poço a Mais”. Uma das principais reivindicações do FAPP-BG é a investigação científica das situações de agravo à saúde humana e ao meio ambiente presente no entorno do Polo Petroquímico de Duque de Caxias
Objetivo e período de Realização
Apresentar conquistas, estratégias e demandas do Fórum dos Atingidos pela Indústria do Petróleo e Petroquímica nas cercanias da Baia de Guanabara (FAPP-BG)
Resultados
Pesquisas envolvendo saúde e meio ambiente conquistadas a partir da participação do FAPP-BG no 1o Simpósio Brasileiro de Saúde e Meio Ambiente, incidência em processos de licenciamento, como o das obras do TECAM/ TRANSPETRO ( a partir de sugestões do FAPP-BG foi incluída como condicionante “Programa de monitoramento da saúde pública com levantamento epidemiológico e do
perfil de adoecimento e mortes na AID, em parceria com a Prefeitura de Duque de Caxias e com Universidades”), embora até o presente momento não tenha sido realizado, produção de materiais de divulgação, articulação com o Ministério Público Federal para incidência no Termo de Ajuste de Conduta da REDUC e outras demandas, que resultou em tese de doutorado sobre exposição a benzeno em 190 voluntários
Aprendizado e Análise Crítica
Necessária articulação com outros movimentos sociais locais, regionais e nacionais, com o Ministério Público e Universidades, reconhecendo as limitações dessas instituições
PLANO DE COMUNICAÇÃO SOBRE AVALIAÇÃO DE RISCO À SAÚDE HUMANA: CASO CIDADE DOS MENINOS/RJ
Apresentação oral
1 Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) / Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH) / Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) / Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)
2 Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH) / Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) / Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)
Introdução
Cidade dos Meninos, localizado no município de Duque de Caxias/RJ, tornou-se conhecido pelo caso de contaminação ambiental devido à produção e ao descarte inadequado de organoclorados de uma antiga Fábrica de Produtos Profiláticos, vinculados ao Ministério da Saúde (MS). Diante da gravidade da situação, o MS vem tentando desenvolver ações de vigilância no território. Entre as principais iniciativas está a realização de Avaliações de Risco à Saúde Humana (ARSH), com o objetivo de identificar as rotas de exposição aos seres humanos e os níveis de exposição da população aos organoclorados e seus possíveis efeitos sobre a saúde. Em estudos que envolvem comunidades, territórios ou temas sensíveis, como o caso da Cidade dos Meninos, uma comunicação planejada é essencial para garantir a transmissão de informações de forma ética, responsável e compreensível. Portanto, o desenvolvimento de um plano de comunicação é fundamental para estimular o diálogo e a troca de conhecimentos.
Objetivos
O presente trabalho corresponde ao desenvolvimento de um Plano de Comunicação com a população residente da Cidade dos Meninos junto com a realização da metodologia de ARSH em decorrência dos resíduos da antiga fábrica de pesticidas. Este trabalho está inserido no Projeto “Fortalecimento da vigilância ambiental e Saúde do Trabalhador na atenção integral à saúde das populações expostas a substância químicas em áreas contaminadas” firmado entre o CESTEH/ENSP/FIOCRUZ e o DSAST/SVSA/MS, que tem como objetivo acompanhar, reavaliar e monitorar a contaminação ambiental no território da Cidade dos Meninos, para orientação das ações de atenção, promoção e recuperação à saúde da população exposta.
Processo de produção com período de realização
O desenvolvimento do Plano de Comunicação foi caracterizado por um conjunto de etapas de organização das informações a serem divulgadas, que envolve o diagnóstico da situação; definição dos objetivos de comunicação; identificação e segmentação do público-alvo; definição das mensagens-chave; escolha das estratégias e canais de comunicação; planejamento das ações e cronograma; e monitoramento e avaliação.
Resultados
Na primeira fase, acompanhando as etapas da metodologia de ARSH, foi planejado divulgar informações sobre a ida da equipe ao território para a coleta de amostras ambientais de água, solo e ovos de galinha. Dentro do Plano de Comunicação, definido como estratégias e canis de comunicação a produção de panfletos e cartazes, assim como WhatsApp e Podcast. Para a produção de panfletos e cartazes, foram criados dois personagens para campanhas educativas, Nino e SUSpiro, Nino é um menino de aproximadamente 10 anos, moreno claro, curioso, com cabelo castanho escuro e volumoso, trajando camiseta vibrante, bermuda e chinelos. SUSpiro é um cachorro vira-lata caramelo de porte médio, com pelos densos, expressão afetuosa e lenço com símbolo do SUS no pescoço. Os dois personagens interagem demonstrando parceria, acolhimento, otimismo e educação. O cenário é simples e comunitário, com casas, árvores e um posto de saúde ao fundo.
Análise crítica e impactos sociais do produto relacionados aos temas do congresso
Até a atual etapa do projeto, o plano de comunicação foi fundamental para o contato com a população do território envolvida, facilitando a divulgação de datas e horários de encontros, para esclarecimento do projeto, e a disseminação de informações via distribuídos dos panfletos, tanto nos dias dos encontros e quanto com a ajuda dos profissionais do posto de saúde. Os cartazes foram colados nos ônibus circulares do bairro. Todas as estratégias de divulgação realizadas tiveram uma boa aceitação e uma resposta eficiente da população, tendo sido essencial para implementação da metodologia de ARSH. A próxima etapa do projeto corresponderá a comunicação dos resultados encontrados, os quais estão sendo analisados e discutidos. Por fim, o Plano de Comunicação contribuiu para estreitar a relação com a comunidade e aumentar a circulação de informação, facilitando as estratégias de orientação e as futuras ações de intervenção.
EXPOSIÇÃO A METAIS EM CINCO ANOS DE COORTE INFANTIL APÓS DESASTRE DE BRUMADINHO: PROJETO BRUMINHA
Apresentação oral
1 IESC/UFRJ
Apresentação/Introdução
O rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho (MG), em 2019, reconhecido como um dos maiores desastres socioambientais relacionados à mineração no Brasil, produziu profundas transformações nos territórios atingidos, com repercussões persistentes para a saúde das populações locais. Esses territórios, historicamente estruturados pela atividade minerária, expressam de forma concreta os processos de determinação socioambiental da saúde associados aos modelos de desenvolvimento baseados na exploração de recursos naturais. Em contextos marcados pela atividade minerária, crianças constituem um grupo particularmente vulnerável à exposição a contaminantes ambientais. A produção de evidências sobre essas exposições é fundamental para compreender os processos de determinação socioambiental da saúde e subsidiar a organização das ações de vigilância em saúde no Sistema Único de Saúde (SUS) em territórios impactados por desastres socioambientais.
Objetivos
Analisar o perfil e a evolução temporal da exposição a metais em crianças residentes em áreas afetadas pelo rompimento da barragem de Brumadinho (MG).
Metodologia
Trata-se de um estudo de coorte prospectiva conduzido no âmbito do Projeto Bruminha, coorte infantil estabelecida após o desastre de Brumadinho (MG), com 320 crianças de 0 a 6 anos residentes em três comunidades afetadas pelo desastre e uma área de comparação no município de Brumadinho (MG). O acompanhamento ocorreu entre 2021 e 2025 com avaliações anuais. Foram analisadas concentrações urinárias de arsênio (As), chumbo (Pb), cádmio (Cd), mercúrio (Hg) e manganês (Mn) por espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS). Foram avaliadas tendências temporais e diferenças territoriais nas proporções de crianças acima dos valores de referência e nas concentrações medianas (IQR).
Resultados
Observou-se um padrão sustentado e crescente de exposição ao arsênio ao longo do período analisado. A proporção de crianças acima do valor de referência aumentou de 42% em 2021 para 68% em 2025, enquanto as concentrações medianas passaram de 9,4 μg/g (IQR 5,6–13,9) para 13,65 μg/g (IQR 7,9–22,5). Em 2025, a prevalência acima do valor de referência foi cerca de 65–70% nas áreas expostas, comparada a 40–45% na área de comparação, indicando a persistência de um gradiente territorial de exposição. O chumbo apresentou elevada frequência de detecção (>90% ao longo dos anos), embora com menores proporções acima dos valores de referência (≤15%). Mercúrio e manganês apresentaram detecção quase universal em alguns anos, com baixas proporções acima dos valores de referência (<3%). O cádmio apresentou as menores taxas de detecção ao longo do seguimento e sem excedências relevantes.
Discussão
Os achados evidenciam a persistência de exposições ambientais em territórios afetados pelo desastre, com destaque para o aumento progressivo da exposição ao arsênio e para a presença de gradientes territoriais de exposição. Mesmo anos após o evento agudo, os resultados indicam a continuidade de riscos associados às transformações socioambientais produzidas pela atividade minerária, evidenciando a importância de abordagens territoriais e orientadas pelos processos produtivos para a vigilância em saúde ambiental.
Conclusões/Considerações
Ao longo de cinco anos de acompanhamento da coorte infantil, crianças residentes em áreas afetadas permanecem expostas de forma crônica a múltiplos metais. Os resultados evidenciam a importância do biomonitoramento e da organização das ações do Sistema Único de Saúde orientadas pelos processos produtivos presentes no território, com fortalecimento da vigilância em saúde ambiental. Nesse contexto, a infância emerge como grupo sentinela das injustiças socioambientais associadas à atividade minerária, evidenciando a necessidade de estratégias permanentes de proteção e promoção da saúde em territórios impactados por desastres. Estudos longitudinais como o Projeto Bruminha são fundamentais para compreender os efeitos de longo prazo de desastres socioambientais e apoiar a construção de políticas públicas de proteção à saúde das populações atingidas.
EXPOSIÇÃO A POLUENTES QUÍMICOS E DETERMINANTES SOCIOAMBIENTAIS NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL: UMA COORTE DE NASCIMENTO.
Apresentação oral
1 UFRJ
2 FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
Introdução: A saúde infantil é sensível às complexas interações entre fatores biológicos, genéticos e o ambiente em que a criança nasce e se desenvolve. No contexto brasileiro, a exposição a poluentes químicos ocorre de forma desigual, sendo mediada por determinantes socioambientais que moldam os riscos e as vulnerabilidades. Nas áreas urbanas, poluentes como metais pesados, agrotóxicos e plastificantes podem representar risco por sua presença em baixas doses, porém constantes ao longo de todos os ciclos de vida. Afetando o desenvolvimento das futuras gerações. Este estudo insere-se na necessidade de compreender como o território e as condições de vida potencializam os efeitos tóxicos de agentes químicos na primeira infância.
Objetivos
Objetivo: Investigar os efeitos individuais e combinados da exposição a poluentes químicos ambientais (metais, agrotóxicos e plastificantes) e suas interações com o ambiente sociocultural e padrões genéticos no desenvolvimento e na saúde de crianças.
Metodologia
Métodos: Trata-se de uma coorte de nascimento do município do Rio de Janeiro, Brasil. O recrutamento ocorreu entre junho de 2021 e julho de 2022, abrangendo o terceiro trimestre da gestação, entre 901 mulheres atendidas em unidade materno-infantil pública. O acompanhamento das crianças estende-se até os 4 anos de idade, com foco nos territórios de residência, nas condições clínicas e nos níveis de exposição. A coleta de dados biológicos incluiu sangue e urina das gestantes, sangue de cordão umbilical, leite materno e amostras infantis (urina e sangue venoso) aos 3 e 6 meses e anualmente. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética da Maternidade Escola/UFRJ.
Resultados
Resultados: Entre os 844 nascimentos acompanhados, 719 (88%) retornaram ao acompanhamento. Os dados preliminares revelam uma associação crítica entre maiores concentrações de metais no sangue do cordão umbilical e quatro eixos principais: 1) a precariedade do território, evidenciada pela menor proporção de áreas verdes nas redondezas das residências; 2) alterações metabólicas, com maior peso ao nascer e ganho de peso acelerado no primeiro ano; 3) prejuízos no neurodesenvolvimento precoce; e 4) alterações significativas no comportamento auditivo das crianças.
Discussão
Discussão: Os resultados indicam que a carga química ambiental não é distribuída de forma isolada, mas está intrinsecamente ligada à infraestrutura urbana e ao acesso a serviços. A associação entre a falta de áreas verdes e a presença de metais sugere que o território atua como fator de risco ou de proteção. Tais evidências reforçam que a exposição química é agravada por vulnerabilidades socioespaciais, impactando sistemas biológicos fundamentais (auditivo, neurológico e metabólico) desde o período intrauterino.
Conclusões/Considerações
Conclusões: A pesquisa demonstra que o monitoramento biológico é uma ferramenta essencial, mas insuficiente se desvinculada da análise do território. Conclui-se que o enfrentamento dos riscos ambientais à saúde infantil exige políticas públicas intersetoriais que priorizem a justiça ambiental e a vigilância contínua. Estruturar o sistema de saúde com foco na saúde ambiental é um passo fundamental para garantir o direito ao desenvolvimento pleno e à construção de territórios que promovam efetivamente a saúde e o bem-viver.
DETERMINANTES SOCIOAMBIENTAIS E SAÚDE RESPIRATÓRIA: MODELO SISTÊMICO DE VIGILÂNCIA PARA MATO GROSSO
Apresentação oral
1 ENSP/FIOCRUZ
2 PROCC/FIOCRUZ
3 INPE
Apresentação/Introdução
A intensificação das queimadas no contexto das mudanças climáticas e da expansão de atividades antrópicas tem agravado a degradação ambiental e a poluição atmosférica. Em Mato Grosso, a dinâmica do uso e ocupação do solo, associada a eventos extremos como seca e estiagem, favorece a ocorrência de incêndios florestais de grande magnitude. A emissão de material particulado e outros poluentes atmosféricos configura um importante determinante socioambiental das doenças respiratórias, evidenciando a necessidade de integrar monitoramento ambiental e vigilância em saúde na gestão pública.
Objetivos
Propor um modelo sistêmico de vigilância socioambiental para subsidiar a atuação da Secretaria Estadual de Saúde de Mato Grosso (SES-MT) frente aos impactos sanitários da poluição atmosférica decorrente de queimadas.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo fundamentado na teoria dos sistemas complexos, com aplicação da Metodologia Sistêmica para Ação (MSA). A modelagem partiu da caracterização da situação-problema sob a perspectiva da determinação socioambiental do processo saúde-doença. Foram analisados dados ambientais (monitoramento de focos de calor e qualidade do ar), documentos institucionais e literatura científica. O modelo foi construído de forma participativa e iterativa, envolvendo técnicos da SES-MT e especialistas, considerando subsistemas ambientais, sociais e institucionais, ciclos de retroalimentação e pontos de alavancagem para intervenção intersetorial.
Resultados
A modelagem evidenciou a interdependência entre degradação ambiental, variabilidade climática, uso do solo, emissão de poluentes atmosféricos e agravamento de doenças respiratórias. Identificaram-se ciclos de retroalimentação que reforçam vulnerabilidades territoriais e pressionam o sistema de saúde. O modelo posiciona a vigilância em saúde como componente estratégico de um sistema mais amplo de governança ambiental, destacando pontos de alavancagem como: fortalecimento do monitoramento integrado ambiente-saúde; articulação intersetorial; comunicação de risco baseada em evidências; e antecipação de cenários críticos.
Discussão
Os achados indicam que os impactos das queimadas sobre a saúde respiratória em Mato Grosso devem ser compreendidos no contexto de processos socioambientais que articulam variabilidade climática, uso e ocupação do solo e pressões sobre os ecossistemas. A poluição atmosférica decorrente da queima de biomassa, especialmente pela emissão de material particulado e outros poluentes, constitui importante fator de agravamento das doenças respiratórias e expressa a interação entre processos ambientais, sociais e institucionais. Nesse cenário, as queimadas deixam de ser interpretadas como eventos ambientais pontuais e passam a ser compreendidas como parte de um sistema mais amplo de produção de riscos à saúde.
A abordagem sistêmica permitiu explicitar interdependências entre os componentes que estruturam esse problema, evidenciando ciclos de retroalimentação que intensificam vulnerabilidades territoriais e ampliam a pressão sobre os serviços de saúde. A modelagem desenvolvida possibilita visualizar como fatores ambientais, institucionais e sociais se articulam na produção do risco sanitário, contribuindo para uma compreensão integrada do fenômeno.
O modelo sistêmico proposto apresenta potencial para fortalecer a capacidade analítica e operacional da vigilância em saúde ao apoiar a identificação de pontos estratégicos de intervenção e subsidiar a tomada de decisão na gestão pública. A integração entre monitoramento ambiental, análise epidemiológica e leitura territorial é fundamental para identificar cenários críticos e orientar respostas oportunas do sistema de saúde. Além disso, evidencia-se a importância da articulação intersetorial entre saúde e meio ambiente para prevenir e mitigar os impactos da poluição atmosférica na saúde da população
Conclusões/Considerações
A abordagem sistêmica permitiu compreender as queimadas não apenas como evento pontual, mas como expressão de processos estruturais socioambientais que produzem riscos à saúde. O modelo proposto constitui ferramenta analítica para orientar decisões intersetoriais e estratégias adaptativas frente à crise climática, contribuindo para o fortalecimento da vigilância socioambiental no âmbito estadual. intersetoriais, reforçando a necessidade de abordagens adaptativas e integradas na gestão de riscos ambientais à saúde.
Realização: