Programa - Roda de Saberes - RS12 - Atenção Primária, SUS e Redes de Cuidado nos Territórios
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
DIAGNÓSTICO SITUACIONAL DA USF BATE CORAÇÃO, SALVADOR, BAHIA
Apresentação oral
1 MPROF SAÚDE IES UFRB
2 UFRB
Apresentação/Introdução
Este projeto apresenta o Diagnóstico Situacional da Unidade de Saúde da Família (USF) Bate Coração, solicitado no primeiro semestre de 2025 do Mestrado Profissional em Saúde da Família Mprofsaúdeno qual sou aluna. A unidade fica localizada no Subúrbio Ferroviário de Paripe, abrangendo uma população de 55.039 habitantes, com predomínio de indivíduos pardos e pretos. O objetivo é analisar o panorama da saúde, as condições socioeconômicas e ambientais do território, a estrutura e o desempenho da USF, bem como a relação e participação da comunidade. Através de dados demográficos, epidemiológicos e entrevistas com atores locais, o diagnóstico visa identificar as principais forças e fraquezas da unidade e do território, pautando-se na busca por melhorias no acesso e na qualidade dos serviços de Atenção Primária à Saúde.
Objetivos
Os objetivos do projeto são: realizar o diagnóstico situacional da Unidade de Saúde da Família Bate Coração e seu território de abrangência, analisar os dados demográficos, socioeconômicos e de saúde da população cadastrada, identificar as principais doenças prevalentes e os determinantes sociais de saúde no território, Avaliar a estrutura física, os processos de trabalho e os resultados alcançados pela USF, Mapear as potências (forças) e as fraquezas (problemas internos) da unidade de saúde e da equipe, Propor estratégias para melhorar o acesso, a comunicação e a participação popular no serviço.
Metodologia
A metodologia combinou a coleta e análise de dados primários e secundários.
Dados Secundários: Utilização de informações do cadastro dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) via Portal MAS e indicadores oficiais, como o Previne Brasil.
Dados Primários: Coleta realizada por meio de:
Entrevistas com a comunidade (três atores, incluindo dois líderes comunitários) sobre saúde, ambiente, determinantes socioeconômicos, estrutura da USF e participação popular.
Roda de Conversa com a Equipe da USF para avaliar processo, resultado, estrutura, potências e fraquezas internas.
Análise Situacional: Integração dos dados demográficos, socioeconômicos e de morbidade do território com as percepções da comunidade e da equipe.
Resultados
Os resultados mostram que a USF Bate Coração assiste 15.179 cadastrados em Paripe, um bairro de alta vulnerabilidade, com maioria parda/preta, informalidade no trabalho e baixa escolaridade (1400 sem instrução). As doenças mais prevalentes são Hipertensão (1488) e Diabetes (592). A unidade possui um ponto forte: o ótimo vínculo com a comunidade. Contudo, enfrenta fraquezas críticas: necessidade urgente de reforma/ampliação, desfalque de profissionais, falta constante de insumos e baixa participação popular. Desafios adicionais incluem violência territorial e desorganização interna, apesar de manter bons indicadores. A principal proposta de melhoria é a criação de um Conselho Local de Saúde.
Discussão
A USF Bate Coração atua em um território de alta vulnerabilidade social (desemprego, baixa escolaridade), exigindo ações que considerem este fator e foquem na prevenção de doenças crônicas (Hipertensão e Diabetes). Embora o vínculo positivo com a comunidade seja sua principal força, deficiências estruturais (reforma, falta de insumos e pessoal) e a ausência de participação popular são entraves críticos. A criação de um Conselho Local de Saúde é a estratégia fundamental para melhorar a governança e alinhar as ações da USF com as reais demandas de Paripe.
Conclusões/Considerações
A conclusão do Diagnóstico aponta um contraste: o forte vínculo da USF com a comunidade e a qualificação profissional são ofuscados pelas altas vulnerabilidades socioeconômicas e pelas deficiências críticas de estrutura, insumos e pessoal. A prevalência de Hipertensão e Diabetes, aliada à baixa escolaridade e informalidade, exige ações de saúde mais robustas. É indispensável superar os desafios estruturais e de gestão. A principal recomendação é a criação urgente de um Conselho Local de Saúde para efetivar a participação popular e alinhar as decisões da USF às necessidades reais de Paripe.
FORMAÇÃO DE ACS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA PARA AÇÕES EM TERRITÓRIO SOCIOAMBIENTALMENTE VULNERÁVEL
Apresentação oral
1 SMS DE ARAPIRACA/AL
2 UNINASSAU/CAMPUS ARAPIRACA
Contextualização
A atuação dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) é fundamental para o enfrentamento dos determinantes socioambientais da saúde nos territórios da Atenção Primária. No município de Arapiraca, especialmente na área adscrita à UBS Jardim das Paineiras, observa-se a presença de um assentamento urbano composto por famílias em situação de elevada vulnerabilidade socioeconômica. Parte significativa dessa população vive de doações, da atividade de catação de materiais recicláveis e de trabalhos informais. O território apresenta ausência de saneamento básico, moradias construídas com materiais reciclados e alvenaria precária, além de ambiente altamente insalubre. Essas condições contribuem para a ocorrência frequente de agravos à saúde, com destaque para doenças de veiculação hídrica, impactando diretamente o processo saúde-doença da população. Nesse contexto, o curso Mais Saúde com Agente configurou-se como estratégia de qualificação dos ACS, articulando teoria e prática a partir da realidade vivenciada no território.
Descrição da Experiência
O autor atuou como preceptor do curso Mais Saúde com Agente, ofertado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na modalidade a distância, utilizando o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) do Conasems para o acompanhamento pedagógico e a avaliação das atividades desenvolvidas pelos alunos ACS. A preceptoria envolveu o desenvolvimento de atividades práticas avaliativas realizadas no território de atuação da UBS Jardim das Paineiras. As ações incluíram a construção do perfil socioambiental das microáreas, com ênfase no assentamento urbano, o mapeamento territorial em articulação com o setor de meio ambiente e a identificação de problemas relacionados à ausência de saneamento, acúmulo de resíduos, condições inadequadas de moradia e riscos ambientais. A partir desse diagnóstico, os ACS elaboraram e executaram estratégias de educação em saúde voltadas à mudança de hábitos da comunidade, com foco na prevenção de doenças de veiculação hídrica e no cuidado ambiental. Destaca-se a realização de mutirão de limpeza de entulhos, em parceria com a Prefeitura de Arapiraca, além de mutirão de enfrentamento à dengue em parceria com os Agentes de Combate às Endemias (ACE), fortalecendo a atuação intersetorial no território.
Objetivo e período de Realização
Relatar a experiência da preceptoria na formação de ACS, destacando ações práticas no território voltadas à identificação e ao enfrentamento de problemas socioambientais em um assentamento urbano da área adscrita à UBS Jardim das Paineiras. A experiência foi realizada no período de abril a novembro de 2025.
Resultados
As atividades favoreceram maior apropriação do território pelos ACS, ampliando o olhar crítico sobre as condições socioambientais e socioeconômicas e suas repercussões na saúde da população. Observou-se fortalecimento das ações de educação em saúde, maior vínculo com a comunidade e ampliação do diálogo sobre práticas de cuidado, prevenção e uso seguro da água. O mutirão de limpeza de entulhos contribuiu para a melhoria das condições ambientais locais, redução de focos potenciais de vetores e sensibilização comunitária. As ações integradas com vigilância, meio ambiente e gestão municipal fortaleceram o trabalho em rede no território.
Aprendizado e Análise Crítica
As atividades favoreceram maior apropriação do território pelos ACS, ampliando o olhar crítico sobre as condições socioambientais e socioeconômicas e suas repercussões na saúde da população. Observou-se fortalecimento das ações de educação em saúde, maior vínculo com a comunidade e ampliação do diálogo sobre práticas de cuidado, prevenção e uso seguro da água. O mutirão de limpeza de entulhos contribuiu para a melhoria das condições ambientais locais, redução de focos potenciais de vetores e sensibilização comunitária. As ações integradas com vigilância, meio ambiente e gestão municipal fortaleceram o trabalho em rede no território.
A PRODUÇÃO-PESQUISA DE MATERIAIS DIDÁTICOS EM SAÚDE LGBTQIAPN+ E MASCULINAS
Apresentação oral
1 Fiocruz/PSAT
Contextualização
A Saúde Coletiva enfrenta o desafio de interseccionalizar conhecimentos que garantam o debate sobre as mazelas e desigualdades sociais para grupos historicamente marginalizados. A determinação socioambiental da saúde revela que as barreiras de acesso ao SUS para populações LGBTQIAPN+ e homens (cis e trans) são mediadas por estruturas de poder marcadas por gênero, racismo e as dinâmicas de trabalho precarizado. Estruturas tais que naturalizam a exclusão de uma diversidade de expressões de gênero, masculinidades e identidades raciais das discussões institucionais sobre o seus bem-estar. Historicamente, as principais áreas da vida, como saúde, meio ambiente e trabalho, foram usadas como expoentes de exploração e morte de indivíduos racializados, pertencente à comunidade LGBTQIAPN+ . Utilização esta que ocorreu tanto por meio da negligência quanto pela perseguição institucional e sanitária.
Descrição da Experiência
Este relato apresenta a experiência dessa produção norteada pela democratização do saber e pela atuação dialogada entre movimentos sociais e sociedade civil. Nesse sentido, o Programa de Saúde, Ambiente e Trabalho da Fiocruz Brasília formula o Caderno de Saúde LGBTQIAPN+ e o Caderno de Saúde do Homem
Objetivo e período de Realização
As atividades ocorreram entre outubro de 2025 e março de 2026. Os objetivos das produções são de desenvolver, validar e difundir materiais educativos (Cadernos de Saúde LGBTQIAPN+ e de Saúde do Homem) que atuem como dispositivos de Educação Popular em Saúde, visando a autonomia dos sujeitos na apropriação de direitos, desconstrução de violências de gênero e racismo, bem como o fortalecimento do acesso ao SUS. A proposta é que o material sirva como instrumento educativo, voltado tanto à população em geral quanto a profissionais da saúde e ativistas.
Resultados
O processo do Caderno de Saúde LGBTQIAPN+ envolveu a escrita baseada na metodologia de narrativa e contação de histórias, percorrendo o ciclo de vida (infância à velhice) para humanizar temas como tecnologias de gênero, sexualidade e envelhecimento.Por conseguinte, o processo de produção do Caderno de Saúde do Homem se iniciou na reflexão sobre o crescimento de violências envolvendo homens entre 2024 e 2026 no Brasil. Ao evoluir para a síntese da abordagem, as demais camadas e complexidades relacionadas ao tema de Saúde Pública foram surgindo de forma que os temas foram expandindo. Em seguida, foram feitas pesquisas sobre dados de morbimortalidade e violências no Brasil, originando um questionário para a coleta de dados sobre saúde masculina, elaborado e partilhado em plataformas digitais. A produção do material também envolve o planejamento de grupos focais, pois as iniciativas são fundamentadas nas necessidades apresentadas por grupos marginalizados. Nesse sentido, ambos os produtos estão em fase de validação por movimentos sociais, garantindo que o conhecimento produzido seja dialógico e legitimado pelas comunidades que o utilizarão.
Aprendizado e Análise Crítica
Apesar dos materiais não estarem plenamente concluídos, uma análise da saúde coletiva e pública nacional sob os recortes de gênero, orientação sexual e raça revela uma realidade emergencial que precisa ser abordada de maneira democrática, inclusiva e acessível. Diferentes masculinidades, como homens do campo, quilombolas, indígenas e marginalizados possuem atravessamentos sociais que impedem que estes se expressem, acessem ou partilhem suas dores, emoções e possíveis sintomas agravantes. A maioria das identidades da comunidade LGBTQIAPN+ sequer são consideradas ou incluídas na maioria dos levantamentos de dados a nível nacional. No âmbito das masculinidades, os homens possuem as maiores taxas de mortalidade em acidentes, demais causas externas e em grande parte das doenças. Desta forma, é possível observar como gênero, raça, etnia e sexualidade são fatores fundamentais de entendimento da materialidade dos problemas de saúde, das desigualdades e da garantia do direito pleno à saúde.
CUIDADO COMUNITÁRIO E FORMAÇÃO EM SAÚDE: EXPERIÊNCIAS COM PRÁTICAS INTEGRATIVAS EM TERRITÓRIOS POPULARES
Apresentação oral
1 UESB
Contextualização
As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), reconhecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), são formas de cuidado em saúde, que englobam medicamentos homeopáticos, fitoterápicos, acupuntura, atividades corporais e dança. Em territórios populares, onde o acesso aos serviços formais é restrito, as PICS ampliam as possibilidades terapêuticas ao integrar saberes tradicionais e conhecimento científico, revelando estratégias concretas de produção do cuidado no cotidiano comunitário, além de expressar dinâmicas contra-hegemônicas no campo da saúde coletiva. A extensão universitária, nesse contexto, possibilita a aproximação entre universidade e território, ao vincular a formação acadêmica comprometida com o contexto socioestrutural.
Descrição da Experiência
Trata-se de relato de experiência vivenciado por uma discente do curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, integrante do projeto de extensão “Feira Agroecológica: do Campus ao Campo”, durante visita técnica a assentamento vinculado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em município do interior da Bahia. A atividade consistiu em uma sessão privada de auriculoterapia e técnicas corporais, realizadas por um agricultor e morador do assentamento. Foram aplicadas agulhas e semente de girassol em pontos auriculares para tratamento de gastrite e ansiedade, além de manobras de liberação de tensões musculares, com uso de óleos corporais. A sessão teve duração média de 20 minutos. As percepções da discente foram registradas em diário de campo, e orientadas pelos princípios da pesquisa participante e da educação popular em saúde. Por se tratar de relato de experiência, sem identificação de participantes, não houve necessidade de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa.
Objetivo e período de Realização
Relatar a vivência extensionista relacionada às PICS em território popular e analisar suas implicações para a comunidade e formação em saúde. A experiência foi realizada em 02 de abril de 2025, no período da manhã.
Resultados
Após a aplicação das técnicas, foram relatados efeitos imediatos, como redução da ansiedade e alívio da tensão muscular. Observou-se também mudança na postura corporal e expressão de relaxamento após a intervenção. Segundo o ministrante, que realiza essa prática há mais de uma década no assentamento, as PICS são utilizadas para queixas recorrentes como hérnia de disco, dor de dente, enxaqueca e gastrite. Ao dialogar com o ministrante durante a vivência, observa-se que a recorrência de sua procura e o reconhecimento espontâneo dos moradores evidenciam a inserção consolidada da prática no cotidiano do território, sustentada por vínculo de confiança entre cuidador e comunidade.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que as PICS, no contexto do assentamento, operam como tecnologias sociais de cuidado, articuladas a saberes historicamente produzidos no território. A prática observada demonstra que a produção do cuidado ultrapassa a racionalidade biomédica estrita, incorporando dimensões culturais, como a valorização de saberes tradicionais e a concepção ampliada de saúde; dimensões relacionais, expressas no vínculo de confiança e na escuta qualificada; e dimensões comunitárias, evidenciadas pela legitimação coletiva da prática e pela autonomia territorial na produção do cuidado. O vínculo estabelecido entre cuidador e comunidade configura-se como elemento estruturante dessa prática, na medida em que produz confiança, continuidade do cuidado e reconhecimento social do saber territorializado. Nesse sentido, o cuidado não se limita à intervenção técnica, mas se organiza a partir de reconhecimento, pertencimento e autonomia coletiva. Para a formação em saúde, a vivência tensiona hierarquizações entre saber científico e saber popular, convocando reflexão sobre a centralidade do conhecimento acadêmico na definição do cuidado legitimado. Ao evidenciar a potência de práticas territorializadas, a experiência amplia a compreensão sobre integralidade e equidade, apontando para a necessidade de formação profissional comprometida com o diálogo intercultural e com a inserção crítica nas políticas públicas de saúde.
INTERNAÇÕES SENSÍVEIS À ATENÇÃO PRIMÁRIA NA REGIÃO NORTE DO BRASIL: SÉRIE TEMPORAL 2014–2024
Apresentação oral
1 Einstein Hospital Israelita
2 Universidade do Estado do Amazonas
3 FIOCRUZ-AM
Apresentação/Introdução
Na região norte brasileira, os padrões de adoecimento são influenciados por desigualdades socioeconômicas, características territoriais e barreiras geográficas de acesso aos serviços de saúde. Nesse contexto, as Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (ICSAP) constituem indicador amplamente utilizado para avaliar o acesso e a resolutividade da atenção primária à saúde (APS), refletindo a organização dos serviços e desigualdades sociais e territoriais. A análise das ICSAP permite identificar lacunas na provisão de cuidados primários e compreender padrões de hospitalização potencialmente evitáveis, especialmente em regiões com grande dispersão populacional, dependência de transporte fluvial e vulnerabilidades socioambientais.
Objetivos
Descrever o perfil ICSAP em diferentes cenários territoriais de saúde na Região Norte do Brasil
Metodologia
Estudo ecológico, quantitativo e retrospetivo, com análise de dados secundários do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS). Foram analisadas as ICSAP no período de 2014 a 2024 nos estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. As variáveis incluíram estado de residência, ano da internação, sexo, faixa etária, raça/cor (quando disponível) e diagnóstico principal segundo CID-10. Foram calculadas taxas de internação por 10.000 habitantes, com análise descritiva e avaliação da série temporal, utilizando o software RStudio (v. 4.4.0).
Resultados
Entre 2014 e 2024, a taxa média regional de ICSAP foi de 104,15 internações por 10.000 habitantes, com marcante heterogeneidade entre os estados. Rondônia apresentou a maior taxa média (139,50), seguido por Pará (116,84) e Roraima (115,44), enquanto Amapá registrou a menor magnitude (64,63). A diferença relativa entre o maior e o menor valor foi de aproximadamente 363,9%, evidenciando desigualdade territorial persistente no adoecimento potencialmente evitável. A análise temporal mostrou comportamentos distintos: entre 2014 e 2019, observou-se tendência de queda nas taxas do Acre, Amazonas, Amapá, Pará e Tocantins, enquanto Roraima e Rondônia apresentaram crescimento contínuo ao longo da série. No biênio 2020–2021 houve redução generalizada das taxas, com variação média de -29,1%, seguida de retomada parcial ou total entre 2022 e 2024, embora alguns estados permaneçam abaixo dos níveis pré-pandemia. Quanto à distribuição etária, observou-se maior concentração das internações em crianças menores de dez anos (28,4%) e em idosos (27,3%). Observou-se aumento progressivo das taxas de ICSAP entre janeiro e março (média de 95,19 internações por 10.000 habitantes), estabilidade em patamar elevado entre abril e setembro (média de 97,40) e redução entre outubro e dezembro (média de 92,74), com valores semelhantes em março e julho (99,49). Quanto ao perfil diagnóstico, as três principais causas agudas de ICSAP foram Diarreia e Gastroenterite (12,03%), Pneumonia Bacteriana (5,79%) e Acidente Vascular Cerebral (4,95%), enquanto entre as condições crônicas destacaram-se Asma (3,88%), Hipertensão Essencial (3,30%) e Insuficiência Cardíaca (3,09%), contudo, observou-se variação entre os estados.
Discussão
As diferenças interestaduais e as oscilações temporais sugerem que as ICSAP na Amazônia refletem não apenas a organização e cobertura da atenção primária, mas também fatores territoriais, socioambientais e logísticos que influenciam o acesso aos serviços de saúde. Estudos prévios apontam que eventos hidrológicos extremos, como cheias e estiagens, podem influenciar hospitalizações por doenças infecciosas e respiratórias e afetar o acesso físico aos serviços em comunidades ribeirinhas e localidades de difícil acesso. Nesse contexto, a dinâmica ambiental pode ampliar vulnerabilidades do sistema de saúde, especialmente entre grupos mais suscetíveis, como crianças e idosos.
Conclusões/Considerações
A heterogeneidade observada nas taxas de ICSAP sugere que essas internações refletem não apenas a organização da atenção primária, mas também contextos socioambientais marcados por isolamento geográfico, dependência fluvial, vulnerabilidades estruturais e exposição recorrente a extremos hidrológicos. As ICSAP configuram-se como indicador sensível das interações entre território, ambiente e capacidade adaptativa do sistema de saúde.
FORMAÇÃO DE AGENTES POPULARES DE SAÚDE: CUIDADO E PARTICIPAÇÃO SOCIAL NO SUS
Apresentação oral
1 ANEPS
Contextualização
A intensificação das crises socioambientais e das desigualdades sociais impõe novos desafios à Saúde Coletiva, exigindo o fortalecimento de práticas de cuidado territorializadas e baseadas na participação social. Nesse contexto, a formação de Agentes Populares de Saúde (AgPopSUS) emerge como uma estratégia de educação popular voltada à mobilização comunitária, à valorização dos saberes populares e ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Inspirada nos princípios da educação popular em saúde, essa iniciativa busca formar sujeitos comprometidos com a promoção da saúde, a defesa da vida e a construção de redes comunitárias de cuidado. Este relato apresenta a experiência de uma turma do curso realizada na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, com atividades articuladas a partir do município de Araxá (MG), envolvendo participantes de diferentes municípios e contextos, incluindo áreas rurais, assentamentos e periferias urbanas.
Descrição da Experiência
Trata-se de um relato de experiência baseado na sistematização do processo formativo de uma turma do curso de Agentes Populares de Saúde. A formação contou com 20 pessoas inscritas, das quais 16 concluíram o percurso formativo. Os participantes eram provenientes de diferentes municípios da região, incluindo Araxá, Uberlândia, Tupaciguara e Perdizes, e apresentavam trajetórias diversas, como estudantes, agricultoras e agricultores e moradores de territórios urbanos e rurais, incluindo participantes residentes em projetos de assentamento da reforma agrária. A metodologia foi orientada pelos princípios da pedagogia da alternância, com encontros presenciais em sala de aula e visitas guiadas às comunidades envolvidas, baseados em rodas de conversa, construção coletiva do conhecimento e intercâmbio de saberes. As atividades incluíram vivências relacionadas ao uso de plantas medicinais, reconhecimento de plantas alimentícias não convencionais (PANCs) e valorização de práticas tradicionais de cuidado. Também foram realizadas visitas a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em Araxá e Unidades Básicas de Saúde (UBS) nos municípios de Uberlândia e Tupaciguara, promovendo o diálogo entre os saberes comunitários e as práticas institucionais de saúde.
Objetivo e período de Realização
Relatar a experiência de formação de Agentes Populares de Saúde na região de Araxá (MG), realizada entre dezembro de 2024 e junho de 2025, destacando as práticas de educação popular em saúde, a valorização dos saberes tradicionais e suas contribuições para o fortalecimento do cuidado comunitário e da participação social no SUS.
Resultados
A experiência formativa possibilitou a construção de um espaço de troca entre saberes populares, experiências de vida e conhecimentos vinculados às políticas públicas de saúde. A diversidade de trajetórias dos participantes contribuiu para ampliar a compreensão sobre os determinantes sociais e ambientais da saúde, evidenciando desafios relacionados às condições de vida nos territórios rurais e urbanos, ao acesso a políticas públicas e à preservação de práticas tradicionais de cuidado. As atividades relacionadas às plantas medicinais e às PANCs favoreceram o reconhecimento de conhecimentos tradicionais associados à alimentação, ao cuidado e à relação com a natureza. As visitas aos serviços do SUS ampliaram a compreensão dos participantes sobre o funcionamento do sistema público de saúde, fortalecendo vínculos e possibilidades de atuação comunitária articulada com os serviços.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou o potencial da formação de Agentes Populares de Saúde como estratégia de fortalecimento da participação social e de ampliação das práticas comunitárias de cuidado. Ao articular saberes populares, experiências territoriais e aproximação com os serviços do SUS, o processo formativo contribuiu para a construção de novas leituras sobre saúde, território e cuidado. Em um contexto marcado por profundas transformações socioambientais, iniciativas de educação popular em saúde podem fortalecer redes comunitárias de solidariedade, autonomia e defesa da vida, reafirmando o papel dos territórios e dos saberes populares na construção de respostas coletivas aos desafios contemporâneos da saúde coletiva.
ESTRATÉGIAS E EXPERIÊNCIAS EM SAÚDE PARA POPULAÇÕES ISOLADAS E REMOTAS
Apresentação oral
1 Instituo veredas
2 Instituto Veredas
3 Instituto VEREDAS
Contextualização
O relato sistematiza a experiência de produção do relatório “Estratégias e experiências em saúde para populações isoladas e remotas”, elaborado pelo Instituto Veredas com financiamento do Instituto Umane. O estudo focaliza a região Amazônia-águas, onde a oferta e o uso de serviços do SUS são condicionados por fatores ambientais e territoriais, especialmente a sazonalidade hídrica. Cheia e seca, salinização e queda do nível dos rios, somadas a precariedades de saneamento, energia e conectividade, afetam o acesso, os custos logísticos e a continuidade do cuidado em regiões de difícil acesso, especialmente em comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas, em contexto de riscos associados às mudanças climáticas
Descrição da Experiência
A experiência foi orientada por duas perguntas: (1) quais estratégias e experiências de atenção à saúde têm sido mobilizadas em territórios isolados e remotos; (2) quais recomendações podem apoiar a implementação e a equidade no acesso. O caminho metodológico combinou revisão rápida de literatura científica (62 estudos) e literatura cinzenta (39 notícias, 19 planos municipais e 64 publicações institucionais), entrevistas remotas semi-estruturadas (17) e trabalho de campo com 11 rodas de conversa e 12 visitas observacionais. As visitas ocorreram em Afuá e Santarém (PA) e em Carauari e na Reserva Extrativista do Médio Juruá (AM), com observação de fluxos de cuidado e transporte. Em Carauari, o deslocamento a partir de Manaus envolve viagem fluvial de aproximadamente 39 horas, com custo elevado, evidenciando desigualdades de acesso e encarecimento de insumos essenciais
Objetivo e período de Realização
O objetivo foi caracterizar as principais barreiras e as respostas mobilizadas (institucionais e comunitárias) para sustentar o cuidado em saúde em territórios de difícil acesso na Amazônia-águas, bem como sistematizar recomendações para a gestão e a organização dos serviços. A investigação ocorreu entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025.
Resultados
Foram identificadas barreiras recorrentes: inacessibilidade territorial e institucional dos serviços, dependência de transporte público municipal, descontinuidade de rotas e serviços fluviais e efeitos da sazonalidade, com períodos de seca que ampliam tempos de deslocamento e dificultam a chegada às comunidades. Somam-se a precariedade de infraestrutura energética e digital e a baixa conectividade, que restringem o uso rotineiro de telessaúde e dificultam o registro e o compartilhamento de informações. Evidenciaram-se ainda desafios de provimento e fixação de profissionais, necessidades de formação ajustada ao território e fragilidades de integração entre níveis de atenção e políticas intersetoriais, com impactos desproporcionais sobre comunidades ribeirinhas e quilombolas. Paralelamente, observaram-se respostas locais: articulação entre profissionais e organizações comunitárias; fortalecimento do papel de ACS como elo entre comunidades e gestão; uso de telessaúde para suporte assistencial e formação quando há conectividade mínima; e estratégias de ampliação do acesso por mobilidade e oferta itinerante, como bicilâncias, ambulanchas e UBSs fluviais. Também foram registradas iniciativas de integração de saberes de povos tradicionais às práticas do SUS e tecnologias sociais adaptadas para abastecimento de água e energia em contextos de maior isolamento.
Aprendizado e Análise Crítica
A sistematização do relatório sugere que iniciativas com maior potencial de sustentação em territórios remotos combinam dimensão técnico-organizacional e sensibilidade sociocultural. Recomenda-se fortalecer e valorizar o trabalho de ACS, inclusive pela mediação cultural com práticas de cuidado localmente legitimadas. No campo da formação, o material reúne experiências de educação permanente e de telessaúde, com ênfase em teleducação e teleconsultoria orientadas por demandas do território, além de estratégias de formação em localidades remotas que valorizam a população local. Por fim, a viabilidade dessas recomendações depende de condições mínimas de infraestrutura (energia e conectividade) e de articulação contínua entre serviços, redes comunitárias e políticas públicas para garantir continuidade e escala.
GRAU DE RISCO FAMILIAR NOS TERRITÓRIOS DA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA EM CÁCERES, MATO GROSSO
Apresentação oral
1 UFR
2 UNEMAT
3 P. M. CÁCERES
4 P.M. CÁCERES
Apresentação/Introdução
A vulnerabilidade familiar expressa condições sociais, econômicas e sanitárias que influenciam o processo saúde-doença nos territórios da Atenção Primária à Saúde. A identificação dessas vulnerabilidades permite às equipes da Estratégia Saúde da Família planejar ações mais equitativas e direcionadas às necessidades da população. A estratificação do risco familiar constitui importante ferramenta para subsidiar o planejamento do cuidado, contribuindo para a organização das ações de saúde nos territórios e para o enfrentamento das iniquidades em saúde.
Objetivos
Identificar e classificar o grau de risco familiar nos territórios da Estratégia Saúde da Família do município de Cáceres, Mato Grosso.
Metodologia
Trata-se de estudo transversal, descritivo e analítico, realizado no município de Cáceres, Mato Grosso, entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. A pesquisa incluiu os territórios de todas as Estratégias Saúde da Família do município, sendo 13 localizadas em áreas urbanas e uma em área rural. A amostra foi definida por cálculo amostral, composta por 378 famílias selecionadas por meio de sorteio aleatório, garantindo a proporcionalidade de representantes de cada território. A coleta de dados ocorreu por meio de visitas domiciliares com aplicação da Escala de Risco Familiar de Coelho-Savassi. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva. A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Rondonópolis, número 7.908.835.
Resultados
Entre as 378 famílias analisadas, 195 (51,6%) foram classificadas como sem risco (R0). As demais apresentaram algum nível de vulnerabilidade, 79 famílias (20,9%) classificadas como risco baixo (R1), 63 (16,7%) como risco médio (R2) e 41 (10,8%) como risco máximo (R3).
Discussão
Os resultados evidenciam a presença de diferentes níveis de vulnerabilidade familiar nos territórios investigados, refletindo desigualdades sociais que impactam diretamente o processo saúde-doença. A identificação dessas vulnerabilidades possibilita maior compreensão das necessidades da população adscrita às equipes da Estratégia Saúde da Família, favorecendo o planejamento de ações direcionadas aos grupos prioritários. A utilização de instrumentos de estratificação contribui para qualificar o diagnóstico situacional do território e fortalecer a organização do cuidado na Atenção Primária à Saúde.
Conclusões/Considerações
O uso da Escala de Risco Familiar de Coelho-Savassi possibilitou reconhecer o perfil de vulnerabilidade nos territórios da Estratégia Saúde da Família. A maioria das famílias do município de Cáceres, Mato Grosso, foi classificada como sem risco de vulnerabilidade social e a minoria como risco máximo. Estudos futuros que busquem analisar as famílias com risco de vulnerabilidade social devem ser realizados.
INTERCULTURALIDADE E A ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA NOS TERRITÓRIOS DO CAMPO EM CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS
Apresentação oral
1 Fiocruz
2 SMS Crato
Contextualização
Nos territórios do campo, os processos de determinação socioambiental da saúde expressam-se por meio de profundas desigualdades no acesso à terra, à água, às políticas públicas e às condições dignas de vida, frequentemente associados a conflitos socioambientais e violações de direitos. Essas dinâmicas impactam diretamente os modos de viver, trabalhar e produzir saúde das populações rurais, evidenciando a necessidade de abordagens que articulem saúde, ambiente, território e justiça social. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde e a Estratégia Saúde da Família assumem papel estratégico na leitura crítica do território e no fortalecimento de práticas de cuidado que reconheçam a pluralidade de saberes, experiências e modos de vida presentes nas comunidades. A incorporação de perspectivas interculturais e participativas torna-se fundamental para compreender as dinâmicas socioambientais locais e fortalecer processos coletivos de enfrentamento das vulnerabilidades e injustiças ambientais.
Descrição da Experiência
O trabalho apresenta uma experiência territorial desenvolvida em comunidade rural, envolvendo a Estratégia Saúde da Família, residentes, estudantes e moradores na construção coletiva de estratégias de análise e intervenção sobre os determinantes socioambientais da saúde. A iniciativa buscou integrar práticas de vigilância em saúde, leitura territorial participativa e diálogo intercultural entre saberes técnicos e conhecimentos comunitários. A partir de metodologias participativas, foram identificadas os principais pontos culturais existentes no território que contribuem para a construção de saúde, situações críticas relacionadas às condições ambientais, ao acesso a recursos naturais e às vulnerabilidades sociais que atravessam o cotidiano da comunidade. O processo favoreceu a produção compartilhada de conhecimentos sobre o território, fortalecendo a participação social e a construção coletiva de estratégias de cuidado e defesa da vida.
Objetivo e período de Realização
compreender como a interculturalidade influencia a produção do cuidado pela Estratégia Saúde da Família nos territórios do campo, a partir das relações entre a competência cultural e as práticas de Vigilância em Saúde desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde. A experiência foi desenvolvida no ano de 2025 no âmbito de atividades de ensino-serviço-comunidade vinculadas à Atenção Primária à Saúde.
Resultados
A experiência possibilitou ampliar a compreensão crítica sobre as relações entre ambiente, modos de vida e processos saúde-doença no território. A leitura participativa do território evidenciou situações de vulnerabilidade socioambiental, bem como estratégias comunitárias de resistência especialmente através da interculturalidade e cuidado que historicamente sustentam a vida no campo. Observou-se fortalecimento do diálogo entre equipe de saúde e comunidade, ampliação do reconhecimento dos saberes locais e maior capacidade de planejamento das ações de saúde a partir das necessidades territoriais. O processo também favoreceu a articulação entre diferentes atores sociais e institucionais, contribuindo para qualificar a resposta da atenção primária frente aos desafios socioambientais vivenciados pela população.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que práticas territoriais participativas e interculturais podem fortalecer a atuação da Atenção Primária na abordagem da determinação socioambiental da saúde, contribuindo para a construção de respostas mais sensíveis às realidades locais. Ao reconhecer os territórios como espaços vivos de produção de saberes, cuidado e resistência, tais iniciativas ampliam as possibilidades de incidência sobre políticas públicas e estratégias de enfrentamento das desigualdades socioambientais. Entretanto, persistem desafios relacionados à institucionalização dessas práticas nos serviços de saúde, à formação profissional para o trabalho intercultural e à necessidade de fortalecer a articulação entre comunidade, movimentos sociais, instituições científicas e gestão pública na defesa do direito à saúde e ao ambiente saudável.
CONSTRUÇÃO PARTICIPATIVA DE FORMAÇÃO DA APS PARA POPULAÇÕES DO CAMPO, DA FLORESTA E DAS ÁGUAS
Apresentação oral
1 VPAAPS/Fiocruz e PPGSC/USP
2 VPAAPS e PPGEBS/IOC/Fiocruz
3 VPAAPS/Fiocruz
4 EPSJV/Fiocruz
5 VPAAPS/Fiocruz e FACISC/UECE
6 Fiocruz Ceará
Contextualização
Relatamos o processo participativo e interinstitucional de elaboração do Projeto Pedagógico do Curso (PPC) “Entre águas, terras e práticas do cuidado: formação em processos de trabalho da Atenção Primária à Saúde das Populações do Campo, Floresta e Águas”, que propõe qualificar 5 mil trabalhadoras(es) da APS com ênfase na implementação da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA). A iniciativa é conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (VPAAPS/Fiocruz), em parceria com o Ministério da Saúde (SAPS/MS) e com relevante participação do Grupo da Terra – comitê gestor responsável por monitorar e avaliar a PNSIPCFA.
Descrição da Experiência
A elaboração do PPC começou com um ciclo de reuniões virtuais com representantes da Fiocruz, do MS e do Grupo da Terra. Espaço de articulação histórica na condução da PNSIPCFA, o Grupo da Terra fora desativado no período recente de desestruturação e enfraquecimento das instâncias participativas no âmbito do governo federal, e retomado em 2023, quando voltou a desempenhar papel estratégico. Sua participação enquanto sujeito político-pedagógico do curso retoma a atuação conjunta entre sociedade civil, academia e gestão na elaboração de processos formativos sensíveis às realidades territoriais e necessidades concretas das populações.
Definiu-se que o PPC seria finalizado em oficina presencial, concebida como etapa validativa e espaço político-pedagógico de formação e fortalecimento coletivo, orientado pelos princípios da educação popular e da participação social. Com 37 participantes, a atividade teve início com exposições dialogadas acerca da PNSIPCFA. O Ministério da Saúde destacou desafios como a necessidade de transversalização da Política e a importância de ampliação do acesso à saúde nesses territórios, articulando saúde, ambiente, trabalho e educação, bem como a complexidade no processo de reconhecimento da autodeclaração dos 28 povos e comunidades tradicionais brasileiros. A Coordenação Pedagógica do curso resgatou o histórico de implantação das políticas que atravessam o cuidado das PCFA, desde a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) até a PNSIPCFA, diante de uma profunda crise multiescalar e multidimensional nos territórios que é, ao mesmo tempo, política, econômica, social, ecológica e sanitária, nas escalas locais, nacional e planetária. Organizaram-se grupos de trabalho com representantes de diferentes setores, para analisar o PPC a partir de roteiros orientadores. O dia seguinte foi dedicado à sistematização e ao debate coletivo das contribuições dos grupos.
Objetivo e período de Realização
A elaboração do Projeto Pedagógico do Curso ocorreu entre junho de 2025 e fevereiro de 2026.
Resultados
Após a oficina, os resultados foram incorporados ao PPC e sua Matriz Curricular. Identificamos como pontos fortes do PPC a articulação proposta entre Pedagogia da Alternância, Educação Popular e Educação Permanente em Saúde, bem como o fortalecimento da identidade do trabalhador como formador em serviço, e o reconhecimento do cuidado nas suas dimensões individual, coletiva e territorial. Como desafios, destacamos a complexidade de se estabelecer critérios para seleção dos municípios contemplados pelo curso, bem como os significativos investimentos necessários para realização de um processo formativo atento às especificidades territoriais no campo, na floresta e nas águas.
Aprendizado e Análise Crítica
A construção participativa do PPC revelou-se, em si, prática formativa e exercício de governança democrática, à luz da determinação socioambiental da saúde. A diversidade de experiências, com destaque para as contribuições dos movimentos sociais, ampliou a qualidade técnica e política do documento final. A experiência revelou divergências entre a densidade conceitual e a clareza operacional, assim como elementos envolvendo a diversidade territorial e a necessidade de uma abordagem situada. A manutenção e ampliação do diálogo com o Grupo da Terra aparece como chave para consolidação do PPC enquanto instrumento estratégico da implementação da PNSIPCFA, diante da profunda crise ecológica, que é antes de tudo uma crise em saúde.
INTERSETORIALIDADE PROMOÇÃO DA SAÚDE: ALINHANDO PICS E ECOLOGIA, HORTO FLORESTAL PARA O BEM VIVER
Apresentação oral
1 UFMT
Contextualização
A relação entre saúde humana e meio ambiente tem sido reconhecida como um determinante fundamental para a qualidade de vida das populações. A Organização Mundial da Saúde destaca que fatores ambientais, sociais e econômicos influenciam diretamente os processos de adoecimento e bem-estar. Estudos apontam que o contato com ambientes naturais contribui para a redução do estresse, melhora da função imunológica e fortalecimento do bem-estar psicossocial. Nesse contexto, a compreensão do processo saúde-doença evoluiu de um modelo estritamente biomédico para uma abordagem ampliada baseada nos determinantes sociais da saúde, que considera as condições de vida, trabalho e ambiente como elementos estruturantes da saúde coletiva.
A perspectiva da determinação socioambiental amplia esse entendimento ao reconhecer que a saúde resulta da interação entre sociedade, economia e natureza. Processos como desigualdade social, degradação ambiental, modelos de produção e consumo e fragilidade de políticas públicas influenciam diretamente os territórios e as condições de vida da população. Nesse sentido, o conceito de Bem Viver (Sumak Kawsay) propõe uma visão integrada entre ser humano e natureza, superando a separação entre sociedade e ecossistema e valorizando práticas de cuidado que promovam equilíbrio ambiental e justiça social.
No contexto mato-grossense, o Horto Florestal Tote Garcia constitui um espaço estratégico para integrar conservação ambiental e promoção da saúde. Com biodiversidade característica do Cerrado e infraestrutura voltada ao lazer e à educação ambiental, o local oferece condições favoráveis para o desenvolvimento de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). A experiência descrita refere-se às ações da Unidade de Referência em PICS (URPICS), vinculada ao Sistema Único de Saúde no município de Cuiabá, voltadas à promoção da saúde e ao fortalecimento da consciência socioambiental dos usuários.
Descrição da Experiência
A experiência da URPICS fundamenta-se no conceito ampliado de saúde e no paradigma biopsicossocial, que considera dimensões físicas, emocionais, sociais e ambientais no cuidado. Nesse contexto, o encontro entre profissionais e usuários valoriza a escuta qualificada, o vínculo terapêutico e o protagonismo dos sujeitos na construção de saúde.
As práticas ofertadas incluem atendimentos individuais e atividades coletivas. Entre as práticas individuais destacam-se reiki, auriculoterapia, terapia floral, movimento sistêmico e escuta qualificada. Já as práticas coletivas incluem biodança, terapia comunitária integrativa e ações educativas como rodas de conversa e café solidário. As atividades são realizadas em consultórios instalados no Horto e em espaços abertos integrados à paisagem natural, potencializando os efeitos terapêuticos do ambiente.
Objetivo e período de Realização
Analisar a conexão saúde e natureza no Horto Florestal, por meio das PICS, como estratégia de prevenção e promoção da saúde em Cuiabá 2016 a 2025
Resultados
Os resultados indicaram melhora significativa no bem-estar físico e emocional dos usuários. Participantes relataram redução do estresse, sensação de relaxamento, revitalização e maior disposição para o autocuidado. O contato com a natureza favoreceu experiências de tranquilidade e reconexão com o ambiente.
Observou-se também fortalecimento de vínculos comunitários e maior engajamento na preservação do espaço ambiental do Horto, ampliando a consciência ecológica dos participantes. Além disso, a experiência demonstrou potencial de sustentabilidade para o sistema público de saúde, uma vez que as práticas integrativas apresentam baixo custo operacional e reduzem a dependência de medicamentos .
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a promoção da saúde torna-se mais efetiva quando articulada ao território e ao meio ambiente. Um dos principais aprendizados foi reconhecer a natureza como dispositivo terapêutico capaz de potencializar processos de cuidado e consciência socioambiental. Também se destacou a importância da intersetorialidade entre saúde e meio ambiente para garantir a sustentabilidade das ações. Entre os desafios identificados está a resistência cultural de parte de gestores e profissionais em reconhecer áreas verdes como espaços legítimos de cuidado em saúde, indicando a necessidade de ampliar processos de sensibilização e educação permanente.
TERRITORIALIZAÇÃO E DETERMINAÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA SAÚDE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA NA FORMAÇÃO MÉDICA
Apresentação oral
1 UniEVANGÉLICA
Contextualização
No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), a territorialização constitui instrumento fundamental para o reconhecimento das características da população adscrita e para o planejamento das ações das equipes de saúde. Ao possibilitar a identificação de vulnerabilidades socioambientais e de fatores que influenciam o processo saúde-doença, a análise territorial contribui para a construção de práticas de cuidado orientadas pelas necessidades concretas das comunidades. Nesse sentido, a aproximação dos estudantes com os territórios atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) também se configura como estratégia formativa relevante para o desenvolvimento de uma visão ampliada e crítica da saúde.
Descrição da Experiência
O presente trabalho descreve uma experiência desenvolvida no módulo de Medicina da Família e Comunidade I do curso de Medicina da Universidade Evangélica de Goiás, em Anápolis (GO). A iniciativa integra o Projeto de Saúde na Comunidade intitulado “Território e territorialização: vida, trabalho e produção de saúde” e desenvolvido em quatro Unidades Básicas de Saúde. Como estratégia pedagógica foi utilizada a metodologia ativa do Arco de Maguerez, orientando as etapas de observação da realidade, identificação de problemas, teorização, elaboração de hipóteses de intervenção e devolutiva aos serviços. A análise territorial envolveu levantamento de dados secundários e primários, incluindo informações socioeconômicas, ambientais, epidemiológicas e infraestruturais. Essas informações foram obtidas por meio de observação sistemática do território, consulta a bases de dados institucionais e diálogo com profissionais de saúde e moradores das comunidades.
Objetivo e período de Realização
Relatar a experiência de territorialização desenvolvida na formação médica em Anápolis (GO), evidenciando sua contribuição para a compreensão da determinação socioambiental da saúde no território da Atenção Primária à Saúde.
Período de realização: 2024 e 2025.
Resultados
A experiência possibilitou aos estudantes reconhecer o território como espaço de produção social da saúde e da doença, evidenciando a influência das condições socioeconômicas e ambientais sobre o perfil de adoecimento da população. Entre os principais aspectos identificados destacaram-se vulnerabilidades relacionadas à infraestrutura urbana, como descarte inadequado de resíduos, limitações no acesso ao saneamento básico e desigualdades no acesso a equipamentos e serviços públicos. Também foram observadas situações associadas à vulnerabilidade social, incluindo dificuldades de acesso a trabalho e renda, presença de violência em determinados territórios e fatores ambientais que podem favorecer a ocorrência de arboviroses e outros agravos relacionados ao ambiente. A análise territorial evidenciou ainda como as condições de vida e trabalho se articulam com a produção de iniquidades em saúde, afetando de maneira diferenciada determinados grupos sociais. A sistematização das informações resultou na elaboração de diagnósticos territoriais apresentados às equipes das Unidades Básicas de Saúde, contribuindo para a identificação de necessidades locais e para o planejamento de ações voltadas à promoção da saúde, prevenção de agravos e fortalecimento da vigilância em saúde no território.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a territorialização constitui ferramenta estratégica para que os estudantes compreendam os processos de determinação socioambiental da saúde. Ao possibilitar a análise integrada das condições sociais, ambientais e epidemiológicas do território, esse processo contribui para o planejamento de ações mais coerentes com as necessidades da população e com os princípios do Sistema Único de Saúde. Do ponto de vista formativo, a inserção dos estudantes nos territórios favoreceu o desenvolvimento de uma compreensão ampliada do processo saúde-doença e das desigualdades sociais que atravessam a produção da saúde. A interação com profissionais das equipes de saúde e com moradores também fortaleceu a integração entre universidade, serviços de saúde e comunidade, aproximando a formação médica das realidades concretas vividas pelas populações. A experiência reforça a importância da articulação entre ensino, serviço e comunidade como estratégia para qualificar práticas de cuidado e ampliar a capacidade do SUS de responder às desigualdades socioambientais que se expressam nos territórios.
ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA AOS IMPACTOS DA MUDANÇA CLIMÁTICA: UMA REVISÃO DE ESCOPO
Apresentação oral
1 UNICAMP
Introdução
As mudanças climáticas são alterações relacionadas à temperatura e ao clima ocasionadas em decorrência da alta emissão de gases do efeito estufa, causando
impactos significativos na fauna, flora e na saúde humana e sendo consideradas uma das maiores ameaças à integridade da saúde no século XXI. Por isso,
estratégias de adaptação aos efeitos das mudanças climáticas vêm sendo propostas por diversos atores intergovernamentais e intersetoriais, incluindo o setor da saúde.
Levando em consideração as competências esperadas dos profissionais atuantes na Atenção Primária à Saúde (APS), faz-se necessária a compreensão de quais
medidas de adaptação a esses impactos estão sendo implementadas no cotidiano dos serviços.
Objetivos
Sintetizar e identificar lacunas de produção científica sobre a atuação dos profissionais da Atenção Primária à Saúde frente aos impactos na saúde humana das mudanças climáticas.
Processo de produção com período de realização
Foi optado pela elaboração de uma revisão de escopo, baseada no método proposto pela Joanna Briggs Institute (JBI). As bases
de dados escolhidas foram PUBMED, PUBMED PMC, Scopus, Web of Science, EMBASE, BVS, EBSCOhost, Cochrane Library, Proquest Central, PSYCINFO e
Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). A estratégia de busca inicial incluiu termos MESH/EMTREE . Após coleta dos artigos identificados nas bases de dados, foi realizada selezção dos mesmos por revisores independentes. Após primeira e segunda fase de seleção, foi realizada reunião de consenso para resolução de conflitos.
Resultados
Após realização da estratégia de busca nas dez bases de dados elencadas, foram encontrados 1751 artigos. Desse montante, um total de 775 documentos
foram excluídos por serem duplicatas, totalizando 976 artigos para serem analisados, totalizando número de 28 estudos incluídos para avaliação final. Estes estudos demonstraram que ações de adaptação têm sido propostas nos seguintes eixos temáticos: Criação de conteúdo informativo e científico, Educação em Saúde, Agravos Sensíveis ao Clima bem como Intersetorialidade, Integração entre Serviços de Saúde, Ação Comunitária e Preparação para Emergências Climáticas . Além disso, percebeu-se que a os estudos incluidos abarcavam em sua grande maioria categoria médica, seguida de enfermagem. Ademais, percebeu-se que algumas populações vulneráveis foram identificadas como : gestante, criança, refugiado climático, população indígena e rural.
Análise crítica e impactos sociais do produto relacionados aos temas do congresso
Apesar da crescente conscientização pública e, em especial, do setor da Atenção Primária à Saúde (APS) sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde humana, poucas ações de adaptações têm sido descritas na literatura atual. Posto isto, urge a formulação de mais estudos primários em relação a implementação de medidas de adaptação aos impactos das mudanças climáticas na
saúde humana, principalmente, no que concerne às pessoas em situação de vulnerabilidade e aos agravos sensíveis ao clima sob a ótica dos cuidados primários à saúde de maneira que os todas as categorias de profissionais da porta de entrada dos sistemas de saúde estejam capacitados para manejar e propor medidas
adaptação aos impactos já sofridos pela população.
FORMAÇÃO DE AGENTES POPULARES DE SAÚDE: CUIDADO E PARTICIPAÇÃO SOCIAL NO SUS
Apresentação oral
1 ANEPS
Contextualização
A intensificação das crises socioambientais e das desigualdades sociais impõe novos desafios à Saúde Coletiva, exigindo o fortalecimento de práticas de cuidado territorializadas e baseadas na participação social. Nesse contexto, a formação de Agentes Populares de Saúde (AgPopSUS) emerge como uma estratégia de educação popular voltada à mobilização comunitária, à valorização dos saberes populares e ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Inspirada nos princípios da educação popular em saúde, essa iniciativa busca formar sujeitos comprometidos com a promoção da saúde, a defesa da vida e a construção de redes comunitárias de cuidado. Este relato apresenta a experiência de uma turma do curso realizada na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, com atividades articuladas a partir do município de Araxá (MG), envolvendo participantes de diferentes municípios e contextos, incluindo áreas rurais, assentamentos e periferias urbanas.
Descrição da Experiência
Trata-se de um relato de experiência baseado na sistematização do processo formativo de uma turma do curso de Agentes Populares de Saúde. A formação contou com 20 pessoas inscritas, das quais 16 concluíram o percurso formativo. Os participantes eram provenientes de diferentes municípios da região, incluindo Araxá, Uberlândia, Tupaciguara e Perdizes, e apresentavam trajetórias diversas, como estudantes, agricultoras e agricultores e moradores de territórios urbanos e rurais, incluindo participantes residentes em projetos de assentamento da reforma agrária. A metodologia foi orientada pelos princípios da pedagogia da alternância, com encontros presenciais em sala de aula e visitas guiadas às comunidades envolvidas, baseados em rodas de conversa, construção coletiva do conhecimento e intercâmbio de saberes. As atividades incluíram vivências relacionadas ao uso de plantas medicinais, reconhecimento de plantas alimentícias não convencionais (PANCs) e valorização de práticas tradicionais de cuidado. Também foram realizadas visitas a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em Araxá e Unidades Básicas de Saúde (UBS) nos municípios de Uberlândia e Tupaciguara, promovendo o diálogo entre os saberes comunitários e as práticas institucionais de saúde.
Objetivo e período de Realização
Relatar a experiência de formação de Agentes Populares de Saúde na região de Araxá (MG), realizada entre dezembro de 2024 e junho de 2025, destacando as práticas de educação popular em saúde, a valorização dos saberes tradicionais e suas contribuições para o fortalecimento do cuidado comunitário e da participação social no SUS.
Resultados
A experiência formativa possibilitou a construção de um espaço de troca entre saberes populares, experiências de vida e conhecimentos vinculados às políticas públicas de saúde. A diversidade de trajetórias dos participantes contribuiu para ampliar a compreensão sobre os determinantes sociais e ambientais da saúde, evidenciando desafios relacionados às condições de vida nos territórios rurais e urbanos, ao acesso a políticas públicas e à preservação de práticas tradicionais de cuidado. As atividades relacionadas às plantas medicinais e às PANCs favoreceram o reconhecimento de conhecimentos tradicionais associados à alimentação, ao cuidado e à relação com a natureza. As visitas aos serviços do SUS ampliaram a compreensão dos participantes sobre o funcionamento do sistema público de saúde, fortalecendo vínculos e possibilidades de atuação comunitária articulada com os serviços.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou o potencial da formação de Agentes Populares de Saúde como estratégia de fortalecimento da participação social e de ampliação das práticas comunitárias de cuidado. Ao articular saberes populares, experiências territoriais e aproximação com os serviços do SUS, o processo formativo contribuiu para a construção de novas leituras sobre saúde, território e cuidado. Em um contexto marcado por profundas transformações socioambientais, iniciativas de educação popular em saúde podem fortalecer redes comunitárias de solidariedade, autonomia e defesa da vida, reafirmando o papel dos territórios e dos saberes populares na construção de respostas coletivas aos desafios contemporâneos da saúde coletiva.
CUIDADO COMUNITÁRIO E FORMAÇÃO EM SAÚDE: EXPERIÊNCIAS COM PRÁTICAS INTEGRATIVAS EM TERRITÓRIOS POPULARES
Apresentação oral
1 UESB
Contextualização
As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), reconhecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), são formas de cuidado em saúde, que englobam medicamentos homeopáticos, fitoterápicos, acupuntura, atividades corporais e dança. Em territórios populares, onde o acesso aos serviços formais é restrito, as PICS ampliam as possibilidades terapêuticas ao integrar saberes tradicionais e conhecimento científico, revelando estratégias concretas de produção do cuidado no cotidiano comunitário, além de expressar dinâmicas contra-hegemônicas no campo da saúde coletiva. A extensão universitária, nesse contexto, possibilita a aproximação entre universidade e território, ao vincular a formação acadêmica comprometida com o contexto socioestrutural.
Descrição da Experiência
Trata-se de relato de experiência vivenciado por uma discente do curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, integrante do projeto de extensão “Feira Agroecológica: do Campus ao Campo”, durante visita técnica a assentamento vinculado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em município do interior da Bahia. A atividade consistiu em uma sessão privada de auriculoterapia e técnicas corporais, realizadas por um agricultor e morador do assentamento. Foram aplicadas agulhas e semente de girassol em pontos auriculares para tratamento de gastrite e ansiedade, além de manobras de liberação de tensões musculares, com uso de óleos corporais. A sessão teve duração média de 20 minutos. As percepções da discente foram registradas em diário de campo, e orientadas pelos princípios da pesquisa participante e da educação popular em saúde. Por se tratar de relato de experiência, sem identificação de participantes, não houve necessidade de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa.
Objetivo e período de Realização
Relatar a vivência extensionista relacionada às PICS em território popular e analisar suas implicações para a comunidade e formação em saúde. A experiência foi realizada em 02 de abril de 2025, no período da manhã.
Resultados
Após a aplicação das técnicas, foram relatados efeitos imediatos, como redução da ansiedade e alívio da tensão muscular. Observou-se também mudança na postura corporal e expressão de relaxamento após a intervenção. Segundo o ministrante, que realiza essa prática há mais de uma década no assentamento, as PICS são utilizadas para queixas recorrentes como hérnia de disco, dor de dente, enxaqueca e gastrite. Ao dialogar com o ministrante durante a vivência, observa-se que a recorrência de sua procura e o reconhecimento espontâneo dos moradores evidenciam a inserção consolidada da prática no cotidiano do território, sustentada por vínculo de confiança entre cuidador e comunidade.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que as PICS, no contexto do assentamento, operam como tecnologias sociais de cuidado, articuladas a saberes historicamente produzidos no território. A prática observada demonstra que a produção do cuidado ultrapassa a racionalidade biomédica estrita, incorporando dimensões culturais, como a valorização de saberes tradicionais e a concepção ampliada de saúde; dimensões relacionais, expressas no vínculo de confiança e na escuta qualificada; e dimensões comunitárias, evidenciadas pela legitimação coletiva da prática e pela autonomia territorial na produção do cuidado. O vínculo estabelecido entre cuidador e comunidade configura-se como elemento estruturante dessa prática, na medida em que produz confiança, continuidade do cuidado e reconhecimento social do saber territorializado. Nesse sentido, o cuidado não se limita à intervenção técnica, mas se organiza a partir de reconhecimento, pertencimento e autonomia coletiva. Para a formação em saúde, a vivência tensiona hierarquizações entre saber científico e saber popular, convocando reflexão sobre a centralidade do conhecimento acadêmico na definição do cuidado legitimado. Ao evidenciar a potência de práticas territorializadas, a experiência amplia a compreensão sobre integralidade e equidade, apontando para a necessidade de formação profissional comprometida com o diálogo intercultural e com a inserção crítica nas políticas públicas de saúde.
INTERSETORIALIDADE PROMOÇÃO DA SAÚDE: ALINHANDO PICS E ECOLOGIA, HORTO FLORESTAL PARA O BEM VIVER
Apresentação oral
1 UFMT
Contextualização
A relação entre saúde humana e meio ambiente tem sido reconhecida como um determinante fundamental para a qualidade de vida das populações. A Organização Mundial da Saúde destaca que fatores ambientais, sociais e econômicos influenciam diretamente os processos de adoecimento e bem-estar. Estudos apontam que o contato com ambientes naturais contribui para a redução do estresse, melhora da função imunológica e fortalecimento do bem-estar psicossocial. Nesse contexto, a compreensão do processo saúde-doença evoluiu de um modelo estritamente biomédico para uma abordagem ampliada baseada nos determinantes sociais da saúde, que considera as condições de vida, trabalho e ambiente como elementos estruturantes da saúde coletiva.
A perspectiva da determinação socioambiental amplia esse entendimento ao reconhecer que a saúde resulta da interação entre sociedade, economia e natureza. Processos como desigualdade social, degradação ambiental, modelos de produção e consumo e fragilidade de políticas públicas influenciam diretamente os territórios e as condições de vida da população. Nesse sentido, o conceito de Bem Viver (Sumak Kawsay) propõe uma visão integrada entre ser humano e natureza, superando a separação entre sociedade e ecossistema e valorizando práticas de cuidado que promovam equilíbrio ambiental e justiça social.
No contexto mato-grossense, o Horto Florestal Tote Garcia constitui um espaço estratégico para integrar conservação ambiental e promoção da saúde. Com biodiversidade característica do Cerrado e infraestrutura voltada ao lazer e à educação ambiental, o local oferece condições favoráveis para o desenvolvimento de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). A experiência descrita refere-se às ações da Unidade de Referência em PICS (URPICS), vinculada ao Sistema Único de Saúde no município de Cuiabá, voltadas à promoção da saúde e ao fortalecimento da consciência socioambiental dos usuários.
Descrição da Experiência
A experiência da URPICS fundamenta-se no conceito ampliado de saúde e no paradigma biopsicossocial, que considera dimensões físicas, emocionais, sociais e ambientais no cuidado. Nesse contexto, o encontro entre profissionais e usuários valoriza a escuta qualificada, o vínculo terapêutico e o protagonismo dos sujeitos na construção de saúde.
As práticas ofertadas incluem atendimentos individuais e atividades coletivas. Entre as práticas individuais destacam-se reiki, auriculoterapia, terapia floral, movimento sistêmico e escuta qualificada. Já as práticas coletivas incluem biodança, terapia comunitária integrativa e ações educativas como rodas de conversa e café solidário. As atividades são realizadas em consultórios instalados no Horto e em espaços abertos integrados à paisagem natural, potencializando os efeitos terapêuticos do ambiente.
Objetivo e período de Realização
Analisar a conexão saúde e natureza no Horto Florestal, por meio das PICS, como estratégia de prevenção e promoção da saúde em Cuiabá 2016 a 2025
Resultados
Os resultados indicaram melhora significativa no bem-estar físico e emocional dos usuários. Participantes relataram redução do estresse, sensação de relaxamento, revitalização e maior disposição para o autocuidado. O contato com a natureza favoreceu experiências de tranquilidade e reconexão com o ambiente.
Observou-se também fortalecimento de vínculos comunitários e maior engajamento na preservação do espaço ambiental do Horto, ampliando a consciência ecológica dos participantes. Além disso, a experiência demonstrou potencial de sustentabilidade para o sistema público de saúde, uma vez que as práticas integrativas apresentam baixo custo operacional e reduzem a dependência de medicamentos .
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a promoção da saúde torna-se mais efetiva quando articulada ao território e ao meio ambiente. Um dos principais aprendizados foi reconhecer a natureza como dispositivo terapêutico capaz de potencializar processos de cuidado e consciência socioambiental. Também se destacou a importância da intersetorialidade entre saúde e meio ambiente para garantir a sustentabilidade das ações. Entre os desafios identificados está a resistência cultural de parte de gestores e profissionais em reconhecer áreas verdes como espaços legítimos de cuidado em saúde, indicando a necessidade de ampliar processos de sensibilização e educação permanente.
Realização: