Programa - Roda de Saberes - RS13 - Agronegócio, Agrotóxicos e Injustiças Socioambientais: impactos, resistências e alternativas
28 DE MAIO | QUINTA-FEIRA
13:45 - 16:15
13:45 - 16:15
HISTÓRIA DOS AGROTÓXICOS NO BRASIL: USOS, IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS E RESISTÊNCIAS (1964-2023)
Apresentação oral
1 UFR
2 CEFET-RJ
3 Fiocruz
Apresentação/Introdução
Na atualidade, o Brasil ocupa o vergonhoso posto de país que mais usa agrotóxicos no mundo, porém isso é resultado de um processo histórico construído ao longo das últimas décadas. Nesta comunicação, apresentamos nosso projeto de pesquisa, aprovado na Chamada FNDCT Nº 44/2024 - UNIVERSAL CNPq, em vigência entre novembro/2025 e novembro/2028.
Objetivos
Temos como objetivo geral compreender a história dos agrotóxicos no Brasil, entre 1964 e 2023, período marcado pelo expressivo aumento do uso dessas substâncias, refletindo mudanças nas políticas agrícolas e nas percepções sobre suas consequências socioambientais. Destaca-se o surgimento de resistências em paralelo a debates científicos e políticos sobre seus impactos. A proposta enfoca as políticas públicas e os discursos sociais relacionados a este panorama, desde os incentivos governamentais implementados durante a ditadura civil-militar (1964-1985) até a aprovação da Lei nº 14.785/2023, um retrocesso no controle dessas substâncias, marcada pela influência de setores do agronegócio.
Metodologia
A estratégia metodológica inclui uma análise interdisciplinar baseada na História das Ciências e da Saúde, História Ambiental, História Pública, e Agroecologia, aliada a uma abordagem comparativa entre diferentes realidades regionais, buscando identificar similaridades e especificidades nos impactos do uso intensivo de agrotóxicos, a partir de diferentes perspectivas, interesses e discursos. A pesquisa é realizada por um grupo de quatro professores, e está estruturada num recorte geográfico, de acordo com os estados/regiões estudados pelos pesquisadores: a professora Elenita Malta Pereira (UFR), coordenadora do projeto, enfoca os estados de Mato Grosso e Rio Grande do Sul; o professor Leonardo de Bem Lignani (CEFET-RJ) aborda o estado de São Paulo; a professora Ingrid Fonseca Casazza (Fiocruz) trata a região do submédio do Rio São Francisco; a professora Julia Gorges (Fiocruz) enfoca o estado do Rio de Janeiro.
Resultados
A pesquisa está em fase inicial, ainda não temos resultados, porém, uma vez que as regiões comparadas apresentam particularidades em seus processos de transformação agrícola, nossa hipótese de trabalho é de que os tipos de impactos produzidos pela utilização de agrotóxicos (na saúde e no ambiente) e as alternativas que foram propostas estarão relacionadas a aspectos políticos, econômicos, socioambientais e culturais de cada processo. A comparação entre os estados e região objetos da pesquisa contribuirá para identificar fatores que explicam as diferenças e semelhanças na história dos agrotóxicos no RS, RJ, SP, MT e no submédio do Vale do São Francisco, bem como compreender melhor o processo que levou o Brasil à posição de maior consumidor de agrotóxicos em âmbito global.
Discussão
A problemática geral da pesquisa envolve a compreensão dos fatores históricos que consolidaram o Brasil como líder mundial no consumo de agrotóxicos, destacando a importância de revisitar o tema em função de seus impactos diversos na sociedade. Fatores como o incentivo estatal à modernização agrícola, amparada nas técnicas características da Revolução Verde, e a recente aprovação de legislações insatisfatórias, sugerem que o tema é extremamente relevante para análise histórica. Constatamos que, apesar de seu forte apelo público (por envolver questões de saúde pública como a intoxicação de trabalhadores e consumidores e a contaminação de alimentos e da água), o tema dos agrotóxicos ainda foi pouco trabalhado na historiografia brasileira. Partimos das referências clássicas, como as obras de Adilson Paschoal, José Lutzenberger, Ana Primavesi, Augusto Ruschi, bem como de estudos fundamentais, a exemplo do Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde; obras de Larissa Bombardi, de Victor Pelaez, de Wanderlei Pignati, entre outras.
Conclusões/Considerações
Ao realizarmos uma análise historiográfica sobre o tema, buscaremos preencher lacunas que poderão contribuir para debates perante a sociedade civil, que envolvem saúde pública, segurança alimentar, justiça ambiental, vulnerabilidade social, interesses políticos e corporativos.
VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE E RESISTÊNCIA CAMPONESA FRENTE AO AGRONEGÓCIO NA CHAPADA DO APODI-CE
Apresentação oral
1 FIOCRUZ CEARÁ
2 UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
Contextualização
A Chapada do Apodi, no Ceará, é um território de intensa disputa de classes, onde o avanço do agronegócio impõe processos de desterritorialização e agravos à saúde das populações camponesas. O cenário é marcado pela concentração de capital e terra, gerando o que se define como situações-limite de opressão e invisibilização de conflitos socioambientais. Nesse contexto, a vigilância popular em saúde (VPS) é articulada como estratégia de defesa da vida e do patrimônio das comunidades tradicionais.
Descrição da Experiência
A experiência fundamentou-se em visitas de campo, observação direta e roda de conversa com moradores locais. Através do Participatório, grupo que integra academia, SUS e movimentos sociais, buscou-se visibilizar conhecimentos e modos de vida tradicionais. A metodologia priorizou a escuta de vozes insurgentes e a análise de práticas cotidianas de reprodução social, confrontando as narrativas hegemônicas do desenvolvimento regional.
Objetivo e período de Realização
O objetivo foi realizar uma pesquisa-ação-participativa para identificar impactos socioambientais e fortalecer a vigilância popular junto às comunidades camponesas. As atividades sistematizadas neste relato ocorreram entre setembro de 2024 e abril de 2025.
Resultados
Identificaram-se evidências críticas de contaminação hídrica por agrotóxicos e impactos severos na saúde pública. Surgiram denúncias de que prontuários médicos foram fechados para omitir notificações de mortes neonatais e outras enfermidades ligadas à exposição a venenos agrícolas. Em contrapartida, observou-se a potência da resistência camponesa através de técnicas de cultivo sustentável, como a diversificação de plantios sem uso de venenos e o controle natural de pragas, reafirmando a viabilidade da agroecologia.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência revela que o estado muitas vezes atua em defesa das elites, perpetuando estruturas colonialistas que negligenciam a saúde das populações tradicionais. O principal aprendizado reside na compreensão de que a vigilância popular não é apenas uma ferramenta técnica, mas um instrumento de emancipação política e cuidado coletivo. A análise crítica destaca o desafio de superar o apagamento institucional de dados de saúde, reforçando que a produção de conhecimento na saúde coletiva deve estar intrinsecamente ligada à defesa do território e da soberania comunitária.
EXPOSIÇÃO LABORAL A AGROTÓXICOS E CÂNCER NO BRASIL: REVISÃO DE ESCOPO DAS EVIDÊNCIAS EPIDEMIOLÓGICAS
Apresentação oral
1 Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), São Paulo, São Paulo - Brasil
Apresentação/Introdução
O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos em nível mundial, o que amplia a exposição laboral a essas substâncias, sobretudo em áreas rurais. A exposição a agrotóxicos tem sido associada com diversos desfechos, sendo um dos mais estudados o câncer. Diante da magnitude do consumo dessas substâncias e da relevância do câncer como problema de saúde pública, torna-se necessário o mapeamento das evidências epidemiológicas produzidas no Brasil, a fim de caracterizar como a exposição laboral a agrotóxicos e o câncer têm sido investigados.
Objetivos
Revisar a literatura sobre a associação entre exposição laboral a agrotóxicos e ocorrência de câncer no Brasil.
Metodologia
Foi realizada uma revisão de escopo conforme as recomendações do PRISMA-ScR. A busca de artigos foi realizada em setembro de 2025 nas bases PubMed, Embase, LILACS e SciELO, incluindo aqueles publicados até a data da busca, sem restrição de período e em português, inglês ou espanhol. Foram incluídos estudos observacionais que investigaram a associação entre exposição laboral a agrotóxicos e câncer no Brasil. A seleção ocorreu por triagem de títulos, resumos e textos completos, com exclusão de estudos não observacionais, sem desfecho de câncer ou que não envolvessem a população trabalhadora. Os dados extraídos foram: local, tipo de estudo, tipo de câncer, tamanho da amostra, população, principais resultados e associação observada. A síntese dos achados foi realizada de forma descritiva.
Resultados
Foram identificados 1.392 estudos e, após remoção de duplicatas, 1.156 registros foram triados. Destes, 1.122 foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Trinta e quatro artigos foram selecionados para leitura, dos quais 24 foram excluídos e cinco não puderam ser avaliados pela indisponibilidade do texto completo. Assim, cinco estudos publicados entre 1999 e 2024 foram incluídos. Quanto ao delineamento, 60% dos estudos eram casos-controle e 40% ecológicos. Em 60% dos estudos, a exposição foi diretamente relacionada ao trabalho agrícola; nos demais (40%) foram utilizados indicadores indiretos, como produção agrícola e estimativas de uso de agrotóxicos. Os tipos de câncer mais investigados foram mama e próstata (40% cada), seguidos por melanoma cutâneo primário (20%) e neoplasias hematológicas (20%). A maioria dos estudos (80%) identificou associação positiva entre exposição a agrotóxicos e ocorrência de câncer. Em estudos caso-controle, observou-se maior chance de melanoma em exposições laborais (OR=4,23) e superiores a 10 anos (OR=2,84), bem como maior chance de câncer de mama (OR=1,58) e de metástase linfonodal (OR=2,19). Estudos ecológicos evidenciaram correlação positiva entre produção e uso de agrotóxicos e mortalidade por câncer de próstata e leucemias, com autocorrelação espacial significativa (I=0,210; p<0,05).
Discussão
Os estudos incluídos apontam para uma associação entre exposição laboral a agrotóxicos e câncer no Brasil. As investigações foram conduzidas predominantemente em regiões com elevada produção agrícola e intenso uso de agrotóxicos, como Centro-Oeste e Sul. Esse padrão territorial sugere que o risco observado está inserido em um contexto estrutural de produção agrícola intensiva, relacionado não apenas à exposição individual, mas também a determinantes socioambientais. Contudo, as evidências devem ser interpretadas com cautela, considerando o número reduzido de estudos incluídos e limitações metodológicas, como mensuração indireta da exposição, uso de indicadores agregados nos estudos ecológicos, viés de memória nos estudos caso-controle e potenciais subnotificações nos sistemas de informação.
Conclusões/Considerações
Os estudos apontaram associação entre exposição laboral a agrotóxicos e câncer. Os estudos indicam maior risco em exposições laborais prolongadas, bem como associações territoriais entre uso intensivo de agrotóxicos e mortalidade por câncer em regiões de forte produção agrícola. Mais estudos são necessários visando melhor caracterização da exposição, delineamentos analíticos mais robustos e maior abrangência territorial.
MONITORAMENTO DO DESMATAMENTO QUÍMICO NO PANTANAL E SEUS IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS
Apresentação oral
1 Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT
2 Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso – SEMA/MT
Apresentação/Introdução
O Brasil vivencia um cenário de fragilização regulatória no campo dos agrotóxicos, intensificado pela aprovação de normativas que flexibilizam mecanismos de controle e ampliam o registro de pesticidas. Nesse contexto, observa-se a expansão do chamado desmatamento químico, caracterizado pela pulverização aérea de herbicidas que provocam mortalidade seletiva da vegetação nativa. No Pantanal, essa prática representa uma ameaça significativa devido à dinâmica ecológica que integra ambientes terrestres e sazonalmente alagáveis, favorecendo a dispersão e persistência de contaminantes. Em áreas próximas aos territórios indígenas Guató, a exposição potencial a esses compostos amplia a dimensão do problema, articulando degradação ambiental, vulnerabilidade territorial e riscos à saúde coletiva. Diante desse cenário de desregulação, o monitoramento ambiental por sensoriamento remoto é uma ferramenta estratégica para subsidiar ações de fiscalização e planejamento em saúde.
Objetivos
Desenvolver uma abordagem baseada em sensoriamento remoto para detecção rápida de padrões de degradação da vegetação associados ao uso de agentes químicos para subsidiar ações de fiscalização ambiental, proteção de territórios vulneráveis e planejamento em saúde.
Metodologia
A pesquisa foi realizada no Pantanal de Barão de Melgaço (MT). A identificação das áreas potencialmente afetadas entre 2021 e 2023 foi realizada a partir da análise multitemporal de imagens Sentinel-2 e PlanetScope, por meio da integração dos índices espectrais Triangular Greenness Index (TGI) e Normalized Difference Moisture Index (NDMI). A validação dos resultados combinou inspeções em campo com fotos aéreas e imagens de alta resolução espacial, além de dados de comercialização de agrotóxicos.
Resultados
Foram identificados 158.776 hectares de vegetação nativa com indícios de degradação química, dos quais 5.223 hectares localizam-se em Áreas de Preservação Permanente. Os padrões espaciais observados, caracterizados por faixas lineares e geometrias regulares, são compatíveis com operações de pulverização aérea planejada. As inspeções em campo confirmaram o uso de herbicidas seletivos, capazes de promover mortalidade de espécies arbóreas enquanto mantêm gramíneas vigorosas, alterando significativamente a estrutura da vegetação nativa. No período analisado, registrou-se a aplicação de mais de 215 mil litros de herbicidas na região. A metodologia desenvolvida alcançou 89% de acurácia global, permitindo distinguir padrões de degradação química de distúrbios naturais, como seca e incêndios. Os resultados subsidiaram a criação de uma classe específica de alertas ambientais baseada em imagens orbitais diárias disponibilizadas na plataforma de monitoramento da SEMA-MT para todo o território do estado, além de apoiarem ações integradas de fiscalização que resultaram no embargo das áreas degradadas e na aplicação de multas ambientais e medidas de recuperação ambiental que totalizaram R$ 5,2 bilhões.
Discussão
Os resultados indicam que a ampliação do acesso a agroquímicos e a tecnologias de pulverização, em um contexto de flexibilização regulatória, pode intensificar processos de degradação ambiental com implicações diretas para o ambiente, o trabalho rural e a saúde das populações locais, inclusive em regiões cuja matriz produtiva é a pecuária, onde a aplicação sistemática de herbicidas não integra as práticas tradicionais de manejo pantaneiro. Em ambientes alagáveis, a dispersão desses compostos pode alcançar solos, corpos d’água e fauna, ampliando riscos ecotoxicológicos e sanitários. Nesse sentido, sistemas de monitoramento baseados em sensoriamento remoto e dados de acesso público constituem instrumentos relevantes para fortalecer a vigilância ambiental e subsidiar políticas intersetoriais voltadas à proteção da saúde coletiva.
Conclusões/Considerações
A expansão do uso de agroquímicos, associada ao avanço tecnológico e ao barateamento de ferramentas de pulverização, amplia os riscos de exposição química em áreas naturais e territórios rurais. A criação de sistemas de alerta específicos para degradação por agentes químicos, representa uma ferramenta estratégica para a detecção precoce de ilícitos ambientais, o fortalecimento da fiscalização e o apoio ao planejamento de ações de saúde pública em regiões potencialmente afetadas pela deriva de agrotóxicos.
EXPOSIÇÃO A AGROTÓXICOS E TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: EVIDÊNCIAS E DESAFIOS NO CONTEXTO DE VACARIA/RS
Apresentação oral
1 Amigas da Terra Brasil / Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida
2 Instituto Preservar / Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida
3 Instituto Preservar
Apresentação/Introdução
O aumento percebido de casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no município de Vacaria/RS tem mobilizado instituições públicas e sociedade civil organizada. A ausência de estatísticas consolidadas sobre o tema, aliada ao caráter multifatorial do transtorno e às lacunas ainda existentes na literatura médica e de saúde pública, impõe desafios à formulação de políticas baseadas em evidências. Nesse contexto, emergiu a hipótese de relação entre o aumento dos diagnósticos e a intensa utilização de agrotóxicos no município, cuja economia é baseada na produção de maçã e de soja.
Objetivos
Esta pesquisa tem como objetivo analisar as conexões entre o aumento percebido de crianças com autismo de Vacaria/RS e o alto uso de agrotóxicos utilizados no município, bem como identificar demandas e necessidades das famílias no cuidado das crianças com TEA, a fim de se apontar possibilidades jurídicas, políticas e administrativas de incidência para sua proteção.
Metodologia
A primeira etapa deste trabalho consistiu em visita exploratória realizada em julho de 2024, quando a equipe de pesquisa, acompanhada de lideranças locais, reuniu-se com o Sindicato dos Trabalhadores e Assalariados Rurais de Vacaria, com a EMBRAPA e com entidades que atendem pessoas com TEA, como a APAE e a Associação Passo Amigo. Na segunda etapa, entre agosto e novembro de 2024, foram conduzidas 8 entrevistas semiestruturadas com famílias atendidas pela APAE; um grupo focal com 10 familiares de crianças com TEA atendidas pelo Passo Amigo; aplicação de questionários e georreferenciamento das residências de 53 famílias; além da análise do uso e cobertura do solo do município.
Resultados
Os dados confirmaram a percepção inicial de aumento significativo de casos de TEA no município, tendo revelado importante componente genético: 62,3% das famílias relataram outros parentes com TEA. Quanto aos fatores ambientais, verificou-se que a maioria dos genitores possui vínculo ocupacional com a agricultura ou reside em proximidade imediata com lavouras submetidas à pulverização, já que todas as residências do município estão localizadas a até 2km das áreas de produção agrícola. Em 2023, 71% do território de Vacaria tinha como uso do solo a agricultura. Somente a área plantada de soja era de 70.506 hectares (33% da área municipal), estima-se que o uso de agrotóxicos para esta área plantada seja de cerca de 1,2 milhões de litros por ano. Há registros de contaminação por agrotóxicos da água de abastecimento público. Identificaram-se ainda altas taxas de mortalidade infantil, anomalias congênitas e incidência relevante de doenças renais crônicas, condições associadas em estudos científicos à exposição a agrotóxicos. A idade parental foi descartada como fator de risco relevante, pois a maioria tinha menos de 40 anos durante a gestação.
No plano socioeconômico, 70% das famílias possuem renda de até dois salários mínimos, e mais da metade relatou dificuldades para aquisição de medicamentos, fraldas e itens essenciais. Observou-se sobrecarga da rede pública e poucas vagas nas instituições parceiras.
Discussão
Embora não seja possível estabelecer nexo causal direto entre exposição a agrotóxicos e TEA — dada a natureza multifatorial do transtorno — os dados empíricos e a literatura científica apontam plausibilidade de associação no caso pesquisado.
Identificou-se a necessidade de adotar medidas protetivas, como a proibição da pulverização aérea no entorno de áreas urbanas, escolas, hospitais e mananciais, conforme parâmetros da Resolução nº 24/2014 do CNDH. Sugere-se, ainda, a vedação do uso de agrotóxicos na bacia de captação de água bruta do município, o fortalecimento da fiscalização, campanhas de conscientização e incentivo à transição agroecológica.
Conclusões/Considerações
Conclui-se que o enfrentamento do aumento dos casos de TEA em Vacaria demanda abordagem integrada, articulando políticas de saúde, assistência social e proteção ambiental, com centralidade na garantia de direitos e na proteção dos territórios.
IDENTIFICAÇÃO DE DANOS CITOGENÉTICOS EM TRABALHADORES RURAIS DE CASIMIRO DE ABREU-RJ EXPOSTOS A AGROTÓXICOS.
Apresentação oral
1 INCA
Apresentação/Introdução
Introdução: A exposição ocupacional no meio rural envolve múltiplos riscos, incluindo os classificados como físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes, exigindo estratégias integradas de vigilância e prevenção. A literatura mostra efeitos genotóxicos e citotóxicos em exposição crônica aos agrotóxicos e o município de Casimiro de Abreu, situado no interior do estado do Rio de Janeiro, apresenta relevante atividade agrícola com perspectivas de ampliação da produção.
Objetivos
Objetivo: Avaliar a ocorrência de danos citogenéticos em trabalhadores rurais expostos a agrotóxicos, por meio do teste de aberrações cromossômicas.
Metodologia
Metodologia: Participaram da pesquisa 60 agricultores residentes na área rural de Casimiro de Abreu (grupo exposto) e dois grupos de comparação (moradores da área urbana do mesmo município - C1; n=21; moradores da cidade do Rio de Janeiro - C2; n=18). Todos responderam um questionário sociodemográfico e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Amostras de sangue periférico foram cultivadas por 72h e a divisão celular bloqueada em metáfase com o uso de colchicina (16 ug/ml). Ao final do período de cultura as células foram submetidas a tratamento hipotônico (KCl 0,075M), seguido de fixação em solução de metanol e ácido acético (3:1). Após todo processamento das amostras, as lâminas foram preparadas (aproximadamente 3 gotas na região mediana da lâmina) e coradas com Giemsa (3%) por 10-12 min.
Foram analisadas 300 metáfases por indivíduo, utilizando sistema semi automatizado, para avaliar presença de alterações cromossômicas estruturais e numéricas, além do índice mitótico (IM).
Resultados
Resultados: De acordo com o questionário aplicado foi possível observar elevada prevalência no consumo de etanol e tabaco nos diferentes grupos avaliados. Para os efeitos genotóxicos, os expostos apresentaram maior frequência absoluta de alterações estruturais (1,9% / 14.513) em comparação aos grupos C1 (1,3% / 6.268) e C2 (0,4% / 4.604). Houve aumento de separação centromérica prematura (SCP) entre os expostos comparados ao grupo C1 (p<0,001) e maior frequência de falhas cromatídicas quando comparado ao C2 (p<0,05). Amostras de moradores de Casimiro de Abreu (exposto e C1) apresentaram menor proliferação celular (IM) quando comparados ao grupo C2. O efeito citotóxico foi evidenciado entre exposto e C1 (p<0,001) e pode ter contribuído com a ausência de diferença entre expostos e grupos de comparação (C1 e C2) nas diferentes alterações citogenéticas.
Discussão
Discussão: As variáveis tabagismo e consumo de álcool são potenciais fatores de confusão, mas análises realizadas mostraram que tabagismo ou uso combinado de álcool e cigarro foi semelhante entre expostos e grupos de comparação; exceto o consumo de álcool que foi maior no grupo sem exposição ocupacional aos agrotóxicos. A SCP foi a alteração citogenética mais prevalente e é relacionada ao aumento da instabilidade genômica, condição associada a rearranjos cromossômicos e alterações nos mecanismos de reparo e replicação do DNA. Adicionalmente, o reduzido índice mitótico observado nos grupos avaliados indica diminuição da proliferação linfocitária, sugerindo efeito citotóxico decorrente da exposição contínua, possivelmente relacionado à estimulação antigênica persistente, exaustão proliferativa e depleção de linfócitos.
Conclusões/Considerações
Conclusão: Os achados sugerem que a exposição a agrotóxicos contribui com danos cromossômicos, reforçando a necessidade de estratégias de vigilância em saúde do trabalhador e de políticas públicas voltadas à redução da exposição química no meio rural. A necessidade de evidências nesse contexto permite o fortalecimento de ações intersetoriais em saúde pública para a proteção de populações vulneráveis e a promoção de ambientes de trabalho mais seguros.
IMPACTOS DO AGRONEGÓCIO DE SOJA EM POPULAÇÕES TRADICIONAIS DO PLANALTO SANTARENO, PARÁ
Apresentação oral
1 UFOPA
Apresentação/Introdução
Desde o início dos anos 2000, o agronegócio de soja tem expandido sua fronteira para locais com topografia favorável à mecanização e com terras públicas em processos de mercantilização incentivados pelo próprio Estado (WESZ et.al., 2021). Os municípios de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos formam o chamado Planalto Santareno e tem vivenciado este processo o que tem resultado em inúmeros conflitos socioambientais afetando a vida de assentados, agricultores e agricultoras familiares, indígenas, quilombolas, ribeirinhos e etc.
Objetivos
Este projeto visou identificar e explicitar qualitativamente os danos ambientais, sociais e sanitários sentidos e denunciados por moradores de duas comunidades afetadas pelos agrotóxicos no Planalto Santareno.
Metodologia
A pesquisa foi realizada a partir de rodas de conversa e visitas in loco na Aldeia Açaizal em Santarém-PA e na Comunidade Jatobá em Mojuí dos Campos-PA. As rodas de conversa foram realizadas entre agosto e outubro de 2024, com cerca de duas horas de duração e participação de pelo menos cinco pessoas cada. As conversas, gravadas após autorização e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), foram posteriormente ouvidas e transcritas. O projeto foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisas da UFOPA (Parecer Nº 6.658.853). Outros encontros também subsidiaram os resultados. A análise dos dados foi realizada por categorias na perspectiva dos determinantes sociais da saúde reconhecendo que as questões ambientais são indissociáveis das questões de saúde e que estas são resultado do desenvolvimento econômico-social justo (AROUCA, 1986; SOBRAL E FREITAS, 2010). Este projeto foi desenvolvido em parceria com a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Resultados
As comunidades se localizam numa área de planalto e estão em processo de disputa territorial entre povos Mundurukus (Açaizal) e, agricultores (as) familiares (Jatobá) de um lado e sojicultores do outro. Observou-se que a soja está muito perto (entre 40 – 500 m) das comunidades. As pessoas sentem impactos relacionados à sua saúde física, mental, social e espiritual, identificando sinais e sintomas compatíveis com intoxicações agudas leve e moderada por agrotóxicos (dor de cabeça, enjoo, tontura, falta de ar, inchaço nos lábios, entre outros), prejuízos econômicos nas roças com diminuição da produtividade, contaminação ambiental das águas, desequilíbrios ecológicos, diversos tipos de violências e dificuldade de acesso a serviços de saúde.
Discussão
Os relatos demonstram que os impactos sentidos ultrapassam a dimensão física da saúde ampliando a noção de saúde para além da perspectiva biomédica e incorporando os determinantes sociais e ambientais da saúde (BUSS; PELLGRINI FILHO, 2007). O avanço do agronegócio de soja tem invadido territórios ocupados tradicionalmente e impactam na reprodução social de diferentes grupos sociais. A dificuldade em acessar os serviços de saúde evidencia as falhas e o racismo estrutural do Estado diante de processos de vulnerabilização reforçando a perspectiva da determinação social no processo saúde doença (BREILH, 2008). A violação dos direitos à saúde, educação, ambiente saudável e à terra colocam a vida, e a dignidade destes povos em risco replicando um ciclo de injustiças sociais e ambientais (PORTO; FINAMORE; ROCHA, 2018).
Conclusões/Considerações
A parceria e o diálogo entre uma entidade de defesa dos direitos humanos e territoriais (a CPT), uma instituição pública de ensino e pesquisa (UFOPA) e de movimentos (indígena e de trabalhadores e trabalhadoras rurais) evidenciou problemas sociais, sanitários e legais. Explicitar estes é importante para contrapor o discurso hegemônico de desenvolvimento disseminado pelo agronegócio, ao mesmo tempo em que sensibiliza instituições e gestores quanto ao seu papel na garantia de direitos constitucionais. A união dos saberes pode se configurar uma estratégia de vigilância popular em saúde na medida em que tem o potencial de promover resiliência, resistência e mudanças diante das injustiças.
FORTALECIMENTO DA VIGILÂNCIA EM SAÚDE DE POPULAÇÕES EXPOSTAS A AGROTÓXICOS (VSPEA): EXPERIÊNCIA REGIONAL NO ES
Apresentação oral
1 SESA ES
Contextualização
A expansão do agronegócio no Brasil intensifica o uso de agrotóxicos e acirra conflitos socioambientais, impactando diretamente a saúde e o ambiente. Nesse contexto, a Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA) configura-se como estratégia vital do Sistema Único de Saúde (SUS) para identificar territórios vulneráveis, monitorar agravos e articular ações de promoção e prevenção. Este trabalho relata a experiência de fortalecimento da VSPEA no Núcleo de Vigilância em Saúde da Superintendência Regional de Saúde de Vitória (SRSV), no Espírito Santo.
Descrição da Experiência
A intervenção estruturou-se em três eixos: fortalecimento institucional; apoio técnico municipal; e integração intra e intersetorial. Institucionalmente, designou-se um ponto focal comum para os programas VSPEA e Vigiagua, visando qualificar a coordenação e otimizar o monitoramento de resíduos de agrotóxicos na água para consumo humano.
As ações de apoio técnico incluíram visitas, capacitações e oficinas com referências municipais, desenvolvidas em parceria com a Vigilância Epidemiológica, o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) e o Programa Estadual de Educação em Saúde. O foco foi estimular a notificação de intoxicações exógenas e promover a análise integrada de dados epidemiológicos e socioambientais.
A estratégia buscou aproximar as vigilâncias da Atenção Primária à Saúde (APS), reconhecendo o papel capilar desta na identificação precoce de casos. No campo intersetorial, estabeleceu-se diálogo com as Secretarias de Agricultura e Meio Ambiente, o Incaper e o Fórum Espírito-Santense de Combate aos Impactos de Agrotóxicos e Transgênicos (FESCIAT). A participação no FESCIAT permitiu a interlocução direta entre órgãos públicos, academia e sociedade civil, fortalecendo a incidência política sobre os impactos dos modelos produtivos.
Objetivo e período de Realização
Relatar a experiência de atuação técnica no âmbito da VSPEA, iniciada em 2025, focada na articulação territorial, integração intersetorial e fortalecimento das ações de vigilância em saúde em 7 dos 23 municípios adscritos à regional de Vitória-ES.
Resultados
A experiência contribuiu para ampliar a compreensão sobre os impactos do uso de agrotóxicos na saúde e fortalecer a atuação integrada da vigilância em saúde. Entre os principais resultados observados destacam-se: fortalecimento do VSPEA no âmbito regional, com designação de um ponto focal para trabalhar esta temática em conjunto com o Vigiagua; ampliação do diálogo entre vigilância ambiental, sanitária, epidemiológica, saúde do trabalhador e atenção primária; qualificação das discussões sobre territórios prioritários com base em critérios epidemiológicos e socioambientais; sensibilização de gestores e profissionais quanto à relevância do programa; e fortalecimento do registro e análise de informações relacionadas à exposição a agrotóxicos. Observou-se ainda maior atenção dos profissionais de saúde à identificação de possíveis casos de intoxicação, cuja notificação é obrigatória. Parte do aumento das notificações pode estar associada ao fortalecimento das ações de vigilância e à sensibilização das equipes.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que a vigilância em saúde deve ser uma prática integrada e territorializada para enfrentar a complexidade dos impactos dos agrotóxicos. A articulação entre VSPEA e CEREST ampliou a capacidade de identificar riscos laborais e ambientais de forma sistêmica. Espaços como o FESCIAT são fundamentais para pautar os determinantes sociais da saúde e tensionar respostas intersetoriais. Conclui-se que o fortalecimento da VSPEA é essencial para proteger a saúde das populações expostas ou potencialmente expostas a agrotóxicos, embora sua efetividade plena dependa do enfrentamento político de modelos produtivos que geram desigualdades socioambientais.
PADRÃO HISTÓRICO DAS INTOXICAÇÕES EXÓGENAS INTENCIONAIS POR AGROTÓXICOS NO BRASIL, 2015-2024
Apresentação oral
1 Departamento de Emergências em Saúde Pública, Coordenação Geral de Preparação para as Emergências em Saúde Pública, Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS (EpiSUS/Brasil FETP)
2 Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde
3 Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador/Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente/Ministério da Saúde
Apresentação/Introdução
A exposição a agrotóxicos representa um importante problema de saúde pública, especialmente em países com ampla produção agrícola. Considerando a alta letalidade destas substâncias, a vigilância desse agravo é estratégica para identificação de grupos vulneráveis, compreensão dos contextos territoriais e subsidiar políticas públicas.
Objetivos
Descrever o padrão histórico das intoxicações exógenas intencionais por agrotóxicos confirmadas no Brasil, entre 2015 e 2024.
Metodologia
Estudo descritivo com dados secundários do painel da Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, do Ministério da Saúde. Foi utilizada a aba intoxicações exógenas. Os dados foram extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Foram considerados casos confirmados de intoxicação exógena cujo agente tóxico pertencia aos grupos: agrotóxico de uso agrícola, doméstico, saúde pública, raticidas e produtos veterinários. Considerou-se o período de 2015 a 2024. Selecionaram‑se ocorrências registradas como exposição intencional (tentativa de suicídio, tentativa de aborto e violência/homicídio). Analisaram-se variáveis sociodemográficas (sexo, raça/cor, faixa etária e ocupação), características de exposição (via de exposição, local de exposição, grupo do agente tóxico, tipo de exposição) e desfecho (classificação final). Foram calculadas frequências absolutas e relativas e coeficientes de incidência por 100 mil habitantes (número de casos confirmados/número de casos notificados x 100 mil). Utilizou-se o Microsoft Excel®, 2016.
Resultados
Entre 2015 e 2024, foram confirmadas 87.845 intoxicações exógenas por agrotóxicos, sendo 52.394 (59,6%) relacionadas a circunstâncias intencionais. A média mensal foi de 732 notificações totais. Observou‑se maior incidência, com variação regional consistente, nas regiões Sudeste, Sul e Centro‑Oeste. Os estados com os maiores coeficientes na série histórica foram: São Paulo (0,73 em 2015 e 0,70 em 2024), Minas Gerais (0,65 em 2015 e 0,52 em 2024), Paraná (0,54 em 2015 e 0,48 em 2024). Quanto ao perfil sociodemográfico, verificou-se distribuição semelhante entre os sexos, observando maior frequência entre as mulheres (51%), predominância de pessoas de raça/cor parda, com 43% (67.314) e branca que representou 37% (57.161), maior frequência na faixa etária entre 20 e 59 anos (aproximadamente 90%). As intoxicações ocorreram predominantemente na residência com 84,9% (44.498) e na via digestiva, que representou 96% (50.043). A principal circunstância de intoxicação foi a tentativa de suicídio, com 97,9% (51.327). Os principais agentes tóxicos foram os raticidas, com 55,2% (28.941) e o agrotóxico de uso agrícola, que representou 27,3% (14.316). Quanto o tipo de exposição, 85,8% (44.986) das intoxicações possuíram caráter agudo. Em se tratando desfecho, 5,24% (2.744) dos indivíduos intoxicados evoluíram a óbito. Destaca-se o acesso a estas substâncias como um fator que predispõe o uso intencional, uma vez que, de acordo com a ocupação, mais de 50% dos intoxicados foram trabalhadores agropecuários (32%; 1.793) e trabalhadores volantes na agricultura (20%; 1.128).
Discussão
Observou-se elevada proporção de intoxicações intencionais, principalmente por tentativa de suicídio, indicando o acesso a agrotóxicos e raticidas como fator de risco. A maior ocorrência em regiões com intensa atividade agrícola e entre trabalhadores e trabalhadoras rurais sugere que a proximidade ocupacional facilita o acesso, reforçando a necessidade de estratégias de controle, vigilância e prevenção.
Conclusões/Considerações
As intoxicações exógenas intencionais por agrotóxicos permanecem como um agravo de grande magnitude no Brasil. Os achados sustentam a compreensão de que o risco de exposição a agrotóxicos é fortemente influenciado por desigualdades estruturais, organização do trabalho rural e padrões de produção, os quais exige respostas que integrem vigilância, atenção à saúde, regulação do uso de agrotóxicos e políticas de prevenção ao suicídio. Reforça-se a necessidade de estratégias territorializadas que considerem determinantes socioambientais e contribuam para a defesa da vida e para a promoção da saúde.
EXPOSIÇÃO A AGROTÓXICOS E SOFRIMENTO PSÍQUICO EM AGENTES DE COMBATE ÀS ENDEMIAS
Apresentação oral
1 CESTEH
2 Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana
Contextualização
A psicologia como serviço de saúde e desenvolvimento humano ainda encontra barreiras geográficas, socioeconômicas e estigmas que giram em torno da saúde mental. A dificuldade de acesso no SUS transgride o conceito de equidade, as filas de espera do SUS atreladas à carência de profissionais da psicologia afastam o sujeito desse espaço de legitimação da sua fala. Os Agentes de Combate às Endemias (ACE), trabalhadores expostos há muitas décadas aos agrotóxicos em seu processo de trabalho, são afetados por agravos a saúde física e mental, sintomas como: alterações do sono, depressão, irritabilidade, ideação suicida, ansiedade e danos neuropsicológicos. As evidências de adoecimento mental mostraram a necessidade de acompanhamento e acolhimento dessa categoria.
Descrição da Experiência
Os atendimentos iniciaram em 2019, visando o acolhimento dos ACE que apresentaram score alto para ideação suicida no Self-Reporting Questionnaire (SRQ20), ferramenta usada para rastreio de Transtornos Mentais Comuns. Os atendimentos iniciaram com psicoterapia individual realizada semanalmente (de 1 a 2 vezes). A modalidade remota oportunizou a quebra da barreira geográfica e a manutenção do vínculo por meio do acesso, abrangendo trabalhadores com questão de mobilidade física e na pandemia do COVID-19 e foi um aliado ao dirimir as questões de distanciamento social. Foram oportunizados também espaços integrados de discussões sobre saúde mental, palestras, grupos de encontro que ocorreram de forma remota.
Objetivo e período de Realização
Acolhimento dos trabalhadores e trabalhadoras do combate vetorial visando mitigar os danos à saúde mental causados pela exposição aos agrotóxicos com a criação de espaços de reflexões e debates sobre a importância da implementação do cuidado de saúde mental dos ACE que lidam não só com os perigos da exposição, mas também com questões sociais, como violência, precarização, etc.
Resultados
Os atendimentos tiveram início em dezembro de 2019, com uma interrupção em 2022, sendo retomados em 2025 e mantidos de forma ininterrupta até a data de elaboração deste resumo.
Aprendizado e Análise Crítica
Durante o período de atendimento observou-se a necessidade de reconfiguração do setting terapêutico. O espaço em que o trabalhador se encontrava passou a constituir, dentro das possibilidades, um ambiente de cuidado e segurança. A experiência evidenciou que, mesmo diante da barreira da distância, é possível construir vínculos terapêuticos por meio de uma escuta qualificada. Além disso, o atendimento remoto ampliou o acesso ao cuidado em saúde mental, permitindo alcançar idosos e pessoas residentes em outras cidades e regiões que não dispõem de profissionais especializados. A nocividade desses venenos é invisibilizada por discursos de combate à fome ou a ideia de níveis “seguros” de exposição. No entanto, tratam-se de substâncias concebidas para eliminar organismos vivos e que seguem sendo produzidas e dispersas deliberadamente com impactos sobre corpos e territórios ao contaminar ecossistemas e o bioma. No caso dos ACE, a exposição prolongada ao longo de décadas repercute não apenas na saúde física, mas também na saúde mental. Além do sofrimento decorrente do adoecimento do próprio corpo, esses trabalhadores convivem com o adoecimento e a morte de colegas de trabalho, o que intensifica sentimentos de medo, insegurança e a percepção de sua própria finitude. A luta pelo banimento de agrotóxicos revela-se complexa. Além de estudos tendenciosos que embasam o consumo desses venenos, os marcos regulatórios mostram-se frágeis ou insuficientes. A adoção de uma postura que questione a presença de produtos químicos perigosos nos setores agrícola, sanitário e doméstico enfrenta forte resistência de grupos econômicos que lucram com o consumo desses venenos. Nesse contexto, torna-se fundamental ampliar o debate sobre a reconstrução de políticas que priorizem o banimento de venenos já proibidos em outros
países, bem como fortalecer a atenção integral à saúde dos trabalhadores expostos.
PERFIL EPIDEMIOLÓGICO E TENDÊNCIA TEMPORAL DAS INTOXICAÇÕES POR AGROTÓXICOS E RATICIDAS EM MULHERES NO BRASIL
Apresentação oral
1 UNIVASF
Apresentação/Introdução
A intoxicação exógena por agrotóxicos representa problema relevante de saúde pública no Brasil. Mulheres em idade produtiva e reprodutiva compõem grupo vulnerável, sobretudo em contextos de desigualdade social, informalidade laboral e ampla circulação dessas substâncias. A análise conjunta do perfil epidemiológico e da tendência temporal permite identificar padrões regionais, grupos de maior risco e mudanças ao longo da série histórica.
Objetivos
Descrever o perfil epidemiológico e analisar a tendência temporal das taxas de intoxicação por agrotóxicos e raticidas em mulheres no Brasil, no período de 2008 a 2024.
Metodologia
Estudo ecológico descritivo com abordagem temporal. Utilizou dados do SINAN, com casos confirmados de intoxicação por agrotóxicos e raticidas em mulheres. O período analisado foi de 2008 a 2024. Calcularam-se frequências absolutas, relativas e taxas. Aplicou-se regressão por pontos de inflexão para estimar APC e AAPC.
Resultados
Entre 2008 e 2024 foram registrados 55.927 casos confirmados de intoxicação por agrotóxicos e raticidas em mulheres no Brasil. Houve concentração nas faixas de 20 a 29 anos, com destaque para o Nordeste 27,4% e Sudeste 24,2%. Predominou a população parda no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, enquanto no Sul prevaleceu população branca. A via digestiva foi a principal forma de exposição em todas as regiões, acima de 75%, alcançando 86,6% no Nordeste. A tentativa de suicídio constituiu a principal circunstância, com maior proporção no Sudeste 73,6% e no Nordeste 70,9%. Na análise temporal, o Norte apresentou crescimento contínuo e significativo em todo o período. Nordeste e Sudeste registraram crescimento acentuado até 2012, seguido de estabilidade. O Sudeste voltou a crescer entre 2021 e 2024. O Sul apresentou declínio após 2018.
Discussão
A predominância da tentativa de suicídio em todas as regiões como circunstância principal indica que a intoxicação por agrotóxicos em mulheres não deve ser analisada apenas como evento toxicológico. Trata se de um fenômeno que expressa injustiça ambiental, vulnerabilidade acumulada e efeitos de mudanças regulatórias.
Em um sistema capitalista que tendem a priorizar ganhos de eficiência e aumento da produção. Esse modelo pode ampliar desigualdades quando concentra riscos ambientais e ocupacionais em grupos específicos. A expansão territorial do agronegócio, associada à reorganização do uso da terra e à transformação de modos de vida locais, altera dinâmicas sociais, fragiliza redes de apoio e intensifica a exposição a agrotóxicos.
A concentração dos casos em mulheres jovens, em idade produtiva e reprodutiva, com maior frequência em contextos de informalidade, desemprego e pertencimento racial historicamente vulnerabilizado, indica acúmulo de desvantagens sociais. Quando o suicídio se concentra em determinados segmentos etários, étnicos ou territoriais, ele sinaliza pressões sociais persistentes. A vulnerabilidade acumulada resulta da exposição contínua a condições precárias de trabalho, renda instável, sobrecarga de responsabilidades e acesso limitado a serviços públicos. Esses fatores aumentam o risco de sofrimento psíquico e adoecimento mental.
Nos anos que coincidem com pontos de inflexão nas tendências temporais, houve intensificação de processos de flexibilização normativa relacionados ao registro e à liberação de agrotóxicos. O aumento do número de produtos autorizados e a simplificação de critérios regulatórios ampliam a disponibilidade dessas substâncias no mercado e no ambiente doméstico.
Forma se, assim, um paradoxo. Mudanças legislativas ampliam a circulação de compostos tóxicos. Ao mesmo tempo, políticas de saúde mental e vigilância epidemiológica tentam reduzir danos e prevenir o suicídio. Essa tensão revela o conflito entre decisões orientadas pelo mercado e a proteção da vida e da saúde coletiva.
Conclusões/Considerações
Os achados indicam que a intoxicação por agrotóxicos, quando associada à tentativa de suicídio em mulheres, expressa uma tensão entre expansão produtiva e proteção da vida. O enfrentamento do problema exige articulação entre regulação sanitária e políticas de saúde mental na redução das desigualdades socioambientais
EXPOSIÇÃO INFANTIL A AGROTÓXICOS E RISCOS REPRODUTIVOS EM MENINAS: UMA ANÁLISE EPIDEMIOLÓGICA
Apresentação oral
1 Ministério da Saúde
Apresentação/Introdução
A exposição a agrotóxicos constitui um importante problema de saúde pública, especialmente em populações vulneráveis, como crianças. O uso intenso de agrotóxicos amplia as formas de exposição, inclusive de circunstâncias não intencionais. Em relação às meninas de até 4 anos, a exposição suscita preocupações adicionais, uma vez que a exposição precoce a essas substâncias pode estar relacionada a alterações endócrinas, puberdade precoce e efeitos na saúde reprodutiva ao longo da vida. Nesse contexto, compreender o perfil epidemiológico é fundamental para subsidiar ações de vigilância e prevenção voltadas à proteção da saúde infantil.
Objetivos
Analisar o perfil epidemiológico das intoxicações exógenas por agrotóxicos não intencionais em meninas de até 4 anos, no Brasil, entre 2015 e 2024.
Metodologia
Estudo descritivo com dados secundários extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram considerados casos notificados de intoxicação exógena cujo agente tóxico pertencia aos grupos: agrotóxico de uso agrícola, doméstico, saúde pública, raticidas e produtos veterinários. Selecionaram‑se ocorrências registradas como exposição não intencional (acidental, ambiental, habitual, abuso e ingestão de alimento e bebida). Como variáveis de interesse, foram considerados os seguintes campos: 4. Unidade Federativa; 34. Local de ocorrência, 47. zona de exposição; 50. Agente tóxico; 54. vias de exposição; 55. Circunstância de exposição; 59. tipo de atendimento; 60. houve hospitalização; 65. classificação final; e 68. evolução dos casos. Calcularam-se frequências absolutas e relativas. Utilizou-se o R. Studio.
Resultados
Entre 2015 e 2024 foram registradas no Brasil, 62.307 notificações de intoxicações exógenas não intencionais por agrotóxicos. Destas, 7.932 ocorreram entre crianças do sexo feminino, com idade até quatro anos. Os estados de São Paulo (14,8%), Paraná (12,0%) e Minas Gerais (10,9%) apresentaram as maiores proporções de notificações, respectivamente. As intoxicações ocorreram predominantemente na residência (88,9%). Dentre os principais ingredientes ativos foi identificada a Cipermetrina (n=414). A principal circunstância de intoxicação foi a acidental, com 7.727 (97,4%) seguida pela intoxicação ambiental, que representou 1,2% (n=95) das intoxicações. Quanto o tipo de exposição, 88,5% (n=7.021) das intoxicações possuíram caráter agudo único e a principal via de exposição foi a digestiva (87,2%. Destaca-se que 4.311 (54,3%) das notificações foram confirmadas, 16 evoluíram a óbito e 67 a cura com sequela.
Discussão
Os achados demonstram que a maior parte das intoxicações por agrotóxicos em meninas de até quatro anos no Brasil ocorre no ambiente domiciliar e por via digestiva, evidenciando o domicílio como principal espaço de vulnerabilidade para exposições não intencionais. A predominância de casos envolvendo ingredientes ativos de uso doméstico, como a cipermetrina, reforça a relevância da vigilância sobre inseticidas amplamente presentes nas residências. A concentração mais elevada de notificações em estados com forte atividade agrícola pode refletir tanto maior circulação de produtos tóxicos quanto maior capacidade dos serviços de saúde na identificação e notificação desses eventos. Embora a maioria das ocorrências seja classificada como intoxicação aguda única, a presença de hospitalizações, sequelas e óbitos revela o potencial de gravidade desse agravo. Ainda que menos frequentes, as exposições ambientais requerem atenção, sobretudo em razão de evidências que associam a exposição precoce a possíveis efeitos endócrinos e repercussões reprodutivas ao longo da vida.
Conclusões/Considerações
A predominância de exposições no ambiente domiciliar evidencia a necessidade de ações de prevenção voltadas às famílias, com foco em educação em saúde, comunicação de risco e práticas seguras de armazenamento de agrotóxicos. Considerando os potenciais impactos desses produtos sobre a saúde reprodutiva de meninas — incluindo efeitos hormonais e alterações no desenvolvimento puberal, torna-se essencial fortalecer a vigilância e qualificar as notificações. Também são necessárias políticas públicas que restrinjam o acesso inadequado a agrotóxicos, protegendo a saúde infantil e contribuindo para o desenvolvimento reprodutivo saudável.
ÁGUA E AGROTÓXICOS: CONTAMINAÇÃO E PERIGO À SAÚDE EM TERRITÓRIOS DO AGRONEGÓCIO EM MATO GROSSO
Apresentação oral
1 NEAST/UFMT
Apresentação/Introdução
O uso intensivo de agrotóxicos na agricultura tem ampliado preocupações sobre seus impactos ambientais, ocupacionais e sanitários, especialmente em regiões de forte expansão do agronegócio. Processos como deriva de pulverização, escoamento superficial e lixiviação favorecem a dispersão dessas substâncias em diferentes matrizes ambientais, incluindo recursos hídricos, tornando-as em vias de exposição para populações trabalhadoras e residentes em territórios agrícolas. No estado de Mato Grosso, um dos principais polos do agronegócio do país, investigar a ocorrência dessas substâncias em recursos hídricos contribui para compreender processos de contaminação ambiental e subsidiar ações de vigilância em saúde.
Objetivos
Analisar a presença de resíduos de agrotóxicos em amostras de água para consumo humano e de água superficial em municípios de Mato Grosso, identificando os ingredientes ativos detectados, sua frequência de ocorrência e possíveis implicações para processos de contaminação ambiental e exposição populacional.
Metodologia
Estudo descritivo baseado na coleta e análise laboratorial de amostras de água realizada entre julho de 2024 e março de 2025 no âmbito do projeto Promoção de Territórios Saudáveis e Sustentáveis em Mato Grosso. Participaram os municípios de Campo Novo do Parecis, Chapada dos Guimarães, Querência e Rondonópolis.
Foram analisadas 30 amostras de água para consumo humano coletadas em 10 pontos de monitoramento e 9 amostras de água superficial coletadas em três pontos no município de Querência. As coletas ocorreram em três períodos: julho–setembro de 2024 (período seco), outubro–dezembro de 2024 (plantio/cultivo) e janeiro–março de 2025 (cultivo/colheita). A análise multirresíduo para 169 ingredientes ativos de agrotóxicos e glifosato/AMPA foi realizada no Laboratório de Análise de Resíduos de Pesticidas da Universidade Federal de Santa Maria.
Resultados
Entre as 30 amostras de água para consumo humano analisadas, 20 (66,7%) apresentaram detecção de ao menos um ingrediente ativo de agrotóxico. Na primeira etapa de coleta, 9 das 10 amostras apresentaram resíduos detectáveis; na segunda etapa, 5 amostras; e na terceira etapa, 6 amostras apresentaram detecção.
Foram identificados 20 ingredientes ativos nas amostras de água para consumo humano: 2,4-D, AMPA, atrazina, clomazona, diclosulam, dimoxistrobina, diuron, fipronil, fluroxipir, glifosato, imazamox, imazapique, imazetapir, imidacloprido, mefosfolam, pirimetanil, pirimicarbe, propoxur, saflufenacil e tiametoxam. O ponto localizado na área urbana de Rondonópolis apresentou a maior diversidade de resíduos, com 15 detecções. A área industrial do mesmo município e a área rural de Querência registraram 8 detecções cada, enquanto a área rural de Chapada dos Guimarães apresentou 7 detecções.
Nas 9 amostras de água superficial coletadas em Querência foram detectados 14 ingredientes ativos: 2,4-D, atrazina, carbendazim, carbofurano, clorantraniliprole, diclosulam, fluroxipir, imidacloprido, mefosfolam, metomil, propoxur, saflufenacil, tebuconazol e tiametoxam. Todas as amostras apresentaram detecção de agrotóxicos na primeira e na terceira etapas, enquanto na segunda etapa apenas uma amostra apresentou resíduos detectáveis.
Discussão
A elevada frequência de detecção de agrotóxicos em água para consumo humano (66,7%) e a ocorrência recorrente dessas substâncias em água superficial evidenciam a ampla dispersão desses compostos em territórios de produção agrícola intensiva. A diversidade de ingredientes ativos identificados reflete o uso simultâneo de diferentes produtos nas cadeias produtivas de soja, milho e algodão predominantes na região.
Apesar de estarem dentro dos padrões permitidos no Brasil, a presença simultânea de múltiplos agrotóxicos em uma mesma amostra indica a possibilidade de exposição a misturas químicas, aspecto ainda pouco considerado nas avaliações regulatórias de risco.
Conclusões/Considerações
Os resultados evidenciam a presença frequente de resíduos de agrotóxicos em água para consumo humano e em água superficial em municípios de Mato Grosso, indicando a ampla dispersão de agrotóxicos em recursos hídricos em territórios do agronegócio. Tais achados reforçam a necessidade de ampliar o monitoramento e fortalecer ações de vigilância em saúde voltadas à proteção das populações potencialmente expostas.
INTERDISCIPLINARIDADE COMO PEDAGOGIA DIALÓGICA EM SAÚDE E AMBIENTE: DANOS DOS AGROTÓXICOS NA SAÚDE REPRODUTIVA
Apresentação oral
1 GT Saúde e Ambiente da Abrasco
2
Contextualização
A partir de uma demanda colombiana de avaliação dos danos do glifosato na saúde reprodutiva o interesse se estendeu para o Brasil e a Argentina devido a problemas comuns de pulverização aérea em áreas de monocultivos de soja e milho para exportação. O Dossiê "Agrotóxicos um Alerta para a Saúde" publicado pela Abrasco em 2015 e traduzido para o espanhol fez parte do interesse de articular para um novo estudo no território brasileiro. Esse dossiê foi realizado de modo participativo na perspectiva de diálogos e convergências. A versão em espanhol foi lançada na Colômbia pela Red Salud Coletiva. O Grupo Temático de Saúde e Ambiente da Abrasco assumiu a coordenação de mais esse projeto, com o objetivo de reconhecer as nocividade dos agrotóxicos na saúde reprodutiva da população brasileira.
Descrição da Experiência
Inicialmente foi realizado um seminário com pesquisadores e movimentos sociais interessados em dois grupos de reflexão: um para a produção científica e outro para as ações de monitoramento (vigilância), prevenção e cuidado de populações expostas. O projeto foi desenvolvido com a participação 35 pesquisadores acadêmicos e populares. No processo o objeto contratado foi ampliado para outras questões relacionadas com a desregulação do arco legal, os sistemas de informação, análise crítica das falácias do agronegócio quanto a segurança dos agrotóxicos, a problemática de pulverização aérea e as violações decorrentes. Como anúncio foram elencados os avanços do movimento social na luta contra os agrotóxicos no Brasil e a perspectiva da agroecologia.
Objetivo e período de Realização
Os objetivos foram: traçar um panorama critico da pesquisa no Brasil para o tema; avaliar o modelo oficial de vigilância de populações expostas aos agrotóxicos; reconhecer a evolução e o retrocesso do marco legal dos agrotóxicos no contexto do estado; avaliar os sistemas de informação disponível e seu acesso; desenvolver uma modelagem de reparação integral a partir da identificação das violações de direitos humanos em territórios que sofrem continuamente a ação da pulverização aérea; preparar material de conscientização para profissionais da Atenção Primária em Saúde e para movimentos femininos interessados; fazer uma análise de discurso da propaganda do agronegócio sobre o tema da segurança do uso de agrotóxicos. Período, 2023-2024. Método: incorporação de diversidade de áreas de conhecimento e de experiências coletivas de atuação nacional contra o uso de agrotóxicos e outros biocidas, a partir do pensamento crítico e sistêmico da determinação socioambiental da saúde.
Resultados
Entrega pública do relatório em um evento aberto na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP); publicação do dossiê Danos dos Agrotóxicos na Saúde Reprodutiva; com revisão de linguagem e introdução de novos conteúdos que requeriam complementos. Realização de uma oficina de reflexão e produção de documento para revisão do modelo de vigilância em saúde. Ao mesmo tempo com estudantes de graduação de áreas profissionais distintas, do campo da saúde e supervisionado foi publicado um almanaque ilustrado Mulheres Semeiam a Vida, os Agrotóxicos Destroem a Saúde Reprodutiva e o Ambiente. Ambos foram publicados: impressos com apoio da ENSP e em meio digital. Difusão dos resultados em diferentes espaços acadêmicos, institucionais e comunitários. Criado uma coordenação adjunta para o tema no Fórum Nacional de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos. Publicado um guia para utilização do almanaque pela Campanha Permanente de Contra os Agrotóxicos e pela Vida. Criação da rede de pesquisadores Interseccional de Saúde Reprodutiva e Agrotóxicos, atualmente com 60 membros. Audiência Pública no Congresso Nacional, entre outros.
Aprendizado e Análise Crítica
Projetos interdisciplinares participativos se guiam por sistemas abertos em continuo diálogo com a realidade mediante o estabelecimento de perguntas e métodos convergentes, em processo permanente de revisão de hipóteses e dos resultados à luz dos territórios. Capacidade de articulação e comunicação pelos sujeitos construtores e comprometidos com a transformação social.
POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL PELA LENIÊNCIA COM OS AGROTÓXICOS
Apresentação oral
1 MPF
Apresentação/Introdução
O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, com volume de 800 mil toneladas anuais em 2023. A intensidade de uso é de 10,9 kg/ha, superior a nações como EUA (2,85 kg/ha) e China (1,9 kg/ha). Além do uso excessivo, a normativa permite a utilização de diversos princípios ativos proibidos em outros países, como na União Europeia, onde os limites de segurança são mais rigorosos.
Ademais, existe o problema da superdosagem e da falta de técnica adequada. Estudos indicam o "sobreuso" em mais de 80% dos municípios e que a aplicação ignora prescrições das bulas, como temperatura, velocidade do vento e umidade. Por fim, a fiscalização dos órgãos e entidades responsáveis é frágil, por causa de contingenciamento orçamentário e equipes reduzidas.
Assim, pesquisas comprovam que agrotóxicos contaminam o solo, os cursos d’água e a água da chuva. Os danos à saúde humana e ao meio ambiente representam a consequência mais grave da exposição sistêmica.
Objetivos
O trabalho analisa a possibilidade de responsabilização da República Federativa do Brasil (RFB) perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) caso o atual panorama do uso intensivo de agrotóxicos os consequentes impactos gerados não sejam alterados pelos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Metodologia
A metodologia se baseou em pesquisa bibliográfica e documental, com análise de atos normativos e da jurisprudência da Corte IDH. Trata-se de pesquisa aplicada (natureza), qualitativa (abordagem) e descritiva (objetivo), com levantamento de fontes entre fevereiro e março de 2026.
Resultados
Assim, é possível que a Corte responsabilize a RFB por diversas formas, como reconhecimento das violações, não repetição, reparações e alteração de quaisquer atos normativos violadores, como ocorreu no caso “Olmedo Bustos vs Chile (2001)”.
Discussão
O meio ambiente (art. 225, CRFB/88) e a saúde (arts. 6º e 196, CRFB/88) são direitos dos indivíduos e obrigações comuns dos entes federativos (art. 23, II, CRFB/88). Logo, se o estado de coisas ligado à utilização de agrotóxicos no Brasil não se alterar por meio das ferramentas jurídicas internas, deve-se acionar o SIDH contra a RFB, pois a Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH) tutela os direitos ambientais no art. 26, de acordo com o caso “Lagos Del Campo vs Peru (2017)”.
Na Corte IDH, menciona-se a Opinião Consultiva nº 23/2017, segundo a qual os Estados devem regular, supervisionar e fiscalizar atividades que produzam dano ambiental significativo, por meio de estudos de impacto e medidas de segurança e procedimentos para minimizar a possibilidade de grandes acidentes ambientais e mitigar o dano.
Por sua vez, a Opinião Consultiva nº 32/2025 concluiu que os Estados devem adotar as medidas necessárias para reduzir os riscos decorrentes da degradação do sistema climático global e da vulnerabilidade aos efeitos dela. Assim, necessita-se de diligência reforçada, por meio da identificação e avaliação profunda dos riscos, adoção de medidas preventivas proativas e ambiciosas, uso da melhor ciência disponível, integração da perspectiva de direitos humanos nas políticas públicas, monitoramento permanente e adequado etc.
No caso “Lhaka Honhat vs Argentina (2020)”, a Corte condenou o Estado em razão da poluição da água potável disponível às comunidades tradicionais que tiveram suas terras contaminadas. Em “La Oroya vs Peru (2024)”, o Estado foi condenado em razão da contaminação do ar, da água e do solo produzida por atividades contaminantes (mineração e metalurgia).
Conclusões/Considerações
Cumpridos os requisitos previstos na CADH para apresentação do caso perante o SIDH (art. 44 e seguintes), é plenamente possível imaginar a responsabilização internacional da RFB.
ENTRE O VENENO E O TERRITÓRIO: EDUCAÇÃO POPULAR E TECNOLOGIAS SOCIAIS NO ENFRENTAMENTO DAS ARBOVIROSES
Apresentação oral
1 Projeto Integrador Multicêntrico: Estudo do impacto à saúde de Agentes de Combate às Endemias/Guardas de Endemias (ACE) pela exposição a agrotóxicos no Estado do Rio de Janeiro, Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, Escola Nacional
Apresentação/Introdução
As arboviroses são importantes desafios para a saúde pública no Brasil. Historicamente, o enfrentamento dessas doenças tem sido conduzido por combate vetorial centrado na aplicação de inseticidas e larvicidas em larga escala. Embora difundido nas políticas públicas de controle das endemias, esse modelo apresenta limitações diante das condições socioambientais que favorecem a proliferação do mosquito Aedes aegypti.
Além dessas limitações, o modelo químico-dependente levanta preocupações relacionadas aos impactos ambientais e à exposição dos trabalhadores envolvidos nas ações de combate vetorial. Os Agentes de Combate às Endemias (ACE) constituem categoria fundamental para a vigilância em saúde, historicamente exposta a diferentes agrotóxicos utilizados no combate de vetores.
Estudos da Saúde do Trabalhador indicam que exposição crônica a esses produtos pode produzir efeitos adversos, incluindo alterações neurológicas, hormonais e imunológicas. Assim, evidencia-se contradição nas políticas públicas de enfrentamento das arboviroses: proteger a população por meio de estratégias que podem afetar a saúde dos trabalhadores que as executam.
Nesse cenário, torna-se necessário ampliar o debate sobre os limites do modelo químico de combate vetorial e sobre a construção de estratégias de vigilância baseadas na participação comunitária.
Objetivos
Refletir sobre uma experiência de enfrentamento das arboviroses em um bairro de uma cidade da Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro, baseada na educação popular em saúde e na utilização de armadilhas confeccionadas com garrafas PET como tecnologia social de monitoramento de mosquitos Aedes e Culex.
Metodologia
Trata-se de relato de experiência desenvolvido em 2025 por ACE em um território com condições favoráveis à proliferação de mosquitos. A estratégia consistiu na instalação de armadilhas artesanais de garrafas PET. Foram disponibilizadas mais de 309 armadilhas em cinco quarteirões, envolvendo cerca de 272 residências do bairro.
A instalação ocorreu durante visitas domiciliares, integrando atividades de vigilância com práticas educativas junto aos moradores. Paralelamente, foram realizadas ações de educação popular em saúde, incluindo diálogos sobre o ciclo do mosquito, identificação de criadouros e formas de prevenção.
Inspirada nos princípios da educação popular, especialmente nas contribuições de Paulo Freire, buscou-se estabelecer diálogo horizontal na comunidade, valorizando saberes e estimulando a participação no monitoramento ambiental.
Resultados
As armadilhas demonstraram potencial para captura de diferentes espécies de mosquitos (A. aegypti, A. albopictus e C. quinquefasciatus), funcionando como instrumento de vigilância entomológica e mobilização comunitária.
A presença das armadilhas nos domicílios despertou interesse dos moradores, favorecendo o diálogo sobre condições ambientais que contribuem para a proliferação dos mosquitos e fortalecendo a corresponsabilidade no cuidado com o território.
Discussão
A experiência também evidenciou tensões nas políticas públicas de combate vetorial. Mesmo em territórios onde se desenvolvem estratégias educativas e de controle mecânico, persiste a predominância de ações baseadas na aplicação de agrotóxicos, muitas vezes produzidos por grandes corporações e proibidos em outros países, fenômeno caracterizado por alguns autores como colonialismo químico.
Experiências territoriais como esta indicam que tecnologias sociais simples podem ampliar a vigilância comunitária e reduzir a dependência de estratégias químicas potencialmente nocivas à saúde e ao ambiente.
Conclusões/Considerações
A experiência demonstra que estratégias baseadas na educação popular e no uso de tecnologias sociais simples podem contribuir para o enfrentamento das arboviroses.
Mais do que instrumentos técnicos, iniciativas como as armadilhas de garrafa PET funcionam como dispositivos de mobilização social, fortalecendo o vínculo entre vigilância em saúde e comunidade e promovendo consciência ambiental no território.
A experiência reforça o papel dos territórios como espaços de produção de conhecimento, cuidado e transformação das práticas em saúde.
Realização: